HC 1023456 - DECISAO
O habeas corpus foi considerado inadequado como substitutivo de recurso próprio e não conheceu-se a impetração, pois as alegações de insuficiência probatória demandariam exame fático-probatório não cabível na via, a dosimetria e o regime foram fundamentados pela instância de origem com base em reincidência e maus...
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- Parties
- Paciente: UANDERSON DOMINGUES ROSA; Órgão Julgador De Origem: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo; Apelante: Ministério Público
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 07 August 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Não Conhecido (decisão Monocrática Do Relator)
- Outcome
- não conheço do habeas corpus
- Legal Topics
- Receptação, Dosimetria Da Pena, Regime Prisional, Insuficiência De Provas, Maus Antecedentes, Presunção De Inocência, Substituição Da Pena Por Restritivas De Direitos, Prisão Preventiva, Súmula 269/stj
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Parties
UANDERSON DOMINGUES ROSA
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Órgão Julgador De Origem
Ministério Público
Apelante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Não Conhecido (decisão Monocrática Do Relator)
Legal Issues
- 1 possibilidade de habeas corpus como substitutivo de recurso ordinário
- 2 insuficiência de provas quanto ao dolo específico na receptação
- 3 valoração de condenações pretéritas como maus antecedentes na dosimetria
Ratio Decidendi
O habeas corpus foi considerado inadequado como substitutivo de recurso próprio e não conheceu-se a impetração, pois as alegações de insuficiência probatória demandariam exame fático-probatório não cabível na via, a dosimetria e o regime foram fundamentados pela instância de origem com base em reincidência e maus antecedentes conforme jurisprudência do STJ, e temas não examinados pela origem (substituição por restritivas de direitos e prisão preventiva) não puderam ser apreciados para evitar supressão de instância.
Court Disposition
não conheço do habeas corpus
Orders
- Intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de UANDERSON DOMINGUES ROSA contra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, no julgamento da Apelação Criminal n. 1502870-41.2021.8.26.0540. Consta dos autos que o paciente foi condenado, pelo Juízo de primeiro grau, como incurso no art. 180, caput, do Código Penal, à pena de 1 ano e 2 meses de reclusão, em regime inicial aberto, além do pagamento de 11 dias-multa (e-STJ fls. 25-28). Interposta apelação pelo Ministério Público, a Corte estadual deu provimento ao recurso (e-STJ fls. 13-16), elevando a pena para 1 ano, 4 meses e 24 dias de reclusão, a ser cumprida em regime inicial fechado, além do pagamento de 14 dias-multa. Neste writ (e-STJ fls. 2-12), a impetrante assevera que o paciente sofre constrangimento ilegal em razão da condenação pela prática do crime que lhe fora imputado. Subsidiariamente, aponta ilegalidade na fixação das penas, do regime, e da prisão preventiva do acusado. Afirma que a condenação do acusado baseou-se em provas insuficientes para demonstrar o dolo específico necessário para a configuração do crime de receptação. Nesse contexto, aduz que os elementos de prova que embasariam a condenação são deficitários, motivo pelo qual, diante da não superação da presunção de inocência, a absolvição é medida que se impõe. Quanto à dosimetria da pena, argumenta que a decisão que elevou a pena, sem uma análise pormenorizada da influência de cada antecedente na conduta específica de Uanderson, desconsidera a necessidade de individualização. A ausência dessa análise impede a correta aplicação da pena, pois não permite avaliar a real gravidade da conduta e a necessidade de uma sanção mais severa (e-STJ fl. 5). Defende a inadequação do regime inicial fechado, afirmando que a imposição do regime mais gravoso foi feita sem considerar as circunstâncias judiciais favoráveis, o que configura constrangimento ilegal. Aduz omissão na análise da substituição da pena privativa de liberdade por restritivas de direitos, em manifesta violação ao princípio da fundamentação das decisões judiciais. Aponta, ainda, ausência de fundamentação idônea para a manutenção da prisão, em flagrante desrespeito ao princípio da presunção de inocência, viola o artigo 5º, inciso LVII, da Constituição Federal (e-STJ fl. 9). Diante disso, requer, liminarmente, que o paciente aguarde o julgamento final deste writ em liberdade. No mérito, pede a absolvição do acusado, com base na insuficiência de provas. Subsidiariamente, pugna pela redução das penas aplicadas e pela fixação do regime inicial aberto. É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, seguindo o entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, como forma de racionalizar o emprego do habeas corpus e prestigiar o sistema recursal, não admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Cumpre analisar, contudo, em cada caso, a existência de ameaça ou coação à liberdade de locomoção do paciente, em razão de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia na decisão impugnada, a ensejar a concessão da ordem de ofício. Na espécie, embora a impetrante não tenha adotado a via processual adequada, para que não haja prejuízo à defesa do paciente, passo à análise da pretensão formulada na inicial, a fim de verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. Acerca do rito a ser adotado para o julgamento desta impetração, as disposições previstas nos arts. 64, III, e 202, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforme com súmula ou com a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores ou a contraria (AgRg no HC 513.993/RJ, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/06/2019, DJe 01/07/2019; AgRg no HC 475.293/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 03/12/2018; AgRg no HC 499.838/SP, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/04/2019, DJe 22/04/2019; AgRg no HC 426.703/SP, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018 e AgRg no RHC 37.622/RN, Relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n.45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 06/08/2019, DJe 13/08/2019). Possível, assim, a análise do mérito da impetração, já nesta oportunidade. Busca-se, como relatado, a absolvição do paciente, por insuficiência de provas; o afastamento da exasperação relativa aos maus antecedentes; o abrandamento do regime prisional, a substituição da pena privativa de liberdade por restritivas de direitos, além do afastamento da prisão preventiva. Inicialmente, é de se notar que a tese de insuficiência das provas quanto à existência de dolo na conduta do paciente, consiste em alegação de inocência, a qual não encontra espaço de análise na estreita via do habeas corpus ou do recurso ordinário, por demandar exame do contexto fático-probatório. Com efeito, segundo o STF, "não se admite no habeas corpus a análise aprofundada de fatos e provas, a fim de se verificar a inocência do Paciente" (HC n. 115.116/RJ, Relatora Ministra CÁRMEN LÚCIA, Segunda Turma, julgado em 16/9/2014, DJe 17/11/2014). Além disso, é de se destacar que já houve condenação em primeiro grau, confirmada em segunda instância, que sequer foi contestada pela defesa, tornando-se ainda mais inviável o pleito de reconhecimento da alegada inocência. Não pode o writ, remédio constitucional de rito célere e que não abarca a apreciação de provas, reverter conclusão obtida por magistrado que conduziu a ação penal originária, com toda a consequente e ampla instrução criminal, e que posteriormente foi ratificada pelo Colegiado da instância a quo. Caso contrário, se estaria transmutando-o em sucedâneo de revisão criminal. Quanto à dosimetria da pena, para melhor compreensão da controvérsia, segue a fundamentação adotada pelo Tribunal local para majorar a pena-base do ora paciente (e-STJ fls. 32/33): .. Na primeira fase, assiste razão ao ilustre Parquet quando pretende a fixação da pena-base acima do mínimo legal, pois o acusado é portador de maus antecedentes (fls. 32/35, autos n. 0031329-47.2005.8.26.0554 roubo majorado, pena julgada extinta Petição Eletrônica protocolada em 01/08/2025 17:57:18 27/8/2018 fls. 33; autos n. 0036419-06.2005.8.26.0564 roubo majorado, pena julgada extinta em 19/12/2017 fls. 34). Dessa forma, tendo em vista a existência de duas condenações aptas a configurar os maus antecedentes, a basilar deve ser majorada em 1/5, resultando 1 ano, 2 meses e 12 dias de reclusão, e pagamento de 12 dias-multa, no piso. .. Com efeito, extrai-se do trecho acima que o acréscimo da basilar se deu de maneira fundamentada, já que condenações anteriores extintas ou cumpridas há mais de 5 (cinco) anos, pois, embora não caracterizem a reincidência, podem ser utilizadas para fins de maus antecedentes. A propósito: PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO. FURTO QUALIFICADO. PENA-BASE. ANTECEDENTES. APLICAÇÃO DO SISTEMA DA PERPETUIDADE. QUALIFICADORAS REMANESCENTES. VALORAÇÃO NA PENA-BASE. POSSIBILIDADE. INOCORRÊNCIA DE BIS IN IDEM REGIME PRISIONAL. CIRCUNSTÂNCIAS DESFAVORÁVEIS. REGIME FECHADO CABÍVEL PARA O RÉU REINCIDENTE E SEMIABERTO PARA O PRIMÁRIO. WRIT NÃO CONHECIDO. 1. Esta Corte e o Supremo Tribunal Federal pacificaram orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. 2. A individualização da pena é uma atividade vinculada a parâmetros abstratamente cominados pela lei, sendo permitido ao julgador, entretanto, atuar discricionariamente na escolha da sanção penal aplicável ao caso concreto, após o exame percuciente dos elementos do delito, e em decisão motivada. Dessarte, ressalvadas as hipóteses de manifesta ilegalidade ou arbitrariedade, é inadmissível às Cortes Superiores a revisão dos critérios adotados na dosimetria da pena. 3. No caso, as instâncias ordinárias valoraram como circunstâncias judiciais duas das três qualificadoras do crime de furto. Nos termos da jurisprudência desta Corte, de rigor a utilização de circunstâncias qualificadoras remanescentes àquela que qualificou o tipo como causas de aumento, agravantes ou circunstâncias judiciais desfavoráveis, respeitada a ordem de prevalência, ficando apenas vedado o bis in idem. 4. No que tange à validade da condenação anterior para valorar negativamente os antecedentes, o tempo transcorrido após o cumprimento ou extinção da pena não elimina essa circunstância judicial desfavorável, tendo em vista a adoção pelo Código Penal do sistema da perpetuidade: ao contrário do que se verifica na reincidência (CP, art. 64, I), o legislador não limitou temporalmente a configuração dos maus antecedentes ao período depurador quinquenal. Não houve, pois, ilegalidade na valoração dos antecedentes na pena-base. .. 7. Habeas corpus não conhecido (HC n. 479.583/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 5/2/2019, DJe 13/2/2019). No que se refere ao pedido de abrandamento do regime inicial de cumprimento da pena, esclareço que a jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que para a fixação de regime mais gravoso é necessária a apresentação de motivação concreta, fundada nas circunstâncias judiciais previstas no art. 59 do Código Penal, na primariedade do acusado e na gravidade concreta do delito, evidenciada esta última por um modus operandi que desborde dos elementos normais do tipo penal violado. No presente caso, não obstante o quantum da pena enseje regime inicial mais brando, a Corte local fixou o regime prisional fechado com fundamento na reincidência e nos maus antecedentes do paciente. Diante disso, não é o caso, sequer, da aplicação do enunciado n. 269 da Súmula desta Corte Superior, de forma que correta a fixação do regime inicial fechado. Nesse sentido: HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. DESCABIMENTO. RECEPTAÇÃO SIMPLES. DOSIMETRIA. PENA-BASE. CONDENAÇÕES PRETÉRITAS TRANSITADAS EM JULGADO. VALORAÇÃO NEGATIVA DAS CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS DA PERSONALIDADE E DA CONDUTA SOCIAL DO AGENTE. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. READEQUAÇÃO DA PENA-BASE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL VERIFICADO. REGIME FECHADO. PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. REINCIDÊNCIA. SÚMULA N. 269 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - STJ. NÃO INCIDÊNCIA. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. 1. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração não deve ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal - STF e do próprio Superior Tribunal de Justiça - STJ. Contudo, considerando as alegações expostas na inicial, razoável a análise do feito para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. 2. O refazimento da dosimetria da pena em habeas corpus tem caráter excepcional, somente sendo admitido quando se verificar de plano e sem a necessidade de incursão probatória, a existência de manifesta ilegalidade ou abuso de poder. 3. A dosimetria da pena deve ser feita seguindo o critério trifásico descrito no art. 68, c/c o art. 59, ambos do Código Penal - CP, cabendo ao Magistrado aumentar a pena de forma sempre fundamentada e apenas quando identificar dados que extrapolem as circunstâncias elementares do tipo penal básico. 4. Em recente julgado, esta Quinta Turma deste Sodalício deixou consignado que condenações pretéritas, ainda que transitadas em julgado, não constituem fundamentos idôneos a desabonar a personalidade ou a conduta social do agente (HC 366.639/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, DJe 5/4/2017). Na hipótese, verifico que a dosimetria merece reforma, com a readequação da pena-base, impondo-se o afastamento da valoração negativa das circunstâncias judiciais da personalidade e da conduta social do agente, pois fundamentadas em sentenças condenatórias com trânsito em julgado. 5. Embora a pena final não tenha ultrapassado 4 anos de reclusão, a presença de circunstância judicial negativa e de reincidência possibilita a fixação do regime inicial fechado. Não incidência do enunciado n. 269 da Súmula desta Corte. 6. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício, para reformar o acórdão impugnado, a fim de redimensionar a pena do paciente para 1 ano e 8 meses de reclusão, além do pagamento de 12 dias-multa, mantidos os demais termos do édito condenatório. (HC 484.626/DF, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 07/02/2019, DJe 15/02/2019) Quanto ao mais, não obstante as razões constantes da petição inicial, da leitura do acórdão impugnado, verifico que a Corte local não foi provocada a se manifestar acerca da negativa de substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos, bem como de eventual prisão preventiva . Assim, constatada a ausência do exame dos temas na origem, não é possível a apreciação das questões suscitadas na deste habeas corpus pelo Superior Tribunal de Justiça, sob pena de indevida supressão de instância. Nesse sentido: HABEAS CORPUS. HOMICÍDIO DUPLAMENTE QUALIFICADO. ATUAÇÃO DE ADVOGADO NO PRIMEIRO GRAU COM PODERES PARA ATUAÇÃO APENAS NO SEGUNDO GRAU. AUSÊNCIA DE PREJUÍZO. TESE DE FALTA DE JUSTA CAUSA. PACIENTE JÁ PRONUNCIADA E CONDENADA. CONSEQUÊNCIAS DA ABSOLVIÇÃO DOS CORRÉUS QUANTO À QUALIFICADORA DA PROMESSA DE RECOMPENSA. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. PLEITO DE SUSPENSÃO DA EXECUÇÃO PROVISÓRIA DA PENA. RÉ QUE RESPONDEU EM LIBERDADE À AÇÃO PENAL. PRISÃO DETERMINADA UNICAMENTE EM FUNÇÃO DO ESGOTAMENTO DA JURISDIÇÃO ORDINÁRIA. ORDEM PARCIALMENTE CONCEDIDA. 1. Em matéria de nulidade, rege o princípio pas de nullité sans grief, segundo o qual não há nulidade sem que o ato tenha gerado prejuízo para a acusação ou para a defesa. Não se prestigia, portanto, a forma pela forma, mas o fim atingido pelo ato. Por essa razão, a desobediência às formalidades estabelecidas na legislação processual só pode acarretar o reconhecimento da invalidade do ato quando a sua finalidade estiver comprometida em virtude do vício verificado, trazendo prejuízo a qualquer das partes da relação processual. 2. Apesar de vários atos processuais terem sido praticados por advogado sem poderes para tanto - substabelecido apenas para acompanhar o recurso em sentido estrito -, não há nulidade, uma vez que foi garantida à ré a plenitude de defesa. 3. Não há falar em falta de justa causa para a ação penal depois de já haver sido pronunciada e condenada a ré. 4. É defeso a esta Corte pronunciar-se sobre matéria não apreciada pela instância ordinária. Assim, uma vez que o Tribunal de origem não discutiu a tese defensiva de que a absolvição dos corréus quanto à qualificadora da promessa de recompensa implicaria a absolvição da paciente da acusação de ser a mandante do crime, não pode o STJ analisar a questão, sob pena de incidir em indevida supressão de instância. 5. Em 7/11/2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que é constitucional a regra do Código de Processo Penal que prevê o esgotamento de todas as possibilidades de recurso para o início do cumprimento da pena. O art. 283 do CPP está em conformidade com a garantia prevista no art. 5º, LVII, da Constituição Federal. 6. A Sexta Turma do STJ, ao examinar o assunto, concluiu que, com a mudança do entendimento do STF, a segregação advinda do esgotamento da jurisdição ordinária, determinada pelo Tribunal de origem, tornou-se ilegal, situação que enseja a intervenção imediata desta Corte. 7. Na hipótese, tendo em vista que a paciente respondeu solta a toda a ação penal e que sua prisão decorreu unicamente da finalização da jurisdição ordinária, a sua soltura é medida que se impõe.8. Ordem parcialmente concedida a fim de determinar a soltura da paciente, em conformidade com a decisão do Supremo Tribunal Federal proferida em controle concentrado no julgamento das ADCs 43, 44 e 54 (HC 517.752/PE, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 3/12/2019, DJe 11/12/2019). Assim, uma vez que as pretensões formuladas pela impetrante encontram óbice na jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça e na legislação penal, não vislumbro constrangimento ilegal apto a justificar a atuação desta Corte, de ofício. Ante o exposto, com amparo no art. 34, inciso XX do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço do habeas corpus. Intimem-se. EMENTA