HC 990707 - DECISAO
Não se verificou ilegalidade manifesto no acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, pois este observou a jurisprudência do STJ ao afastar o princípio da insignificância em razão da contumácia em crimes patrimoniais e do valor da res furtiva (R$195,00) superior a 10% do salário mínimo vigente...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: ALEXSANDRO SANTOS NUNES; Órgão Julgador: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 01 April 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Liminar Indeferida
- Outcome
- liminar indeferida
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Reincidência, Furto (art. 155, §1º Cp), Furto Qualificado, Atipicidade
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
ALEXSANDRO SANTOS NUNES
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Órgão Julgador
Procedural Posture
Habeas Corpus / Liminar Indeferida
Legal Issues
- 1 aplicação do princípio da insignificância
- 2 efeito da reincidência e habitualidade delitiva sobre a incidência do princípio da insignificância
- 3 valor da res furtiva superior a 10% do salário mínimo como obstáculo ao princípio
Ratio Decidendi
Não se verificou ilegalidade manifesto no acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina, pois este observou a jurisprudência do STJ ao afastar o princípio da insignificância em razão da contumácia em crimes patrimoniais e do valor da res furtiva (R$195,00) superior a 10% do salário mínimo vigente (R$1.212,00), além da inexistência de laudo de avaliação dos bens.
Court Disposition
liminar indeferida
Orders
- Indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus.
- Cientifique-se o Ministério Público Federal.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de Habeas Corpus impetrado em favor de ALEXSANDRO SANTOS NUNES em que se aponta como ato coator o acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA assim ementado: APELAÇÃO CRIMINAL - CRIME DE FURTO COMETIDO DURANTE O REPOUSO NOTURNO (CP, 155, §1º) - ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA - RECURSO MINISTERIAL. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA - ALMEJADO AFASTAMENTO - EXPECTATIVA MINISTERIAL QUE MERECE ACOLHIDA - HISTÓRICO PERSECUTIVO - CRIME QUALIFICADO - VALOR DA RES FURTIVA QUE ULTRAPASSA O LIMITE DE 10% DO SALÁRIO MÍNIMO VIGENTE À ÉPOCA - REQUISITOS DA BENESSE NÃO PREENCHIDOS - ALTO GRAU DE REPROVABILIDADE DO COMPORTAMENTO - BENESSE INVIABILIZADA FRENTE AO HISTÓRICO NEGATIVO DO ACUSADO. I - A aplicação do princípio da insignificância de modo a tornar a ação atípica exige a satisfação, de forma concomitante, de certos requisitos, quais sejam, conduta minimamente ofensiva, a ausência de periculosidade social da ação, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e lesão jurídica inexpressiva (STF, HC 110711, rel. Min. Gilmar Mendes, j. 14.02.2012). II - A pertinência do princípio da insignificância deve ser avaliada considerando os aspectos relevantes da conduta imputada. A habitualidade e a reincidência delitiva revelam reprovabilidade suficiente a afastar a aplicação do princípio da insignificância (HC 118514, rel. Min. Rosa Weber, j. 19.11.2013). III - Inviável se mostra a aplicação do princípio da insignificância quando verificada a reincidência, assim como nos casos de furto qualificado, que indica especial reprovabilidade do comportamento do agente, e quando o valor da res furtiva ultrapassa o limite de 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO. Consta dos autos que o Tribunal a quo cassou a sentença que absolveu sumariamente o paciente por atipicidade da conduta e determinou o regular processamento da ação penal na origem, para que o paciente responda pela prática do crime previsto no art. 155, § 1º, do Código Penal. Em suas razões, sustenta o impetrante a ocorrência de constrangimento ilegal diante da necessidade da manutenção da sentença absolutória que reconheceu a atipicidade da conduta do paciente em razão da incidência do princípio da insignificância, por se tratar de res furtiva de valor irrisório e diante da presença d os requisitos para sua aplicação. Aduz, ainda, que a reincidência, por si só, não poderia obstar a aplicação de referida benesse. Requer, em suma, que seja declarada a ilegalidade do acórdão para restabelecer a sentença de primeiro grau e absolver o paciente. É o relatório. Decido. A Terceira Seção do STJ, no julgamento do HC n. 535.063/SP, firmou o entendimento de que não cabe Habeas Corpus substitutivo de recurso próprio, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada alguma teratologia no ato judicial impugnado (Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, DJe de 25.8.2020). Assim, passo à análise das razões da impetração a fim de verificar se há flagrante ilegalidade que justifique a concessão do writ de ofício. Na espécie, consta do Voto condutor do acórdão impugnado a seguinte fundamentação para afastar a aplicação do princípio da insignificância: E, ainda que nada mencionado pelo ora apelante, do cotejo dos antecedentes criminais do réu acostados no evento 1, extrai-se inúmeras ações por posse de drogas para consumo pessoal, além de uma ação por prática de furto, o que, evidentemente, aponta para a suposta habitualidade na prática de ilícitos contra o patrimônio pelo denunciado justamente com intuito de, ao que tudo indica, manter o seu vício. .. Frente a todo exposto, inviável a incidência do princípio almejado. Aliás, "a aplicação do princípio da insignificância de modo a tornar a ação atípica exige a satisfação, de forma concomitante, de certos requisitos, quais sejam, conduta minimamente ofensiva, a ausência de periculosidade social da ação, reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e lesão jurídica inexpressiva" (STF, HC 110711, rel. Min. Gilmar Mendes, j. 14.02.2012). Há de incidir, neste particular, porém, a exegese de que "a pertinência do princípio da insignificância deve ser avaliada considerando os aspectos relevantes da conduta imputada. A habitualidade e a reincidência delitiva revelam reprovabilidade suficiente a afastar a aplicação do princípio da insignificância" (HC 118514, rel. Min. Rosa Weber, j. 19.11.2013) e, do mesmo modo, vigora o entendimento de que "a reincidência e a habitualidade delitiva, caracterizadas pela existência de outras ações penais ou inquéritos policiais em curso, justificam o afastamento da incidência do princípio da insignificância" (STJ, AgRg no R Esp 1939237/RJ, rel. Min. João Otávio de Noronha, j. 09.11.2021). Inclusive, está patenteada a existência de ações penais em andamento e a reincidência, ambos em crimes contra o patrimônio, especificidade em crime de mesma estirpe que, em adendo às demais considerações, torna desarrazoada a atipicidade - o que representa "maior desvalor da conduta aliado à personalidade do agente, voltada ao cometimento de delitos patrimoniais (reincidência específica)" (STF, HC 115147, rel. Min. Gilmar Mendes, j. 06.08.2013). Em tempo, ademais, forçoso observar que o acusado teria subtraído a carteira da vítima, na qual continha dois cartões, sendo um deles de crédito/débito e o outro do CRAS, além de R$ 195,00, montante que supera o limite de 10% do salário mínimo vigente à época do fato - R$ 1.212,00 -, circunstância esta admitida pela jurisprudência para fins de sopesamento do elemento da inexpressividade da lesão jurídica provocada.(fls. 43-44). Segundo entendimento firmado pela Terceira Seção do STJ a aplicação do princípio da insignificância exige o preenchimento de quatro condições, a saber: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a ausência de periculosidade social na ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e; d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Por outro lado, segundo a jurisprudência firmada nesta Corte, o princípio da bagatela pode ser afastado quando: a) o valor da res furtiva for superior a 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos, independentemente da condição financeira da vítima; b) houver reiteração ou habitualidade no cometimento de crimes de natureza patrimonial ou maus antecedentes criminais por crimes de outra natureza, podendo ser consideradas ações penais em curso para caracterizar a habitualidade delitiva; e c) o crime for de furto qualificado. Nesse sentido, vale citar os seguintes julgados: AgRg no HC n. 926.575/DF, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 10.10.2024; AgRg no HC n. 882.046/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 3.10.2024; AgRg no HC n. 925.508/MG, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 25.9.2024; AgRg no HC n. 933.248/MS, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 24.9.2024; AgRg no HC n. 925.164/DF, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 20.9.2024; AgRg no HC n. 835.749/RJ, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 18.9.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024; AgRg no HC n. 921.477/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no HC n. 918.551/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no RHC n. 179.378/SP, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 4.9.2024; AgRg no HC n. 867.178/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 27.8.2024; AgRg no HC n. 881.822/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 3.7.2024; AgRg no RHC n. 185.973/PR, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 18.4.2024; AgRg no HC n. 811.161/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 23.8.2023; AgRg no AREsp n. 2.258.620/RS, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Sexta Turma, DJe de 15/12/2023; AgRg no HC n. 744.150/SP, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 9.3.2023. Além disso, segundo entendimento sedimentado no julgamento do Tema Repetitivo n. 1.205, "a restituição imediata e integral do bem furtado não constitui, por si só, motivo suficiente para a incidência do princípio da insignificância". Por fim, inexistente laudo de avaliação, torna-se impossível verificar se os bens furtados eram de pequena monta, requisito indispensável para a aferição da expressividade ou não da lesão jurídica provocada e, consequentemente, para a aplicação do princípio da insignificância (AgRg no HC n. 899.516/SC, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 10.6.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024). Nessa linha, o julgado impugnado não diverge da jurisprudência do STJ, no tocante à aplicação do princípio da insignificância, porque o valor do bem ultrapassa 10% do salário mínimo, além de ter sido demonstrada a contumácia na prática de crimes patrimoniais. Conclui-se, assim, que no caso em análise não há manifesta ilegalidade a ensejar a concessão da ordem de ofício. Ante o exposto, com fundamento no art. 21-E, IV, c/c o art. 210, ambos do RISTJ, indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA