HC 966732 - DECISAO
O habeas corpus não foi conhecido porque constitui tentativa de substituição de recurso próprio e não se constatou flagrante ilegalidade no acórdão recorrido; além disso, pela análise de elementos constantes nos autos (depoimentos testemunhais, confissão, premeditação e reiteração de furtos, venda das peças e...
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- Parties
- Impetrante: Defensoria Pública estadual; Paciente: ENI URBANO COSTA; Órgão De Origem/acórdão Recorrido: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO; Manifestante: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 March 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão De Não Conhecimento Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto Qualificado, Furto Simples, Desclassificação, Insuficiência Probatória, Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio, Reexame De Provas
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Parties
Defensoria Pública estadual
Impetrante
ENI URBANO COSTA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Órgão De Origem/acórdão Recorrido
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Manifestante
Procedural Posture
Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão De Não Conhecimento Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Cabimento do habeas corpus substitutivo de recurso próprio
- 2 Aplicabilidade do princípio da insignificância em furtos reiterados e premeditados
- 3 Imprópria via do habeas corpus para revolvimento do acervo fático-probatório
Ratio Decidendi
O habeas corpus não foi conhecido porque constitui tentativa de substituição de recurso próprio e não se constatou flagrante ilegalidade no acórdão recorrido; além disso, pela análise de elementos constantes nos autos (depoimentos testemunhais, confissão, premeditação e reiteração de furtos, venda das peças e prejuízo à sociedade empresária e clientes), verificou-se elevado grau de reprovabilidade e materialidade/autoria suficientes, de modo que o princípio da insignificância é inaplicável e a apreciação das alegações defensivas demandaria revolvimento probatório vedado na via estreita do habeas corpus.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus
Orders
- Publique-se.
- Intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus substitutivo de recurso próprio impetrado pela Defensoria Pública estadual em favor de ENI URBANO COSTA contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO, no julgamento da apelação criminal n. 0007533-92.2017.8.26.0073. Depreende-se dos autos que a paciente foi condenada , em primeira instância, às penas 03 (três) anos e 04 (quatro) meses de reclusão, em regime inicial aberto, mais o pagamento de 17 (dezessete) dias-multa, como incursa nas iras do art. 155, § 4º, inciso IV, do Código Penal (fls. 51-58). Inconformada, a defesa interpôs apelação perante o Tribunal de origem, que negou provimento ao recurso, consoante voto condutor do acórdão de fls. 78-95. Daí o presente writ, no qual a defesa alega, em síntese, a ocorrência de constrangimento ilegal, pois incide na espécie o princípio da insignificância, haja vista o valor irrisório dos bens subtraídos. Afirma que os bens foram subtraídos por necessidade extrema da paciente. Defende a absolvição da paciente, tendo em vista a insuficiência probatório. Subsidiariamente, pugna pela desclassificação do delito para furto simples e pela aplicação do minorante do § 2º do art. 155 do Código Penal. Requer, assim, a concessão da ordem. Informações prestadas às fls. 110-147. O Ministério Público Federal, às fls. 152-163, manifestou-se pelo não conhecimento do writ. É o relatório. DECIDO. Na presente impetração, a defesa busca: i) a absolvição da paciente; ii) a desclassificação para furto simples; iii) o reconhecimento do furto privilegiado. Ocorre que o presente habeas corpus investe contra acórdão em substituição ao recurso próprio cabível, não podendo ser conhecido. A 3ª Seção, no âmbito do HC 535.063-SP, de relatoria do Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/6/2020, e o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do AgRg no HC 180.365, de relatoria da Ministra Rosa Weber, julgado em 27/3/2020, pacificaram orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Nesse sentido: "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. WRIT NÃO CONHECIDO. CONCESSÃO DA ORDEM DE OFÍCIO. POSSIBILIDADE. DELITOS DE ROUBO EM CONCURSO MATERIAL. CUMULAÇÃO DE CAUSAS DE AUMENTO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO CONCRETA. AGRAVO REGIMENTAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO DESPROVIDO. 1. Conforme consignado na decisão agravada, o presente habeas corpus não merece ser conhecido, pois foi impetrado em substituição a recurso próprio. Contudo, a existência de flagrante ilegalidade justifica a concessão da ordem de ofício. .. 3. Agravo regimental desprovido" (AgRg no HC n. 738.224/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 4/12/2023, DJe de 12/12/2023). " .. 1. Esta Corte - HC 535.063/SP, Terceira Seção, Rel. Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/6/2020 - e o Supremo Tribunal Federal - AgRg no HC 180.365, Primeira Turma, Rel. Min. Rosa Weber, julgado em 27/3/2020; AgR no HC 147.210, Segunda Turma, Rel. Min. Edson Fachin, julgado em 30/10/2018 -, pacificaram orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. .. 6. Agravo regimental não provido" (AgRg no HC n. 857.913/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 27/11/2023, DJe de 1/12/2023). Tendo em vista a possibilidade de concessão da ordem de ofício, em observância § 2º do artigo 654 do Código de Processo Penal, analiso a pretensão defensiva. Com efeito, este Tribunal Superior tem entendimento pacificado no sentido de que há a atipicidade material da conduta pela incidência do princípio da insignificância quando estiverem presentes todos os vetores para sua caracterização, quais sejam: (a) mínima ofensividade da conduta; (b) nenhuma periculosidade social da ação; (c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento, e; (d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. No caso em tela, as circunstâncias da empreitada delitiva - furtos de roupas praticados durante 02 (dois) meses contra seu empregador, em clara premeditação, surrupiando uma gama de roupas, como tecidos e peças de vestuários, os quais eram vendidos, posteriormente, em um brechó - demonstra o alto grau de reprovabilidade social da conduta a impedir a aplicação do princípio bagatelar. Confira-se: "AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. ALTO GRAU DE REPROVABILIDADE DA CONDUTA DO AGENTE. MODUS OPERANDI DA CONDUTA E RES FURTIVA ACIMA DE 10% DO SALÁRIO MÍNIMO VIGENTE À ÉPOCA. INAPLICABILIDADE. AGRAVO DESPROVIDO. 1. O alto grau de reprovabilidade da conduta do agente, traduzido pela conduta ousada perpetrada contra a vítima, é incompatível com o princípio da insignificância. Além disso, o valor da res furtiva ultrapassou o patamar de 10% do valor do salário mínimo vigente á época. Precedentes. 2. Agravo regimental desprovido" (AgRg no AREsp n. 1.125.397/MG, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 19/9/2017, DJe de 27/9/2017). " .. 6. A jurisprudência desta Corte Superior é firme no sentido de que se ultrapassa a expressão financeira dos bens subtraídos em decorrência de transtornos causados à população, essas circunstâncias impedem a aplicação do princípio da insignificância. .. 8. Ordem de habeas corpus denegada" (HC n. 929.648/RJ, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 26/11/2024, DJEN de 18/12/2024). " .. 2. O furto de cabos de telefonia, de cabos elétricos ou de internet de propriedade de concessionárias prestadoras de serviço público não preenche os requisitos necessários à incidência do princípio da insignificância, pois a ação criminosa provoca considerável prejuízo à coletividade. Ainda que a coisa furtada apresente pequeno valor econômico, é inegável o prejuízo a serviço público essencial à população, o qual pode se estender por longo período de tempo.Precedentes. 3. Na hipótese, a própria Corte local enfatizou que, independente do tamanho ou quantidade de fios elétricos furtados, os fios foram retirados de poste de companhia telefônica, logo, a conduta dos pacientes trouxe danos à coletividade, a denotar maior ofensividade e reprovabilidade do comportamento. 4. A Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp n. 221.999/RS, de minha relatoria, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação da medida ser socialmente recomendável. 5. Os pacientes apresentam maus antecedentes e, agindo em concurso de agentes, subtraíram fios de telefonia, o que denota o elevado grau de reprovabilidade de sua conduta. Precedentes. 6. Agravo regimental a que nega provimento" (AgRg no HC n. 835.652/RJ, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 11/9/2023, DJe de 13/9/2023). " .. 1. O delito em questão não apresenta um caso isolado na vida do paciente, que possui histórico de reiteração delitiva em crimes contra o patrimônio, ressaltando ainda, a instância ordinária, a expressividade da lesão jurídica decorrente da sua conduta delitiva - furto de fio elétrico em terminal urbano -, que ultrapassa em muito a expressão financeira dos bens subtraídos em decorrência dos transtornos causados à população, circunstâncias que impedem a aplicação do princípio da insignificância, nos termos do entendimento pacífico deste Tribunal Superior. 2. Agravo regimental desprovido" (AgRg no HC n. 816.193/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 26/6/2023, DJe de 29/6/2023). " .. 1 - Na hipótese, escorreito o entendimento que afastou a atipicidade material da conduta do paciente, não apenas pela reincidência, tendo sido destacado elevado grau de reprovabilidade da conduta do réu, verificada nas circunstâncias da ação delituosa - além de ser reincidente, o corte de fios causou o não funcionamento do semáforo no local, situação causadora de problemas no trânsito, inclusive com possibilidade de acidentes. 2 - Cometido novo delito quando em cumprimento de pena imposta em outro processo confere maior reprovabilidade na conduta, justificando o aumento da pena base, não havendo assim constrangimento ilegal a ser sanado. 3 - Ordem denegada" (HC n. 811.338/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 2/5/2023, DJe de 4/5/2023). De mais a mais, a Corte local apontou ser grave a censura da conduta delitiva da paciente, pois prejudicou a reputação da sociedade empresária em qual trabalhava, ao subtrair bens de propriedade dos clientes da referida sociedade, prejuízo não reparado na integralidade. Oportuna é a menção de que "a prática do delito de furto qualificado por concurso de agentes indica a especial reprovabilidade do comportamento, também afastando a aplicação do princípio da insignificância" (AgRg no HC n. 919.232/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 18/12/2024, DJEN de 23/12/2024). No mais, é iterativa a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de ser imprópria a via do habeas corpus para a análise de teses de insuficiência probatória, negativa de autoria, bem como desclassificação de delitos, em razão da necessidade de incursão no acervo fático-probatório. In casu, a Corte originária assentou estarem presentes a materialidade e a autoria delitiva do furto qualificado. Para tanto, destacou depoimento testemunhal e a própria confissão da paciente e da corré. Desta feita, o acolhimento da pretensão defensiva, segundo as alegações vertidas na exordial, demanda reexame de provas, medida interditada na via eleita. Por fim, o Tribunal local considerou que o prejuízo produzido foi considerável, de modo que a sociedade empresária precisou ressacir os clientes furtados. Além disso, a Corte originária destacou que somente em um dia houve a subtração de 12 (doze) itens. Ciente disso, não é possível o acolhimento do inconformismo, segundo as razões vertidas na impetração, uma vez que, para tanto, seria necessário o revolvimento do acervo fático-probatório dos autos. Assim, a análise perfunctória sobre os valores dos bens subtraídos, sem o maior detalhamento, não permite esta Corte especial avaliar a pertinência, ou não, da irresignação, sem que isso implique transpor a competência cognitiva da instância a quo e, em última análise, incorrer em verticalização indevida da prova. Portanto, "a análise das teses por esta Corte Superior, além de ensejar supressão de instância, demandaria, necessariamente, o revolvimento de matéria fático-probatória, o que não é compatível com a via estreita do habeas corpus, de cognição sumária" (RHC n. 96.540/RJ, Sexta Turma, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, DJe de 29/08/2019). Diante de tais considerações, portanto, não se vislumbra a existência de qualquer flagrante ilegalidade passível de ser sanada pela concessão da ordem de ofício. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. Publique-se. Intimem-se. EMENTA