AREsp 3040331 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento ao recurso especial por entender que não se aplicava o princípio da insignificância ante a não restituição dos bens e a existência de reincidência específica e extensa ficha criminal do recorrente, o que demonstra reprovabilidade suficiente para manter a tipicidade e a...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: LEOMAR TORMAN MACHADO; Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 November 2025
- Procedural Posture
- Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial / Decisão De Conhecimento E Denegação De Provimento Ao Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto, Reincidência, Tipicidade Penal, Valoração Do Dano
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
LEOMAR TORMAN MACHADO
Recorrente
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
Recorrido
Procedural Posture
Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial / Decisão De Conhecimento E Denegação De Provimento Ao Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Incidência do princípio da insignificância no furto de bens avaliados em R$ 120,00 (aprox. 9% do salário-mínimo)
- 2 Efeito da reincidência específica e da extensa folha de antecedentes sobre a aplicação do princípio da insignificância
- 3 Relevância da não restituição dos bens para afastamento da insignificância
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento ao recurso especial por entender que não se aplicava o princípio da insignificância ante a não restituição dos bens e a existência de reincidência específica e extensa ficha criminal do recorrente, o que demonstra reprovabilidade suficiente para manter a tipicidade e a repressão penal.
Court Disposition
Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
Orders
- Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
- Publique-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por LEOMAR TORMAN MACHADO contra decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande Sul, que não admitiu o recurso especial manejado com apoio no art. 105, III, "a", da Constituição da República. A defesa aponta violação dos arts. 155 e 397, III, do Código Penal, alegando que o fato em questão se trata de furto de 08 desodorantes, marca Nivea, avaliados em R$120,00, o que representa um valor equivalente a 9% do salário-mínimo vigente à época do fato. Nesse contexto, afirma que a reiteração delitiva não pode servir como elemento de caracterização da tipicidade penal. Requer seja reconhecido e aplicado o princípio da insignificância em relação ao fato pelo qual foi denunciado o recorrente (e-STJ, fls. 140-148). Foram apresentadas as contrarrazões (e-STJ, fls. 149-155). O recurso não foi admitido (e-STJ, fls. 156-158). Daí o presente agravo (e-STJ, fls. 160-164). O Ministério Público Federal manifestou-se pelo não conhecimento do agravo (e-STJ, fls. 186-189). É o relatório. Decido. Consoante se verifica dos autos, o recorrente foi condenado, em primeiro grau de jurisdição como incurso nas sanções do art. 155, c/c o art. 61, inciso I, ambos do Código Penal, às penas de 01 ano e 02 meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, e 10 dias-multa. Irresignada, a defesa apelou, tendo o Colegiado Estadual mantido intacta a sentença condenatória. No tocante ao pedido de aplicação do princípio da insignificância, o Tribunal de Justiça Estadual negou-lhe provimento, tecendo para tanto os seguintes fundamentos: "Por outro lado, tenho que não incide o princípio da insignificância. Primeiro, embora os bens tenham sido avaliados em pequeno valor, pois a quantia de R$ 120,00 (cento e vinte reais) equivale a cerca de 9% do valor do salário mínimo nacional vigente à data do fato, que era de R$ 1.320,00 (mil, trezentos e vinte reais), os bens não foram recuperados e restituídos ao legítimo proprietário. Além disso, a insignificância da conduta não pode ser medida somente pelo desvalor do resultado, sendo necessário que não haja desvalor na conduta do agente, afastando a necessidade de reprimenda social. A esses dois requisitos, acresce-se, ainda um terceiro: o da injustiça na reprovação, pela eventual desproporção entre o fato e a pena (excesso de sanção). Ademais, convém lembrar que a causa supralegal de atipicidade somente tem aplicabilidade em casos especialíssimos em que a conduta do agente se mostra totalmente irrelevante para o direito penal e ao senso comum, não sendo este o caso dos autos. Nesse sentido, já se manifestaram os Tribunais Superiores: (..) A somar, o réu ostenta vasta folha de antecedentes criminais. LEOMAR é reincidente específico (processo n.º 006/2.12.0001207-0) e ostenta péssimos antecedentes (processos n.º 006/2.03.0001052- 7; 006/2.07.0006685-6; 006/2.08.0003216-3; 006/2.12.0000907-0; 5000157-73.2021.8.21.0006). Além disso, responde a diversas outras ações penais, pela suposta prática de crimes contra o patrimônio (evento 48, CERTANTCRIM1). Reconhecer-lhe a atipicidade da conduta, no caso concreto, seria um prêmio pela reiteração criminosa e um estímulo à prática delitiva. Assim, LEOMAR TORMAN MACHADO segue condenado como incurso nas sanções do artigo 155, caput, c/c o artigo 61, inciso I, ambos do Código Penal." (e-STJ, fls. 134-135). O "princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. .. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público". (STF, HC 84.412/SP, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, SEGUNDA TURMA, DJ 19/11/2004). Vale dizer, não basta à caracterização da tipicidade penal a adequação pura e simples do fato à norma abstrata, pois, além dessa correspondência formal, é necessário o exame materialmente valorativo das circunstâncias do caso concreto, a fim de se evidenciar a ocorrência de lesão grave e penalmente relevante ao bem em questão. Assim, além dos pressupostos objetivos, idealizados pelo Pretório Excelso, deve estar presente também o requisito subjetivo, indicativo de que o réu não poderá ser um criminoso habitual. Na espécie, embora o valor dos bens subtraídos, avaliados em R$ 120,00, seja inferior a 10% do valor do salário mínimo vigente à época dos fatos, em 30 de abril de 2023, que era de R$ 1.320,00, o réu ostenta vasta folha de antecedentes criminais (e-STJ, fls. 12-32), sendo, inclusive reincidente específico na prática de crime patrimoniais. Além disso, responde diversas outras ações penais, pela prática desses mesmos delitos (e-STJ, fl. 135). Nesse contexto, não é possível o reconhecimento do benefício, estando o aresto impugnado em sintonia com a jurisprudência desta Corte Superior. A propósito, confiram-se: "PENAL. PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO. FURTO TENTADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO INCIDÊNCIA. MULTIRREINCIDÊNCIA ESPECÍFICA EM CRIMES PATRIMONIAIS. INÚMERAS CONDENAÇÕES. EXTENSA FICHA CRIMINAL. PRECEDENTES. 1. Trilhando a jurisprudência desta Corte Superior, não é socialmente recomendável a aplicação do princípio da insignificância à espécie, dada a ausência de mínima ofensividade da conduta, uma vez constatada a multirreincidência do agente, havendo registro, no acórdão impugnado, da extensa ficha criminal do réu, o que afasta o reduzido grau de reprovabilidade da conduta, não sendo possível a incidência do princípio da bagatela. 2. Agravo regimental improvido." (AgRg no AREsp n. 2.096.861/RS, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 15/8/2023, DJe de 21/8/2023.) " .. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em verificar a aplicação do princípio da insignificância ao caso concreto, considerando o valor ínfimo do bem subtraído e o histórico delitivo do recorrente. III. Razões de decidir 3. O Superior Tribunal de Justiça tem entendimento pacificado de que o princípio da insignificância não se aplica quando não estão presentes todos os vetores para sua caracterização, incluindo a mínima ofensividade da conduta e a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 4. A habitualidade delitiva do agente, evidenciada por um histórico de crimes patrimoniais, afasta a aplicação do princípio da insignificância, pois indica reprovabilidade suficiente da conduta. 5. No caso concreto, o recorrente já foi beneficiado pelo princípio da insignificância em outro processo e praticou crimes semelhantes em dias consecutivos, o que revela grave reprovabilidade de sua conduta. IV. Dispositivo e tese 6. Recurso desprovido." Tese de julgamento: "1. O princípio da insignificância não se aplica a condutas habituais juridicamente desvirtuadas. 2. A habitualidade delitiva do agente afasta a aplicação do princípio da insignificância, mesmo em casos de furto de valor ínfimo". Dispositivos relevantes citados: Não há dispositivos legais específicos citados. Jurisprudência relevante citada: STJ, EREsp 221.999/RS, Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Terceira Seção, julgado em 10.12.2015; STJ, AgRg no AREsp n. 2.407.959/MG, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 6/8/2024, DJe de 20/8/2024; STJ, AgRg no HC 980.532/SC, Min. Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 28.05.2025. (AgRg no AREsp n. 2.265.169/MG, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 17/6/2025, DJEN de 26/6/2025; grifou-se) Ressalte-se, por fim, que, embora a reincidência e os maus antecedentes não constituam, por si sós, óbices absolutos ao reconhecimento da benesse, é a análise cuidadosa das circunstâncias do caso concreto que define a possibilidade de aplicação do princípio da bagatela. Não é porque essa Corte Superior já aplicou o referido postulado para um acusado reincidente, ou para um caso de furto qualificado, ou mesmo já excepcionou a margem de 10% do valor da coisa, que em todos os casos essa mesma conclusão será adotada (AgRg nos EDcl no RHC n. 179.492/SP, de minha Relatoria, Quinta Turma, julgado em 14/8/2023, DJe de 16/8/2023.). Ante o exposto, com fundamento no art. 932, VIII, do CPC c/c art. 253, parágrafo único, II, "b", do RISTJ, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se. EMENTA