HC 1091087 - DECISAO
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de GILMAR DO NASCIMENTO ALCÂNTARA contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina (Apelação Criminal n. 5038792-02.2022.8.24.0008/SC). Consta dos autos que o paciente foi denunciado pela suposta prática do crime de furto simples (art. 155, caput,...
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- Parties
- Paciente: GILMAR DO NASCIMENTO ALCÂNTARA; Apelante: Ministério Público; Impetrante: Defesa
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 April 2026
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática De Relator (não Conheço Do Hc; Ordem Concedida De Ofício Para Restabelecer Sentença Absolutória)
- Legal Topics
- Princípio Da Insignificância, Furto Simples, Atipicidade Material, Reincidência, Trancamento De Ação Penal
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Parties
GILMAR DO NASCIMENTO ALCÂNTARA
Paciente
Ministério Público
Apelante
Defesa
Impetrante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática De Relator (não Conheço Do Hc; Ordem Concedida De Ofício Para Restabelecer Sentença Absolutória)
Legal Issues
- 1 Aplicabilidade do princípio da insignificância em furto de pequeno valor
- 2 Efeito da reincidência e dos maus antecedentes sobre a incidência da insignificância
- 3 Possibilidade de concessão de ofício da ordem em habeas corpus mesmo quando não é via recursal adequada
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado em favor de GILMAR DO NASCIMENTO ALCÂNTARA contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina (Apelação Criminal n. 5038792-02.2022.8.24.0008/SC). Consta dos autos que o paciente foi denunciado pela suposta prática do crime de furto simples (art. 155, caput, do Código Penal), por fatos ocorridos em 14/7/2022, envolvendo a subtração de mercadorias (bebidas e itens de alimentação) avaliadas em R$ 120,76 (valor inferior a 10% do salário mínimo à época dos fatos ). O Juízo de primeiro grau absolveu sumariamente o paciente, com fundamento no art. 397, III, do Código de Processo Penal, ao reconhecer a atipicidade material da conduta pela incidência do princípio da insignificância, decisão proferida em 06/03/2024 (e-STJ fls. 19/20). O Ministério Público interpôs apelação criminal, visando à reforma da sentença absolutória. O Tribunal de Justiça deu provimento ao recurso para cassar a absolvição sumária e determinar o prosseguimento da ação penal, assentando, em síntese, que não estariam preenchidos os requisitos para a aplicação do princípio da insignificância, com destaque para a habitualidade delitiva, o valor próximo ao limite de pequeno valor em relação ao salário mínimo da época, e a natureza dos bens subtraídos, além de registrar julgados pertinentes (e-STJ fls. 8/12). No presente writ, a defesa alega constrangimento ilegal decorrente do prosseguimento da ação penal por fato materialmente atípico. Sustenta que o valor da res furtiva é irrisório, que não houve violência ou grave ameaça, e que os bens foram restituídos, de modo a preencher os vetores jurisprudenciais do princípio da insignificância. Aduz que a reincidência e os maus antecedentes, por si sós, não afastam a aplicação da bagatela, devendo prevalecer a análise objetiva do fato. Afirma, ainda, que o paciente é portador de diabetes mellitus tipo 1, circunstância que justificaria prioridade de tramitação. Requer a concessão de medida liminar para suspender o andamento da Ação Penal n. 5038792-02.2022.8.24.0008, até o julgamento final do habeas corpus. Pugna pela concessão da ordem para trancar a ação penal, reconhecendo-se a atipicidade material da conduta, com fulcro no art. 386, III, do Código de Processo Penal. Pleiteia a gratuidade de justiça. Subsidiariamente, requer o trancamento da ação por ausência de justa causa (e-STJ fls. 2/7). É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, seguindo o entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, como forma de racionalizar o emprego do habeas corpus e prestigiar o sistema recursal, não admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Cumpre analisar, contudo, em cada caso, a existência de ameaça ou coação à liberdade de locomoção do paciente, em razão de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia na decisão impugnada, a ensejar a concessão da ordem de ofício. Na espécie, embora a impetrante não tenha adotado a via processual adequada, para que não haja prejuízo à defesa do paciente, passo à análise da pretensão formulada na inicial, a fim de verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. Acerca do rito a ser adotado para o julgamento desta impetração, as disposições previstas nos arts. 64, III, e 202, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforme com súmula ou com a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores ou a contraria (AgRg no HC 513.993/RJ, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe 01/7/2019; AgRg no HC n. 475.293/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 3/12/2018; AgRg no HC n. 499.838/SP, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/04/2019, DJe 22/04/2019; AgRg no HC n. 426.703/SP, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018 e AgRg no RHC n. 37.622/RN, Relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n.45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC n. 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC n. 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). Possível, assim, a análise do mérito da impetração, já nesta oportunidade. Busca-se, no caso, seja restabelecida a senteça absolutória, tendo em vista a aplicação do princípio da insignificância. De fato, a lei penal não deve ser invocada para atuar em hipóteses desprovidas de significação social, razão pela qual os princípios da insignificância e da intervenção mínima surgem para atuar como instrumentos de interpretação restrita do tipo penal. Entretanto, a ideia não pode ser aceita sem restrições, sob pena de o Estado dar margem a situações de perigo, na medida em que qualquer cidadão poderia se valer de tal princípio para justificar a prática de pequenos ilícitos, incentivando, por certo, condutas que atentem contra a ordem social. Assim, o princípio da insignificância deve ser analisado em conexão com os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal, no sentido de excluir ou afastar a própria tipicidade penal, observando-se a presença de "certos vetores, como (a) a mínima ofensividade da conduta do agente, (b) a nenhuma periculosidade social da ação, (c) o reduzidíssimo grau de reprovabilidade do comportamento e (d) a inexpressividade da lesão jurídica provocada" (HC n. 98.152/MG, Relator Ministro CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe 5/6/2009). Salienta-se que, quanto ao tema, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao examinar, conjuntamente, o HC n. 123.108/MG, o HC n. 123.533/SP e o HC n. 123.734/MG, todos de relatoria do Ministro ROBERTO BARROSO, definiu que a incidência do princípio da insignificância deve ser feita caso a caso (Informativo n.º 793/STF). Nessa linha, a Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EREsp n. º 221.999/RS, de minha relatoria, DJe 10/12/2015, estabeleceu que a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, a verificação que a medida é socialmente recomendável, como no presente caso. Precedentes: AgRg no REsp n. 1.739.282/MG,Relator Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, Quinta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 24/8/2018; AgRg no HC n. 439.368/SC, Relator Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 14/8/2018, DJe 22/8/2018; AgRg no AREsp n. 1.260.173/DF, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 7/8/2018, DJe 15/8/2018; AgRg no HC n. 429.890/MS, Relator Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, Quinta Turma, julgado em 3/4/2018, DJe 12/4/2018. Na hipótese em análise, como se viu, retrata situação que atrai a incidência excepcional do princípio da insignificância, uma vez que, mesmo o acusado possuindo maus antecedentes e sendo reincidente em crimes patrimoniais, diante das circunstâncias dos delitos (furto simples de bebidas e itens de alimentação em valor inferior a 10% do salário mínimo), a restituição dos bens subtraídos, e a ausência de qualquer ato mais grave configuram a mínima ofensividade e o reduzido grau de reprovabilidade do comportamento da envolvida. Nesse sentido: PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. CONCESSÃO DA ORDEM DE OFÍCIO. FURTO TENTADO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. REINCIDÊNCIA E VALOR SUPERIOR A 10% DO SALÁRIO MÍNIMO. EXCEPCIONALIDADE DO CASO CONCRETO. VETORES DO HC 84.412/STF ATENDIDOS. RESTITUIÇÃO DO BEM. TEMA 1.205. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Embora incabível o habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio, admite-se a concessão de ofício diante de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia. Decisão agravada que, reconsiderando o indeferimento liminar, deixou de conhecer da impetração, mas concedeu a ordem de ofício para restabelecer a rejeição da denúncia, por aplicação do princípio da insignificância. 2. O princípio da insignificância, correlacionado à fragmentariedade e à intervenção mínima, demanda a verificação cumulativa dos vetores: mínima ofensividade, ausência de periculosidade social, ínfimo grau de reprovabilidade e inexpressividade da lesão (HC 84.412/SP, Rel. Min. Celso de Mello). 3. A reincidência e a superação do parâmetro objetivo de 10% do salário mínimo não constituem óbices intransponíveis, admitindo-se a aplicação excepcional da bagatela conforme as circunstâncias do caso, quando evidenciados reduzido desvalor da ação e do resultado. Precedentes do STJ e do STF. 4. A restituição imediata e integral do bem não justifica, por si só, a atipicidade material (Tema 1.205, REsp 2.062.375/AL), podendo, contudo, ser considerada em conjunto com os demais vetores, como na espécie (furto tentado, sem violência ou grave ameaça, res furtiva de pequeno valor e reduzida lesividade). 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no AgRg no HC n. 1.000.817/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 14/10/2025, DJEN de 21/10/2025.) DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. FURTO QUALIFICADO. REINCIDÊNCIA. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. APLICABILIDADE. POSSIBILIDADE. ATIPICIDADE RECONHECIDA. AGRAVO DESPROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto contra decisão que negou provimento ao recurso especial, mantendo o acórdão do Tribunal de origem que reconheceu a atipicidade material da conduta do acusado, com base no princípio da insignificância. II. Questão em discussão 2. A questão em discussão consiste em saber se a reincidência do agravante impede a aplicação do princípio da insignificância em caso de furto qualificado de bem de pequeno valor. III. Razões de decidir 3. A aplicação do princípio da insignificância deve ser analisada caso a caso, considerando os postulados da fragmentariedade e da intervenção mínima do Estado em matéria penal. 4. A conduta do agravante possui mínima ofensividade, nenhuma periculosidade social, reduzido grau de reprovabilidade e inexpressividade da lesão jurídica, justificando a aplicação do princípio da insignificância. 5. A jurisprudência admite a aplicação do princípio da insignificância mesmo em casos de reincidência, quando presentes circunstâncias que recomendem a medida. IV. Dispositivo e tese 6. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. A reincidência não impede a aplicação do princípio da insignificância quando a conduta possui mínima ofensividade e inexpressividade da lesão jurídica. Dispositivos relevantes citados: CPP, art. 386, III. Jurisprudência relevante citada: STF, precedentes sobre o princípio da insignificância. (AgRg no REsp n. 2.149.285/RJ, relator Ministro Carlos Cini Marchionatti (Desembargador Convocado TJRS), Quinta Turma, julgado em 2/9/2025, DJEN de 8/9/2025.) Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. No entanto, concedo a ordem, de ofício, a fim de restabelecer a sentença absolutória em favor do paciente (autos n. 5038792-02.2022.8.24.0008, 1ª Vara Criminal de Blumeau/SC). Comunique-se. Intimem-se. EMENTA