AREsp 3056878 - DECISAO
Restabelecer a sentença que rejeitou a denúncia porque, diante do conjunto probatório (subtração de barras de chocolate avaliadas em R$ 59,88, restituição ao estabelecimento, circunstâncias pessoais do agente — situação de rua e possibilidade de furto famélico — e a inexpressividade da lesão jurídica), há mínima...
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- Parties
- Agravante: ANDRE FRANCISCO FAGUNDES; Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 24 October 2025
- Procedural Posture
- Agravo / Conhecido E Provido
- Outcome
- Agravo conhecido e provido; acórdão cassado; restabelecida a sentença que rejeitou a denúncia com fundamento no art. 395, III, do Código de Processo Penal.
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Atipicidade Material, Rejeição Da Denúncia, Reincidência
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Parties
ANDRE FRANCISCO FAGUNDES
Agravante
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul
Recorrido
Procedural Posture
Agravo / Conhecido E Provido
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade do princípio da insignificância em face de reincidência
- 2 Atipicidade material (exame da tipicidade na perspectiva material)
- 3 Fundamentação para rejeição da denúncia com base no art. 395 do CPP
Ratio Decidendi
Restabelecer a sentença que rejeitou a denúncia porque, diante do conjunto probatório (subtração de barras de chocolate avaliadas em R$ 59,88, restituição ao estabelecimento, circunstâncias pessoais do agente — situação de rua e possibilidade de furto famélico — e a inexpressividade da lesão jurídica), há mínima ofensividade e ausência de periculosidade social, configurando atipicidade material e justificando a aplicação do princípio da insignificância, não sendo suficiente a existência de apenas uma condenação anterior para obstar tal reconhecimento; decidiu-se, assim, conhecer do agravo e dar provimento ao recurso especial para cassar o acórdão recorrido e restabelecer a sentença que...
Court Disposition
Agravo conhecido e provido; acórdão cassado; restabelecida a sentença que rejeitou a denúncia com fundamento no art. 395, III, do Código de Processo Penal.
Orders
- Conheço do agravo e dou provimento ao recurso especial
- Cassar o acórdão recorrido
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por ANDRE FRANCISCO FAGUNDES contra decisão do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que inadmitiu o recurso especial manejado com fundamento no artigo 105, III, "a", da Constituição da República. Em suas razões recursais, a defesa aponta violação do artigo 395, II, do Código de Processo Penal, sustentando que a conduta do recorrente é materialmente atípica, devendo ser aplicada a tese da insignificância penal, ressaltando que a res furtiva subtraída consistiu apenas em barras de chocolate avaliadas em R$ 59,88. Requer o provimento do recurso, com o reconhecimento da atipicidade material da conduta, para que seja rejeitada a denúncia ou trancada a ação penal. Foram apresentadas contrarrazões (e-STJ, fls. 68-74). O recurso foi inadmitido (e-STJ, fls. 75-77). Daí este agravo (e-STJ, fls. 79-84). O Ministério Público Federal opina pelo improvimento do recurso (e-STJ, fls. 105-107). É o relatório. Decido. O "princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. .. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público". (STF, HC 84.412/SP, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, SEGUNDA TURMA, DJ 19/11/2004). Vale dizer, não basta à caracterização da tipicidade penal a adequação pura e simples do fato à norma abstrata, pois, além dessa correspondência formal, é necessário o exame materialmente valorativo das circunstâncias do caso concreto, a fim de se evidenciar a ocorrência de lesão grave e penalmente relevante ao bem em questão. Assim, além dos pressupostos objetivos, idealizados pelo Pretório Excelso, deve estar presente também o requisito subjetivo, indicativo de que o réu não poderá ser um criminoso habitual. No caso, o Tribunal a quo não aplicou o princípio da insignificância, diante da reincidência do réu, que - embora responda a outras ações penais - tem apenas uma condenação definitiva anterior. Todavia, depreende-se dos autos que o recorrente subtraiu uma caixa contendo barras de chocolate de um mercado, avaliada em R$ 59,88, que foi restituído ao estabelecimento comercial e que corresponde a aproximadamente 6,8 % do salário mínimo vigente à época do fato, segundo o acórdão recorrido (e-STJ, fl. 53). Como bem ponderou o Juiz de 1º grau, ao rejeitar a denúncia, "o réu é pessoa em situação de rua, de modo que a situação em questão tem o condão de caracterizar, inclusive, furto famélico. Em todo o caso, o cenário em questão não comporta intervenção do direito penal, que deve ser considerado ultima ratio" (e-STJ, fl. 12). Deste modo, resta configurada a atipicidade material da conduta, por estar demonstrada a mínima ofensividade e a ausência de periculosidade social da ação, o que permite a aplicação do princípio da insignificância no caso dos autos. Vale salientar que mesmo nos casos de acusado reincidente, esta Corte Superior tem admitido a incidência do princípio da insignificância em situações excepcionais, diante das peculiaridades do caso concreto, como na hipótese. Nesse sentido, com destaques: "AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. FURTO. VALOR PRESUMIDAMENTE ÍNFIMO. RESTITUIÇÃO INTEGRAL À VÍTIMA. RÉU QUE OSTENTA UMA CONDENAÇÃO ANTERIOR POR FATOS OCORRIDOS HÁ APROXIMADAMENTE 10 ANOS ANTES DOS FATOS SUB EXAMINE. EXCEPCIONALIDADE QUE JUSTIFICA A APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. 1. Nos termos da jurisprudência desta Corte, "a existência de anotações criminais anteriores, por si só, não exclui a possibilidade de aplicação do princípio da insignificância, mas deve ser sopesada junto com as demais circunstâncias fáticas, admitindo-se a incidência do aludido princípio ao reincidente em situações excepcionais" (AgRg no REsp n. 1.988.544/MG, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 13/9/2022, DJe de 16/9/2022). 2. Tratando-se de réu que ostenta apenas uma condenação anterior, e ainda por fatos ocorridos em 23/12/2011 (há quase 10 anos antes da prática delitiva sub examine), não há falar em contumácia delitiva, sendo que o valor presumidamente não relevante das res furtivae, correspondente a cerca de 20% do salário mínimo vigente à época, as quais foram restituídas integralmente, também não constituem fundamento suficiente para afastar a aplicação do princípio da insignificância, não justificando tão onerosa intervenção estatal. Precedentes. 3. Agravo regimental desprovido." (AgRg no AREsp n. 2.435.528/SP, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 14/5/2024, DJe de 17/5/2024.) "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. APLICABILIDADE. FURTO DE UM CAPACETE. REITERAÇÃO DELITIVA. IRRELEVÂNCIA NO CASO ESPECÍFICO DOS AUTOS. MANUTENÇÃO DA DECISÃO IMPUGNADA QUE SE IMPÕE. RECURSO DESPROVIDO. 1. "Este Colegiado da Sexta Turma tem admitido, excepcionalmente, a aplicação do princípio da insignificância ainda que se trate de réu reincidente, considerando as peculiaridades do caso em exame, em que evidente a inexpressividade da lesão jurídica provocada e o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento do agente" (AgInt no AREsp n. 948.586/RS, relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, SEXTA TURMA, julgado em 18/8/2016, DJe 29/8/2016). 2. Na espécie, apesar de constar no acórdão recorrido que o agravado possui outra ação penal em andamento, concluí que a condenação pelo crime de furto, em virtude da subtração de um capacete avaliado em R$ 80,00 (oitenta reais), não seria razoável, tendo em vista a inexpressiva lesão ao bem jurídico tutelado, o fato de ele ter sido restituído à vítima e de o delito ter sido praticado sem violência ou grave ameaça. Precedentes. 3. Agravo regimental a que se nega provimento". (AgRg no HC n. 649.320/RO, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 20/4/2021, DJe de 27/4/2021.) "AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. PLEITO DE AFASTAMENTO. RES FURTIVAE DE VALOR REDUZIDO. FURTO DE BENS DE GÊNERO ALIMENTÍCIO. RESTITUIÇÃO PARCIAL DOS BENS SUBTRAÍDOS. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO À VÍTIMA. REINCIDÊNCIA. ARROMBAMENTO. PARTICULARIDADES DO CASO CONCRETO. EXCEPCIONALIDADE. ABSOLVIÇÃO MANTIDA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A aplicação do princípio da insignificância, segundo orientação do Supremo Tribunal Federal, deve ser analisada em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, demandando a verificação da presença concomitante dos seguintes vetores: (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 2. É firme a jurisprudência desta Corte Superior no sentido de afastar a aplicação do princípio da bagatela em casos de reiteração da conduta delitiva, salvo, excepcionalmente, quando demonstrado ser tal medida recomendável diante das circunstâncias concretas. 3. Ademais, este Superior Tribunal possui entendimento consolidado no sentido de que a prática do delito de furto em sua modalidade qualificada (por escalada, arrombamento ou rompimento de obstáculo ou concurso de agentes) indica a especial reprovabilidade do comportamento, a obstar o reconhecimento de crime bagatelar. Não obstante, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao examinar conjuntamente os HCs n. 123.108/MG, 123.533/SP e 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro Roberto Barroso, definiu que a incidência do princípio da bagatela deve ser feita caso a caso (Informativo n. 793/STF). 4. De acordo com os autos, o paciente foi condenado pela prática do delito previsto no art. 155, § 4º, inciso I, do CP, porque, no dia 22/7/2022, durante o repouso noturno e mediante escalada e rompimento de obstáculo, subtraiu, em proveito próprio, coisa alheia móvel consistente em 1 caixa com 12 unidades de cerveja, 1 caixa com 12 unidades de cerveja, 4 pacotes de linguiça com 800g cada, 3 quilos de carne suína congelada, e R$60,00 (sessenta reais), pertencentes à vítima (e-STJ fl. 8), tendo sido recuperados quatro pacotes de linguiça e três quilos de carne, os valores que estavam no caixa e dois fardos de cervejas (e-STJ fl. 118). 5. É bem verdade que o acusado é reincidente específico e houve rompimento de obstáculo, contudo, com base nas peculiaridades apresentadas no caso concreto, ante o valor reduzido dos objetos, os quais foram parcialmente devolvidos ao estabelecimento comercial, e especialmente por se tratar de itens alimentícios, entendo que a conduta do acusado possui mínima ofensividade, devendo-se aplicar o princípio da insignificância. 6. Agravo regimental não provido." (AgRg no HC n. 879.202/MG, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 5/3/2024, DJe de 12/3/2024.) Ante o exposto, com fundamento no art. 932, VIII, do CPC, c/c art. 253, parágrafo único, II, "c", do RISTJ, conheço do agravo para dar provimento ao recurso especial, a fim de cassar o acórdão recorrido e, assim, restabelecer a sentença que rejeitou a denúncia, com fulcro no artigo 395, III, do Código de Processo Penal (processo n. 5000462-34.2023.8.21.0088/RS). Publique-se. Intimem-se. EMENTA