HC 986368 - DECISAO
Não se verifica manifesta ilegalidade no acórdão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, que afastou o princípio da insignificância em razão da reincidência do paciente por crimes patrimoniais, da existência de ações penais em curso, da qualificadora do furto e da ausência de laudo de avaliação...
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- Parties
- Paciente: JOSE MARQUES DOS SANTOS BALDEZ; Órgão Julgador: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS; Ministério Público: MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS; Ministério Público: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 March 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Indeferimento Liminar
- Outcome
- Indefiro liminarmente o Habeas Corpus
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto Qualificado, Furto Famélico, Reincidência, Estado De Necessidade, Excludente De Ilicitude, Avaliação De Bens, Habilidade Habitualidade Delitiva, Restrição Ao Reexame De Provas No Habeas Corpus
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Parties
JOSE MARQUES DOS SANTOS BALDEZ
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS
Órgão Julgador
MINISTÉRIO PÚBLICO DO DISTRITO FEDERAL E TERRITÓRIOS
Ministério Público
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Ministério Público
Procedural Posture
Habeas Corpus / Indeferimento Liminar
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância
- 2 Reconhecimento do furto famélico
- 3 Possibilidade de concessão de Habeas Corpus substitutivo de recurso próprio
Ratio Decidendi
Não se verifica manifesta ilegalidade no acórdão do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, que afastou o princípio da insignificância em razão da reincidência do paciente por crimes patrimoniais, da existência de ações penais em curso, da qualificadora do furto e da ausência de laudo de avaliação para aferir a pequena monta; ademais, o reconhecimento de furto famélico demandaria reexame do conjunto fático-probatório, vedado na via estreita do Habeas Corpus. Assim, impõe-se o indeferimento liminar do writ.
Court Disposition
Indefiro liminarmente o Habeas Corpus
Orders
- Indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus
- Cientifique-se o Ministério Público Federal
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de Habeas Corpus impetrado em favor de JOSE MARQUES DOS SANTOS BALDEZ em que se aponta como ato coator o acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS assim ementado: APELAÇÃO CRIMINAL. FURTO QUALIFICADO PELA FRAUDE. RECURSO DO MINISTÉRIO PÚBLICO. PLEITO CONDENATÓRIO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. AFASTAMENTO. FURTO MEDIANTE FRAUDE. RECONHECIMENTO. RECURSO PROVIDO. Consta dos autos que o paciente foi condenado à pena de 2 anos de reclusão, no regime semiaberto, pela prática do crime previsto no artigo 155, § 4º, II, do Código Penal. Em suas razões, sustenta a impetrante a ocorrência de constrangimento ilegal, porquanto deixou de ser reconhecida a atipicidade material da conduta em razão do princípio da insignificânc ia, mesmo estando presentes os requisitos para a sua aplicação. Destaca que o crime foi cometido sem violência e a res furtiva teria sido devolvida à vítima, configurando ausência de potencialidade lesiva da conduta. Aduz, ainda, que a reincidência não poderia obstar a aplicação de referida benesse. Por fim, alega que, em caso de não reconhecimento do princípio da insignificância, deve ser aplica da a excludente de ilicitude do estado de necessidade, uma vez que o contexto de pobreza extrema e a condição de morador de rua justificariam sua ação como meio de sobrevivência. Requer, em suma, a absolvição do paciente. É o relatório. Decido. A Terceira Seção do STJ, no julgamento do HC n. 535.063/SP, firmou o entendimento de que não cabe Habeas Corpus substitutivo de recurso próprio, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada alguma teratologia no ato judicial impugnado (Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, DJe de 25.8.2020). Assim, passo à análise das razões da impetração a fim de verificar se há flagrante ilegalidade que justifique a concessão do writ de ofício. Na espécie, consta do Voto condutor do acórdão impugnado a seguinte fundamentação para afastar a aplicação do princípio da insignificância: No caso dos autos, respeitados os argumentos expendidos pela d. prolatora da sentença, tem-se que o princípio da insignificância não comporta aplicação. Embora os produtos subtraídos pelo réu (uma peça de queijo e treze barras de chocolate) tenham o valor aproximado de R$ 140,00 (cento e quarenta reais), é manifesta a periculosidade do agente e a reprovabilidade do seu comportamento, a sua folha de antecedentes penais (id. 66700425) registra condenação criminal anterior (autos nº 0001434-22.2018.8.07.0002), justamente pelo crime de furto, com trânsito em julgado ocorrido em 10/05/2022, (id. 66700425, fl. 11). Não obstante, atualmente responde a outras ações penais (nº 0714039- 89.2024.8.07.0020 e 0004727-77.2017.8.07.0020), pela prática de crimes patrimoniais. Logo, de modo a impedir a habitualidade delitiva, em convergência com a jurisprudência acima transcrita, rejeito a aplicação do princípio da insignificância no caso concreto, devendo o acusado ser condenado, conforme requerido pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (fl. 23). Segundo entendimento firmado pela Terceira Seção do STJ a aplicação do princípio da insignificância exige o preenchimento de quatro condições, a saber: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a ausência de periculosidade social na ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e; d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Por outro lado, segundo a jurisprudência firmada nesta Corte, o princípio da bagatela pode ser afastado quando: a) o valor da res furtiva for superior a 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos, independentemente da condição financeira da vítima; b) houver reiteração ou habitualidade no cometimento de crimes de natureza patrimonial ou maus antecedentes criminais por crimes de outra natureza, podendo ser consideradas ações penais em curso para caracterizar a habitualidade delitiva; e c) o crime for de furto qualificado. Nesse sentido, vale citar os seguintes julgados: AgRg no HC n. 926.575/DF, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 10.10.2024; AgRg no HC n. 882.046/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 3.10.2024; AgRg no HC n. 925.508/MG, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 25.9.2024; AgRg no HC n. 933.248/MS, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 24.9.2024; AgRg no HC n. 925.164/DF, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 20.9.2024; AgRg no HC n. 835.749/RJ, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 18.9.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024; AgRg no HC n. 921.477/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no HC n. 918.551/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no RHC n. 179.378/SP, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 4.9.2024; AgRg no HC n. 867.178/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 27.8.2024; AgRg no HC n. 881.822/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 3.7.2024; AgRg no RHC n. 185.973/PR, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 18.4.2024; AgRg no HC n. 811.161/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 23.8.2023; AgRg no AREsp n. 2.258.620/RS, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Sexta Turma, DJe de 15/12/2023; AgRg no HC n. 744.150/SP, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 9.3.2023. Além disso, segundo entendimento sedimentado no julgamento do Tema Repetitivo n. 1.205, "a restituição imediata e integral do bem furtado não constitui, por si só, motivo suficiente para a incidência do princípio da insignificância". Por fim, inexistente laudo de avaliação, torna-se impossível verificar se os bens furtados eram de pequena monta, requisito indispensável para a aferição da expressividade ou não da lesão jurídica provocada e, consequentemente, para a aplicação do princípio da insignificância (AgRg no HC n. 899.516/SC, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 10.6.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024). Nessa linha, o julgado impugnado não diverge da jurisprudência do STJ, no tocante à aplicação do princípio da insignificância, porque o paciente é reincidente em crimes patrimoniais e responde a outras ações penais pela prática de crimes patrimoniais, além de o furto ser qualificado . Quanto à insurgência em relação ao não reconhecimento do furto famélico, não há como verificar a presença de manifesta ilegalidade pois a reforma do julgado exigiria o reexame do conjunto fático probatório dos autos, o que é inviável na via estreita do Habeas Corpus. Nesse sentido, vale citar os seguintes julgados: AgRg no RHC n. 196.933/RJ, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 3.7.2024; AgRg no AgRg no RHC n. 193.206/SE, Rel. Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, DJe de 19.6.2024; AgRg no HC n. 894.521/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 3.6.2024; AgRg no HC n. 855.658/SP, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 7.3.2024; AgRg no HC n. 668.492/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 3.7.2024; AgRg no HC n. 900.532/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 20.6.2024; AgRg no HC n. 769.337/SC, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, DJEN de 9.12.2024; AgRg no AREsp n. 1.669.495/DF, Relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe de 23.6.2020. C onclui-se, assim, que no caso em análise não há manifesta ilegalidade a ensejar a concessão da ordem de ofício. Ante o exposto, com fundamento no art. 21-E, IV, c/c o art. 210, ambos do RISTJ, indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA