REsp 2228951 - DECISAO
Dado o reduzido valor da coisa subtraída (R$ 148,00, aproximadamente 10% do salário-mínimo à época), a primariedade do agente e a inexpressividade da lesão jurídica, aplica-se o princípio da insignificância, reconhecendo-se a atipicidade material da conduta e absolv-se o recorrente.
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- Parties
- Recorrente: WILSON DAVID BAUTISTA PLATA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 15 September 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Do Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Provimento do recurso especial para absolver o recorrente por atipicidade material.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto Qualificado, Atipicidade Material, Art. 155, §4º, Inciso IV, Do Código Penal
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Parties
WILSON DAVID BAUTISTA PLATA
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Do Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância ao furto de pequeno valor
- 2 Reconhecimento da atipicidade material em face do reduzido valor da res furtiva e da primariedade do agente
- 3 Possibilidade de afastamento da qualificação por abuso de confiança quando ausentes elementos que demonstrem maior ofensividade
Ratio Decidendi
Dado o reduzido valor da coisa subtraída (R$ 148,00, aproximadamente 10% do salário-mínimo à época), a primariedade do agente e a inexpressividade da lesão jurídica, aplica-se o princípio da insignificância, reconhecendo-se a atipicidade material da conduta e absolv-se o recorrente.
Court Disposition
Provimento do recurso especial para absolver o recorrente por atipicidade material.
Orders
- Dou provimento ao recurso especial para absolver o recorrente, em razão da atipicidade material da conduta perpetrada.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto por WILSON DAVID BAUTISTA PLATA, para impugnar acórdão lavrado pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Consta dos autos que o ora recorrente foi condenado, pelo Tribunal de origem, à pena de 01 (um) ano e 04 (quatro) meses de reclusão, no regime aberto, e pagamento de 06 (seis) dias-multa, no piso, substituída a pena corporal por duas restritivas de direito, pela prática do crime descrito no art. 155, §4º, inciso IV, do Código Penal, em razão da subtração de 02 (dois) pacotes de ração, avaliados em R$ 148,00 (cento e quarenta e oito reais). No presente recurso especial, interposto com fundamento no art. 105, inciso III, alínea "a", da Constituição Federal, a defesa alega violação ao art. 155 do Código Penal, sustentando a atipicidade material da conduta perpetrada. O Tribunal de origem procedeu ao juízo de admissibilidade positivo do recurso especial. O Ministério Público Federal opinou pelo provimento do recurso especial. É o relatório. DECIDO. Para fins de aplicação do princípio da insignificância, considera-se necessária a presença de quatro vetores, segundo a orientação do Supremo Tribunal Federal, quais sejam: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a irrelevante periculosidade social da ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. No caso em apreço, como bem salientado pelo Ministério Público Federal, "embora os itens (dois sacos de ração no valor de R$ 148,00) não sejam de ordem alimentícia ou de higiene pessoal, eles são de pequeno valor e representam aproximadamente 10% do salário mínimo vigente à época - R$ 1.412,00 (e-STJ fl. 159/161), o que, nos termos da jurisprudência, justifica a incidência do princípio da insignificância ante a ausência de relevância da conduta para fins penais." De fato, em se tratando de recorrente primário, que procedeu à subtração de dois sacos de ração, avaliados em cento e quatro e oito reais, justifica-se a aplicação do princípio da insignificância, como corretivo de tipicidade penal. A propósito, "no caso, conforme explicitou a Magistrada à fl. 14, o paciente, primário, subtraiu para si, bens de pequena monta (avaliados no total de R$ 386,03 - trezentos e oitenta e seis reais e três centavos), posteriormente, restituídos à vítima. 2. Percebe-se, de plano, a mínima ofensividade da conduta e a inexpressividade da lesão jurídica provocada ao bem jurídico tutelado. (STJ, HC 681.294, Rel. Min. Sebastião Reis Junior, DJE 07/06/2022) Igualmente, o valor da res furtiva, não obstante haver sido avaliado em R$ 200,00, o que equivale a 18% do salário-mínimo vigente à época dos fatos (R$ 1.100,00 em junho de 2021), não gerou prejuízo algum à vítima, uma vez que foi restituída, o que permite a incidência do princípio da insignificância ao caso." (STJ, Resp 2058087, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, DJE 24/05/2023) Ademais, "apesar do entendimento firmado nesta Corte, segundo o qual a aplicação do princípio da insignificância tem sido rechaçada, como regra, no crime de furto qualificado pelo abuso de confiança, tendo em vista que tal circunstância denota maior ofensividade e reprovabilidade da conduta (AgRg no AREsp n. 697529/MG, de minha Relatoria, Quinta Turma, Dje 7/10/2015), a hipótese destes autos permite o reconhecimento da atipicidade material da conduta, já que as circunstâncias do fato não são suficientes para demonstrar a pericul osidade da agente nem da conduta (tentativa de furto de duas camisetas e uma calça, bens avaliados em R$ 95,70 (noventa e cinco reais e setenta centavos)." (RHC 118.171/PR, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 22/10/2019, D Je 04/11/2019)" Ante o exposto, dou provimento ao recurso especial, para absolver o recorrente, em razão da atipicidade material da conduta perpetrada. Publique-se. Intimem-se. EMENTA