HC 692680 - DECISAO
Embora o juiz de primeira instância tenha fundamentado a prisão preventiva em elementos concretos (violência na subtração e reconhecimento pela vítima), o Tribunal concluiu que, em juízo de proporcionalidade e diante da emergência de saúde pública (Covid-19) e da possibilidade de aplicação das medidas previstas no...
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- Parties
- Paciente: NILTON ESPINOLA MARQUES
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 04 October 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Concessiva (ratificação De Liminar E Concessão Da Ordem)
- Outcome
- Ordem concedida; ratificada a liminar e substituída a prisão preventiva por medidas cautelares diversas da prisão.
- Legal Topics
- Prisão Preventiva, Medidas Cautelares, Habeas Corpus, Proporcionalidade, Pandemia E Execuções Penais
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Parties
NILTON ESPINOLA MARQUES
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Concessiva (ratificação De Liminar E Concessão Da Ordem)
Legal Issues
- 1 existência dos requisitos legais para prisão preventiva (art. 312 do CPP) versus possibilidade de aplicação de medidas cautelares diversas da prisão (art. 319 do CPP)
- 2 compatibilidade da prisão preventiva com a presunção de inocência
- 3 impacto da emergência de saúde pública (Covid-19) na custódia provisória
Ratio Decidendi
Embora o juiz de primeira instância tenha fundamentado a prisão preventiva em elementos concretos (violência na subtração e reconhecimento pela vítima), o Tribunal concluiu que, em juízo de proporcionalidade e diante da emergência de saúde pública (Covid-19) e da possibilidade de aplicação das medidas previstas no art. 319 do CPP, a manutenção da prisão preventiva não se mostra necessária, sendo adequada a substituição pela imposição de medidas cautelares menos gravosas (proibição de ausentar-se da comarca e recolhimento domiciliar noturno).
Court Disposition
Ordem concedida; ratificada a liminar e substituída a prisão preventiva por medidas cautelares diversas da prisão.
Orders
- Substituição da prisão preventiva pelas medidas cautelares previstas no art. 319, IV e V, do CPP: proibição de se ausentar da comarca sem prévia autorização judicial
- recolhimento domiciliar no período noturno, com horários a serem estabelecidos pelo Juiz, sem prejuízo de outras medidas que o Juízo natural entender cabíveis e de nova decretação da prisão preventiva se demonstrada sua necessidade
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO NILTON ESPINOLA MARQUES alega sofrer coação ilegal, em decorrência de acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, que manteve a sua prisão preventiva. A defesa pretende a soltura do paciente - preso preventivamente pelo crime de roubo - sob o argumento de ausência do preenchimento dos requisitos da constrição processual. Deferida a liminar (fls. 311-314) e dispensadas as informações, foram os autos ao Ministério Público Federal, que se manifestou pela concessão da ordem (fls. 320-324). Decido. O Juiz de Direito decretou a preventiva nos seguintes termos (fl. 86): .. Analisando os autos, entendo que estão presentes os requisitos do art. 312 do Código de Processo Penal, em relação ao flagrado, pois, embora primário, o crime foi cometido com violência e grave ameaça contra a vítima, que foi empurrada durante a subtração. Ademais, esta reconheceu Nilton na Delegacia de Polícia, conforme se observa pelo auto de reconhecimento por fotografia que instrui o presente auto de prisão em flagrante. .. O referido ato criminoso foi descrito na denúncia nos seguintes termos (fl. 146): .. No dia 08de julho de 2021, em horário incerto, em local não perfeitamente esclarecido, mas, aproximadamente, na Rua Jorge Lacerda, nº 185,nesta Cidade, o denunciado, NILTON ESPINDOLA MARQUES, subtraiu, para si ou para outrem, mediante violência à pessoa, coisa alheia móvel, correspondente a 01 (uma) carteira, 01 (um) cartão bancário de nome Clarinio Eduardo R. Fonseca, e a quantia de R$ 82,30(oitenta e dois reais e trinta centavos), pertencentes à vítima Maria Inês Sperb da Costa, conforme Boletim de Ocorrência nº 4970/2021/100521. Na ocasião, o denunciado abordou a vítima no endereço supracitado e puxou os fones de ouvido e empurrou-a, momento que pegou a carteira da vítima. Ato contínuo, o denunciado se evadiu do local, oportunidade em que a vítima gritou e um popular perseguiu o denunciado. Minutos após, este popular entregou a carteira à vítima. A guarnição da Brigada Militar se deslocou até a Avenida Rubem Berta, nº 429, Bairro Centro, nesta Cidade, e visualizou o denunciado contido por populares. .. A prisão preventiva é compatível com a presunção de não culpabilidade do acusado desde que não assuma natureza de antecipação da pena e não decorra, automaticamente, da natureza abstrata do crime ou do ato processual praticado (art. 313, § 2º, CPP). Além disso, a decisão judicial deve apoiar-se em motivos e fundamentos concretos, relativos a fatos novos ou contemporâneos, dos quais se possa extrair o perigo que a liberdade plena do investigado ou réu representa para os meios ou os fins do processo penal (arts. 312 e 315 do CPP). A seu turno, a custódia provisória somente se sustenta quando, presentes os requisitos constantes do art. 312 do CPP, se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares diversas da prisão. Na espécie, verifico que o Magistrado de primeiro grau embasou sua decisão em elemento concreto e idôneo, ao salientar que a vítima foi empurrada durante a subtração. Conquanto as circunstâncias mencionadas pelo Juízo singular revelem a necessidade de algum acautelamento da ordem pública, entendo que não se mostram tais razões bastantes, em juízo de proporcionalidade, para manter a paciente sob o rigor da cautela pessoal mais extremada, mormente em razão de ser primário, a crise mundial do coronavírus e, especialmente, a gravidade do quadro nacional, demandarem um olhar um pouco mais flexível no exame de pleitos deste jaez. Deveras, embora presentes motivos ou requisitos que tornariam cabível a custódia preventiva, é plenamente possível que a autoridade judiciária - à luz do princípio da proporcionalidade, das novas alternativas fornecidas pela Lei n. 12.403/2011 e do necessário enfrentamento da emergência atual de saúde pública - considere a opção por uma ou mais das providências indicadas no art. 319 do Código de Processo Penal o meio bastante e cabível para obter o mesmo resultado - a proteção do bem jurídico sob ameaça - de forma menos gravosa. A excepcionalidade momentânea impõe intervenções e atitudes mais ousadas das autoridades, inclusive do Poder Judiciário. Assim, reputo que, na atual situação, salvo necessidade inarredável da segregação preventiva - sobretudo casos de crimes cometidos com violência -, a envolver acusado de especial e evidente periculosidade ou que se comporte de modo a, claramente, denotar risco de fuga ou de destruição de provas e/ou ameaça a testemunhas, o exame da necessidade da manutenção da medida mais gravosa deve ser feito com outro olhar. A prisão ante tempus é o último recurso a ser utilizado neste momento de adversidade, com notícia de suspensão de visitas e isolamentos de internos, de forma a preservar a saúde de todos. Esse pensamento, aliás, está em conformidade com a recente Recomendação n. 62/2020 do CNJ, que prescreve: .. CONSIDERANDO a declaração pública de situação de pandemia em relação ao novo coronavírus pela Organização Mundial da Saúde - OMS, em 11 de março de 2020, assim como a Declaração de Emergência em Saúde Pública de Importância Internacional da Organização Mundial da Saúde, em 30 de janeiro de 2020, da mesma OMS, a Declaração de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional - ESPIN veiculada pela Portaria n. 188/GM/MS, em 4 de fevereiro de 2020, e o previsto na Lei n. 13.979, de 6 de fevereiro de 2020, que dispõe sobre as medidas para enfrentamento da emergência de saúde pública de importância internacional decorrente do novo coronavírus; .. CONSIDERANDO que a manutenção da saúde das pessoas privadas de liberdade é essencial à garantia da saúde coletiva e que um cenário de contaminação em grande escala nos sistemas prisional e socioeducativo produz impactos significativos para a segurança e a saúde pública de toda a população, extrapolando os limites internos dos estabelecimentos; CONSIDERANDO a necessidade de estabelecer procedimentos e regras para fins de prevenção à infecção e à propagação do novo coronavírus particularmente em espaços de confinamento, de modo a reduzir os riscos epidemiológicos de transmissão do vírus e preservar a saúde de agentes públicos, pessoas privadas de liberdade e visitantes, evitando-se contaminações de grande escala que possam sobrecarregar o sistema público de saúde; CONSIDERANDO o alto índice de transmissibilidade do novo coronavírus e o agravamento significativo do risco de contágio em estabelecimentos prisionais e socioeducativos, tendo em vista fatores como a aglomeração de pessoas, a insalubridade dessas unidades, as dificuldades para garantia da observância dos procedimentos mínimos de higiene e isolamento rápido dos indivíduos sintomáticos, insuficiência de equipes de saúde, entre outros, características inerentes ao "estado de coisas inconstitucional" do sistema penitenciário brasileiro reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 347; CONSIDERANDO a obrigação do Estado brasileiro de assegurar o atendimento preventivo e curativo em saúde para pessoas privadas de liberdade, compreendendo os direitos de serem informadas permanentemente sobre o seu estado de saúde, assistência à família, tratamento de saúde gratuito, bem como o pleno respeito à dignidade, aos direitos humanos e às suas liberdades fundamentais, nos termos da Constituição Federal de 1988, do artigo 14 da Lei de Execução Penal - LEP - Lei n. 7.210, de 11 de julho de 1984, do Decreto n. 7.508, de 28 de junho de 2011, da Portaria Interministerial n. 1, de 2 de janeiro de 2014 - PNAISP, do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990, do artigo 60, da Lei do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo - SINASE - Lei n. 12.594, de 18 de janeiro de 2012, da Portaria do Ministério da Saúde n. 1.082, de 23 de maio de 2014 - PNAISARI, além de compromissos internacionalmente assumidos; .. RESOLVE: Art. 1º. Recomendar aos Tribunais e magistrados a adoção de medidas preventivas à propagação da infecção pelo novo coronavírus - Covid-19 no âmbito dos estabelecimentos do sistema prisional e do sistema socioeducativo. Parágrafo único. As recomendações têm como finalidades específicas: I - a proteção da vida e da saúde das pessoas privadas de liberdade, dos magistrados, e de todos os servidores e agentes públicos que integram o sistema de justiça penal, prisional e socioeducativo, sobretudo daqueles que integram o grupo de risco, tais como idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas, imunossupressoras, respiratórias e outras comorbidades preexistentes que possam conduzir a um agravamento do estado geral de saúde a partir do contágio, com especial atenção para diabetes, tuberculose, doenças renais, HIV e coinfecções;II - redução dos fatores de propagação do vírus, pela adoção de medidas sanitárias, redução de aglomerações nas unidades judiciárias, prisionais e socioeducativas, e restrição às interações físicas na realização de atos processuais; e III - garantia da continuidade da prestação jurisdicional, observando-se os direitos e garantias individuais e o devido processo legal. .. Art. 4º. Recomendar aos magistrados com competência para a fase de conhecimento criminal que, com vistas à redução dos riscos epidemiológicos e em observância ao contexto local de disseminação do vírus, considerem as seguintes medidas: .. III - a máxima excepcionalidade de novas ordens de prisão preventiva, observado o protocolo das autoridades sanitárias. .. Apoiado nessas premissas, precipuamente em conformidade com os arts. 1º e 4º da Recomendação n. 62/2020 do CNJ - inclusive o conselho de "suspensão do dever de apresentação periódica ao juízo das pessoas em liberdade provisória" (art. 4º, II) -, constato ser suficiente e adequado, para atender às exigências cautelares do art. 282 do CPP, impor à ré - independentemente de mais acurada avaliação do Juízo monocrático - as providências alternativas positivadas no art. 319, IV e V, do CPP. À vista do exposto, ratificoa liminar e concedo a ordem, para substituir a prisão preventiva do paciente pelas seguintes medidas cautelares, com fulcro no art. 319, IV e V, do CPP: a) proibição de se ausentar da comarca sem prévia autorização judicial; e b) recolhimento domiciliar no período noturno, cujos horários serão estabelecidos pelo Juiz, sem prejuízo de outras medidas que o prudente arbítrio do Juízo natural da causa indicar cabíveis e adequadas, bem como de nova decretação da constrição preventiva se efetivamente demonstrada sua concreta necessidade. Publique-se e intimem-se.