HC 901174 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, mas, de ofício, concedo a ordem para absolver o paciente da prática do crime de furto por atipicidade da conduta, nos termos do art. 386, inciso III, do CPP, em razão da insignificância (valor ínfimo do bem, imediata restituição, ausência de...
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- Parties
- Paciente: FRANCISCO PEREIRA DA SILVA; Impetrado: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 April 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Ofício Que Concede a Ordem (habeas Corpus)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para absolver o paciente da prática do crime de furto por atipicidade da conduta (art. 386, inc. III, do CPP).
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto, Habeas Corpus, Revisão Criminal, Regime Inicial De Cumprimento De Pena
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Parties
FRANCISCO PEREIRA DA SILVA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Impetrado
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Ofício Que Concede a Ordem (habeas Corpus)
Legal Issues
- 1 admissibilidade de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal
- 2 aplicação do princípio da insignificância ao furto de coisa de baixo valor
- 3 legalidade da fixação de regime inicial fechado
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, mas, de ofício, concedo a ordem para absolver o paciente da prática do crime de furto por atipicidade da conduta, nos termos do art. 386, inciso III, do CPP, em razão da insignificância (valor ínfimo do bem, imediata restituição, ausência de periculosidade e reduzido grau de reprovabilidade).
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para absolver o paciente da prática do crime de furto por atipicidade da conduta (art. 386, inc. III, do CPP).
Orders
- Comunique-se, com urgência, o teor desta decisão ao Tribunal de origem e ao respectivo juízo de primeiro grau.
- Após, ciência ao Ministério Público Federal.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido liminar impetrado em favor de FRANCISCO PEREIRA DA SILVA contra acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO, que negou provimento ao recurso de apelação e manteve a condenação do paciente pelo crime de furto. O paciente foi processado e ao final condenado, com trânsito em julgado, pelo crime de tentativa de furto, por ter, em conjunto com um corréu, adentrado em um posto de gasolina e subtraído uma chapa metálica, sendo que foram surpreendidos quando estavam tentando remover a segunda chapa metálica. Em que pese não tenha sido juntado auto de avaliação, a impetrante afirma, sem contestação, que as chapas foram avaliadas em R$ 100,00 (cem reais). A impetrante argumenta que o paciente está sofrendo constrangimento ilegal, pois foi condenado pela prática de conduta atípica, uma vez que insignificante. Ademais, teve a fixação de regime inicial fechado, desproporcional à pena de 09 (nove) meses e 10 (dez) dias. Requer, liminar e definitivamente, a concessão da ordem para absolver o paciente e, subsidiariamente, para modificar o regime inicial de cumprimento de pena (e-STJ fls. 3-13). É o relatório. Decido. O presente habeas corpus foi impetrado contra acórdão que julgou recurso de apelação, e após seu trânsito em julgado, razão pela qual é substitutivo de revisão criminal e, enquanto tal, não deve ser conhecido, nos termos da jurisprudência dessa Corte Nesse sentido: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. ROUBO CIRCUNSTANCIADO. WRIT IMPETRADO CONTRA CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL. INADMISSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE JULGAMENTO DE MÉRITO NESTA CORTE. INCOMPETÊNCIA DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. TEMAS NÃO DEBATIDOS PELA CORTE DE ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. TEMAS DEBATIDOS EM CONSONÂNCIA COM O ENTENDIMENTO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE FLAGRANTE. 1. Não deve ser conhecido o writ que se volta contra sentença condenatória já transitada em julgado, manejado como substitutivo de revisão criminal, em hipótese na qual não houve inauguração da competência desta Corte Superior. Nos termos do art. 105, I, e, da Constituição Federal, compete ao Superior Tribunal de Justiça processar e julgar, originariamente, as revisões criminais e as ações rescisórias de seus julgados. Precedentes. 2. A Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça "é pacífica no sentido de que, ainda que se trate de matéria de ordem pública, é imprescindível o seu prévio debate na instância de origem para que possa ser examinada por este Tribunal Superior (AgRg no HC 530.904/PR, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 24/9/2019, DJe de 10/10/2019) - (AgRg no HC n. 726.326/CE, Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 28/3/2022). .. 3. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 842.953/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 6/2/2024, DJe de 8/2/2024 - grifos acrescidos). No exame de ofício, por outro lado, verifico a existência de flagrante ilegalidade a fundamentar a concessão da ordem. A jurisprudência dessa Corte já sedimentou entendimento no sentido de que a prática de crime de furto de coisa com valor abaixo de 10% do salário mínimo vigente é considerada conduta atípica, pois insignificante. Nesse sentido: PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. MAUS ANTECEDENTES E REINCIDÊNCIA. VALOR SUPERIOR A 10% DO SALÁRIO-MÍNIMO. NÃO INCIDÊNCIA. PENA-BASE. EXASPERAÇÃO. PROPORCIONALIDADE. REGIME FECHADO. FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. SÚMULA 269/STJ. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. .. . 5. Ainda, a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça firmou-se no sentido de ser incabível a aplicação do princípio da insignificância quando o montante do valor da res furtiva superar o percentual de 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos. Precedentes. 6. Na hipótese em análise, o entendimento do Tribunal a quo deve ser mantido, tendo em vista que não se trata de situação que atrai a incidência excepcional do Princípio da Insignificância, uma vez que, além do acusado possuir maus antecedentes específicos e ser reincidente específico, o valor subtraído (R$ 110,00) ultrapassa o percentual de 10% do salário mínimo vigente ao tempo dos fatos (R$ 1045,00 - 2020), tudo a afastar a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento. .. (AgRg no AREsp n. 2.507.940/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 5/3/2024, DJe de 8/3/2024 - grifos acrescidos). O STF também já reconheceu a aplicação do mencionado princípio, desde que presentes: ausência de periculosidade social da ação; mínima ofensividade da conduta; reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e inexpressividade da lesão jurídica provocada. Assim o seguinte precedente: PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA - IDENTIFICAÇÃO DOS VETORES CUJA PRESENÇA LEGITIMA O RECONHECIMENTO DESSE POSTULADO DE POLÍTICA CRIMINAL - CONSEQÜENTE DESCARACTERIZAÇÃO DA TIPICIDADE PENAL EM SEU ASPECTO MATERIAL - TENTATIVA DE FURTO SIMPLES (CP, ART. 155, "CAPUT") DE CINCO BARRAS DE CHOCOLATE - "RES FURTIVA" NO VALOR (ÍNFIMO) DE R$ 20,00 (EQUIVALENTE A 4,3% DO SALÁRIO MÍNIMO ATUALMENTE EM VIGOR) - DOUTRINA - CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA JURISPRUDÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - "HABEAS CORPUS" CONCEDIDO PARA ABSOLVER O PACIENTE. O POSTULADO DA INSIGNIFICÂNCIA E A FUNÇÃO DO DIREITO PENAL: "DE MINIMIS, NON CURAT PRAETOR". - O sistema jurídico há de considerar a relevantíssima circunstância de que a privação da liberdade e a restrição de direitos do indivíduo somente se justificam quando estritamente necessárias à própria proteção das pessoas, da sociedade e de outros bens jurídicos que lhes sejam essenciais, notadamente naqueles casos em que os valores penalmente tutelados se exponham a dano, efetivo ou potencial, impregnado de significativa lesividade. - O direito penal não se deve ocupar de condutas que produzam resultado, cujo desvalor - por não importar em lesão significativa a bens jurídicos relevantes - não represente, por isso mesmo, prejuízo importante, seja ao titular do bem jurídico tutelado, seja à integridade da própria ordem social. O PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA QUALIFICA-SE COMO FATOR DE DESCARACTERIZAÇÃO MATERIAL DA TIPICIDADE PENAL. - O princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada esta na perspectiva de seu caráter material. Doutrina. Precedentes. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público. O FATO INSIGNIFICANTE, PORQUE DESTITUÍDO DE TIPICIDADE PENAL, IMPORTA EM ABSOLVIÇÃO CRIMINAL DO RÉU. - A aplicação do princípio da insignificância, por excluir a própria tipicidade material da conduta atribuída ao agente, importa, necessariamente, na absolvição penal do réu (CPP, art. 386, III), eis que o fato insignificante, por ser atípico, não se reveste de relevo jurídico-penal. Precedentes. (HC 98152, Relator(a): CELSO DE MELLO, Segunda Turma, julgado em 19-05-2009, DJe-104) No caso, o paciente subtraiu objeto de baixo valor, menos de R$100,00, pois somente conseguiu retirar uma chapa metálica. Portanto, além de ser inferior a 10% do menor salário mínimo vigente à época dos fatos, não há que se falar em expressiva lesão jurídica. Ademais, não há qualquer indicativo de que se trata de conduta, em si, com reprovabilidade social ou ofensividade, principalmente tendo em vista que o paciente foi rapidamente interpelado por policiais civis que passavam pelo local, indicando até certa ingenuidade na conduta. Por fim, houve imediata restituição do objeto subtraído. Sendo assim, trata-se de conduta materialmente atípica, por incidência do princípio da insignificância, sendo de rigor a absolvição e ficando prejudicada a análise da fixação do regime inicial de cumprimento diverso do fechado. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para absolver o paciente da prática do crime de furto por atipicidade da conduta (art. 386, inc. III, do CPP). Comunique-se, com urgência, o teor desta decisão ao Tribunal de origem e ao respectivo juízo de primeiro grau. Após, ciência ao Ministério Público Federal. Publique-se. Intime-se. EMENTA