HC 986384 - DECISAO
Concedeu-se a ordem e absolveu-se a paciente por atipicidade porque, embora exista reincidência, o valor ínfimo da res furtiva (R$ 75,00, correspondente a 7,51% do salário-mínimo vigente na época, R$ 998,00), a restituição dos bens à vítima, a mínima ofensividade da conduta e o reduzido grau de reprovabilidade...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: DIANA MARQUES SILVA LADEIRA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 22 April 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Agravo Regimental
- Outcome
- Ordem concedida. Paciente absolvida da imputação penal por atipicidade.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto Simples, Reincidência, Atipicidade, Habeas Corpus
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
DIANA MARQUES SILVA LADEIRA
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Agravo Regimental
Legal Issues
- 1 aplicabilidade do princípio da insignificância
- 2 impacto da reincidência e maus antecedentes na aplicação do princípio
- 3 valor da res furtiva em relação ao salário mínimo
Ratio Decidendi
Concedeu-se a ordem e absolveu-se a paciente por atipicidade porque, embora exista reincidência, o valor ínfimo da res furtiva (R$ 75,00, correspondente a 7,51% do salário-mínimo vigente na época, R$ 998,00), a restituição dos bens à vítima, a mínima ofensividade da conduta e o reduzido grau de reprovabilidade autorizam, em caráter excepcional e caso a caso, a aplicação do princípio da insignificância.
Court Disposition
Ordem concedida. Paciente absolvida da imputação penal por atipicidade.
Orders
- Reconsiderar a decisão monocrática (fls. 81-83) com fundamento no art. 258, §3º, do RISTJ
- Conceder a ordem, de ofício, em favor de DIANA MARQUES SILVA LADEIRA, para absolvê-la da imputação penal ante a atipicidade da conduta
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo regimental (fls. 91-114) interposto por DIANA MARQUES SILVA LADEIRA em face da decisão monocrática q ue indeferiu liminarmente o habeas corpus (fls. 81-83). Consta nos autos que a paciente foi inicialmente condenada pelo juízo de primeiro grau à pena de 01 (um) ano, 07 (sete) meses e 07 (sete) dias de reclusão, em regime inicialmente semiaberto, e 61 (sessenta e um), tendo em vista à prática do delito descrito no art. 155, caput, do Código Penal (fls. 15). A defesa interpôs recurso de apelação ao Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, que deu parcial provimento ao recurso, a fim de redimensionar a pena pecuniária em 15 (quinze) dias-multa (fls. 14-21). Na presente impetração, alegou-se ser aplicável o princípio da insignificância, haja vista o diminuto valor da res furtiva: 03 (três) pares de chinelos. Afirmou-se que os bens foram avaliados em R$ 75,00 (setenta e cinco reais). Pontuou-se que os maus antecedentes e a reincidência não podem impedir a aplicação do princípio da insignificante, diante das particularidades do caso. Sustentou que a res furtiva foi devolvida à vítima. O habeas corpus foi indeferido liminarmente (fls. 81-83). No regimental (fls. 91-114), o agravante busca a reforma da decisão agravada, de sorte que o habeas corpus seja conhecido e a ordem concedida nos termos requeridos na petição inicial. É o relatório. DECIDO. O agravo regimental merece prosperar, razão pela qual reconsidero a decisão que indeferiu liminarmente o habeas corpus (fls. 81-83), com fundamento no artigo 258, §3º, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça rejeita, em regra, a aplicação do princípio da insignificância quando o agente é reincidente ou possui maus antecedentes. Contudo, em situações excepcionais, esta Corte reconhece a incidência do referido princípio, levando em conta as circunstâncias do delito, a ausência de prejuízo à vítima e o pequeno valor do bem subtraído especialmente quando a res furtiva consiste em gêneros alimentícios, itens de higiene ou vestuário básico. Nesse sentido: .. 1. A lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. Entretanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. 2. Assim, o princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Relator Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). 3. Salienta-se que, quanto ao tema, o Plenário do eg. Supremo Tribunal Federal, ao examinar, conjuntamente, o HC n. 123.108/MG, o HC n. 123.533/SP e o HC n. 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da insignificância deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). Nessa linha, a Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp n. 221.999/RS, de minha relatoria, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação que a medida é socialmente recomendável, como no presente caso. Precedentes. 4. Ainda, a jurisprudência desta Corte Superior de Justiça firmou-se no sentido de ser incabível a aplicação do princípio da insignificância quando o montante do valor da res furtiva superar o percentual de 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos. Precedentes. 5. Na hipótese em análise, trata-se de situação que atrai a incidência excepcional do Princípio da Insignificância, uma vez que, apesar do acusado ser reincidente, o valor do bem envolvido (1 par de chinelos avaliado em R$ 35,00) não ultrapassa o percentual de 10% do salário mínimo vigente ao tempo dos fatos (R$ 1212,00 - 2022), as circunstâncias do delito, com a ausência de prejuízo da vítima pela restituição, e a inexistências de qualquer ato mais grave configuram a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do envolvido. Precedentes. 6. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp n. 2.833.253/MG, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 11/3/2025, DJEN de 19/3/2025.) No caso em questão, trata-se de imputação penal por furto simples. A res furtiva três pares de chinelos foi avaliada em R$ 75,00 (setenta e cinco reais) e devidamente devolvida à vítima (fl. 29). Além disso, o valor dos bens é irrisório, correspondendo a apenas 7,51% do salário-mínimo vigente à época dos fatos (R$ 998,00). Apesar dessas circunstâncias, o Tribunal de Justiça local manteve a sentença condenatória, fundamentando sua decisão no histórico delitivo da paciente. Entretanto, com base na jurisprudência desta Corte Superior e nos elementos fáticos que envolvem o caso, considero presentes os requisitos necessários para a incidência do princípio da insignificância: (a) mínima ofensividade da conduta; (b) ausência de periculosidade social da ação; (c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento; e (d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. Por esse motivo, absolvo a paciente da imputação penal. Ante o exposto, reconsidero a decisão monocrática (fls. 81-83), com fundamento no artigo 258, §3º, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça (RISTJ), e concedo a ordem, de ofício, em favor de DIANA MARQUES SILVA LADEIRA, para absolvê-la da imputação penal, ante a atipicidade da conduta. Comunique-se, com urgência, a autoridade coatora e o juízo de primeiro grau. Publique-se. Intimem-se. EMENTA