AREsp 2858337 - ACORDAO
Aplicou-se o princípio da insignificância por se tratar da subtração de bens de valor reduzido (botijão de gás, cinco unidades de Nescafé e uma tintura de cabelo) e pela ausência de ato mais grave, caracterizando mínima ofensividade e reduzido grau de reprovabilidade, o que afasta a tipicidade material e justifica a...
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- Parties
- Agravante: MAICON DE ALMEIDA DE ANDRADE; Manifestante: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 30 April 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Acórdão
- Outcome
- Agravo provido; recurso especial provido; absolvição do agravante por atipicidade material.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto, Atipicidade Material, Intervenção Mínima, Fragmentariedade
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Parties
MAICON DE ALMEIDA DE ANDRADE
Agravante
Ministério Público Federal
Manifestante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Acórdão
Legal Issues
- 1 incidência do princípio da insignificância no furto de bens de pequeno valor
- 2 atipicidade material da conduta
- 3 alegada violação do art. 386, inciso III, do Código de Processo Penal e do art. 155 do Código Penal
Ratio Decidendi
Aplicou-se o princípio da insignificância por se tratar da subtração de bens de valor reduzido (botijão de gás, cinco unidades de Nescafé e uma tintura de cabelo) e pela ausência de ato mais grave, caracterizando mínima ofensividade e reduzido grau de reprovabilidade, o que afasta a tipicidade material e justifica a absolvição do agravante.
Court Disposition
Agravo provido; recurso especial provido; absolvição do agravante por atipicidade material.
Orders
- Conhecer do agravo e dar provimento ao recurso especial
- Absolver MAICON DE ALMEIDA DE ANDRADE por atipicidade material da conduta (Ação Penal 5001889-13.2022.8.21.0020/RS)
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Turma, por unanimidade, conhecer do agravo e dar provimento ao recurso especial, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay Neto e Carlos Cini Marchionatti (Desembargador Convocado TJRS) votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto. EMENTA PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. MÍNIMA OFENSIVIDADE E REDUZIDO GRAU DE REPROVABILIDADE DO COMPORTAMENTO. NATUREZA DOS BENS SUBTRAÍDOS. AGRAVO PROVIDO. 1. O princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Relator Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). 2. A subtração de bens de valor reduzido - um botijão de gás, cinco unidades de Nescafé e uma unidade de tintura de cabelo - configura situação de mínima ofensividade e reduzido grau de reprovabilidade, justificando a aplicação do princípio da insignificância. 3. Recurso provido para absolver o agravante por atipicidade material da conduta.
RELATÓRIO Trata-se de agravo interposto por MAICON DE ALMEIDA DE ANDRADE em adversidade à decisão que inadmitiu recurso especial manejado contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul que negou provimento ao recurso de apelação. Nas razões do recurso especial (e-STJ, fls. 284/293), fundado na alínea "a" do permissivo constitucional, alega a parte recorrente violação dos arts. 386, inciso III, do Código de Processo Penal e 155 do Código Penal, por atipicidade da conduta de furtar, em repouso noturno, "um botijão de gás, avaliado em R$ 115,00 (16.11) e de 5 unidades de Nescafé 50g e 1 unidade de tintura de cabelo ALFAPARF avaliados, respectivamente, em R$ 30,00 e R$14,00 (22.27)" (e-STJ, fl. 134). Apresentadas contrarrazões, o Tribunal a quo não admitiu o recurso especial, ensejando a interposição do presente agravo. O Ministério Público Federal manifestou-se pelo não provimento do recurso. É o relatório. EMENTA PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO. INCIDÊNCIA DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. MÍNIMA OFENSIVIDADE E REDUZIDO GRAU DE REPROVABILIDADE DO COMPORTAMENTO. NATUREZA DOS BENS SUBTRAÍDOS. AGRAVO PROVIDO. 1. O princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Relator Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). 2. A subtração de bens de valor reduzido - um botijão de gás, cinco unidades de Nescafé e uma unidade de tintura de cabelo - configura situação de mínima ofensividade e reduzido grau de reprovabilidade, justificando a aplicação do princípio da insignificância. 3. Recurso provido para absolver o agravante por atipicidade material da conduta. VOTO Preenchidos os requisitos formais e impugnado o fundamento da decisão agravada, conheço do agravo. O agravante foi condenado como incurso no art. 155, caput, por duas vezes, na forma do art. 71, caput, do Código Penal à pena de 1 ano e 2 meses de reclusão, em regime aberto, sendo a pena privativa de liberdade substituída por duas restritivas de direitos. O recurso merece acolhida. A lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. Entretanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. Assim, o princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Relator Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). Salienta-se que, quanto ao tema, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao examinar, conjuntamente, o HC n. 123.108/MG, o HC n. 123.533/SP e o HC n. 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da insignificância deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). Na hipótese em análise, o entendimento do Tribunal de origem deve ser afastado, por se tratar de situação que atrai a incidência excepcional do princípio da insignificância, considerando-se os bens subtraídos - um botijão de gás, 5 unidades de Nescafé e 1 unidade de tintura de cabelo - e a ausência de qualquer ato mais grave, configuram a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do envolvido. Ante o exposto, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial para absolver MAICON DE ALMEIDA DE ANDRADE por atipicidade material da conduta, nos autos da Ação Penal 5001889-13.2022.8.21.0020/RS. É o voto.