HC 1051382 - DECISAO
Afasta-se a alegação de insignificância porque o valor da res (R$ 149,00) corresponde a mais de 10% do salário mínimo vigente à época e houve demonstração de contumácia por meio de condenações anteriores; a restituição do bem não autoriza, por si só, a aplicação do princípio da insignificância; inexistindo laudo de...
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- Parties
- Paciente: LINDA SAFIEDDINE
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 18 November 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Liminar Indeferida
- Outcome
- liminar indeferida
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto, Contumácia, Restituição De Bem Furtado, Revisão Fático Probatória
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Parties
LINDA SAFIEDDINE
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Liminar Indeferida
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da insignificância ao furto descrito
- 2 Possibilidade de concessão de Habeas Corpus como substitutivo de recurso próprio
- 3 Valoração do valor da res furtiva em relação ao salário mínimo
Ratio Decidendi
Afasta-se a alegação de insignificância porque o valor da res (R$ 149,00) corresponde a mais de 10% do salário mínimo vigente à época e houve demonstração de contumácia por meio de condenações anteriores; a restituição do bem não autoriza, por si só, a aplicação do princípio da insignificância; inexistindo laudo de avaliação e diante da necessidade de não revolver prova em Habeas Corpus, não se verifica ilegalidade manifesta que justifique concessão de ofício, motivo pelo qual a liminar é indeferida.
Court Disposition
liminar indeferida
Orders
- Indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus.
- Cientifique-se o Ministério Público Federal.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de Habeas Corpus impetrado em favor de LINDA SAFIEDDINE em que se aponta como ato coator o acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA assim ementado: APELAÇÃO CRIMINAL. FURTO (ART. 155, CAPUT, DO CÓDIGO PENAL). SENTENÇA CONDENATÓRIA. RECURSO DEFENSIVO. AVENTADA ATIPICIDADE MATERIAL DA CONDUTA, EM FACE DA APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO ACOLHIMENTO. VALOR DO BEM SUBTRAÍDO QUE SUPERA 10% (DEZ POR CENTO) DO SALÁRIO MÍNIMO VIGENTE À ÉPOCA DOS FATOS. RÉ CONTUMAZ NA PRÁTICA DE CRIMES PATRIMONIAIS. FATORES QUE IMPEDEM A CONCESSÃO DA BENESSE. Consta dos autos que a paciente foi condenada à pena de 9 (nove) meses e 10 (dez) dias de reclusão, em regime semiaberto, pela prática do delito capitulado no art. 155, caput, do Código Penal. Em suas razões, sustenta a impetrante a ocorrência de constrangimento ilegal, porquanto a paciente deveria ser absolvida em razão da aplicação do princípio da insignificância. Alega que o valor da res furtiva é irrisório, a saber, uma chaleira elétrica avaliada em R$ 149,00, recuperada imediatamente, sem prejuízo à vítima, o que evidencia mínima ofensividade, reduzida reprovabilidade e inexpressividade da lesão ao patrimônio, impondo a atipicidade material da conduta. Argumenta que o histórico da paciente não pode ser valorado para afastar a insignificância, pois menciona apenas registros policiais e um processo em curso por fato posterior, o que não autoriza concluir pela contumácia, devendo prevalecer a presunção de inocência e a vedação a um direito penal de autor. Requer, em suma, a absolvição da paciente. É o relatório. Decido. A Terceira Seção do STJ, no julgamento do HC n. 535.063/SP, firmou o entendimento de que não cabe Habeas Corpus substitutivo de recurso próprio, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada alguma teratologia no ato judicial impugnado (Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, DJe de 25.8.2020). Assim, passo à análise das razões da impetração a fim de verificar se há flagrante ilegalidade que justifique a concessão do writ de ofício. Na espécie, consta do Voto condutor do acórdão impugnado a seguinte fundamentação para afastar a aplicação do princípio da insignificância: Pela análise dos elementos coligidos, não é possível reconhecer como reduzido o grau de reprovabilidade da conduta, a sua mínima ofensividade ou a inexpressividade da lesão jurídica provocada, a fim de tornar viável a aplicação do princípio da insignificância. Isso porque o valor da res não pode ser considerado inexpressivo - uma chaleira elétrica, avaliada em R$ 149,00 (Evento 1, P_FLAGRANTE1, fl. 10, autos do IP) -, já que corresponde a mais de 10% (vinte por cento) do salário mínimo vigente à época do fato. Frise-se, ainda, que "o fato de não ter havido prejuízo efetivo à vítima, por conta da alegada restituição da res furtiva, não tem o condão de caracterizar a insignificância, uma vez que para a caracterização da bagatela se observa o valor do bem subtraído e não a eventual ausência de prejuízo" (TJSC, Apelação Criminal n. 0012438-04.2013.8.24.0020, de Criciúma, rela. Desa. Cinthia Beatriz da S. Bittencourt Schaefer, j. em 28/9/2017). No mais, importa mencionar que o delito sub judice não representa fato isolado na vida da ré, que, segundo as certidões de antecedentes criminais (Evento 70, CERTANTCRIM1-3, e Evento 85, CERTANTCRIM1-2, ambos dos autos originários), registra diversas condenações pela prática de crimes contra o patrimônio, revelando, tal circunstância, prognóstico de habitualidade delitiva, o que obsta a concessão do benefício. Logo, diante do contexto apresentado, tem-se como inviável a aplicação do princípio da insignificância, pois não se vislumbra a presença dos pressupostos necessários (fls. 38/39). Segundo entendimento firmado pela Terceira Seção do STJ a aplicação do princípio da insignificância exige o preenchimento de quatro condições, a saber: a) a mínima ofensividade da conduta do agente; b) a ausência de periculosidade social na ação; c) o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e; d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada. Por outro lado, segundo a jurisprudência firmada nesta Corte, o princípio da bagatela pode ser afastado quando: a) o valor da res furtiva for superior a 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos, independentemente da condição financeira da vítima; b) houver reiteração ou habitualidade no cometimento de crimes de natureza patrimonial ou maus antecedentes criminais por crimes de outra natureza, podendo ser consideradas ações penais em curso para caracterizar a habitualidade delitiva; e c) o crime for de furto qualificado. Nesse sentido, vale citar os seguintes julgados: AgRg no HC n. 926.575/DF, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 10.10.2024; AgRg no HC n. 882.046/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 3.10.2024; AgRg no HC n. 925.508/MG, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 25.9.2024; AgRg no HC n. 933.248/MS, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 24.9.2024; AgRg no HC n. 925.164/DF, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 20.9.2024; AgRg no HC n. 835.749/RJ, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 18.9.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024; AgRg no HC n. 921.477/SC, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no HC n. 918.551/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 5.9.2024; AgRg no RHC n. 179.378/SP, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe de 4.9.2024; AgRg no HC n. 867.178/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 27.8.2024; AgRg no HC n. 881.822/SC, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 3.7.2024; AgRg no RHC n. 185.973/PR, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 18.4.2024; AgRg no HC n. 811.161/SC, Rel. Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, DJe de 23.8.2023; AgRg no AREsp n. 2.258.620/RS, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Sexta Turma, DJe de 15/12/2023; AgRg no HC n. 744.150/SP, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 9.3.2023. Além disso, segundo entendimento sedimentado no julgamento do Tema Repetitivo n. 1.205, "a restituição imediata e integral do bem furtado não constitui, por si só, motivo suficiente para a incidência do princípio da insignificância". Por fim, inexistente laudo de avaliação, torna-se impossível verificar se os bens furtados eram de pequena monta, requisito indispensável para a aferição da expressividade ou não da lesão jurídica provocada e, consequentemente, para a aplicação do princípio da insignificância (AgRg no HC n. 899.516/SC, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 10.6.2024; AgRg no HC n. 924.446/SC, Rel. Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe de 12.9.2024). Nessa linha, o julgado impugnado não diverge da jurisprudência do STJ, no tocante à aplicação do princípio da insignificância, porque o valor do bem ultrapassa 10% do salário mínimo e foi demonstrada a contumácia na prática de crimes patrimoniais. Por outro, para modificar o entendimento do tribunal de origem sobre o valor da res furtiva seria necessário o revolvimento fático-probatório, inviável na via estreita do Habeas Corpus. Conclui-se, assim, que no caso em análise não há manifesta ilegalidade a ensejar a concessão da ordem de ofício. Ante o exposto, com fundamento no art. 21-E, IV, c/c o art. 210, ambos do RISTJ, indefiro liminarmente o presente Habeas Corpus. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA