AREsp 1792417 - DECISAO
Mantém-se a decisão condenatória porque a materialidade e a autoria foram comprovadas nos autos; em crime de receptação, havendo apreensão do bem em poder do acusado, cabe à defesa demonstrar a origem lícita ou a conduta culposa nos termos do art. 156 do CPP, e o pedido de reforma exigiria reexame do acervo...
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- Parties
- Agravante: FÁBIO SILVESTRE DE PAIVA NETO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 September 2021
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Decisão Que Negou Provimento Ao Agravo
- Outcome
- nego provimento ao agravo
- Legal Topics
- Receptação, Ônus Da Prova, Valoração Da Prova, Súmula 7 Do STJ, Súmula 83 Do STJ, Art. 180 Do Código Penal, Art. 156 Do Código De Processo Penal
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Parties
FÁBIO SILVESTRE DE PAIVA NETO
Agravante
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Decisão Que Negou Provimento Ao Agravo
Legal Issues
- 1 admissibilidade do recurso especial
- 2 se houve inversão do ônus da prova no crime de receptação
- 3 suficiência das provas quanto à materialidade e autoria
Ratio Decidendi
Mantém-se a decisão condenatória porque a materialidade e a autoria foram comprovadas nos autos; em crime de receptação, havendo apreensão do bem em poder do acusado, cabe à defesa demonstrar a origem lícita ou a conduta culposa nos termos do art. 156 do CPP, e o pedido de reforma exigiria reexame do acervo fático-probatório, vedado pela Súmula 7 do STJ, razão pela qual o agravo é improvido.
Court Disposition
nego provimento ao agravo
Orders
- Nego provimento ao agravo.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo em recurso especial interposto por FÁBIO SILVESTRE DE PAIVA NETOcontra decisão que inadmitiu recurso especial com fundamento naSúmulan. 7 do STJ. Alega o agravante que os pressupostos de admissibilidade do recurso especial foram atendidos. É o relatório. Decido. O recurso especial, fundado no art. 105, III, a, da Constituição Federal, foi interposto contra acórdão assim ementado(fl. 251): PENAL. RECEPTAÇÃO. CIÊNCIA DA ORIGEM ILÍCITA DO BEM. PROVAS. DESCLASSIFICAÇÃO. IMPOSSIBILIDADE. Tratando-se de crime de receptação, o comportamento do réu e as circunstâncias em que concretizada a apreensão do bem constituem parâmetros para a avaliação do dolo. A apreensão da res furtiva em poder do acusado dá ensejo à distribuição do ônus da prova. Aquele que detém a posse sobre determinado bem, cuja origem ilícita já foi evidenciada, assume a obrigação de demonstrar inequivocamente a sua licitude ou boa-fé, nos termos do art. 156 do Código de Processo Penal. Desse ônus o réu não se desincumbiu. O réu receptou bem que sabia ser produto de crime, incidindo no tipo penal previsto no caput do artigo180 do Código Penal. Não há se falar em desclassificação do delito, pois o acusado tinha ciência da origem ilícita do bem, comprovado o dolo para a prática delituosa. Apelo desprovido. Nas razões do recurso especial (fls. 258-262), o agravantealega violação doart. 180, caput, do Código Penale do art. 156, do Código de Processo Penal,defendendo que houve ofensa ao "princípio da inocência" ao argumento de que o ônus da prova da acusação foi transferido para a defesa. O recurso não merece prosperar. A sentença condenou o recorrente pelo crime do art. 180, caput, do Código Penal, nos seguintes termos (fls. 175-177): No que concerne à materialidade delitiva, ela se encontra devidamente comprovada, sobretudo pelos seguintes documentos: auto de prisão em flagrante (fls. 2D/6), auto de apresentação e apreensão (fl. 15), termo de restituição (fl. 16), ocorrência policial (fls. 17/17v e 22/23v), laudo de perícia papiloscópica (fls. 76/79), relatório policial (fls. 26/29) e laudo de avaliação econômica indireta (fls. 90/94). De igual modo, a autoria delitiva se encontra demonstrada pelas provas colacionadas aos autos quanto à receptação. Em juízo, o acusado confessou a prática delitiva, informando que: a acusação é verdadeira; adquiriu a moto descrita na denúncia de um vendedor desconhecido, o qual estava anunciando a motocicleta na Feira do Rolo; pesquisou a placa no SINESP e não constava restrição de crime; o vendedor disse que se tratava de ágio estourado; pagou R$ 1.500,00, mas não pegou nenhuma documentação; a intenção era andar na moto até o banco financiador tomar o bem de volta; não sabia que se tratava de produto de crime; alertado que não havia ônus de financiamento sobre a motocicleta, manteve a versão de que não tinha conhecimento da ilicitude do bem; nunca foi atrás do vendedor. .. Em vista do exposto, JULGO PARCIALMENTE PROCEDENTE a pretensão punitiva para CONDENAR o réu FÁBIO SILVESTRE DE PAIVA NETO, qualificado nos autos, pela prática do crime previsto no artigo 180, caput, do Código Penal. O Tribunal de origem decidiu nestes termos (fl. 254): No crime de receptação, o comportamento do réu e as circunstâncias em que concretizada a apreensão do bem constituem parâmetros para a avaliação do dolo. A apreensão da res furtiva em poder do acusado dá ensejo à distribuição do ônus da prova. Aquele que detém a posse sobre determinado bem, cuja origem ilícita já foi evidenciada, assume a obrigação de demonstrar inequivocamente a sua licitude ou boa-fé, nos termos do art. 156 do Código de Processo Penal. O réu receptou bem que sabia ser produto de crime, incidindo no tipo penal previsto no caput do artigo 180 do Código Penal. O objeto adquirido pelo acusado era produto de furto. O réu receptou bem que sabia ser produto de crime, pois adquiriu o objeto na Feira do Rolo, local conhecido pelo comércio de produtos ilícitos, com pessoa desconhecida, sem exigir qualquer documento, nota-fiscal ou recibo, incidindo no tipo penal previsto no caput do artigo 180 do Código Penal. A testemunha policial, Wellington, afirmou, em juízo, que, ao abordar vários rapazes que estavam em volta da motocicleta, encontrou a chave no bolso do réu. Constataram que se tratava de produto de crime, e, ao indagarem o apelante, ele informou que a havia adquirido na Feira do Rolo por R$ 1.500,00 (ID14468387, pág. 3). O depoimento prestado pelo policial militar é dotado de fé pública e, portanto, reveste-se de eficácia probatória, incidindo o princípio da legitimidade e veracidade dos atos administrativos. Ademais, não existem motivos para supor que o policial tenha agido deliberadamente para incriminar o acusado. Não há se falar em desclassificação do delito, pois o acusado tinha ciência da origem ilícita do bem, comprovado o dolo para a prática delituosa. Considerando o teor dos trechos do acórdão ora transcrito, verifica-se que, acerca da autoria e materialidade, o entendimento do Tribunal de origem encontra amparo na jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça, postano sentido de que na análise do crime de receptação, havendo a apreensão do bem em poder do pacienteé ônus da defesa a prova acerca da origem lícita do bem ou da conduta culposa do réu. Incidência, na espécie, da Súmula n. 83 do STJ. Nesse sentido: PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. RECEPTAÇÃO. ABSOLVIÇÃO. ORIGEM LÍCITA DOS BENS. ÔNUS DA PROVA DA DEFESA. NÃO COMPROVAÇÃO. REVERSÃO DO JULGADO PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. IMPOSSIBILIDADE. REVISÃO DO CONTEÚDO FÁTICO-PROBATÓRIO. ÓBICE DAS SÚMULAS N. 7/STJ E 279/STF. 1. A jurisprudência desta Corte Superior é firmada no sentido de que, "no crime de receptação, se o bem houver sido apreendido em poder do paciente, caberia à defesa apresentar prova acerca da origem lícita do bem ou de sua conduta culposa, nos termos do disposto no art. 156 do Código de Processo Penal, sem que se possa falar em inversão do ônus da prova" (AgRg no HC n. 331.384/SC, relator Ministro RIBEIRO DANTAS, QUINTA TURMA, julgado em 22/8/2017, DJe 30/8/2017). 2. A Corte originária reconheceu a existência de elementos de prova suficientes para embasar o decreto condenatório pela prática do crime de receptação. Assim, a mudança da conclusão alcançada no acórdão impugnado, de modo a absolver o acusado, exigiria o reexame das provas, o que é vedado nesta instância extraordinária, uma vez que o Tribunal a quo é soberano na análise do acervo fático-probatório dos autos (Súmula n. 7/STJ e Súmula n. 279/STF). 3. Agravo regimental desprovido. (AgRg no AREsp 1843726/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, DJe 16/08/2021.) AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. INEXISTÊNCIA DE NEGATIVA DE PRESTAÇÃO JURISDICIONAL. SISTEMA DO LIVRE CONVENCIMENTO MOTIVADO. DECISÃO FUNDAMENTADA. EXAME DA PROVA POR PARTE DA CORTE LOCAL. CONFIRMADA A MATERIALIDADE E A AUTORIA DELITIVA. SÚMULA 7 DO STJ. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ART. 155 DO CPP. RECEPTAÇÃO. CABE À DEFESA APRESENTAR PROVA ACERCA DA ORIGEM LÍCITA DO BEM. ALEGAÇÃO DE CERCEAMENTO DE DEFESA. FUNDAMENTAÇÃO DEFICIENTE. SÚMULA 284 DO STF. REGIME INICIAL. TEMA PREJUDICADO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Observa-se que não há negativa de prestação jurisdicional, porquanto o acórdão recorrido dirimiu a causa com base em fundamentação sólida, sem nenhuma omissão ou contradição. Na verdade, apenas resolveu a celeuma em sentido contrário ao pretendido pela parte insurgente. Ademais, o órgão julgador não está obrigado a responder questionamentos das partes, mas apenas a declinar as razões de seu convencimento motivado, o que de fato ocorre nos autos. 2. No sistema de valoração das provas do processo penal brasileiro, vigora o princípio do livre convencimento motivado, em que é dado ao julgador decidir pela condenação do agente, desde que o faça fundamentadamente. 2.1. A Corte local, de forma minudente, examinou a prova dos autos e afirmou a presença de elementos que atestam a materialidade e a autoria delitiva. Ciente disso, o acolhimento do inconformismo, segundo as alegações vertidas nas razões do especial, demanda o revolvimento do acervo fático-probatório dos autos, situação vedada pela Súmula 7 do STJ. 3. Não há se falar em violação ao art. 155 do CPP, pois o juízo condenatório foi firmado em depoimentos colhidos judicialmente e em laudos periciais. 3.1. Com efeito, "a jurisprudência consolidada desta Corte, segundo a qual, no crime de receptação, se o bem houver sido apreendido em poder do paciente, caberia à defesa apresentar prova acerca da origem lícita do bem ou de sua conduta culposa, nos termos do disposto no art. 156 do Código de Processo Penal, sem que se possa falar em inversão do ônus da prova" (AgRg no HC 331.384/SC, de minha relatoria, QUINTA TURMA, julgado em 22/08/2017, DJe 30/08/2017). 4. Alegação de cerceamento de defesa. A fundamentação apresentada no recurso se mostra deficiente, atraindo, assim, a incidência da Súmula 284 do STF. É importante ponderar que o recurso especial é reclamo de natureza vinculada e, dessa forma, para o seu cabimento, imprescindível que o recorrente demonstre de forma clara e objetiva de que modo o acórdão recorrido teria contrariado os dispositivos apontados como violados, sob pena de inadmissão. 5. A Quinta Turma desta Colenda Corte de Justiça, no julgamento do HC 440.962/SP, concedeu a ordem para determinar o início do resgate da pena no modo intermediário. Portanto, este ponto do recurso especial já se encontrava prejudicado. 6. Agravo regimental desprovido. (AgRg no REsp 1774653/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 19/12/2018.) Ademais, a alteração dos fundamentos descritos pela instância ordinária,soberana na análise das provas, quanto ao reconhecimento da autoria e materialidade do delito,necessitaria da reavaliaçãodo contexto fático-probatóriodos autos, procedimento vedado na via do recurso especial, nos termos da Súmula n. 7 do STJ, conforme precedentes acima. Ante o exposto, nego provimento ao agravo. Publique-se. Intimem-se.