AREsp 2680396 - DECISAO
Conheceu-se do agravo por ter sido rebatido o óbice apontado, mas não se conheceu do recurso especial porque não houve negativa de prestação jurisdicional (o Tribunal local examinou as provas) e, no mérito da matéria examinada, o acórdão local procedeu à despronúncia da recorrida por entender que a pronúncia de...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS; Recorrida: Walquíria
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 August 2024
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão Sobre Admissibilidade E Conhecimento Do Recurso Especial
- Outcome
- Conheço do agravo e não conheço do recurso especial.
- Legal Topics
- Pronúncia, In Dubio Pro Reo, In Dubio Pro Societate, Testemunho Indireto (hearsay), Súmula 83/stj, Artigo 155 Do CPP, Artigo 413 Do CPP, Artigo 1.042 Do CPC
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS
Agravante
Walquíria
Recorrida
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão Sobre Admissibilidade E Conhecimento Do Recurso Especial
Legal Issues
- 1 alegada negativa de prestação jurisdicional por omissão no acórdão
- 2 admissibilidade do testemunho indireto (ouvir dizer) como fundamento exclusivo para pronúncia
- 3 aplicabilidade do princípio in dubio pro societate na decisão de pronúncia
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo por ter sido rebatido o óbice apontado, mas não se conheceu do recurso especial porque não houve negativa de prestação jurisdicional (o Tribunal local examinou as provas) e, no mérito da matéria examinada, o acórdão local procedeu à despronúncia da recorrida por entender que a pronúncia de primeiro grau se baseou exclusivamente em depoimentos de ouvir dizer e em provas produzidas na fase policial (art. 155 do CPP), insuficientes para sustentar a pronúncia, em conformidade com a jurisprudência desta Corte e com o princípio in dubio pro reo, rejeitando-se a adoção do in dubio pro societate para suprir lacunas probatórias.
Court Disposition
Conheço do agravo e não conheço do recurso especial.
Orders
- Publique-se.
- Intime-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se, em apertada síntese, de agravo contra a v. decisão de fls. e-STJ 534-535, por meio da qual não foi admitido o recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS. O agravante sustenta que há negativa de prestação jurisdicional quando o Tribunal não se pronuncia sobre ponto ou questão sobre o qual devia, sendo o acórdão carente de fundamentação, pois ignorou que a vítima não confirmou seu depoimento em juízo porque não foi encontrada, apesar das inúmeras diligências do MP, o que resulta em uma das exceções para admissibilidade dotestemunho indireto trazida pelo direito norte americano. Precedentes: REsp n. 1.651.656/ES,de minha relatoria, Sexta Turma, DJe 26/4/2017 e REsp n. 2.012.033, pelo Ministro SebastiãoReis Júnior, DJe de 02/12/20222. Alega, ainda, que se a decisão combatida em sede de recurso especial não se encontra amparadaementendimento firmado em regime de repercussão geral ou em julgamento de recursos repetitivos, não há que falar em incidência da Súmula 83 desse STJ, por força do quedispõe oartigo 1.042 do Código de Processo Civil. O Ministério Público apresentou parecer, requerendo o provimento do recurso especial. É o relatório. Decido. O agravo em recurso especial é tempestivo e preenche os demais requisitos de admissibilidade. Além disso, o óbice aplicado foi devidamente rebatido, razão pela qual o agravo regimental deve ser conhecido. Passo ao exame do recurso especial, contudo, o recurso não merece ser conhecido. Inicialmente não há negativa de prestação jurisdicional, uma vez que o Tribunal local analisou todas as provas, inclusive o que foi produzido em inquérito. Cito trecho do voto dos embargos de declaração: "CONHEÇO dos Embargos de Declaração, porque próprios e tempestivos, mas, no MÉRITO, o rejeito de plano, porque entendo que não há no acórdão objeto da irresignação qualquer ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão. Em atento reexame do caso e dos fundamentos da decisão Colegiada, em confronto com as razões ora expostas, não visualizei qualquer das hipóteses legais suso mencionadas para que se possa acolher o pedido. Outrossim, não cuidou a Parte de demonstrá-las, mas apenas ventilar novamente matérias que já foram exaustivamente analisadas por esta Turma Julgadora, tratando-se de mera tentativa de reconsideração do entendimento a que se chegou, diante da insatisfação com o resultado e da discordância dos seus fundamentos. A pretensa omissão diz respeito, claramente, a tema já enfrentado de maneira explícita por esta Instância Revisora, que concluiu nos seguintes termos: "(..) não há qualquer prova judicializada que valide tais dizeres. Nesse mesmo sentido, as supostas interceptações citadas neste Relatório sequer foram pormenorizadas ou expostas, tratando-se de informação vaga, isolada e sem respaldo probatório". Não obstante a isso, restou enfatizado que: "Ninguém ouvido em juízo delineou a provável fonte de tais imputações, tampouco sabiam explicar, precisamente, o que ocorreu na data dos fatos". (..) Nada há, portanto, a se sanar, de modo que o inconformismo do embargante deve ser discutido em recurso próprio, pelas vias adequadas à reinterpretação dos fatos e do direito abordados nos presentes autos. De maisa mais, a função deste recurso é apenas esclarecer e não questionar o acerto ou desacerto da decisão, visando modificá-la na sua essência, o que não se justifica e nem tem amparo legal, mesmo que a título pré-questionatório." O acordão impugnado, despronunciou a recorrida, nos seguintes termos: "A materialidadedos delitos está consubstanciada por meio do Laudo de Vistoria em local de Homicídiotentado nº 0369/2014 (págs. 27/28, doc. único), Exame de Corpo de Delito (pág. 43, doc. único), Relatório de Serviço da Polícia Civil (págs. 80/81, doc. único) Contudo, a meu ver, não existem nos autos elementos deconvicção hábeis a demonstrarindícios mínimos de autoria da recorrente nas Tentativas deHomicídio, impondo-se, por conseguinte, a sua impronúncia. Senão, vejamosas provas produzidas na instrução. O Policial Militar Eder Vitor Donizete, em Audiência de Instrução e Julgamento (PJe Mídias), confirmou que chegouao local dos fatos e a vítima já era pessoa conhecida pela Polícia, sendo certo que ele afirmou que havia sido sua ex-esposa que teria mandado alguém esfaqueá-lo. Afirmou que depois destes fatos, ouviu falar que Walquíria possuía envolvimento com o Tráfico de Drogas; que os dois adolescentes foram conversar com o ofendido e passaram para a agressão. Disse que Walquíria negou os fatos a ela imputados; que o ofendido já era conhecido no meio policial por crimes contra o patrimônio e Tráfico de Drogas. A testemunha D.R.S., durante Audiência (PJe Mídias), explicou que na época dos fatos era menor de idade; que a versão exposta na Delegacia não é a verdadeira. Contou que naquela ocasião havia brigado com "Preto", sendo certo que ele o ameaçava; que não recebeu nenhuma ordem de Walquíria. Marcos Alexandre, testemunhaouvida em AIJ (Pagressores saíram correndo. Explicou que ligou para a Polícia e para os bombeiros; que o ofendido se revoltou com a chegada dos policiais. Contou que só ouviu boatos de que Walquíria poderia estar envolvida, que não se recorda do ofendido ter falado sobre ela. Relatou que o ofendido não possuía boa conduta. Explicou que de vez em quando ouvia os dois brigando. A vítima Flávio Eduardo Ribeiro, em juízo (Ppescoço de "Preto"", QUE soube isso através de comentários,QUE num certo dia foi até a casa de Valquíria, onde era frequentador, e ela própria disse que tinha pagando para "Douglinha" matar "Preto",QUE peloque sabe "Preto" se encontra preso pois tinha batidoem Walquíria; QUE prestou as declarações sem qualquer tipo de coage-o tanto física como mental. QUE diante das informações prestadas requerer sigilo, pois teme-por sua integridade física e de seus familiares.(..)" Emerge dos elementos informativosacostados aos autos, os quais serviram para embasar a Denúnciaoferecida pelo "Parquet", que supostamente Walquíria, por duas oportunidades, corrompeu dois adolescentes para matarem seu ex-marido, contudo em ambas as vezes, o homicídio não se concretizou por circunstâncias alheias à vontade dos adolescentes. Ainda, tem-se que os crimes teriam sido motivados diante de diversas desavenças entre os ex-cônjuges. Pois bem. Certo é que, em Sede Judicial, o Policial Militar Eder Vitor Donizete explicou que no dia dos fatos a vítima disse aos militares que sua ex-esposa poderia ser a responsável pelo atentado, sem, contudo, acrescentar qualquer motivação ou elemento para tanto. Ademais, o castrense asseverou que o ofendido era conhecido no meio policial pelo seu intenso envolvimento em crimes na região onde foi alvo da tentativa de homicídio, com foco no Tráfico de Drogas. Além disso, o adolescente, que supostamente atirou na vítimaem uma das oportunidades que estão em apuração, explicou em Audiência que não recebeu nenhuma ordem de Walquíria, afirmando que possuía brigas anteriores com a vítima. Neste ponto, friso que a única testemunha que presenciou os fatos, Sr. Marcos Alexandre, explicou que ouviu uma gritaria, e, por isso, foi até a rua, onde visualizou dois indivíduos brigando com o ofendido. Em relação a Walquíria, a testemunha disse que apenas "ouviu boatos" de que ela poderia estar envolvidana tentativa de homicídio. Outrossim, a vítima explicoudurante a Audiência de Instrução que não tem certeza algumade que Walquíria possuí envolvimentos nas tentativas de homicídio em seu desfavor, que apenas "ouviu dizer" de sua possível participação nos fatos. Ademais, é sabido que as provas orais produzidas durante o Inquérito Policial, por não se revestirem das garantias do Contraditório e da Ampla Defesa, não podem ser o único fundamento a embasar a condenaçãoou pronúnciada ré(artigo 155 do CPP). Neste ínterim, certo é que o depoimento prestado pela testemunha sigilosa, em fase policial, apontando a recorrentecomo autora do delito, não foi ratificado por prova testemunhal produzida em Juízo, sendo incabível servir como indícios de autoria e, por isso, são insuficientes a justificar a Pronúncia. Soma-se ainda que as informações prestadas pelos Investigadores daPolícia Civil, em Relatório de Serviço (págs. 80/81, doc. único), de que uma testemunha apontou Walquíria como autora dos crimes, parecem-me ligadas às informações prestadas pela testemunha sigilosa citada alhures, de forma que não há qualquer prova judicializada que valide tais dizeres. Nesse mesmo sentido, as supostas interceptações citadas neste Relatório sequer foram pormenorizadas ou expostas, tratando-se de informação vaga, isolada e sem respaldo probatório. Com base em todo o exposto acima, a meu ver, toda a "prova" coligida aos autos se dá devido à pretérita fama da existência de brigas entre o ex-casal, além de histórias que as testemunhas apenas "ouviram falar". Ninguém ouvido em juízo delineou a provável fonte de taisimputações, tampouco sabiamexplicar, precisamente, o que ocorreu na data dos fatos. Nota-se, portanto,que não existem indícios suficiêntesde autoria ou participação da ré nos crimes que lhe são imputados na denúncia, baseando-se a decisão de Pronúncia tão somente em informações indiretas, nas quais supostas testemunhas teriam "ouvido dizer" que essa seria a autora das Tentativas de Homicídio. Quanto à necessidade, na decisão de pronúncia, de que os indícios acostados aos autos sejam suficientes para comprovar a autoria, explica oProfessor Guilherme Nucci: (..) Frise-se ainda que, inclusive, o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do AgRg no HC 668.407/RS, de relatoria do Ministro Ribeiro Dantas, decidiu que o testemunho do "ouvir dizer"(hearsay) não é suficiente para fundamentar a decisão de pronúncia. Nesses contornos,entendo se mostrar abusiva e despropositada a manutenção da decisão que pronunciou aRecorrente, uma vez ausentes indíciossuficientes de autoria. " (grifos acrescidos) Do excerto transcrito, verifica-se que o v. acórdão quanto ao exame dos depoimentos indiretos como base exclusiva para manter a decisão de pronúncia está de acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, devendo incidir na espécie o enunciado sumular n º 83/STJ. A Constituição Federal consagra, como consectário da presunção de inocência (art. 5º, LVII), o in dubio pro reo. Destaco a existência de uma corrente crítica do princípio em discussão, cujo posicionamento é constitucionalmente mais adequado, a exemplo da recente decisão do Supremo Tribunal Federal no habeas corpus 227.328/PR, na qual o Ministro Gilmar Mendes consigna que: No processo penal, a dúvida sempre se resolve em favor do réu, de modo que é imprestável a resolução em favor da sociedade. / O suposto "princípio in dubio pro societate", invocado pelo Ministério Público local e pelo Tribunal de Justiça não encontra qualquer amparo constitucional ou legal e acarreta o completo desvirtuamento das premissas racionais de valoração da prova. Além de desenfocar o debate e não apresentar base normativa, o in dubio pro societate desvirtua por completo o sistema bifásico do procedimento do júri brasileiro com o total esvaziamento da função da decisão de pronúncia. Diante disso, afirma-se na doutrina que: "Ao se delimitar a análise do in dubio pro societate no espaço atual do direito brasileiro não há como sustentá-la por duas razões básicas: a primeira se dá pela absoluta ausência de previsão legal. Desse brocardo e, ainda, pela ausência de qualquer princípio ou regra orientadora que lhe confira suporte político-jurídico de modo a ensejar a sua aplicação; a segunda razão se dá em face da existência expressa da presunção de inocência no ordenamento constitucional brasileiro, conferindo por meio de seu aspecto probatório, todo o suporte político-jurídico do in dubio pro reo ao atribuir o ônus da prova à acusação, desonerando o réu dessa incumbência probatória" (NOGUEIRA, Rafael Fecury. Pronúncia: Valoração da Prova e Limites à Motivação. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo, 2012, p. 215). Assim, ressalta-se que "com a adoção do in dubio pro societate, o Judiciário se distancia de seu papel de órgão contramajoritário, no contexto democrático e constitucional, perdendo a posição de guardião último dos direitos fundamentais" (DIAS, Paulo P. F. A decisão de pronúncia baseada no in dubio pro societate. EMais, 2018, p. 202). (Grifei) Sobre o princípio do in dubio pro societa a doutrina de Domingos Barroso da Costa e Rafael Raphaelli dispõe: O in dubio pro societa, em nossas circunstâncias, nada mais é que um dos muitos caminhos pelos quais o estado de polícia vem progressivamente se infiltrando e substituindo o Estado de Direito proposto pela Constituição de 1988, justamente pelas mãos dos que têm por dever preservá-lo, impondo a razão às formas ilegítimas de exercício de poder que o ameaçam. (A faixa verde no júri 3: reflexões teóricas e práticas de defesa. D"Plácido, 2021, p 143). (grifo acrescido) Esse mesmo entendimento é corroborado pela doutrina de Rodrigo Faucz Pereira e Silva e Daniel Ribeiro Surdi de Avelar: O Tribunal do Júri somente será competente para o julgamento a partir do momento em que o magistrado proferir decisão de pronúncia. Sem uma pronúncia fundamentada em provas, o acusado enviado a júri é exposto ao risco de ser condenado sem elementos mínimos para tal. Essa exposição ao risco é bastante ampliada com a utilização do "adágio" do in dubio pro societate. Por mais que hoje em dia estejam se multiplicando as críticas em torno deste "princípio", ele ainda é amplamente utilizado nas decisões das principais cortes do país (referência a STJ, 5ª Turma, AgRg no REsp 1.832.692/RS, Rel. Min. Ribeiro Dantas, j. em 06/02/2020; STJ, 5ª Turma, HC 524.020/SC, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, j. em 04/02/2020). Ao contrário do milenar princípio do in dubio pro reo, utiliza-se uma anomalia jurídica criada para retirar a responsabilidade do juiz togado e remeter um caso duvidoso ao exame popular. Isto é, de acordo com este malfadado "princípio", caso o juiz tiver dúvida sobre materialidade, autoria ou mesmo sobre os elementos do crime, deverá submeter o acusado a júri popular (Manual do Tribunal do Júri. 2 ed. rev., atual. e ampl., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2023, p. 319). (grifo acrescido) Nesta Corte Superior, o eminente Ministro Rogério Schietti Cruz tratou brilhantemente sobre tema em acórdão assim ementado: RECURSO ESPECIAL. HOMICÍDIO SIMPLES. DECISÃO DE PRONÚNCIA. IN DUBIO PRO SOCIETATE. NÃO APLICAÇÃO. STANDARD PROBATÓRIO. ELEVADA PROBABILIDADE. NÃO ATINGIMENTO. AUSÊNCIA DE INDÍCIOS SUFICIENTES DE AUTORIA OU PARTICIPAÇÃO. DESPRONÚNCIA. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. A Constituição Federal determinou ao Tribunal do Júri a competência para julgar os crimes dolosos contra a vida e os delitos a eles conexos, conferindo-lhe a soberania de seus vereditos. Entretanto, a fim de reduzir o erro judiciário (art. 5º, LXXV, CF), seja para absolver, seja para condenar, exige-se uma prévia instrução, sob o crivo do contraditório e com a garantia da ampla defesa, perante o juiz togado, que encerra a primeira etapa do procedimento previsto no Código de Processo Penal, com a finalidade de submeter a julgamento no Tribunal do Júri somente os casos em que se verifiquem a comprovação da materialidade e a existência de indícios suficientes de autoria, nos termos do art. 413, caput e § 1º, do CPP. 2. Assim, tem essa fase inicial do procedimento bifásico do Tribunal do Júri o objetivo de avaliar a suficiência ou não de razões para levar o acusado ao seu juízo natural. O juízo da acusação (judicium accusationis) funciona como um importante filtro pelo qual devem passar somente as acusações fundadas, viáveis, plausíveis e idôneas a serem objeto de decisão pelo juízo da causa (judicium causae). A pronúncia consubstancia, dessa forma, um juízo de admissibilidade da acusação, razão pela qual o Juiz precisa estar "convencido da materialidade do fato e da existência de indícios suficientes de autoria ou de participação" (art. 413, caput, do CPP). 3. A leitura do referido dispositivo legal permite extrair dois standards probatórios distintos: um para a materialidade, outro para a autoria e a participação. Ao usar a expressão "convencido da materialidade", o legislador impôs, nesse ponto, a certeza de que o fato existiu; já em relação à autoria e à participação, esse convencimento diz respeito apenas à presença de indícios suficientes, não à sua demonstração plena, exame que competirá somente aos jurados. 4. A desnecessidade de prova cabal da autoria para a pronúncia levou parte da doutrina - acolhida durante tempo considerável pela jurisprudência - a defender a existência do in dubio pro societate, princípio que alegadamente se aplicaria a essa fase processual. Todavia, o fato de não se exigir um juízo de certeza quanto à autoria nessa fase não significa legitimar a aplicação da máxima in dubio pro societate - que não tem amparo no ordenamento jurídico brasileiro - e admitir que toda e qualquer dúvida autorize uma pronúncia. Aliás, o próprio nome do suposto princípio parte de premissa equivocada, uma vez que nenhuma sociedade democrática se favorece pela possível condenação duvidosa e injusta de inocentes. 5. O in dubio pro societate, "na verdade, não constitui princípio algum, tratando-se de critério que se mostra compatível com regimes de perfil autocrático que absurdamente preconizam, como acima referido, o primado da ideia de que todos são culpados até prova em contrário, em absoluta desconformidade com a presunção de inocência .. " (Voto do Ministro Celso de Mello no ARE n. 1.067.392/AC, Rel. Ministro Gilmar Mendes, 2ª T., DJe 2/7/2020). Não pode o juiz, na pronúncia, "lavar as mãos" - tal qual Pôncio Pilatos - e invocar o "in dubio pro societate" como escusa para eximir-se de sua responsabilidade de filtrar adequadamente a causa, submetendo ao Tribunal popular acusações não fundadas em indícios sólidos e robustos de autoria delitiva. 6. Não há falar que a negativa de aplicação do in dubio pro societate na pronúncia implicaria violação da soberania dos vereditos ou usurpação da competência dos jurados, a qual só se inaugura na segunda etapa do procedimento bifásico. Trata-se, apenas, de analisar os requisitos para a submissão do acusado ao tribunal popular sob o prisma dos standards probatórios, os quais representam, em breve síntese, "regras que determinam o grau de confirmação que uma hipótese deve ter, a partir das provas, para poder ser considerada provada para os fins de se adotar uma determinada decisão" (FERRER BELTRÁN, Jordi. Prueba sin convicción: estándares de prueba y debido proceso. Madrid: Marcial Pons, 2021, p. 24) ou, nas palavras de Gustavo Badaró, "critérios que estabelecem o grau de confirmação probatória necessário para que o julgador considere um enunciado fático como provado, sendo aceito como verdadeiro" (BADARÓ, Gustavo H. Epistemologia judiciária e prova penal. 2 ed., São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2023, p. 241). 7. Segundo Ferrer-Beltrán, "o grau de exigência probatória dos distintos standards de prova para distintas fases do procedimento deve seguir uma tendência ascendente" (op. cit., p. 102), isto é, progressiva, pois, como explica Caio Massena, "não seria razoável, a título de exemplo, para o recebimento da denúncia - antes, portanto, da própria instrução probatória, realizada em contraditório - exigir um standard de prova tão alto quanto aquele exigido para a condenação" (MASSENA, Caio Badaró. Prisão preventiva e standards de prova: propostas para o processo penal brasileiro. Revista Brasileira de Direito Processual Penal, v. 7, n. 3, p. 1.631-1.668, set./dez. 2021). 8. Essa tendência geral ascendente e progressiva decorre, também, de uma importante função política dos standards probatórios, qual seja, a de distribuir os riscos de erro entre as partes (acusação e defesa), erros estes que podem ser tanto falsos positivos (considerar provada uma hipótese falsa, por exemplo: condenação de um inocente) quanto falsos negativos (considerar não provada uma hipótese verdadeira, por exemplo: absolvição de um culpado) (FERRER-BELTRÁN, op. cit., p. 115-137). Deveras, quanto mais embrionária a etapa da persecução penal e menos invasiva, restritiva e severa a medida ou decisão a ser adotada, mais tolerável é o risco de um eventual falso positivo (atingir um inocente) e, portanto, é mais atribuível à defesa suportar o risco desse erro; por outro lado, quanto mais se avança na persecução penal e mais invasiva, restritiva e severa se torna a medida ou decisão a ser adotada, menos tolerável é o risco de atingir um inocente e, portanto, é mais atribuível à acusação suportar o risco desse erro. 9. É preciso, assim, levar em conta a gravidade do erro que pode decorrer de cada tipo de decisão; ser alvo da abertura de uma investigação é menos grave para o indivíduo do que ter uma denúncia recebida contra si, o que, por sua vez, é menos grave do que ser pronunciado e, por fim, do que ser condenado. Como a pronúncia se situa na penúltima etapa (antes apenas da condenação) e se trata de medida consideravelmente danosa para o acusado - que será submetido a julgamento imotivado por jurados leigos -, o standard deve ser razoavelmente elevado e o risco de erro deve ser suportado mais pela acusação do que pela defesa, ainda que não se exija um juízo de total certeza para submeter o réu ao Tribunal do Júri. 10. Deve-se distinguir a dúvida que recai sobre a autoria - a qual, se existentes indícios suficientes contra o acusado, só será dirimida ao final pelos jurados, porque é deles a competência para o derradeiro juízo de fato da causa - da dúvida quanto à própria presença dos indícios suficientes de autoria (metadúvida, dúvida de segundo grau ou de segunda ordem), que deve ser resolvida em favor do réu pelo magistrado na fase de pronúncia. Vale dizer, também na pronúncia - ainda que com contornos em certa medida distintos - tem aplicação o in dubio pro reo, consectário do princípio da presunção de inocência, pedra angular do devido processo legal. 11. Assim, o standard probatório para a decisão de pronúncia, quanto à autoria e a participação, situa-se entre o da simples preponderância de provas incriminatórias sobre as absolutórias (mera probabilidade ou hipótese acusatória mais provável que a defensiva) - típico do recebimento da denúncia - e o da certeza além de qualquer dúvida razoável (BARD ou outro standard que se tenha por equivalente) - necessário somente para a condenação. Exige-se para a pronúncia, portanto, elevada probabilidade de que o réu seja autor ou partícipe do delito a ele imputado. 12. A adoção desse standard desponta como solução possível para conciliar os interesses em disputa dentro das balizas do ordenamento. Resguarda-se, assim, a função primordial de controle prévio da pronúncia sem invadir a competência dos jurados e sem permitir que o réu seja condenado pelo simples fato de a hipótese acusatória ser mais provável do que a sua negativa. 13. Na hipótese dos autos, segundo o policial Eduardo, no dia dos fatos, ele ouviu disparos de arma de fogo e, em seguida, uma moradora do bairro, onde ele também residia, bateu à sua porta e informou que os atiradores estavam em um veículo Siena de cor preta. O policial, então, saiu com um colega de farda para acompanhar e abordar o veículo, o que foi feito. Na ocasião, estavam no carro o recorrente (condutor) e os corréus (passageiros). Em revista, foram encontradas armas de fogo com os corréus e, na delegacia, eles confessaram o crime e confirmaram a versão do recorrente de que ele havia sido apenas solicitado como motorista para levá-los até o local, esperar em uma farmácia por alguns minutos e trazê-los de volta, e não tinha relação com os fatos. Uma testemunha sigilosa e o irmão do recorrente foram ouvidos e afirmaram que ele trabalhava há cerca de cinco anos com transporte de passageiros. 14. Não há nenhum indício robusto de que o recorrente haja participado conscientemente do crime, porque: a) nenhum objeto ilícito foi apreendido com ele; b) nenhum elemento indicativo de que ele conhecesse ou tivesse relação com os corréus nem com a vítima foi apresentado; c) não consta que ele haja tentado empreender fuga dos policiais na condução do veículo quando determinada a sua abordagem d) os corréus negaram conhecer o acusado e afirmaram que ele era apenas motorista; e) as testemunhas de defesa confirmaram que o acusado trabalhava com transporte de passageiros. Ademais, a confirmar a fragilidade dos indícios existentes contra ele, o recorrente - ao contrário dos corréus - foi solto na audiência de custódia e o Ministério Público inicialmente nem sequer ofereceu denúncia em seu desfavor porque entendeu que ainda não tinha elementos suficientes para tanto. Só depois da instrução e da pronúncia dos corréus é que, mesmo sem nenhuma prova nova, decidiu denunciá-lo quando instado pelo Magistrado a se manifestar sobre a situação do acusado. 15. Uma vez que não foi apontada a presença de indícios suficientes de participação do recorrente no delito que pudessem demonstrar, com elevada probabilidade, o seu envolvimento no crime, a despronúncia é medida de rigor. 16. Recurso especial provido para despronunciar o acusado. (REsp n. 2.091.647/DF, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 26/9/2023, DJe de 3/10/2023.) (grifei). Há de se reconhecer, portanto, que o princípio in dubio pro societate não pode ser utilizado para suprir lacunas probatórias, ainda que o standard exigido para a pronúncia seja menos rigoroso do que aquele para a condenação. Acrescento ao debate o entendimento desta Corte de acordo com o qual "o testemunho de "ouvir dizer" ou hearsay testimony não é suficiente para fundamentar a pronúncia, não podendo esta, também, encontrar-se baseada exclusivamente em elementos colhidos durante o inquérito policial, nos termos do art. 155 do CPP" (AgRg no AgRg no AREsp n. 2.142.384/RS, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 24/10/2023, DJe de 27/10/2023 e AgRg no REsp n. 2.017.497/RS, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 16/10/2023, DJe de 19/10/2023). Postas essas premissas, extrai-se dos autos que o acórdão impugnado, despronuncia da recorrida, pois a sentença se baseou no depoimento que "ouviu dizer". Remanescem, isoladamente, testemunhos indiretos ou de "ouvir dizer" prestados pelas testemunhas referidas, somados a elementos de prova produzidos exclusivamente na fase extrajudicial, que serviram de fundamento exclusivo para a pronúncia do recorrido pela primeira instância, tendo a Corte local reformado tal decisão com a aplicação do atual entendimento desta Corte Superior. Nesse diapasão, o Superior Tribunal de Justiça já se manifestou pela insubsistência do depoimento do "hearsay testimony" quando isolado, para pronunciar o acusado, no Recurso Especial nº 1.444.372 - RS (2014/0070087-4) de relatoria do Ministro Rogério Schietti Cruz, do qual se extrai o excerto abaixo: "Aliás, vale observar que a norma segundo a qual a testemunha deve depor pelo que sabe per proprium sensum et non per senseum alterius impede, em alguns sistemas - como o norte-americano - o depoimento da testemunha indireta, por ouvir dizer (hearsay rule). No Brasil, embora não haja impedimento legal a esse tipo de depoimento, "não se pode tolerar que alguém vá a juízo repetir a vox publica. Testemunha que depusesse para dizer o que lhe constou, o que ouviu, sem apontar seus informantes, não deveria ser levado em conta" (TORNAGHI, Helio. Instituições de processo penal. v. IV. Rio de Janeiro: Forense, 1959, p. 461). A razão do repúdio a esse tipo de testemunho se deve ao fato de que, além de ser um depoimento pouco confiável, visto que os relatos se alteram quando passam de boca a boca, o acusado não tem como refutar, com eficácia, o que o depoente afirma sem indicar a fonte direta da informação trazida a juízo. Assim, o v. acórdão vai de encontro com o entendimento consolidado da quinta e sexta turma desta Corte de Justiça. Nesse sentido: HABEAS CORPUS. HOMICÍDIOS QUALIFICADO E TENTADO QUALIFICADO. PRONÚNCIA. TESTEMUNHO INDIRETO (POR "OUVIR DIZER"). IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE OUTROS INDÍCIOS DE AUTORIA. IMPRONÚNCIA. I - "O testemunho indireto (também conhecido como testemunho de "ouvir dizer" ou hearsay testimony) não é apto para comprovar a ocorrência de nenhum elemento do crime e, por conseguinte, não serve para fundamentar a condenação do réu. Sua utilidade deve se restringir a apenas indicar ao juízo testemunhas referidas para posterior ouvida na instrução processual, na forma do art. 209, § 1º, do CPP" (AREsp n. 1940381/AL, rel. Min. Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 14/12/2021, DJe 16/12/2021.) II - In casu, não há indícios mínimos de autoria suficientes a ensejar a pronúncia, na medida em que o único depoimento que imputa ao paciente a autoria delitiva se refere a testemunho indireto (por "ouvir dizer"), inadmissível pela jurisprudência para tanto. Precedentes. III - Habeas corpus concedido. Impronúncia de Fabio Fogassa (Processo n. 5006505-64.2017.8.21.0001 - 2ª Vara do Júri do Foro Central de Porto Alegre). (HC 842.157/RS, Rel. Ministro JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR CONVOCADO TJDFT), SEXTA TURMA, julgado em 28/08/2023, DJe 01/12/2023) Ante o exposto, conheço do agravo paraa não conheçer do recurso especial. Publique-se e Intime-se. EMENTA