AREsp 3056101 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento com base na jurisprudência consolidada do STJ de que, embora o valor da coisa subtraída seja ínfimo, a presença de reincidência específica e o cumprimento de pena no momento do delito demonstram grau de reprovabilidade e periculosidade incompatíveis com o reconhecimento do...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: MAYCON PEREIRA MIGUEL; Tribunal a Quo: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS; Manifestante: PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 October 2025
- Procedural Posture
- Agravo / Julgamento Do Agravo
- Outcome
- Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto, Reincidência, Tipicidade Material
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MAYCON PEREIRA MIGUEL
Agravante
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Tribunal a Quo
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
Manifestante
Procedural Posture
Agravo / Julgamento Do Agravo
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância ao caso concreto
- 2 Efeito da reincidência e do cumprimento de pena sobre a atipicidade material
- 3 Valoração do reduzido valor da res furtiva
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento com base na jurisprudência consolidada do STJ de que, embora o valor da coisa subtraída seja ínfimo, a presença de reincidência específica e o cumprimento de pena no momento do delito demonstram grau de reprovabilidade e periculosidade incompatíveis com o reconhecimento do princípio da insignificância, afastando assim a atipicidade material no caso concreto.
Court Disposition
Conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial.
Orders
- Publique-se.
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por MAYCON PEREIRA MIGUEL contra decisão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MINAS GERAIS, a qual inadmitiu recurso especial manejado contra acórdão proferido na Apelação Criminal n. 0028921-83.2021.8.13.0134, assim ementado (fl. 431): APELAÇÃO CRIMINAL - FURTO MAJORADO - DESCLASSIFICAÇÃO PARA APROPRIAÇÃO DE COISA ACHADA - IMPROCEDÊNCIA - PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA - INAPLICABILIDADE - JUSTIÇA GRATUITA - PREJUDICIALIDADE. Demonstradas a autoria e a materialidade do crime de furto imputado na denúncia, não há que se falar em desclassificação para o crime de apropriação de coisa achada. A aplicação do princípio da insignificância deve se ater a situações excepcionais, de acordo com a interpretação do julgador, exigindo, para seu reconhecimento, a mínima ofensividade da conduta do agente; nenhuma periculosidade social da ação; o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Ainda que ínfimo o valor da "res furtiva", a reincidência do agente e a prática de crime durante o cumprimento de pena obstam a aplicação do princípio da insignificância, diante do elevado grau de reprovabilidade da conduta. Fica prejudicado o exame do pedido de concessão dos benefícios da justiça gratuita se a providência almejada já foi deferida na sentença. O juízo de primeiro grau condenou o acusado como incurso no art. 155, § 1º, do Código Penal a pena de 01 (um) ano e 06 (seis) meses e 20 (vinte) dias de reclusão, em regime inicial semiaberto, e 14 (quatorze) dias-multa (fls. 312-319). O Tribunal a quo negou provimento ao apelo defensivo (fls. 431-441). Nas razões do recurso especial, interposto com fundamento a alínea "a" do permissivo constitucional, a Defesa alega violação dos arts. 155, caput, do Código Penal, ao fundamento de que constituindo a res furtiva bem de valor irrisório - vale dizer, uma barra de ferro avaliada em R$60,00 (sessenta reais) à época dos fatos - o fato de o acusado ser reincidente, por si só, não impede a aplicação do princípio da insignificância. Contrarrazões às fls. 464-474. Inadmitido o recurso especial ante a incidência do óbice previsto na Súmula n. 83 do STJ (fls. 477-480), o entrave foi objeto de impugnação neste agravo (fls. 486-496). A Procuradoria-Geral da República manifestou-se pelo não provimento do agravo (fls. 521-523). É o relatório. Decido. Impugnados adequadamente os fundamentos da decisão de inadmissão, adentra-se à análise do recurso especial. O tema objeto de deliberação restringe-se à aplicação ao caso concreto do princípio da insignificância. Em conformidade com a iterativa jurisprudência desta Corte Superior, o afastamento da tipicidade material da conduta pressupõe a ocorrência cumulativa dos seguintes requisitos: a) mínima ofensividade da conduta do agente; b) nenhuma periculosidade social da ação; c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do agente; e d) inexpressividade da lesão jurídica provocada (AgRg no HC 1013406/SC, Rel. Ministro Antônio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 03/09/2025, DJEN de 09/09/2025). No mesmo sentido: AgRg no AREsp 2938990/SP, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 02/09/2025, DJEN de 09/09/2025; AgRg no REsp 2140002/MG, Rel. Ministro Rogério Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 03/09/2025, DJEN de 08/09/2025; AgRg no HC 1001831/RO, Rel. Desembargador Convocado Otávio de Almeida Toledo, Sexta Turma, julgado em 03/09/2025, DJEN de 08/09/2025. Na espécie, a Corte de Justiça mineira pautou-se nos seguintes fundamentos para reconhecer a tipicidade material da conduta (fls. 437-438 - grifamos): Melhor sorte não assiste à defesa quando pleiteia a absolvição do recorrente com base na atipicidade material da conduta, aplicando- se o princípio da insignificância. O princípio da bagatela, derivado do princípio da intervenção mínima do Estado em matéria penal, é aquele que permite afastar a tipicidade material dos fatos, em casos de ínfima lesividade ao bem jurídico tutelado. É dizer o Direito Penal como a "ultima ratio", não devendo incidir nos casos em que a conduta, embora formalmente típica, não cause lesão significativa ao bem jurídico resguardado pela norma penal. A aplicação do mencionado princípio deve se ater a situações excepcionais, de acordo com a interpretação do julgador, exigindo, para seu reconhecimento: a mínima ofensividade da conduta do agente; nenhuma periculosidade social da ação; o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Outrossim, segundo entendimento construído pela doutrina, e adotado em reiteradas decisões dos Tribunais Superiores, para a verificação da lesividade mínima deve-se levar em conta, além do desvalor do resultado, o grau de reprovação da conduta e as circunstâncias de cunho subjetivo do agente. No caso em questão, conforme o laudo pericial, a "res furtiva" foi avaliada em R$ 60,00 (ordem 2, p. 17), ou seja, quantia inferior a 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos R$ 1.045,00, Lei nº 14.013/2020). Entretanto, conforme já elucidado quando do julgamento Recurso em Sentido Estrito de nº 1.0134.21.002892-1/001, não há que se falar em mínima ofensividade da conduta do agente. Isso porque o apelante é reincidente e estava em cumprimento de pena quando da prática do delito ora em apreço (CAC - ordem 2, p. 30-35). Inviável, portanto, a aplicação do princípio da insignificância. Como se percebe, para além de ser excepcional a aplicação do princípio da insignificância em relação a condutas perpetradas por reincidentes, no caso concreto as instâncias ordinárias ressaltaram que à recalcitrância do acusado somou-se ao fato de o ora recorrente cumprir pena por outro crime quando surpreendido na prática delitiva sub examine. Tais conjunturas fático-processuais demonstram o acerto da solução adotada na origem e seu alinhamento à jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Nesse sentido: DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. FURTO TENTADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. REINCIDÊNCIA ESPECÍFICA. INAPLICABILIDADE. RESTITUIÇÃO IMEDIATA DO BEM FURTADO. IRRELEVÂNCIA PARA A CONFIGURAÇÃO DA ATIPICIDADE MATERIAL. PRECEDENTES DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA E SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AGRAVO PROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público contra decisão monocrática que concedeu ordem de habeas corpus, reconhecendo a atipicidade da conduta imputada ao agravado e determinando o trancamento da ação penal. 2. O agravado foi denunciado por tentativa de subtração de gêneros alimentícios, sem violência ou grave ameaça, no valor de R$ 136,46, enquanto cumpria pena em regime aberto. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 3. A questão em discussão consiste em saber se a reincidência específica do agravado impede a aplicação do princípio da insignificância, mesmo diante da restituição imediata dos bens furtados. III. RAZÕES DE DECIDIR 4. A jurisprudência desta Corte consolidou-se no sentido de que a aplicação do princípio da insignificância exige a conjugação de requisitos objetivos e subjetivos, incluindo a ausência de habitualidade delitiva. 5. A reincidência específica do agravado e o fato de estar cumprindo pena no momento do delito afastam a aplicação do princípio da insignificância, conforme entendimento sedimentado no STJ. 6. A restituição imediata dos bens subtraídos, objeto do furto, não é suficiente para afastar a tipicidade material da conduta, especialmente em casos de reincidência, conforme o Tema Repetitivo n. 1.205. IV. AGRAVO REGIMENTAL PROVIDO PARA REFORMAR A DECISÃO MONOCRÁTICA E RESTABELECER O PROSSEGUIMENTO DA PERSECUÇÃO PENAL. (AgRg no HC 908235/SP, Rel. Ministro Carlos Cini Marchionatti, Quinta Turma, julgado em 20/05/2025, DJEN de 26/05/2025 - grifamos) AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PENAL E PROCESSO PENAL. FURTO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. IMPOSSIBILIDADE. REITERAÇÃO DELITIVA EM CRIMES PATRIMONIAIS. REGIME INICIAL SEMIABERTO. PENA INFERIOR A 4 ANOS. RÉU REINCIDENTE E COM MAUS ANTECEDENTES. AUSÊNCIA DE ILEGALIDADE. 1. O Supremo Tribunal Federal consagrou o entendimento de que, para a aplicação do princípio da insignificância, devem estar presentes, cumulativamente, as seguintes condições objetivas: a) mínima ofensividade da conduta do agente; b) nenhuma periculosidade social da ação; c) reduzido grau de reprovabilidade do comportamento do agente; e d) inexpressividade da lesão jurídica provocada. 2. Na espécie, não há como reconhecer o reduzido grau de reprovabilidade ou a mínima ofensividade da conduta, pois, independentemente do valor atribuído à res furtiva, consta dos autos que o agravante é reincidente específico, circunstância que demonstra a prática de crimes de forma habitual e reiterada, reveladora de personalidade voltada para o crime, ficando afastado o requisito do reduzido grau de reprovabilidade da conduta para aplicação do princípio da insignificância ora pretendido. Precedentes. (AgRg no AREsp 2860464/DF, Rel. Ministro Antônio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 06/05/2025, DJEN de 12/05/2025 - grifamos) Sob o mesmo enfoque: HC 970714/DF, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 14/05/2025, DJEN de 21/05/2025; AgRg no HC 813238/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 26/06/2023, DJe de 29/06/2023. Incide, portanto, o comando da Súmula n. 568 do STJ, que dispõe: O relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema. Ante o expost o, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se. EMENTA