HC 1026191 - DECISAO
Não se conheceu do habeas corpus porque não se verificou ilegalidade flagrante apta a autorizar a intervenção de ofício; aplicou-se a jurisprudência de que o princípio da insignificância é inaplicável ao dano qualificado contra bem público, notadamente quando há emprego de violência e quando o agente é reincidente e...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: MARCIO ALESSANDRO FREIBERGER; Respondente: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 November 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- não conheço do habeas corpus
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Dano Qualificado, Resistência Qualificada, Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Especial, Competência Do STJ, Reincidência E Maus Antecedentes
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MARCIO ALESSANDRO FREIBERGER
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
Respondente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 aplicabilidade do princípio da insignificância ao crime de dano qualificado contra bem de natureza pública
- 2 cabimento de habeas corpus como substitutivo de recurso especial
- 3 possibilidade de concessão de habeas corpus de ofício em casos de ilegalidade flagrante (art. 654, §2º do CPP)
Ratio Decidendi
Não se conheceu do habeas corpus porque não se verificou ilegalidade flagrante apta a autorizar a intervenção de ofício; aplicou-se a jurisprudência de que o princípio da insignificância é inaplicável ao dano qualificado contra bem público, notadamente quando há emprego de violência e quando o agente é reincidente e possui maus antecedentes.
Court Disposition
não conheço do habeas corpus
Orders
- Publique-se.
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, em favor de MARCIO ALESSANDRO FREIBERGER, contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, na Apelação Criminal n. 5002457-61.2022.8.21.0074. O paciente foi condenado por resistência qualificada e dano qualificado. A defesa sustenta que "deve ser reconhecida a atipicidade material da conduta de dano qualificado, pela caracterização da insignificância penal, considerando-se o ínfimo valor do objeto danificado (95 reais), a demonstrar a desproporção para a intervenção penal." (fls. 3-4), a despeito de registros em sua folha de antecedentes criminais. Busca a imediata aplicação do princípio da insignificância. A liminar foi indeferida (fls. 74-75). As informações foram prestadas (fls. 77-84). O Ministério Público Federal manifestou-se pelo não conhecimento do mandamus, ficando assim ementado (fl. 94): HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. CRIME DE RESISTÊNCIA QUALIFICADA E DANO QUALIFICADO. APLICAÇÃO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INCOMPETÊNCIA DO STJ. PRECEDENTES. NÃO CONHECIMENTO. - 1ª Preliminar: não conhecimento de habeas corpus originário, substitutivo de recurso ordinário/especial. - 2ª Preliminar: não conhecimento de ofício; ausência de competência. Precedentes: STJ (HC n.º 245.731/MS; HC n.º 248.757/SP). - 3ª Preliminar: não conhecimento das questões suscitadas ou, mesmo de ofício, da ordem, sob pena de contrariar o art. 105, inciso III, "a", "b" e "c" da CF. - Parecer pelo não conhecimento do habeas corpus. É o relatório. DECIDO. A Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento no sentido de ser inadequada a impetração de habeas corpus quando utilizado em substituição a recurso próprio. A teor do disposto no art. 105, II, a, da CF/88, o recurso cabível contra acórdão que denega a ordem na origem é o recurso ordinário, enquanto que, consoante previsto no art. 105, III, da CF, contra acórdão que julga a apelação, o recurso em sentido estrito e o agravo em execução, cabe recurso especial. Nada impede, contudo, constatada a existência de ilegalidade flagrante, abuso de poder ou teratologia, a concessão de habeas corpus de ofício, nos termos do art. 654, §2º do CPP, o que ora passa-se a examinar. A questão em discussão versa sobre a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância. Sobre a matéria, colhe-se do acórdão recorrido as seguintes razões de decidir (fl. 15): .. As circunstâncias dos fatos não deixam dúvida, tampouco, sobre o dolo do dano qualificado, levando-se em conta que EDER investiu contra aguarnição com o uso de uma chave de cachimbo e uma marreta - apreendidas evento 3, PROCJUDIC1 - e, inclusive, atingiu o rádio da viatura,causando o dano constatado (evento 7, OFIC1). A conduta não é insignificante, pois, apesar de o dano ter sido constatado em R$ 95,00 (noventa e cinco reais), cerca de 10% do salário mínimo vigente ao tempo dos fatos, houve o emprego de violência por parte de réu reincidente e que possui maus antecedentes (evento124, CERTANTCRIM4), a desautorizar, na esteira da jurisprudência dominante,o reconhecimento de atipicidade. .. Inicialmente, analisa-se que o afastamento do princípio da insignificância no tocante ao crime de dano qualificado foi fundamentado em total consonância com a jurisprudência desta Corte, que compreende que, nas hipóteses de dano qualificado, independentemente do valor patrimonial do bem, havendo transcendência do bem jurídico patrimonial, atingindo bens jurídicos outros, de relevância social, é incabível a aplicação da bagatela, diante da evidente periculosidade social da ação e maior grau de reprovabilidade da conduta. (Precedente HC n. 324.550/MT, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 16/6/2016, DJe de 28/6/2016.) Logo, inequívoco o reconhecimento da tipicidade material da conduta do recorrente, porquanto, praticado delito de dano patrimonial contra bem de natureza pública, de fato, não é recomendável a aplicação do princípio da insignificância. A propósito: PENAL E PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO ESPECIAL. DESCABIMENTO. DANO QUALIFICADO. ATIPICIDADE MATERIAL DA CONDUTA. LESÃO AO PATRIMÔNIO PÚBLICO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. 1. O Superior Tribunal de Justiça, seguindo entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal, passou a não admitir o conhecimento de habeas corpus substitutivo de recurso previsto para a espécie. No entanto, deve-se analisar o pedido formulado na inicial, tendo em vista a possibilidade de se conceder a ordem de ofício, em razão da existência de eventual coação ilegal. 2. De acordo com a orientação traçada pelo Supremo Tribunal Federal, a aplicação do princípio da insignificância demanda a verificação da presença concomitante dos seguintes vetores (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 3. Por causar prejuízos situados além da esfera meramente econômica, a aplicação do princípio da insignificância, na hipótese de dano causado a bem de natureza pública, não se mostra viável, já que a extensão do agravo extrapola os limites do valor econômico, ante a relevância coletiva do bem atingido. 4. Habeas corpus não conhecido. (HC n. 619.143/PR, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 17/11/2020, DJe de 23/11/2020.) PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. DANO QUALIFICADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. CRIME CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 599/STJ. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. O "princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. .. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como: (a) a mínima ofensividade da conduta do agente; (b) nenhuma periculosidade social da ação; (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público." (HC n. 84.412-0/SP, STF, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, DJU 19/11/2004). 2. A jurisprudência desta Corte entende que, na hipótese de dano qualificado, independentemente do valor patrimonial do bem, havendo transcendência do bem jurídico patrimonial, atingindo bens jurídicos outros, de relevância social, incabível a aplicação da bagatela, diante da evidente periculosidade social da ação e maior grau de reprovabilidade da conduta. Precedentes. 3. Aplica-se à hipótese o disposto na Súmula 599/STJ, segundo a qual "o princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a administração pública". 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 878.160/AL, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 4/3/2024, DJe de 7/3/2024.) Além disso, a instância ordinária entendeu que, apesar de o dano ter sido constatado em R$ 95,00 (noventa e cinco reais), cerca de 10% do salário mínimo vigente ao tempo dos fatos, o paciente é reincidente e possui maus antecedentes. O entendimento adotado no acórdão recorrido encontra-se em harmonia com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça no sentido de que "(..) a reincidência e os maus antecedentes afastam a incidência do princípio da insignificância, mesmo em casos de valor ínfimo da res furtiva." (precedente AgRg no HC n. 980.532/SC, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 28/05/2025, DJEN de 02/06/2025). Não há, portanto, flagrante ilegalidade que justifique a concessão de habeas corpus de ofício. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. Publique-se. Intimem-se. EMENTA