REsp 1942933 - DECISAO
Mantém‑se o acórdão regional que, em análise casuística, aplicou o princípio da insignificância e absolveu a acusada, porquanto, apesar do valor da res furtiva ser superior a 10% do salário mínimo, presentes a primariedade, a natureza tentada do furto, a devolução do bem e a ausência de prejuízo material, restou...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 24 June 2021
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão Em Recurso Especial No Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- negado provimento ao recurso especial
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto Tentado, Crime Impossível, Tipicidade, Intervenção Mínima
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão Em Recurso Especial No Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância diante de furto de bem avaliado em R$ 259,89
- 2 Possibilidade de condenação quando o valor da res furtiva supera 10% do salário mínimo
- 3 Caracterização de crime impossível versus atipicidade pela insignificância
Ratio Decidendi
Mantém‑se o acórdão regional que, em análise casuística, aplicou o princípio da insignificância e absolveu a acusada, porquanto, apesar do valor da res furtiva ser superior a 10% do salário mínimo, presentes a primariedade, a natureza tentada do furto, a devolução do bem e a ausência de prejuízo material, restou configurada a insignificância que afasta a tipicidade penal; não se conhece provimento ao recurso especial do Ministério Público.
Court Disposition
negado provimento ao recurso especial
Orders
- Nego provimento ao recurso especial.
- Intimem‑se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (e-STJ fls. 287/305), fundado na alínea "a" do permissivo constitucional, contra acórdão do Tribunal de Justiça local,cuja ementa é a seguinte (e-STJ fls. 253): APELAÇÃO CRIMINAL. DENÚNCIA IMPUTANDO A PRÁTICA DE FURTO TENTADO DE UMA GARRAFA DE UÍSQUE NO VALOR TOTAL DE R$259,89, EM 28/10/2017. SENTENÇA ABSOLUTÓRIA NOS TERMOS DO ARTIGO 386, INCISO III, DO CPP. RECURSO MINISTERIALQUE PUGNA PELA CONDENAÇÃO DA APELADA, NOS TERMOS DA DENÚNCIA, AFASTANDO-SE A TESE DO CRIME IMPOSSÍVEL,ENCAMPADA PELO JUÍZO DE PISO. VISLUMBRA-SE QUE O DOUTO MAGISTRADO DE PISO, APESAR DE RECONHECER A TIPICIDADE DA CONDUTA, E AFASTAR A APLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA, ABSOLVEU A ACUSADA POR ENTENDER SER A HIPÓTESE DOS AUTOS,DAQUELA PREVISTA NO ARTIGO 17 DO CÓDIGO PENAL, CRIME IMPOSSÍVEL. AUTORIA E MATERIALIDADE DO CRIME DE FURTO QUE RESTARAM DEVIDAMENTE COMPROVADAS NOS AUTOS. CRIME IMPOSSÍVEL. NÃO CONFIGURAÇÃO. A UTILIZAÇÃO DE UM SISTEMA DE CÂMERA DE VIGILÂNCIA E EQUIPE DE SEGURANÇA, APESAR DE DIFICULTAR A PRÁTICA DE FURTOS, NÃO IMPEDE, POR SI SÓ, A CONSUMAÇÃO DELITIVA, NÃO SE PODENDO AFIRMAR HAVER A ABSOLUTA INEFICÁCIA DO MEIO EMPREGADO OU A ABSOLUTA IMPROPRIEDADE DO OBJETO. NO ENTANTO, DO CONTEXTO PROBATÓRIO, TEM-SE QUE DEVA SER RECONHECIDA, DE OFÍCIO,A PRESENÇA DOS VETORES OBJETIVOS DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA, RESSALTANDO, AINDA, A PRIMARIEDADE DA RECORRIDA, BEM COMO O FATO DE QUE O BEM SUBTRAÍDO, ALÉM DE NÃO SER DE VALOR EXPRESSIVO, CERCA DE 27% DO SALÁRIO MÍNIMO FEDERAL À ÉPOCA DOS FATOS,FOI DEVOLVIDO AO ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL, INEXISTINDO QUALQUER ALEGAÇÃO DE PREJUÍZO MATERIAL DO FUNDO DE COMÉRCIO. RECURSO PROVIDO PARA AFASTAR A TESE DO CRIME IMPOSSÍVEL E, NA MESMA OPORTUNIDADE, DE OFÍCIO, ABSOLVER A ACUSADA, APLICANDO-SE O PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. Nas razões do recurso especial, alega a parte recorrente violação doartigo 155 do CP.Sustenta a tipicidade da conduta, uma vez que o furto de bem avaliado em R$ 259,89 (valor este equivalente a mais de 27 % do salário mínimo então vigente em 28.10.2017), não configura hipótese de aplicação do princípio da insignificância, isto porque a conduta descrita na denúncia possui relevância penal (e-STJ fls. 292). Apresentadas contrarrazões (e-STJ fls. 311/315), o recurso foi admitido (e-STJ fls. 317/320), manifestando-se o Ministério Público Federal, nesta instância, peloprovimento do recurso especial(e-STJ fls. 6335/337). É o relatório.Decido. O recurso não merece acolhida. A lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. Entretanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. Assim, o princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, RelatorMinistro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). Não se desconhece que a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça firmou-se no sentido de ser incabível a aplicação do princípio da insignificância quando o montante do valor da res furtiva superar o percentual de 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos. Precedentes: AgRg no REsp 1926904/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 18/05/2021, DJe 26/05/2021; AgRg no AgRg no AREsp 1754450/TO, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 23/02/2021, DJe 01/03/2021; AgRg no HC 619.631/SC, Rel. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 02/02/2021, DJe 09/02/2021; HC 533.020/SP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 12/11/2019, DJe 22/11/2019; HC 496.696/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 04/04/2019, DJe 09/04/2019; HC n. 425.168/SC, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, Quinta Turma, julgado em 7/6/2018, DJe 15/6/2018; AgRg no REsp n. 1.734.968/MG, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 22/5/2018, DJe 30/5/2018. Salienta-se que, quanto ao tema, o Plenário do eg. Supremo Tribunal Federal, ao examinar, conjuntamente, o HC n. 123.108/MG, o HC n. 123.533/SP e o HC n. 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da insignificância deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). Na hipóteseem análise, o entendimento do Tribunal de origem deve ser mantido, uma vez que setratade situação que atrai a incidência excepcional do Princípio da Insignificância, mesmosendo o valor do bem envolvido na prática delitiva (01 garrafa de uísque Johnnie Walker Gold Label Reserve) superior a 10% do salário mínimo vigente à época do crime, tendo em vista a primariedade da acusada, sem qualquer inquérito ou processo em andamento, as circunstâncias do delito (tentativa de furto simples), a inexistência de prejuízo à vítima (a res furtiva foi restituída),bem como a ausência de qualquer ato mais grave,sendo mínima a ofensividade e de reduzido grau de reprovabilidade o comportamento da envolvida. Ante o exposto, com fundamento no art. 932, inciso VIII, do CPC, e no art. 255, § 4º, inciso II, do RISTJ, e na Súmulan.568/STJ,nego provimentoao recurso especial. Intimem-se.