HC 976342 - DECISAO
Apesar de o paciente responder a outras ações penais, a conduta foi tentativa de subtração de 8 barras de chocolate avaliadas em R$ 105,00 (quantia ínfima, inferior a 10% do salário-mínimo), com restituição imediata à vítima, o que revela mínima ofensividade, reduzido grau de reprovabilidade e inexpressividade da...
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- Parties
- Paciente: VICTOR ALEXANDRE FRAZAO LEMOS; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA; Órgão Ministerial: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 13 February 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus com base no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ; contudo, concedo a ordem para aplicar o princípio da insignificância e trancar a Ação Penal n. 5000773-60.2024.8.24.0523.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto, Trancamento De Ação Penal, Habeas Corpus
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Parties
VICTOR ALEXANDRE FRAZAO LEMOS
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Órgão Ministerial
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância para trancamento da ação penal
- 2 Efeito da reiteração delitiva/maus antecedentes sobre a aplicação da insignificância
- 3 Admissibilidade do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio
Ratio Decidendi
Apesar de o paciente responder a outras ações penais, a conduta foi tentativa de subtração de 8 barras de chocolate avaliadas em R$ 105,00 (quantia ínfima, inferior a 10% do salário-mínimo), com restituição imediata à vítima, o que revela mínima ofensividade, reduzido grau de reprovabilidade e inexpressividade da lesão jurídica; por isso, excepcionalmente, reconheceu-se a atipicidade material e aplicou-se o princípio da insignificância, determinando-se o trancamento da ação penal n. 5000773-60.2024.8.24.0523, ainda que o habeas corpus não tenha sido conhecido com fundamento no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus com base no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ; contudo, concedo a ordem para aplicar o princípio da insignificância e trancar a Ação Penal n. 5000773-60.2024.8.24.0523.
Orders
- Não conheço do habeas corpus com fundamento no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ.
- Concedo a ordem de ofício para aplicar o princípio da insignificância e determinar o trancamento da Ação Penal n. 5000773-60.2024.8.24.0523 (Juízo da 1ª Vara Criminal da Comarca da Capital/SC).
Full Case Text
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de VICTOR ALEXANDRE FRAZAO LEMOS, em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA no julgamento do HC n. 5083398-71.2024.8.24.0000. Consta dos autos que o paciente foi denunciado pela suposta prática da conduta descrita no art. 155, caput, do Código Penal. Irresignada com o recebimento da denúncia pelo Juízo de primeira instância, a defesa impetrou habeas corpus buscando o trancamento da ação penal pelo reconhecimento da insignificância, cuja ordem foi denegada pelo Tribunal estadual nos termos da seguinte ementa (e-STJ fl. 136): HABEAS CORPUS. CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO. FURTO SIMPLES TENTADO (CP, ART. 155, CAPUT, C/C ART. 14, II). PEDIDO DE TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO ACOLHIMENTO. PACIENTE QUE RESPONDE A OUTROS PROCESSOS POR CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO. HABITUALIDADE CRIMINOSA. RELEVÂNCIA DA CONDUTA. FALTA DE JUSTA CAUSA NÃO EVIDENCIADA DE PLANO. AUSÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. ORDEM DENEGADA. Daí o presente writ, no qual a impetrante reitera as alegações trazidas no mandamus originário, postulando a aplicação do princípio da insignificância. Nesse sentido, argumenta o ínfimo desvalor da conduta e do resultado, enfatizando tratar-se de "tentativa de subtração de 8 barras de chocolate da marca Milka, avaliadas em ínfimos R$ 105,00, integralmente restituídas à vítima (estabelecimento comercial)" (e-STJ fl. 6). Acrescenta que "a simples invocação genérica da existência de diversos outros processos criminais em curso, sem indicar a natureza de todos os crimes, a data e o contexto dos delitos, nem mesmo a fase processual de cada feito, e, principalmente, sem a indicação de nenhuma correlação concreta com o crime ora apurado, não é suficiente para afastar a aplicação do princípio da insignificância" (e-STJ fl. 7). Requer, assim, a concessão da ordem para trancar a ação penal. As informações foram prestadas às e-STJ fls. 328/330 e 335/369, e o Ministério Público Federal, por meio do parecer exarado às e-STJ fls. 372/374, opinou pela denegação da ordem. É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, seguindo o entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, como forma de racionalizar o emprego do habeas corpus e prestigiar o sistema recursal, não admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Cumpre analisar, contudo, em cada caso, a existência de ameaça ou coação à liberdade de locomoção do paciente, em razão de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia na decisão impugnada, a ensejar a concessão da ordem de ofício. Na espécie, embora a impetrante não tenha adotado a via processual adequada, para que não haja prejuízo à defesa do paciente, passo à análise da pretensão formulada na inicial, a fim de verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. No caso dos autos, conforme relatado, busca-se o trancamento da ação penal pela incidência do princípio da insignificância. Nesse aspecto, sabe-se que a lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. Entretanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. A admissão da ocorrência de um crime de bagatela reflete o entendimento de que o Direito Penal deve intervir somente nos casos em que a conduta ocasionar lesão jurídica de certa gravidade, devendo ser reconhecida a atipicidade material de perturbações jurídicas mínimas ou leves, estas consideradas não só no seu sentido econômico, mas também em função do grau de afetação da ordem social que ocasionem. Assim, o referido princípio deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). Salienta-se que, quanto ao tema, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao examinar conjuntamente os HC ns. 123.108/MG, 123.533/SP e 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da bagatela deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). Nessa linha, a Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp n. 221.999/RS, de MINHA RELATORIA, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação da medida ser socialmente recomendável (nesse sentido: AgRg no REsp n. 1.739.282/MG, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, Quinta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 24/8/2018; AgRg no HC n. 439.368/SC, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 22/8/2018; AgRg no AREsp n. 1.260.173/DF, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 7/8/2018, DJe 15/8/2018; e AgRg no HC n. 429.890/MS, de minha Relatoria, Quinta Turma, julgado em 3/4/2018, DJe 12/4/2018). Conclui-se, a jurisprudência desta Corte tem rechaçado a aplicação do princípio da insignificância quando o agente for reincidente ou portador de maus antecedentes, tendo em vista maior ofensividade e reprovabilidade da conduta. Contudo, em hipóteses excepcionais, a despeito da presença dos referidos elementos, este Tribunal vem reconhecendo a aplicação do princípio da insignificância, tendo em vista o ínfimo valor ou a natureza do bem subtraído, bem como a ausência de prejuízo à vítima, a configurarem o reduzido grau de reprovabilidade da conduta imputada ao agente. Sobre a questão, destaco os recentes julgados desta Corte Superior: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. FURTO SIMPLES DE GÊNERO ALIMENTÍCIO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. REITERAÇÃO DELITIVA. EXCEPCIONALIDADE DO CASO. ATIPICIDADE MATERIAL RECONHECIDA. 1. Sedimentou-se a orientação jurisprudencial no sentido de que a incidência do princípio da insignificância pressupõe a concomitância de quatro vetores: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) nenhuma periculosidade social da ação; c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; e d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 2. O fato de se tratar de réu reincidente não obsta a aplicação do princípio da insignificância. 3. O furto simples de gênero alimentício, precificado em montante pouco superior a 10% do salário-mínimo, que foi prontamente devolvido ao estabelecimento comercial, autoriza, de modo excepcional, a incidência do princípio da insignificância. Precedentes. 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 895.193/RJ, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do Tjdft), Sexta Turma, julgado em 18/6/2024, DJe de 25/6/2024.) PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. FURTO. INSIGNIFICÂNCIA. ATIPICIDADE RECONHECIDA. CONDUTA PRATICADA SEM VIOLÊNCIA OU GRAVE AMEAÇA. RES FURTIVA DE BAIXO VALOR ECONÔMICO, IMEDIATAMENTE RESTITUÍDOS À VÍTIMA. HIGINENE PESSOAL. AGRAVO REGIMENTAL CONHECIDO E DESPROVIDO. 1. Incidência do princípio da insignificância, que retira a tipicidade da conduta imputada ao agravante. 2. Eventual reiteração delitiva não confere tipicidade a condutas irrelevantes para o direito penal, ramo jurídico que só deve ser chamado em hipóteses extremas e para tutelar a violação dos bens mais caros à sociedade. 3. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem amadurecido no sentido de compreender que para incidência do princípio da bagatela, devem ser analisadas as circunstâncias objetivas em que se deu a prática delituosa e não os atributos inerentes ao agente, sob pena de, ao proceder-se à análise subjetiva, dar-se prioridade ao contestado e ultrapassado direito penal do autor em detrimento do direito penal do fato. 4. Agravo regimental conhecido e desprovido. (AgRg no HC n. 858.618/SP, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 21/5/2024, DJe de 28/5/2024.) AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. DECISÃO MANTIDA POR SEUS PRÓPRIOS FUNDAMENTOS. PENAL. FURTO SIMPLES. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. REINCIDÊNCIA. CIRCUNSTÂNCIA QUE NÃO IMPEDE O RECONHECIMENTO DA ATIPICIDADE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENTE. 1. Não há como abrigar agravo regimental que não logra desconstituir o fundamento da decisão atacada. 2. Agravo regimental improvido. (AgRg no HC n. 891.974/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 13/5/2024, DJe de 15/5/2024.) No caso em análise, embora a conduta imputada ao paciente se amolde à tipicidade formal (furto simples), não há como reconhecer a tipicidade material, pois a res furtiva - 8 barras de chocolate da marca "Milka" - foi avaliada em R$ 105,00 (cento e cinco reais), ou seja, menos de 10% do valor do salário mínimo vigente à época dos fatos, quantia que se apresenta realmente ínfima. Além disso, a res furtiva foi devolvida à vítima. Assim, a hipótese em análise retrata situação que atrai a incidência excepcional do princípio da insignificância, porquanto, apesar de o paciente responder por outras ações penais pelo delito de furto, diante da natureza dos bens subtraídos (8 barras de chocolate da marca "Milka", avaliados em R$ 105,00), das circunstâncias do delito (tentativa de furto simples) e d a restituição do bem subtraído à vítima (ausência de prejuízo material), verifica-se a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do paciente. Viável, por conseguinte, o reconhecimento da atipicidade da conduta. Ante o exposto, com base no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ, não conheço do presente habeas corpus. Contudo, concedo a ordem, de ofício, para aplicar o princípio da insignificância e determinar o trancamento da Ação Penal n. 5000773-60.2024.8.24.0523 (Juízo da 1ª Vara Criminal da Comarca da Capital/SC). Comunique-se. Publique-se. EMENTA