AREsp 2853040 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial para restabelecer a condenação pelo art. 155, caput, do Código Penal, em razão da contumácia delitiva do agravado (23 condenações anteriores com trânsito em julgado), sendo a reiteração de crimes patrimoniais incompatível, via de regra, com a aplicação do...
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- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 07 March 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decidido
- Outcome
- Agravo conhecido e provido para restabelecer a condenação pelo art. 155, caput, do Código Penal.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Reincidência, Furto, Art. 155 CP
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Agravante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decidido
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade do princípio da insignificância em caso de reiteração delitiva
- 2 Contrariedade à tipicidade do art. 155, caput, do Código Penal
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e deu-se provimento ao recurso especial para restabelecer a condenação pelo art. 155, caput, do Código Penal, em razão da contumácia delitiva do agravado (23 condenações anteriores com trânsito em julgado), sendo a reiteração de crimes patrimoniais incompatível, via de regra, com a aplicação do princípio da insignificância.
Court Disposition
Agravo conhecido e provido para restabelecer a condenação pelo art. 155, caput, do Código Penal.
Orders
- Conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, a fim de restabelecer a condenação do agravado pelo delito do art. 155, caput, do Código Penal (processo n. 0833606-76.2020.8.13.0024).
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS contra decisão do respectivo Tribunal de Justiça, que não admitiu o recurso especial manejado com apoio no art. 105, III, "a", da Constituição da República. Nas razões recursais, alega o Parquet contrariedade ao artigo 155, caput, do Código Penal. Defende, em suma, o afastamento do princípio da insignificância, ressaltando que o agravado registra diversas condenações anteriores, tratando-se de agente contumaz na prática de delitos contra o patrimônio. Requer o provimento do recurso, para que seja restabelecida a condenação. Contrarrazões apresentadas às fls. 793-805 (e-STJ). O recurso foi inadmitido (e-STJ, fls. 810-811). Daí este agravo (e-STJ, fls. 821-827). O Ministério Público Federal opina pelo provimento do recurso (e-STJ, fls. 853-855). É o relatório. Decido. O "princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. .. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público". (STF, HC 84.412/SP, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, SEGUNDA TURMA, DJ 19/11/2004). Vale dizer, não basta à caracterização da tipicidade penal a adequação pura e simples do fato à norma abstrata, pois, além dessa correspondência formal, é necessário o exame materialmente valorativo das circunstâncias do caso concreto, a fim de se evidenciar a ocorrência de lesão grave e penalmente relevante ao bem em questão. Assim, além dos pressupostos objetivos, idealizados pelo Pretório Excelso, deve estar presente também o requisito subjetivo, indicativo de que o réu não poderá ser um criminoso habitual. No caso, o Tribunal a quo, por maioria, aplicou o princípio da insignificância nos seguintes termos (e-STJ, fl. 756-757): "No caso em tela, a subtração recaiu sobre três garrafas de bebida alcoólica, conjunto de bens cuja avaliação de mercado, conforme atestado por perícia, foi de R$ 90,00 (noventa reais). Esse valor, frente ao salário mínimo vigente à época dos fatos (julho de 2020), representava cerca de 09% (nove por cento) do referencial. Tenho, pois, por inexpressiva a lesão ao bem juridicamente tutelado. Da mesma forma, não vislumbro relevante ofensividade da conduta do agente, considerando a forma como foi praticada a subtração, sem qualquer expediente sofisticado, bem como também não constato dos autos periculosidade social da ação e elevado grau de reprovabilidade do comportamento do agente. Saliento que o fato de o apelante ser reincidente, por si só, não tem o condão de impedir que seja reconhecida essa causa supralegal de exclusão da tipicidade." A decisão encontra-se em dissonância com a jurisprudência desta Quinta Turma, segundo a qual o princípio da insignificância não tem aplicabilidade em casos de reiteração da conduta delitiva, salvo excepcionalmente, quando as instâncias ordinárias entenderem ser tal medida recomendável diante das circunstâncias concretas. No caso, o agravado subtraiu três garrafas de bebidas alcóolicas, avaliadas em 9% (nove por cento) do valor do salário mínimo vigente à época, todavia, verifica-se dos autos que ele ostenta 23 (vinte e três) sentenças condenatórias, todas com trânsito em julgado anterior à data dos fatos constantes da denúncia, geradoras de maus antecedentes e reincidência, por crimes de furto, falsa identidade e porte ilegal de arma de fogo. Conforme consignado pelo órgão ministerial, "observa-se que o recorrido está, há mais de 03 (três) décadas, ininterruptamente recalcitrando-se a cumprir a ordem jurídica vigente, reiterando em crimes de furto, fora os demais registros relacionados a infrações da lei de armas" (e-STJ, fl. 785). Com efeito, "A reiteração no cometimento de infrações penais se reveste de relevante reprovabilidade e não se mostra compatível com a aplicação do princípio da insignificância, a reclamar a atuação do Direito Penal. Deve-se enfatizar, por oportuno, que o princípio da bagatela não pode servir como um incentivo à prática de pequenos delitos." (AgRg no HC n. 905.630/SC, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 12/2/2025, DJEN de 17/2/2025.). Corroboram: "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. REITERAÇÃO EM DELITOS CONTRA O PATRIMÔNIO. REGIME SEMIABERTO. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS NEGATIVAS E REINCIDÊNCIA. AUSÊNCIA DE CONSTRANGIMENTO ILEGAL. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Segundo a jurisprudência desta Corte Superior, a reiteração em delitos contra o patrimônio afasta a aplicação do princípio da insignificância. 2. No caso dos autos, os pacientes possuem, cada um, três condenações definitivas pela prática de crimes patrimoniais, situação que denota sua habitualidade na prática delitiva. 3. A pretensão de abrandar o regime prisional também é contrária à jurisprudência desta Corte e ao texto expresso da lei (art. 33, § 2º, "c" e § 3º, do CP), pois os pacientes são reincidentes e as penas-bases foram majoradas em razão da presença de circunstâncias judiciais negativas (maus antecedentes e conduta social, para Vitor, e maus antecedentes, para Erinalva). 4. Agravo regimental não provido." (AgRg no HC n. 920.750/DF, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 16/10/2024, DJe de 23/10/2024.) "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PENAL. FURTO. PLEITO DE INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO COMPROVAÇÃO DA INCIDÊNCIA DOS REQUISITOS PARA O RECONHECIMENTO DA ATIPICIDADE MATERIAL. MAUS ANTECEDENTES E REINCIDÊNCIA. CONTUMÁCIA DELITIVA. PRECEDENTES. ORDEM DE HABEAS CORPUS DENEGADA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Sendo demonstrada a contumácia delitiva do Agente, o qual é portador de maus antecedentes e reincidente, já tendo sido condenado definitivamente pela prática dos crimes de furto qualificado, tráfico de drogas e apropriação indébita, não é possível o reconhecimento da atipicidade material da conduta. Precedentes. 2. Agravo regimental desprovido." (AgRg no HC n. 789.772/MS, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 27/3/2023, DJe de 31/3/2023.) "PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. FURTO. PEDIDO DE ABSOLVIÇÃO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. INAPLICABILIDADE. REINCIDÊNCIA ESPECÍFICA. REITERAÇÃO DELITIVA. MANUTENÇÃO DA DECISÃO AGRAVADA. I - Esta Corte tem entendimento pacificado no sentido de que não há que se falar em atipicidade material da conduta pela incidência do princípio da insignificância quando não estiverem presentes todos os vetores para sua caracterização, quais sejam: (a) mínima ofensividade da conduta; (b) nenhuma periculosidade social da ação; (c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento, e; (d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. II - É assente o entendimento deste Superior Tribunal de Justiça no sentido de que a reincidência e os maus antecedentes, via de regra, afastam a incidência do princípio da bagatela. III - Na espécie, trata-se de situação que não atrai a incidência excepcional do princípio da insignificância, uma vez que, apesar do valor da res furtiva não superar o percentual de 10% (dez por cento) do salário mínimo vigente à época dos fatos - R$ 80,00 (oitenta reais - fl. 41), "o presente fato não se trata de fato isolado na vida pregressa do acusado, já tendo ele, inclusive, sido condenado por outros delitos patrimoniais, conforme se extrai da CAC acostada às fis. 42/45 dos autos, não sendo o caso, portanto, de aplicação do mencionado princípio" (fl. 134, grifei), consoante constou na r. sentença condenatória, bem como na Certidão de Antecedentes Criminais acostada aos autos (fls. 67-69), o que afasta o reduzido grau de reprovabilidade da conduta, não sendo possível do princípio da bagatela. Agravo regimental desprovido." (AgRg no REsp n. 2.014.614/MG, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 7/3/2023, DJe de 14/3/2023.) Ante o exposto, com fundamento no art. 253, parágrafo único, II, "c", do RISTJ, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, a fim de restabelecer a condenação do agravado pelo delito do art. 155, caput, do Código Penal (processo n. 0833606-76.2020.8.13.0024). Publique-se. Intimem-se. EMENTA