REsp 1951840 - DECISAO
O Tribunal Superior entendeu que o acórdão recorrido divergiu da jurisprudência consolidada no Tema 952 ao reputar abusivos os reajustes independentemente da data do contrato; contudo, como a decisão estadual exige apreciação de elementos fáticos e exame de cláusulas contratuais (prova da assinatura/rubrica e...
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- Parties
- Recorrente: BRADESCO SAÚDE S/A; Apelados: autores
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 02 September 2021
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Recurso Especial Provido Para Retorno Dos Autos Ao Tribunal De Origem
- Outcome
- Recurso especial provido para determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que examine a demanda à luz do entendimento firmado no Tema 952 do STJ.
- Legal Topics
- Reajuste Por Faixa Etária, Contratos Anteriores À Lei 9.656/1998, Previsão Contratual, Abusividade De Cláusula Contratual, Estatuto Do Idoso, Recursos Repetitivos, Tema 952
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Parties
BRADESCO SAÚDE S/A
Recorrente
autores
Apelados
Procedural Posture
Recurso Especial / Recurso Especial Provido Para Retorno Dos Autos Ao Tribunal De Origem
Legal Issues
- 1 É válido o reajuste de mensalidade de plano de saúde por mudança de faixa etária em contratos anteriores à Lei 9.656/1998?
- 2 Exigia-se prova de ciência dos beneficiários quanto à previsão de reajuste?
- 3 Aplicabilidade do entendimento firmado no REsp 1.568.244/Tema 952 ao caso concreto
Ratio Decidendi
O Tribunal Superior entendeu que o acórdão recorrido divergiu da jurisprudência consolidada no Tema 952 ao reputar abusivos os reajustes independentemente da data do contrato; contudo, como a decisão estadual exige apreciação de elementos fáticos e exame de cláusulas contratuais (prova da assinatura/rubrica e existência expressa de previsão contratual), não é possível reexaminar tais fatos nesta instância. Assim, provido o recurso especial para determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para reapreciação do caso à luz do entendimento firmado no Tema 952.
Court Disposition
Recurso especial provido para determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para que examine a demanda à luz do entendimento firmado no Tema 952 do STJ.
Orders
- Determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para reapreciação conforme o entendimento do Tema 952 (REsp 1568244/Tema 952).
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial, interposto por BRADESCO SAÚDE S/A,com fundamento no art. 105, III, a ec, da Constituição Federal, em desafio a acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiroassim ementado: Apelação Cível. Direito do Consumidor. Plano de saúde anterior à Lei 9.656/98. Pretensão autoral de afastar o reajuste por faixa etária. Sentença de improcedência que considerou legal os aumentos. Apelo autoral. 1- Ao julgar o REsp 1568244, representativo de controvérsia, o STJ firmou a seguinte tese: "O reajuste de mensalidade de plano de saúde individual ou familiar fundado na mudança de faixa etária do beneficiário é válido desde que (i) haja previsão contratual, (ii) sejam observadas as normas expedidas pelos órgãos governamentais reguladores e (iii) não sejam aplicados percentuais desarrazoados ou aleatórios que, concretamente e sem base atuarial idônea, onerem excessivamente o consumidor ou discriminem o idoso". 2- Com relação a contratos anteriores à Lei 9.656, o STJ concluiu, no citado paradigma, que "a) No tocante aos contratos antigos e não adaptados, isto é, aos seguros e planos de saúde firmados antes da entrada em vigor da Lei nº 9.656/1998, deve-se seguir o que consta no contrato, respeitadas, quanto à abusividade dos percentuais de aumento, as normas da legislação consumerista e, quanto à validade formal da cláusula, as diretrizes da Súmula Normativa nº 3/2001 da ANS". 3- Autores que alegam a inexistência de previsão contratual. 4- Seguradora de saúde que não logrou êxito em demonstrar a ciência dos beneficiários quanto aos aumentos combatidos. Opostos embargos de declaração, restaram rejeitados. Em sede de reexame (CPC, art. 543-C, § 7º, II),adecisão foi mantida,emacórdão que guarda a seguinte ementa: Juízo de retratação na Apelação Cível. Direito do Consumidor. Plano de saúde anterior à Lei 9.656/98.Pretensão autoral de afastar o reajuste por faixa etária.Sentença de improcedência que considerou legal os aumentos. Apelo autoral. 1- Ao julgar o REsp 1568244, representativo de controvérsia, o STJ firmou a seguinte tese: "O reajuste de mensalidade de plano de saúde individual ou familiar fundado na mudança de faixa etária do beneficiário é válido desde que (i) haja previsão contratual, (ii) sejam observadas as normas expedidas pelos órgãos governamentais reguladores e (iii) não sejam aplicados percentuais desarrazoados ou aleatórios que, concretamente e sem base atuarial idônea, onerem excessivamente o consumidor ou discriminem o idoso". 2- Com relação a contratos anteriores à Lei 9.656, o STJ concluiu, no citado paradigma, que "a) No tocante aos contratos antigos e não adaptados, isto é, aos seguros e planos de saúde firmados antes da entrada em vigor da Lei nº 9.656/1998, deve-se seguir o que consta no contrato, respeitadas, quanto à abusividade dos percentuais de aumento, as normas da legislação consumerista e, quanto à validade formal da cláusula, as diretrizes da Súmula Normativa nº 3/2001 da ANS". 3- Autores que alegam a inexistência de previsão contratual. 4- Seguradora de saúde que não logrou êxito em demonstrar a ciência dos beneficiários quanto aos aumentos combatidos. 5- Provimento do apelo para julgar procedente a pretensão inicial e proibir a ré de praticar o reajuste por faixa etária. 6- Acórdão recorrido que está em perfeita e absoluta sintonia com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Juízo de retratação negativo. Em suas razões recursais, a parte recorrente alega violação dos arts. 1.022, II, do NCPC, 15, § 3º, da Lei 9.656/98, à luz das teses definidas para o Tema 952 dos Recursos Repetitivos (REsp. 1.568.244/RJ), defendendo o seguinte: a) negativa de prestação jurisdicional;b) a legalidade do reajuste da mensalidade do plano de saúde individual em razão da mudança de faixa etária em contrato anterior e não adaptado à Lei 9.656/1998; c) não há falar em desconhecimento das cláusulas que descrevem detalhadamente os reajustes previstos. É o relatório. Decido. Não se vislumbra a alegada violação ao art. 1.022, inciso II, do Código de Processo Civil de 2015, na medida em que a eg. Corte de origem dirimiu, fundamentadamente, as questões que lhe foram submetidas, manifestando-se expressamente acerca dos temas necessários à integral solução da lide, conforme se verá adiante. Impende ressaltar que "se os fundamentos do acórdão recorrido não se mostram suficientes ou corretos na opinião do recorrente, não quer dizer que eles não existam. Não se pode confundir ausência de motivação com fundamentação contrária aos interesses da parte" (AgRg no Ag 56.745/SP, Relator o eminente Ministro CESAR ASFOR ROCHA, DJ de 12.12.1994). Cinge-se a controvérsia em determinar se é possível o reajuste por faixa etária dos contratos de plano de saúde. Na hipótese dos autos, o Tribunal a quo vedou o reajuste em razão da mudança de faixa etária aos maiores de 60 anos, considerando que a seguradora não logrou êxito em demonstrar a ciência dos beneficiários quantos aos aumentos combatidos. Leia-se, a propósito, o seguinte trecho do acórdão recorrido: Verifica-se que não há controvérsia quanto ao fato de que os contratos de seguro de saúde ora em debate firmados em 25 de setembro de 1998, antes do advento do Estatuto do Idoso e da própria Lei 9.656/98. As apólices anexadas às fls. 219/224 indiciam que se trata de seguro saúde individual. Pois bem, partindo-se, assim, dos parâmetros estabelecidos no supracitado recurso repetitivo, verifica-se que a parte ré não logrou êxito em demonstrar a previsão contratual do reajuste por faixa etária. Isto porque, de fato, não consta nas condições gerais de fls. 225/245 rubrica ou assinatura dos autores. Com razão reclamam os demandantes, portanto, já que a operadora não anexou aos autos o contrato assinado pelos beneficiários, a corroborar a tese de que não tinham ciência do reajuste. É forçoso concluir, por consequência, que a aplicação dos índices reclamados na inicial, sem previsão contratual expressa, caracteriza abusividade, nos termos dos incisos IV e X do art. 51 do Código do Consumidor. Assim, o meu voto é no sentido de dar provimento ao recurso dos autores para declarar a invalidade dos reajustes por faixa etária praticados nos anos de 2016 e 2017, bem como proibir os referidos reajustes para o futuro e condenar a ré ao pagamento das custas e dos honorários advocatícios fixados em 10% sobre o valor da causa. Em sede de embargos declaratórios assim decidiu: Quanto à ciência dos beneficiários com os reajustes por faixa etária, restou consignado no decisumembargado que a parte ré não logrou êxito em demonstrar a previsão contratual, já que não consta nas condições gerais de fls.225/245 rubrica ou assinatura dos demandantes. Note-se que o documento aludido pelo embargante (fls. 220 e 223) - Proposta de Seguro de Reembolso de Despesas de Assistência Médica e/ou Hospitalar Cobertura Compreensiva -, parcialmente ilegível, conta com declaração padrão de conhecimento do teor das condições gerais do seguro que, na ausência de rubricas apostas nas condições gerais, a meu sentir, não tem o condão de demonstrar a ciência dos segurados, mormente porque não há provas de que as condições gerais anexadas ao processo são as mesmas da época da contratação ocorrida há mais de vinte anos. Sobre o tema, a Segunda Seção desta Corte, no julgamento do REsp 1.568.244/RJ, sob o regime dos arts. 1.036 e 1.037 do CPC/2015, firmou entendimento de que o reajuste por incremento da faixa etária não é, por si só, abusivo, podendo ser implementado desde que observadas as seguintes premissas: (i) haja previsão contratual, (ii) sejam observadas as normas expedidas pelos órgãos governamentais reguladores e (iii) não sejam aplicados percentuais desarrazoados ou aleatórios que, concretamente e sem base atuarial idônea, onerem excessivamente o consumidor ou discriminem o idoso. O julgado restou assim ementado: RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. NÃO OCORRÊNCIA. CIVIL. PLANO DE SAÚDE. MODALIDADE INDIVIDUAL OU FAMILIAR. CLÁUSULA DE REAJUSTE DE MENSALIDADE POR MUDANÇA DE FAIXA ETÁRIA. LEGALIDADE. ÚLTIMO GRUPO DE RISCO. PERCENTUAL DE REAJUSTE. DEFINIÇÃO DE PARÂMETROS. ABUSIVIDADE. NÃO CARACTERIZAÇÃO. EQUILÍBRIO FINANCEIRO-ATUARIAL DO CONTRATO. 1. A variação das contraprestações pecuniárias dos planos privados de assistência à saúde em razão da idade do usuário deverá estar prevista no contrato, de forma clara, bem como todos os grupos etários e os percentuais de reajuste correspondentes, sob pena de não ser aplicada (arts. 15, caput, e 16, IV, da Lei nº 9.656/1998). 2. A cláusula de aumento de mensalidade de plano de saúde conforme a mudança de faixa etária do beneficiário encontra fundamento no mutualismo (regime de repartição simples) e na solidariedade intergeracional, além de ser regra atuarial e asseguradora de riscos. 3. Os gastos de tratamento médico-hospitalar de pessoas idosas são geralmente mais altos do que os de pessoas mais jovens, isto é, o risco assistencial varia consideravelmente em função da idade. Com vistas a obter maior equilíbrio financeiro ao plano de saúde, foram estabelecidos preços fracionados em grupos etários a fim de que tanto os jovens quanto os de idade mais avançada paguem um valor compatível com os seus perfis de utilização dos serviços de atenção à saúde. 4. Para que as contraprestações financeiras dos idosos não ficassem extremamente dispendiosas, o ordenamento jurídico pátrio acolheu o princípio da solidariedade intergeracional, a forçar que os de mais tenra idade suportassem parte dos custos gerados pelos mais velhos, originando, assim, subsídios cruzados (mecanismo do community rating modificado). 5. As mensalidades dos mais jovens, apesar de proporcionalmente mais caras, não podem ser majoradas demasiadamente, sob pena de o negócio perder a atratividade para eles, o que colocaria em colapso todo o sistema de saúde suplementar em virtude do fenômeno da seleção adversa (ou antisseleção). 6. A norma do art. 15, § 3.º, da Lei n.º 10.741/2003, que veda "a discriminação do idoso nos planos de saúde pela cobrança de valores diferenciados em razão da idade", apenas inibe o reajuste que consubstanciar discriminação desproporcional ao idoso, ou seja, aquele sem pertinência alguma com o incremento do risco assistencial acobertado pelo contrato. 7. Para evitar abusividades (Súmula n.º 469/STJ) nos reajustes das contraprestações pecuniárias dos planos de saúde, alguns parâmetros devem ser observados, tais como: (i) a expressa previsão contratual; (ii) não serem aplicados índices de reajuste desarrazoados ou aleatórios, que onerem em demasia o consumidor, em manifesto confronto com a equidade e as cláusulas gerais da boa-fé objetiva e da especial proteção ao idoso, dado que aumentos excessivamente elevados, sobretudo para esta última categoria, poderão, de forma discriminatória, impossibilitar a sua permanência no plano; e (iii) respeito às normas expedidas pelos órgãos governamentais: a) No tocante aos contratos antigos e não adaptados, isto é, aos seguros e planos de saúde firmados antes da entrada em vigor da Lei n.º 9.656/1998, deve-se seguir o que consta no contrato, respeitadas, quanto à abusividade dos percentuais de aumento, as normas da legislação consumerista e, quanto à validade formal da cláusula, as diretrizes da Súmula Normativa n.º 3/2001 da ANS. b) Em se tratando de contrato (novo) firmado ou adaptado entre 2/1/1999 e 31/12/2003, deverão ser cumpridas as regras constantes na Resolução CONSU n.º 6/1998, a qual determina a observância de 7 (sete) faixas etárias e do limite de variação entre a primeira e a última (o reajuste dos maiores de 70 anos não poderá ser superior a 6 (seis) vezes o previsto para os usuários entre 0 e 17 anos), não podendo também a variação de valor na contraprestação atingir o usuário idoso vinculado ao plano ou seguro saúde há mais de 10 (dez) anos. c) Para os contratos (novos) firmados a partir de 1º/1/2004, incidem as regras da RN n.º 63/2003 da ANS, que prescreve a observância (i) de 10 (dez) faixas etárias, a última aos 59 anos; (ii) do valor fixado para a última faixa etária não poder ser superior a 6 (seis) vezes o previsto para a primeira; e (iii) da variação acumulada entre a sétima e décima faixas não poder ser superior à variação cumulada entre a primeira e sétima faixas. 8. A abusividade dos aumentos das mensalidades de plano de saúde por inserção do usuário em nova faixa de risco, sobretudo de participantes idosos, deverá ser aferida em cada caso concreto. Tal reajuste será adequado e razoável sempre que o percentual de majoração for justificado atuarialmente, a permitir a continuidade contratual tanto de jovens quanto de idosos, bem como a sobrevivência do próprio fundo mútuo e da operadora, que visa comumente o lucro, o qual não pode ser predatório, haja vista a natureza da atividade econômica explorada: serviço público impróprio ou atividade privada regulamentada, complementar, no caso, ao Serviço Único de Saúde (SUS), de responsabilidade do Estado. 9. Se for reconhecida a abusividade do aumento praticado pela operadora de plano de saúde em virtude da alteração de faixa etária do usuário, para não haver desequilíbrio contratual, faz-se necessária, nos termos do art. 51, § 2º, do CDC, a apuração de percentual adequado e razoável de majoração da mensalidade em virtude da inserção do consumidor na nova faixa de risco, o que deverá ser feito por meio de cálculos atuariais na fase de cumprimento de sentença. 10. TESE para os fins do art. 1.040 do CPC/2015: O reajuste de mensalidade de plano de saúde individual ou familiar fundado na mudança de faixa etária do beneficiário é válido desde que (i) haja previsão contratual, (ii) sejam observadas as normas expedidas pelos órgãos governamentais reguladores e (iii) não sejam aplicados percentuais desarrazoados ou aleatórios que, concretamente e sem base atuarial idônea, onerem excessivamente o consumidor ou discriminem o idoso. 11. CASO CONCRETO: Não restou configurada nenhuma política de preços desmedidos ou tentativa de formação, pela operadora, de "cláusula de barreira" com o intuito de afastar a usuária quase idosa da relação contratual ou do plano de saúde por impossibilidade financeira. Longe disso, não ficou patente a onerosidade excessiva ou discriminatória, sendo, portanto, idôneos o percentual de reajuste e o aumento da mensalidade fundados na mudança de faixa etária da autora. 12. Recurso especial não provido. (REsp n. 1568244/RJ, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 14/12/2016, DJe 19/12/2016.) Confira-se o seguinte trecho do voto condutor do acórdão: "A Segunda Seção deste Tribunal Superior, quando do julgamento do REsp nº 1.280.211/SP (Rel. Ministro Marco Buzzi, DJe 4/9/2014), firmou o entendimento de ser válido o reajuste de mensalidade de plano de saúde em razão da mudança de faixa etária do beneficiário, pois com o incremento da idade há o aumento do risco de a pessoa vir a necessitar de serviços de assistência médica. Com efeito, "tal fato não é discriminatório, pois não se está onerando uma pessoa pelo simples fato de ser idosa, mas por demandar mais do serviço ofertado" (AgRg no REsp nº 1.315.668/SP, Rel. para acórdão Ministro João Otávio de Noronha, DJe 14/4/2015). É que a norma do art. 15, § 3º, da Lei nº 10.741/2003 (Estatuto do Idoso) apenas inibe o reajuste que consubstanciar discriminação desproporcional ao idoso, ou seja, o reajuste baseado no simples fato de a pessoa ser idosa, sem pertinência alguma com o incremento do risco assistencial acobertado pelo contrato. Consoante asseverado pelo Ministro João Otávio de Noronha, quando do julgamento, na Terceira Turma, do REsp nº 1.381.606/DF: "(..) O aumento da idade do segurado implica a necessidade de maior assistência médica. Em razão disso, a Lei n. 9.656/1998 assegurou a possibilidade de reajuste da mensalidade de plano ou seguro de saúde em razão da mudança de faixa etária do segurado. Essa norma não confronta o art. 15, § 3º, do Estatuto do Idoso, que veda a discriminação consistente na cobrança de valores diferenciados em razão da idade. Discriminação traz em si uma conotação negativa, no sentido do injusto, e assim é que deve ser interpretada a vedação estabelecida no referido estatuto. Na hipótese dos autos, o aumento do valor do prêmio decorreu do maior risco, ou seja, da maior necessidade de utilização dos serviços segurados, e não do simples advento da mudança de faixa etária".(REsp nº 1.381.606/DF, Rel. p/ acórdão Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA, DJe 31/10/2014) Todavia, constituirá reajuste abusivo "o segurador ou administrador do plano aproveitar-se do advento da idade do segurado para aumentar lucros, e não simplesmente para cobrir despesas ou riscos maiores" (REsp nº 1.381.606/DF, Rel. p/ acórdão Ministro João Otávio de Noronha, DJe 31/10/2014)." No que tange à data em que firmados os contratos, a fim de analisar a validade do aumento em razão da faixa etária, o julgado consignou o seguinte: a) No tocante aos contratos antigos e não adaptados, isto é, aos seguros e planos de saúde firmados antes da entrada em vigor da Lei nº 9.656/1998, deve-se seguir o que consta no contrato, respeitadas, quanto à abusividade dos percentuais de aumento, as normas da legislação consumerista e, quanto à validade formal da cláusula, as diretrizes da Súmula Normativa nº 3/2001 da ANS. b) Em se tratando de contrato (novo) firmado ou adaptado entre 2/1/1999 e 31/12/2003, deverão ser cumpridas as regras constantes na Resolução CONSU nº 6/1998, a qual determina a observância de 7 (sete) faixas etárias e do limite de variação entre a primeira e a última (o reajuste dos maiores de 70 anos não poderá ser superior a 6 (seis) vezes o previsto para os usuários entre 0 e 17 anos), não podendo também a variação de valor na contraprestação atingir o usuário idoso vinculado ao plano ou seguro saúde há mais de 10 (dez) anos. c) Para os contratos (novos) firmados a partir de 1º/1/2004, incidem as regras da RN nº 63/2003 da ANS, que prescreve a observância (i) de 10 (dez) faixas etárias, a última aos 59 anos; (ii) do valor fixado para a última faixa etária não poder ser superior a 6 (seis) vezes o previsto para a primeira; e (iii) da variação acumulada entre a sétima e décima faixas não poder ser superior à variação cumulada entre a primeira e sétima faixas. Ainda, nos termos do art. 51, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, nas hipóteses em reconhecida, no caso concreto, a abusividade do aumento praticado pela operadora de plano de saúde em virtude da alteração de faixa etária do usuário, para não haver desequilíbrio contratual, faz-se necessária a apuração de percentual adequado e razoável de majoração da mensalidade, o que deverá ser feito por meio de cálculos atuariais na fase de cumprimento de sentença. A propósito: "AGRAVO INTERNO NO RECURSO ESPECIAL. PLANO DE SAÚDE.MENSALIDADE. REAJUSTE. FAIXA ETÁRIA. MUDANÇA. CONSUMIDOR IDOSO. PARÂMETROS LEGAIS. OBSERVÂNCIA. CONTRATO. PREVISÃO.REVISÃO DE PROVAS. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULAS NºS 5 E 7/STJ.PREQUESTIONAMENTO. AUSÊNCIA. SÚMULA Nº 282/STF. 1. Recurso especial interposto contra acórdão publicado na vigência do Código de Processo Civil de 2015 (Enunciados Administrativos nºs 2 e 3/STJ). 2. A Segunda Seção do Superior Tribunal de Justiça firmou o entendimento de ser idôneo o reajuste de mensalidade de plano de saúde em virtude da mudança de faixa etária do participante, desde que observados alguns parâmetros, tais como a expressa previsão contratual; não serem aplicados índices de reajuste desarrazoados ou aleatórios, a onerar excessivamente o consumidor, em confronto com a equidade e a cláusula geral da boa-fé objetiva e da especial proteção do idoso, e serem respeitadas as normas expedidas pelos órgãos governamentais (Resolução CONSU nº 6/1998 ou Resolução Normativa nº 3/2001 da ANS e Resolução Normativa nº 63/2003 da ANS). Precedente. 3. A abusividade dos aumentos das mensalidades de plano de saúde por inserção do usuário em nova faixa de risco, sobretudo de participantes idosos, deverá ser aferida em cada caso concreto. 4. Nos termos do art. 51, § 2º, do Código de Defesa do Consumidor, se for reconhecida a abusividade do aumento praticado pela operadora de plano de saúde em virtude da alteração de faixa etária do usuário, para não haver desequilíbrio contratual, faz-se necessária a apuração de percentual adequado e razoável de majoração da mensalidade, o que deverá ser feito por meio de cálculos atuariais na fase de cumprimento de sentença. 5. Na hipótese, revisar o entendimento da instância ordinária, que considerou abusivo o reajuste do plano de saúde, é pretensão que esbarra no reexame de cláusulas do contrato e das provas constantes dos autos, procedimentos inviáveis em recurso especial em virtude dos óbices das Súmulas nºs 5 e 7/STJ. 6. Agravo interno não provido." (AgInt no REsp 1809234/SP, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 01/03/2021, DJe 09/03/2021) "AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PLANO DE SAÚDE INDIVIDUAL. REAJUSTE POR MUDANÇA DE FAIXA ETÁRIA.ÍNDOLE ABUSIVA. APURAÇÃO DO PERCENTUAL DEVIDO EM FASE DE CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. SÚMULA 83 DO STJ. OFENSA AOS ARTS. 489, § 1º, E 1.022 DO CPC. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA.PRECLUSÃO. INEXISTÊNCIA. DETERMINAÇÃO DE OFÍCIO. RECURSO NÃO PROVIDO. 1. A Corte de origem dirimiu a matéria submetida à sua apreciação, manifestando-se expressamente acerca dos temas necessários à integral solução da lide. Dessa forma, não havendo omissão, contradição ou obscuridade no aresto recorrido, não se verifica a ofensa aos artigos 489, § 1º, IV, e 1.022 do CPC/2015. 2. O Superior Tribunal de Justiça já se manifestou no sentido de que: "A iniciativa probatória do magistrado, em busca da veracidade dos fatos alegados, com realização de provas de ofício, não se sujeita à preclusão temporal, porque é feita no interesse público de efetividade da Justiça" (AgRg no REsp 1.157.796/DF, Rel. Min. BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA TURMA, DJe de 28/05/2010). 3. A Segunda Seção desta Corte, no julgamento do REsp 1.568.244/RJ, sob o regime dos arts. 1.036 e 1.037 do CPC/2015, firmou entendimento de que, em caso de declaração de abuso do reajuste de plano de saúde em virtude de alteração de faixa etária, "para não haver desequilíbrio contratual, faz-se necessária, nos termos do art. 51, § 2º, do CDC, a apuração de percentual adequado e razoável de majoração da mensalidade em virtude da inserção do consumidor na nova faixa de risco, o que deverá ser feito por meio de cálculos atuariais na fase de cumprimento de sentença" (REsp 1.568.244/RJ, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 14/12/2016, DJe de 19/12/2016, precedente julgado na sistemática dos Recursos Repetitivos). 4. Agravo interno não provido." (AgInt no AREsp 1690939/SP, de minha relatoria, QUARTA TURMA, julgado em 30/11/2020, DJe 18/12/2020, g.n.) Com efeito, ao reputar abusivas as cláusulas que prevêem o reajuste do plano de saúde em razão da mudança de faixa etária aos maiores de 60 anos, em razão do disposto no art.15 do Estatuto do Idoso, e independentemente da data em que firmado o contrato, a orientação do Tribunal de origem dissentiu da jurisprudência desta Corte Superior, merecendo reforma o julgado a fim de adequá-lo ao entendimento firmado por esta Corte sob o rito dos recursos repetitivos no julgamento do REsp 1.599.511/SP (Tema 952). No caso, contudo, verifica-se que o acórdão estadual, o julgamento da causa depende da apreciação de elementos fáticos e da análise e interpretação de cláusulas contratuais, razão pela qual não é possível realizar a aplicação do entendimento firmado no recurso repetitivo de plano nesta instância, devendo ser determinando o retorno dos autos ao Tribunal de origem, a fim de que examine o caso concreto em conformidade com a jurisprudência acima citada. Diante do exposto, dou provimento ao recurso especial para determinaro retorno dos autos ao Tribunal de origem para que examine a demanda à luz do entendimento firmados pelo STJ no julgamento do Tema 952, nos termos da fundamentação supra. Publique-se.