HC 971142 - DECISAO
Embora o habeas corpus não deva substituir recurso próprio, houve flagrante ilegalidade na continuidade da ação penal porque a subtração de três energéticos avaliados em R$38,97, com devolução dos bens e ausência de violência, constitui atipicidade material por aplicação do princípio da insignificância (preenchidos...
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- Parties
- Impetrante: Defensoria Pública; Parte Interessada/manifestante: Ministério Público Federal; Paciente: paciente
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 24 March 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Substitutivo / Concessão Da Ordem De Ofício Para Trancamento Da Ação Penal
- Outcome
- ordem concedida para trancamento imediato da ação penal
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto Simples, Trancamento Da Ação Penal, Multirreincidência, Atipicidade Material
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Summary, issues, holding and outcome
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Parties
Defensoria Pública
Impetrante
Ministério Público Federal
Parte Interessada/manifestante
paciente
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus Substitutivo / Concessão Da Ordem De Ofício Para Trancamento Da Ação Penal
Legal Issues
- 1 cabimento do habeas corpus substitutivo
- 2 aplicação do princípio da insignificância ao furto de bagatela
- 3 valoração da multirreincidência na análise da insignificância
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus não deva substituir recurso próprio, houve flagrante ilegalidade na continuidade da ação penal porque a subtração de três energéticos avaliados em R$38,97, com devolução dos bens e ausência de violência, constitui atipicidade material por aplicação do princípio da insignificância (preenchidos os requisitos objetivos), de modo que se impôs a concessão de ofício da ordem para trancar a ação penal.
Court Disposition
ordem concedida para trancamento imediato da ação penal
Orders
- Determinar o imediato trancamento da ação penal
- Comunique-se com urgência o Tribunal de origem e o Juízo singular
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus substitutivo impetrado pela Defensoria Pública em razão de acórdão assim ementado (e-STJ fl.151): "HABEAS CORPUS. FURTO SIMPLES (ART. 155, CAPUT, DO CÓDIGO PENAL). PRETENDIDO TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL OU ABSOLVIÇÃO SUMÁRIA POR AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA DECORRENTE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. MULTIRREINCIDÊNCIA ESPECÍFICA EM DELITOS CONTRA O PATRIMÔNIO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO VERIFICADO. ORDEM DENEGADA." O paciente está sendo processado pelo furto de três energéticos da marca Red Bull. A Defensoria, assim, impetrou ordem de habeas corpus sustentando a ausência de justa causa para deflagração da ação penal. A Defesa alega, em síntese, flagrante ilegalidade no prosseguimento da ação, uma vez que a conduta pratica seria materialmente atípica. Ao final, requer a concessão da ordem para o fim de determinar o trancamento da ação penal (e-STJ fls. 2/8). O Ministério Público Federal apresentou parecer pelo não conhecimento (e-STJ fls. 398/404) É o relatório. Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024)." A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o "habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado" (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. A concessão de ofício da ordem, nos termos dos arts. 647-A e 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade. Analisando-se o conteúdo da documentação colacionada aos autos, vislumbro flagrante ilegalidade capaz de fundamentar a concessão da ordem de ofício. Do voto condutor do acórdão recorrido extrai-se o seguinte trecho, que revela a ratio decidendi manifestada na Corte de origem (e-STJ fls. 149/150): " .. O princípio despenalizador invocado foi adequadamente analisado na fase procedimental, nos moldes do que vêm sendo decidido nesta Corte e no Superior Tribunal de Justiça e não decorre de expressa previsão legal, sendo observado como princípio auxiliar de determinação da tipicidade, fundado no brocardo civil minimis non curat praetor e na conveniência da política criminal. Outrossim, sabe-se que para a sua aplicação é imprescindível a satisfação dos seguintes vetores: (a) mínima ofensividade da conduta do agente; (b) ausência de periculosidade social da ação; (c) reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento; e (d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. Com efeito, a aplicação do princípio em comento deve ser realizada de forma acurada, de modo que não se transforme em incentivo à prática de pequenos ilícitos que perturbem a ordem social. Na hipótese, impende consignar que apesar do valor da res não atingir valor superior a 10% do salário mínimo e o paciente é multirreincidente específico na prática de ilícitos contra o patrimônio em várias comarcas do Estado, consoante destacado pelo juízo, o que não permite o acolhimento da tese de insignificância. .. " A hipótese em apreço refere-se a subtração, sem a prática de violência ou grave ameaça a pessoa, de três energéticos, avaliados em R$38,97. É apenas esse o fato que foi submetido a análise na origem. Neste ponto verifico flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilega no prosseguimento da ação, diante da atipicidade material da conduta. Nesses casos, a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem amadurecido no sentido de compreender que "somente aspectos de ordem objetiva do fato devem ser analisados", pois, "levando em conta que o princípio da insignificância atua como verdadeira causa de exclusão da própria tipicidade, equivocado é afastar-lhe a incidência tão somente pelo fato de o paciente possuir antecedentes criminais". Mostra-se, então, "mais coerente a linha de entendimento segundo a qual, para incidência do princípio da bagatela, devem ser analisadas as circunstâncias objetivas em que se deu a prática delituosa e não os atributos inerentes ao agente, sob pena de, ao proceder-se à análise subjetiva, dar-se prioridade ao contestado e ultrapassado direito penal do autor em detrimento do direito penal do fato" (RHC 210.198/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, j. em 14/01/2022). Em homenagem ao direito penal do fato, ao se afirmar que determinada conduta é atípica, ainda que ela ocorra reiteradas vezes, em todas essas vezes estará ausente a proteção jurídica de envergadura penal. Há, claro, a possibilidade de eventual tutela na esfera patrimonial, ou seja, no âmbito do direito civil das obrigações. Nesse caminho segue a doutrina: (..) a lei penal não deve ser vista como a primeira opção (prima ratio) do legislador para compor conflitos existentes em sociedade, os quais, pelo atual estágio de desenvolvimento moral e ético da humanidade, sempre estarão presentes. Há outros ramos do Direito preparados a solucionar as desavenças e lides surgidas na comunidade, compondo-as sem maiores traumas (NUCCI, Guilherme de Souza. Manual de Direito Penal. 12. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p. 27) Para a aplicação do princípio da insignificância, esta Corte Superior entende necessária a presença, cumulativa, das seguintes condições objetivas: a) mínima ofensividade da conduta do agente; b) nenhuma periculosidade social da ação; c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do agente; e d) inexpressividade da lesão jurídica provocada (AgRg no HC 845.965/SP, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, j. em 27/11/2023). Todos esses requisitos estão presentes na espécie. A conduta possui mínima ofensividade, pois não houve violência ou grave ameaça na tentativa de crime patrimonial. Não há periculosidade social na ação, pois o fato vincula-se a um único agente que tentou subtrair objetos de um único estabelecimento comercial. A reprovabilidade do comportamento é bastante reduzida, uma vez que o paciente, aparentemente, buscou subtrair três energéticos. Por fim, não há sequer o que se falar em lesão jurídica da conduta, pois os bens foram devolvidos à vitima, isto é, não houve qualquer prejuízo à esfera patrimonial. Sendo assim, não conheço do habeas corpus, pois substitutivo de recurso próprio, mas diante da flagrante ilegalidade, concedo a ordem de ofício para o fim de determinar o imediato trancamento da ação penal. Comunique-se com urgência o Tribunal de origem e o Juízo singular. Publique-se. Intimem-se. EMENTA