RHC 211864 - DECISAO
Negou-se provimento porque o Tribunal entendeu não haver excesso de prazo nem ilegalidade na custódia: o processo tramita regularmente (audiência de instrução designada), a causa é complexa (conflito entre facções, homicídio qualificado), o prazo de 90 dias do art. 316/CPP não é peremptório e a gravidade dos fatos e...
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- Parties
- Recorrente: FRANCISCO RUAN DA SILVA ARAUJO; Impetrado: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO CEARÁ
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 June 2025
- Procedural Posture
- Recurso Ordinário Em Habeas Corpus / Julgamento De Mérito (recurso Conhecido E Negado Provimento)
- Outcome
- recurso conhecido e negado provimento
- Legal Topics
- Prisão Preventiva, Excesso De Prazo Na Formação Da Culpa, Revisão Da Custódia (art. 316, Parágrafo Único, Cpp), Organização Criminosa, Ordem Pública
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Parties
FRANCISCO RUAN DA SILVA ARAUJO
Recorrente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO CEARÁ
Impetrado
Procedural Posture
Recurso Ordinário Em Habeas Corpus / Julgamento De Mérito (recurso Conhecido E Negado Provimento)
Legal Issues
- 1 Excesso de prazo para formação da culpa
- 2 Descumprimento do prazo de 90 dias para revisão da custódia cautelar (art. 316, parágrafo único, CPP)
- 3 Necessidade da prisão preventiva para garantia da ordem pública e risco de reiteração delitiva
Ratio Decidendi
Negou-se provimento porque o Tribunal entendeu não haver excesso de prazo nem ilegalidade na custódia: o processo tramita regularmente (audiência de instrução designada), a causa é complexa (conflito entre facções, homicídio qualificado), o prazo de 90 dias do art. 316/CPP não é peremptório e a gravidade dos fatos e o risco de reiteração delitiva justificam a manutenção da prisão preventiva; a determinação de ofício para nova revisão da custódia foi adequada em substituição ao reconhecimento automático da nulidade.
Court Disposition
recurso conhecido e negado provimento
Orders
- Determino o conhecimento do recurso e nego-lhe provimento
- Determinação de ofício para que o juiz de primeira instância reavalie a custódia cautelar
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso ordinário em habeas corpus, com pedido de liminar, interposto por FRANCISCO RUAN DA SILVA ARAUJO contra o acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO CEARÁ que denegou a ordem pleiteada no HC n. 0620411-02.2025.8.06.000. Consta dos autos que o recorrente foi denunciado pela suposta prática do crime previsto no art. 121, § 2º, I e IV, c/c art. 29, do Código Penal. Sustenta o recorrente que é cabível o relaxamento de sua prisão preventiva, fundamentando-se no excesso de prazo na formação da culpa e na ausência de revisão da custódia no prazo legal de 90 (noventa) dias, conforme previsto no artigo 316, parágrafo único, do Código de Processo Penal. Alega a ocorrência de constrangimento ilegal na decisão do Tribunal a quo, que se limitou a determinar, de ofício, que o Magistrado de primeira instância reavaliasse a custódia cautelar, sem proceder à devida reparação da ilegalidade decorrente do excesso de prazo. Argumenta que a referida decisão contraria a orientação das Cortes Superiores e perpetua o constrangimento ilegal. Defende que a inobservância do prazo de 90 (noventa) dias para a revisão da prisão configura ilegalidade que deve ser corrigida com a imediata revogação da medida, e não apenas com a determinação para reavaliação posterior. Requer o provimento do recurso para conceder o relaxamento imediato da prisão preventiva, reconhecer o excesso de prazo na formação da culpa e a nulidade da decisão que determinou apenas a reavaliação da custódia. Pugna, ainda, pela imediata soltura do recorrente. O pedido liminar foi indeferido às fls. 80-82. Informações prestadas às fls. 90-96. O Ministério Público Federal manifestou-se, às fls. 99-106, opinando pelo não provimento do recurso. É o relatório. DECIDO. O recurso não comporta provimento. No caso, o Tribunal de origem assim se manifestou sobre o excesso de prazo e a revisão da prisão preventiva (fl.55): EMENTA: PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO. TESES DENULIDADE DA DECISÃO QUE MANTEVE A PRISÃOPREVENTIVA E EXCESSO DE PRAZO NA FORMAÇÃO DACULPA. REPETIÇÃO DE PEDIDOS. NÃO CONHECIMENTO. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE REVISÃO DA CUSTÓDIACAUTELAR DENTRO DO PRAZO DE 90 DIAS. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CONFIGURADO. HABEAS CORPUS PARCIALMENTE CONHECIDO EDENEGADO. DETERMINAÇÃO EXPEDIDA DE OFÍCIO. 1. As alegações de nulidade da decisão que manteve a custódia cautelar do agente e excesso de prazo na formação da culpa não merecem conhecimento quando já analisadas e decididas em habeas corpus anterior, configurando coisa julgada material, à míngua de fato novo a justificar a reiteração do pedido. 2. O transcurso do prazo previsto no parágrafo único do art. 316 do Código de Processo Penal não acarreta, automaticamente, a revogação da prisão preventiva e, consequentemente, a concessão de liberdade provisória. Por outro lado, é possível expedição de determinação à autoridade impetrada, de ofício, para que reavalie a custódia cautelar, conforme disposto no referenciado artigo. 3. Habeas Corpus parcialmente conhecido e denegado, com expedição de determinação de ofício. Dos excertos transcritos, concluo que, ao contrário do que alega a Defesa, não há excesso de prazo para formação de culpa, haja vista se tratar de processo complexo que envolve a ocorrência de homicídio qualificado decorrente de conflito de facções. Ademais, conforme se verifica no mérito do acórdão de origem e no próprio sítio eletrônico do TJCE, a audiência de instrução já foi designada para a oitiva das testemunhas arroladas, havendo, pois, trâmite regular do processo. Ademais, a jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, no que é seguida pela do Supremo Tribunal Federal, entende que, pelo menos, três fatores devem ser considerados ao analisar possível excesso de prazo: (a) a complexidade da causa, (b) a atividade processual dos intervenientes e (c) a diligência do Juízo na condução do Processo. Acrescente-se, ainda, que, consoante já decidiu o STJ, "o prazo para a conclusão da instrução criminal não tem as características de fatalidade e de improrrogabilidade, fazendo se imprescindível raciocinar com o juízo de razoabilidade para definir o excesso de prazo, não se ponderando a mera soma aritmética dos prazos para os atos processuais" (STJ, RHC 92442/AL, Rel. Min. Felix Fischer, 5ª Turma, julgamento em 06.03.2018, DJe 14.03.2018). Com efeito, "PROCESSO PENAL. HABEAS CORPUS. TRÁFICO ILÍCITO DE ENTORPECENTES. RÉU CONDENADO. REGIME FECHADO. EXCESSO DE PRAZO PARA JULGAMENTO DO RECURSO DE APELAÇÃO. INOCORRÊNCIA. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CARACTERIZADO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. 1. A lei processual não estabelece um prazo para o julgamento do recurso de apelação criminal, que deve ser analisado à luz do princípio da razoabilidade, a fim de se verificar a ocorrência ou não de constrangimento ilegal. 2. No caso em questão, surgiram algumas intercorrências processuais, como o retorno dos autos para o juízo de origem para cumprimento de diligências, o que tornou a marcha natural do julgamento menos dinâmica (e-STJ, fls. 40-41). Trata-se, ainda, de feito complexo, na medida em que a ação penal possui 5 (cinco) réus, assistidos por defensores distintos. Desde a interposição do recurso de Apelação, em 2/8/2017, até a presente momento, não se observa ilegalidade apta a ser sanada por esta Corte Superior. 3. Não há se falar em desídia por parte do Poder Judiciário ou demora injustificada no andamento do feito. 4. Habeas corpus não conhecido." (HC 460.557/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 16/10/2018, DJe 23/10/2018) (grifamos). 3. Encontrando-se os autos em devida marcha processual e não sendo o lapso temporal considerável, inviável o reconhecimento do excesso de prazo para o julgamento do pleito revisional. 4. Agravo regimental improvido." (AgRg no HC 439.990/MA, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, julgado em 21/08/2018, DJe 03/09/2018) . Em relação ao prazo de revisão da prisão preventiva de 90 dias, em conformidade com o art. 316, parágrafo único do CPP, não há caráter peremptório. Destarte, a eventual falta de revisão na titularidade anterior não é peremptória, conforme remansosa jurisprudência do STJ, inclusive citada na Edição n. 184: Do Pacote Anticrime, publicada em 19/11/2021, verbis: "5) O prazo de 90 dias previsto no parágrafo único do art. 316 do CPP para revisão da prisão preventiva não é peremptório, de modo que eventual atraso na execução do ato não implica reconhecimento automático da ilegalidade da prisão, tampouco a imediata colocação do custodiado cautelar em liberdade". AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. WRIT NÃO CONHECIDO. QUESTÃO NÃO ANALISADA PELO TRIBUNAL A QUO. OMISSÃO DA DECISÃO MONOCRÁTICA AGRAVADA. INEXISTÊNCIA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. ART. 316, PARÁGRAFO ÚNICO, DO CPP. REVISÃO DA CUSTÓDIA CAUTELAR. 90 DIAS. PRAZO NÃO PEREMPTÓRIO. DESCUMPRIMENTO. ILEGALIDADE DA PRISÃO. NÃO RECONHECIMENTO. EXCESSO DE PRAZO. NÃO OCORRÊNCIA. PROPORCIONALIDADE. RAZOABILIDADE. AGRAVO DESPROVIDO 1. Não cabe habeas corpus para tratar de questão que não foi objeto de análise pelo Tribunal a quo, sob pena de indevida supressão de instância. 2. O prazo estabelecido no art. 316, parágrafo único, do CPP para revisão da custódia cautelar a cada 90 dias não é peremptório e eventual atraso na execução desse ato não implica reconhecimento automático da ilegalidade da prisão. 3. Os prazos processuais previstos na legislação brasileira devem ser analisados como um todo, pautados pela razoável duração do processo, de modo que o reconhecimento do excesso deve estar atrelado aos critérios da razoabilidade e proporcionalidade. 4. Agravo desprovido. (AgRg no HC 620.167/PI, Rel. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, QUINTA TURMA, julgado em 27/04/2021, DJe 29/04/2021) Por isso, agiu bem o Tribunal de origem em determinar ao juiz a quo a nova revisão da prisão preventiva, sem que isso fosse sinal de que houvesse qualquer ile galidade. Por outro lado, a prisão preventiva se fez necessária tendo em vista a especial reprovabilidade dos fatos, evidenciada a partir das circunstâncias da prática delitiva - crime de homicídio qualificado cometido com extrema violência, envolvendo a execução da vítima com diversos disparos direcionados a áreas vitais, como cabeça, pescoço e tórax, sem possibilidade de defesa. Isso foi demonstração e sinal do domínio de uma facção rival sobre a outra. Tal fato justifica a prisão processual do acusado, nos termos da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, como forma de resguardar a ordem pública, evitando, pois babáries desta mesma natureza. Exemplificativamente: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ORDEM DENEGADA. FALTA DE NOVOS ARGUMENTOS. HOMICÍDIO QUALIFICADO. PRISÃO PREVENTIVA. GRAVIDADE CONCRETA. EXCESSO DE PRAZO. PECULIARIDADES DA DEMANDA. PENA COMINADA. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1. É assente nesta Corte Superior que o regimental deve trazer novos argumentos capazes de infirmar a decisão agravada, sob pena de manutenção do decisum pelos próprios fundamentos. 2. O modus operandi do crime de homicídio qualificado, supostamente cometido mediante golpes de faca peixeira na vítima, por motivo fútil, após mera discussão em um bar, é bastante para evidenciar a gravidade concreta dos fatos e a acentuada periculosidade social do acusado, bem como para lastrear a medida cautelar mais onerosa, que lhe foi imposta. 3. A existência de ações penais em curso, por crimes violentos, e a prévia condenação definitiva por delito contra a vida, ao cumprimento de mais de 10 anos de reclusão, apontam o risco concreto de reiteração delitiva e são aptas, de acordo com a orientação desta Corte, para amparar o cárcere preventivo do réu. (..) 7. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 823.916/PE, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 15/4/2024, DJe de 18/4/2024; grifamos). PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO QUALIFICADO TENTADO. MOTIVO FÚTIL. PERIGO COMUM. PRISÃO PREVENTIVA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA. MODUS OPERANDI. GRAVIDADE EM CONCRETO DA CONDUTA. FUNDADO RISCO DE REITERAÇÃO DELITIVA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A teor art. 312 do Código de Processo Penal, a prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado. 2. No caso, está evidente a imprescindibilidade da mantença da prisão preventiva para garantia da ordem pública, diante das graves circunstâncias do caso concreto (modus operandi) e do fundado risco de reiteração delitiva. 3. O agravante, reincidente, teria tentado ceifar a vida da vítima, mediante golpes de faca na região da cabeça do ofendido, causando-lhe graves lesões, não se consumando o intento homicida por circunstâncias alheias a sua vontade. 4. A prisão preventiva também justifica-se diante do risco de reiteração delitiva, porquanto o agravante é reincidente. 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no HC n. 833.150/SP, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 7/5/2024, DJe de 10/5/2024; grifamos). Também, é importante salientar de que, no contexto de disputa territorial envolvendo a facção criminosa à qual supostamente pertencente o paciente, qual seja, o Comando Vermelho, os Tribunais Superiores entendem que apenas a prisão preventiva é o meio necessário para fazer cessar o ciclo criminoso no qual ele está inserido. Assim, "justifica-se a decretação da prisão preventiva de membros de organização criminosa, como forma de desarticular e interromper as atividades do grupo" (AgRg no HC n. 728.450/SP, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, DJe 18/08/2022). Portanto, EMENTA AGRAVO INTERNO EM HABEAS CORPUS. IDONEIDADE DA PRISÃO PREVENTIVA FUNDADA NA NECESSIDADE DE SE INTERROMPER A ATUAÇÃO DE ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA E NO RISCO DE REITERAÇÃO DELITIVA. HABEAS CORPUS INDEFERIDO. 1. Não há ilegalidade na prisão preventiva fundada na necessidade de se interromper a atuação de organização criminosa e no risco concreto de reiteração delitiva. 2. Agravo interno desprovido. (HC 213022 AgR, Relator(a): NUNES MARQUES, Segunda Turma, julgado em 23-05-2022, PROCESSO ELETRÔNICO D Je-107 DIVULG 01-06-2022 PUBLIC 02-06-2022). EMENTA AGRAVO INTERNO EM HABEAS CORPUS. IDONEIDADE DA PRISÃO PREVENTIVA. PARTICIPAÇÃO EM ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. HABEAS CORPUS INDEFERIDO. 1. Não há ilegalidade na prisão preventiva fundada na necessidade de se interromper a atuação de organização criminosa. 2. Agravo interno desprovido. (HC 216056 AgR, Relator(a): NUNES MARQUES, Segunda Turma, julgado em 22-08-2022, PROCESSO ELETRÔNICO D Je-174 DIVULG 31-08-2022 PUBLIC 01-09-2022). Desse modo, tendo sido concretamente demonstrada a necessidade da prisão preventiva nos autos, não se mostra suficiente a aplicação de medidas cautelares mais brandas, nos termos do art. 282, inciso II, do Código de Processo Penal. Outrossim, a suposta existência de condições pessoais favoráveis, por si só, não assegura a desconstituição da custódia antecipada, caso estejam presentes os requisitos autorizadores da custódia cautelar, como ocorre no caso. A propósito: AgRg no HC n. 894.821/MG, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 13/5/2024, DJe de 15/5/2024; AgRg no HC n. 850.531/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 13/11/2023, DJe de 17/11/2023. Ante o exposto, conheço do recurso e nego-lhe provimento. Publique-se. Intimem-se. EMENTA