AREsp 3130151 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento ao recurso especial porque, no caso concreto, a res furtiva foi avaliada em R$ 798,00, valor superior a 10% do salário mínimo vigente à época (2019 - R$ 998,00), e as circunstâncias fáticas (substituição e venda das lâminas da vítima, comportamento audacioso) afastam a...
Source-derived case information.
- Parties
- Recorrente: VOLNEI REHBEIN; Interveniente: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 06 April 2026
- Procedural Posture
- Agravo / Decisão Sobre Inadmissão De Recurso Especial
- Outcome
- conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Atipicidade Material, Inadmissão De Recurso Especial, Valor Do Salário Mínimo Como Parâmetro Para Dano Patrimonial
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
VOLNEI REHBEIN
Recorrente
Ministério Público Federal
Interveniente
Procedural Posture
Agravo / Decisão Sobre Inadmissão De Recurso Especial
Legal Issues
- 1 aplicabilidade do princípio da insignificância ao caso concreto
- 2 violação do artigo 386, III, do Código de Processo Penal
- 3 relevância do valor do bem subtraído em relação a 10% do salário mínimo vigente à época
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e negou-se provimento ao recurso especial porque, no caso concreto, a res furtiva foi avaliada em R$ 798,00, valor superior a 10% do salário mínimo vigente à época (2019 - R$ 998,00), e as circunstâncias fáticas (substituição e venda das lâminas da vítima, comportamento audacioso) afastam a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade exigidos para aplicação do princípio da insignificância, não sendo suficiente a restituição para tornar o fato atípico.
Court Disposition
conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial
Orders
- Publique-se.
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto por VOLNEI REHBEIN contra decisão proferida pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que não admitiu o recurso especial manejado com apoio no artigo 105, III, "a", da Constituição da República. Nas razões recursais, aduz a defesa violação do artigo 386, III, do Código de Processo Penal. Alega que deve ser reconhecida a atipicidade material da conduta pela aplicação do princípio da insignificância, por inexpressividade da lesão jurídica e desproporção da resposta penal; sustenta que "o bem sequer passou por avaliação, de modo que não há como precisar o valor do suposto prejuízo suportado pela vítima" e que, mesmo havendo avaliação indireta, o valor seria pouco superior ao parâmetro de 10% do salário mínimo, o que admite flexibilização conforme as circunstâncias do caso (primariedade, ausência de violência e reduzida reprovabilidade) (e-STJ, fls. 100-105). Requer o provimento do recurso para que seja reformado o acórdão recorrido, com a absolvição nos termos do artigo 386, III, do CPP. Contrarrazões às fls. 107-114 (e-STJ). O recurso foi inadmitido (e-STJ, fls. 115-117). Daí este agravo (e-STJ, fls. 119-123). O Ministério Público Federal opina pelo improvimento do recurso (e-STJ, fls. 145-149). É o relatório. Decido. A irresignação não merece prosperar. Consta que o recorrente foi condenado como incurso nas penas do artigo 168, caput, c.c. artigo 155, §2º, na forma do artigo 170, todos do Código Penal, a 4 meses de reclusão, no regime inicial aberto, e pagamento de 10 dias-multa, substituída a pena privativa de liberdade por prestação pecuniária no valor de um salário mínimo. O "princípio da insignificância - que deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal - tem o sentido de excluir ou de afastar a própria tipicidade penal, examinada na perspectiva de seu caráter material. .. Tal postulado - que considera necessária, na aferição do relevo material da tipicidade penal, a presença de certos vetores, tais como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada - apoiou-se, em seu processo de formulação teórica, no reconhecimento de que o caráter subsidiário do sistema penal reclama e impõe, em função dos próprios objetivos por ele visados, a intervenção mínima do Poder Público". (STF, HC 84.412/SP, Rel. Ministro CELSO DE MELLO, SEGUNDA TURMA, DJ 19/11/2004). Vale dizer, não basta à caracterização da tipicidade penal a adequação pura e simples do fato à norma abstrata, pois, além dessa correspondência formal, é necessário o exame materialmente valorativo das circunstâncias do caso concreto, a fim de se evidenciar a ocorrência de lesão grave e penalmente relevante ao bem em questão. Assim, além dos pressupostos objetivos, idealizados pelo Pretório Excelso, deve estar presente também o requisito subjetivo, indicativo de que o réu não poderá ser um criminoso habitual. O Tribunal a quo não aplicou o princípio da insignificância, pois "o fato não é penalmente irrelevante, porque além do interesse do ofendido em reaver o bem, a res furtivae também era de alto valor agregado, estimada em R$ 798,00, conforme auto de avaliação indireta, quantia superior a 10% do salário mínimo vigente à época do fato (2019 - R$ 998,00), acima do patamar jurisprudencial, portanto" (e-STJ, fls. 92-93). No caso, a aplicação do princípio da insignificância não seria medida socialmente recomendável, pois verifica-se dos autos que o recorrente, de forma audaciosa, solicitou à vítima uma grade de disco hidráulica, substituiu as lâminas quebradas de seu equipamento por lâminas pertencentes à vítima e, em seguida, vendeu o objeto. Ademais, o valor da res corresponde a mais de 10% (dez por cento) do salário mínimo vigente à época. Tais circunstâncias, decerto, obstam o imediato reconhecimento da atipicidade material, por não restarem demonstradas as exigidas: mínima ofensividade da conduta e ausência de periculosidade social da ação, bem como em razão do expressivo valor do bem subtraído. Nesse sentido: "AGRAVO REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ESTELIONATO. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO POR ATIPICIDADE DA CONDUTA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO INCIDÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. É inviável o reconhecimento da atipicidade material da conduta, haja vista que o valor do ilícito representa cerca de 21,53% do salário mínimo vigente à época dos fatos. 2. A jurisprudência desta Corte Superior entende que, "se o valor do bem furtado era equivalente a mais de 10% do valor do salário mínimo vigente à época dos fatos, não se pode considerá-lo como inexpressivo" (AgRg no AREsp n. 1.839.868/TO, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 20/9/2022, DJe de 6/10/2022). 3. O ressarcimento da vítima antes do recebimento da denúncia pode gerar a incidência da causa de diminuição do art. 16 do CP, mas não é o bastante para tornar o fato atípico. 4. Agravo regimental não provido." (AgRg nos EDcl no AREsp n. 3.076.951/RS, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 10/2/2026, DJEN de 20/2/2026.) "AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. CRIME DE FURTO QUALIFICADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. NÃO INCIDÊNCIA. VALOR DO BEM SUBTRAÍDO ACIMA DE 10% DO SALÁRIO MÍNIMO À ÉPOCA DOS FATOS. CONCURSO DE PESSOAS. RESTITUIÇÃO. NÃO OBRIGATORIEDADE DE APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO. RECURSO DESPROVIDO. 1. Consoante entendimento da Suprema Corte, são requisitos para aplicação do princípio da insignificância: a mínima ofensividade da conduta, a ausência de periculosidade social na ação, o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento e a inexpressividade da lesão jurídica provocada. 2. A jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça, para aferir a relevância do dano patrimonial, leva em consideração o salário mínimo vigente à época dos fatos, considerando irrisório o valor inferior a 10% do salário mínimo, independentemente da condição financeira da vítima No caso dos autos, além de os ora agravantes terem praticado o crime mediante o concurso de agentes, o que afasta o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento, o furto foi praticado no dia 16/5/2021, quando o salário mínimo estava fixado em R$ 1.100,00 (mil e cem reais). Nesse contexto, seguindo a orientação jurisprudencial desta Corte, a res furtiva, avaliada em R$ 200,00 (duzentos reais), não pode ser considerada de valor ínfimo, por superar 10% do salário mínimo vigente à época dos fatos. 3. A restituição dos bens subtraídos não conduz, necessariamente, à incidência do princípio da insignificância. Precedentes. 4. Agravo regimental desprovido." (AgRg no HC n. 811.618/MS, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 2/10/2023, DJe de 4/10/2023, grifou-se.) Ante o exposto, com fundamento no art. 253, parágrafo único, II, "b", do RISTJ, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se. EMENTA