HC 962743 - DECISAO
Não há manifesta ilegalidade a autorizar concessão de ofício do habeas corpus porque o princípio da insignificância foi corretamente afastado pelo tribunal a quo diante da contumácia do acusado (reincidência e múltiplas condenações anteriores, inclusive por tráfico), da maior reprovabilidade por o delito ter sido...
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- Parties
- Paciente: JACKSON DE SOUZA MILITAO; Órgão Coator: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 December 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Liminar Indeferida
- Outcome
- Indefiro liminarmente o pedido de Habeas Corpus; ordem não concedida.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Reincidência, Regime Prisional, Furto (art. 155 Do Cp), Habeas Corpus
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Parties
JACKSON DE SOUZA MILITAO
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL
Órgão Coator
Procedural Posture
Habeas Corpus / Liminar Indeferida
Legal Issues
- 1 aplicação do princípio da insignificância
- 2 afastamento do princípio por contumácia e reincidência
- 3 fixação de regime prisional mais gravoso com reincidência e circunstância judicial desfavorável
Ratio Decidendi
Não há manifesta ilegalidade a autorizar concessão de ofício do habeas corpus porque o princípio da insignificância foi corretamente afastado pelo tribunal a quo diante da contumácia do acusado (reincidência e múltiplas condenações anteriores, inclusive por tráfico), da maior reprovabilidade por o delito ter sido praticado dentro de estabelecimento penal, e da ausência de laudo de avaliação dos bens furtados; ademais, a via do habeas corpus não se presta a substituir recurso próprio, motivo pelo qual a ordem foi indeferida liminarmente.
Court Disposition
Indefiro liminarmente o pedido de Habeas Corpus; ordem não concedida.
Orders
- Indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus.
- Cientifique-se o Ministério Público Federal.
Full Case Text
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DECISÃO Cuida-se de Habeas Corpus impetrado em favor de JACKSON DE SOUZA MILITAO em que se aponta como ato coator o acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL assim ementado: APELAÇÃO. FURTO (ART. 155 DO CP). PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. REQUISITOS NÃO ATENDIDOS. REINCIDÊNCIA E REPROVABILIDADE DA CONDUTA. INSIGNIFICÂNCIA NÃO DEMONSTRADA. CONDENAÇÃO MANTIDA. DECOTE DA REINCIDÊNCIA (INCONSTITUCIONALIDADE E DUPLA PUNIÇÃO). INOCORRÊNCIA. REGIME PRISIONAL. RECLUSÃO INFERIOR A QUATRO ANOS. REINCIDÊNCIA. CIRCUNSTÂNCIA JUDICIAL DESFAVORÁVEL. SÚMULA 269 DO STJ. INAPLICABILIDADE. ART. 33, §§ 2.º e 3.º, DO CP. FECHADO IMPOSITIVO. RECURSO DESPROVIDO. I - O reconhecimento do princípio da insignificância exige ofensividade mínima da conduta, nula periculosidade social da ação, grau reduzido de reprovabilidade do comportamento, e ausência de gravidade da lesão jurídica praticada. II - Impossível o reconhecimento do princípio da insignificância quando se trata de agente contumaz na prática delitiva, fato que denota elevado grau de reprovabilidade do comportamento, e nenhuma situação extraordinária é demonstrada, que implique na desconsideração de seu desprezo sistemático pelo cumprimento do ordenamento jurídico. III - O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do RE 453.000/RS (Tema n.º 114), pacificou entendimento no sentido de que o instituto da reincidência é constitucional, podendo ser objeto de apreciação judicial na individualização da pena. IV - Pela inteligência dos artigos 33, §§ 2.º e 3.º, do Código Penal, a caracterização da reincidência, somada à existência de circunstância judicial desfavorável, obriga à fixação de regime prisional mais gravoso, ainda que a pena imposta seja inferior a quatro anos de reclusão. A Súmula 269 do STJ permite a fixação de regime menos gravoso ao reincidente apenas quando todas as circunstâncias judiciais sejam favoráveis. V - Recurso desprovido, com o parecer. Consta dos autos que o paciente foi condenado à pena de 01 ano e 09 meses de reclusão e multa , no regime fechado, pela prática do crime previsto no artigo 155, caput, do Código Penal. Em suas razões, sustenta o impetrante a ocorrência de constrangimento ilegal, porquanto deixou de ser reconhecida a atipicidade material da conduta em razão do princípio da insignificância, mesmo estando presentes os requisitos para a sua aplicação. Aduz, ainda, que a reincidência não poderia obstar a aplicação de referida benesse. Requer, em suma, a absolvição do paciente. É o relatório. Decido. A Terceira Seção do STJ, no julgamento do HC n. 535.063/SP, firmou o entendimento de que não cabe Habeas Corpus substitutivo de recurso próprio, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada alguma teratologia no ato judicial impugnado (Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, DJe de 25.8.2020). Assim, passo à análise das razões da impetração a fim de verificar se há flagrante ilegalidade que justifique a concessão do writ de ofício. Na espécie, consta do Voto condutor do acórdão impugnado a seguinte fundamentação para afastar a aplicação do princípio da insignificância: No caso dos autos, verifica-se que se trata de agente contumaz na prática delitiva, posto que além de reincidente, em razão da prática anterior de crime de tráfico de entorpecentes (autos n.º 0003701-37.2020 condenado à pena de 9 anos e 10 meses de reclusão, em regime fechado transitado em julgado em 01/09/2021), o acusado possui diversos outras condenações transitadas em julgado por crimes contra o patrimônio, a saber: 1 - autos n.º 0000975-95.2017 - condenado à pena de 4 anos de reclusão, em regime aberto, por infração ao art. 157, § 2.º, I, do CP - transitado em julgado em 19/07/2018; 2 - autos n.º 000497883.2017 - condenado à pena de 1 ano de reclusão, em regime aberto, por infração ao art. 155, caput, do CP - transitado em julgado em 23/04/2018; 3 - autos n.º 0001811-34.2018 - condenado à pena de 2 anos e 3 meses de reclusão, em regime aberto - transitado em julgado em 19/08/2020(conforme certidão a f. 58/61), fato que demonstra elevado grau de reprovabilidade do comportamento e, assim, repele o princípio da insignificância, que "não foi estruturado para resguardar e legitimar constantes condutas desvirtuadas, mas para impedir que desvios de condutas ínfimos, isolados, sejam sancionados pelo direito penal". Confira-se (sem grifos na origem e reduzidas ao ponto sob enfoque): .. Some-se a isso o fato de o crime ter sido praticado dentro do Estabelecimento Penal onde o acusado encontra-se cumprindo pena, o que releva a reprovabilidade da conduta perpetrada e, por certo, obsta a aplicação do princípio da insignificância (fls. 27-28). Segundo entendimento firmado pela Terceira Seção do STJ a aplicação do princípio da insignificância exige o preenchimento de quatro condições, a saber: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a ausência de periculosidade social na ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e; d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Por outro lado, segundo a jurisprudência firmada nesta Corte, o princípio da bagatela pode ser afastado quando: a) o valor da res furtiva for superior a 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos, independentemente da condição financeira da vítima; b) houver reiteração ou habitualidade no cometimento de crimes de natureza patrimonial ou maus antecedentes criminais por crimes de outra natureza, podendo ser consideradas ações penais em curso para caracterizar a habitualidade delitiva; e c) o crime for de furto qualificado. Nesse sentido, vale citar os seguintes julgados: AgRg no HC n. 926.575/DF, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 10.10.2024; AgRg no HC n. 882.046/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 3.10.2024; AgRg no HC n. 925.508/MG, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 25.9.2024; AgRg no HC n. 933.248/MS, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 24.9.2024; AgRg no HC n. 925.164/DF, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 20.9.2024; AgRg no HC n. 835.749/RJ, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 18.9.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024; AgRg no HC n. 921.477/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no HC n. 918.551/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no RHC n. 179.378/SP, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 4.9.2024; AgRg no HC n. 867.178/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 27.8.2024; AgRg no HC n. 881.822/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 3.7.2024; AgRg no RHC n. 185.973/PR, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 18.4.2024; AgRg no HC n. 811.161/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 23.8.2023; AgRg no AREsp n. 2.258.620/RS, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Sexta Turma, DJe de 15/12/2023; AgRg no HC n. 744.150/SP, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 9.3.2023. Além disso, segundo entendimento sedimentado no julgamento do Tema Repetitivo n. 1.205, "a restituição imediata e integral do bem furtado não constitui, por si só, motivo suficiente para a incidência do princípio da insignificância". Por fim, inexistente laudo de avaliação, torna-se impossível verificar se os bens furtados eram de pequena monta, requisito indispensável para a aferição da expressividade ou não da lesão jurídica provocada e, consequentemente, para a aplicação do princípio da insignificância (AgRg no HC n. 899.516/SC, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 10.6.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024). Nessa linha, o julgado impugnado não diverge da jurisprudência do STJ, no tocante à aplicação do princípio da insignificância, porque foi demonstrada a contumácia na prática de crimes patrimoniais, além da maior reprovabilidade por ter sido cometido dentro de um estabelecimento penal. Conclui-se, assim, que no caso em análise não há manifesta ilegalidade a ensejar a concessão da ordem de ofício. Ante o exposto, com fundamento no art. 21-E, IV, c/c o art. 210, ambos do RISTJ, indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA