AREsp 2677294 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e do recurso especial porque o agravo foi tempestivo e demonstrou afronta a dispositivo de lei federal; verificou-se que o acórdão recorrido examinou a matéria (havia prequestionamento), a tese defensiva não exigia reexame de provas (não incidindo Súmula 7) e os fundamentos infraconstitucionais...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: Agravante; Parecer: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 January 2025
- Procedural Posture
- Agravo Em Recurso Especial / Conhecimento Do Agravo E Julgamento Do Recurso Especial (decisão De Admissibilidade E Mérito Do Recurso Especial)
- Outcome
- Conheço do agravo e nego provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Receptação Dolosa, Receptação Culposa, Prequestionamento, Artigo 619 Do CPP, Súmula Nº 7 Do STJ, Admissibilidade De Recurso Especial
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
Agravante
Agravante
Ministério Público Federal
Parecer
Procedural Posture
Agravo Em Recurso Especial / Conhecimento Do Agravo E Julgamento Do Recurso Especial (decisão De Admissibilidade E Mérito Do Recurso Especial)
Legal Issues
- 1 O Tribunal a quo teria omitido a análise da tese defensiva de receptação culposa
- 2 Violação do artigo 619 do Código de Processo Penal
- 3 Prequestionamento e incidência de súmulas (282, 283, 284 STF; 126 STJ)
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e do recurso especial porque o agravo foi tempestivo e demonstrou afronta a dispositivo de lei federal; verificou-se que o acórdão recorrido examinou a matéria (havia prequestionamento), a tese defensiva não exigia reexame de provas (não incidindo Súmula 7) e os fundamentos infraconstitucionais foram suficientes para decidir manter a condenação por receptação dolosa, não havendo omissão a ser sanada pelos embargos de declaração; assim, conheceu-se do agravo e negou-se provimento ao recurso especial.
Court Disposition
Conheço do agravo e nego provimento ao recurso especial.
Orders
- Conheço do agravo em recurso especial
- Nego provimento ao recurso especial
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de agravo interposto contra decisão que inadmitiu o recurso especial manejado pelo ora agravante. O agravante requer o provimento do agravo (e-STJ fls. 474-480) a fim de que o recurso especial seja conhecido e provido "para anular o v. acórdão dos aclaratórios e determinar o julgamento adequado", ao argumento, em síntese, de que o Tribunal a quo se omitiu quanto à análise da tese defensiva de que teria ocorrido receptação culposa (e-STJ fls. 443-449) Contraminuta apresentada (e-STJ fls. 487-498). Parecer do Ministério Público Federal pelo "pelo conhecimento do agravo para negar provimento ao recurso especial" (e-STJ fls. 506-512). É o relatório. Decido. O agravo em recurso especial é tempestivo e infirmou os argumentos da decisão do Tribunal a quo, razão pela qual, nos termos do art. 253, parágrafo único, inc. II, do RISTJ, conheço do agravo e passo ao exame do recurso especial. O recurso especial é tempestivo e está com a representação processual correta. O recorrente indicou os permissivos constitucionais que embasam o recurso e o dispositivo de lei federal supostamente violado, demonstrando pertinência na fundamentação (não incidência da súmula nº 284 do STF). Observa-se, ainda, que o acórdão recorrido examinou expressamente a matéria arguida no recurso, cumprindo com a exigência do prequestionamento (não incidência da súmula 282 do STF) e apresentou fundamentos de cunho infraconstitucional (não incidência da súmula 126 do STJ), todos rebatidos nas razões recursais (não incidência da súmula 283 do STF). Por fim, a tese defensiva não exige o reexame de provas, pois parte de fatos incontroversos nos autos, no que tange à alegação de violação ao artigo 619 do CPP, não incidindo a Súmula nº 7 do STJ, portanto. Com relação à alegação de violação do dispositivo legal mencionado, por se tratar de matéria de direito, conheço do recurso e passo à sua análise. O Tribunal de origem negou provimento ao apelo defensivo, mantendo a condenação por receptação dolosa, pelos seguintes fundamentos (e-STJ fls. 213-218): "Pois bem. Em que pese o esforço defensivo em sentido contrário, não há ensejo para acolhimento do pedido de absolvição ou de desclassificação da receptação para a modalidade culposa. (..) Com efeito, no crime de receptação, o conhecimento da origem ilícita do bem reside no íntimo do agente, porém, ainda que secreto, pode se exteriorizar pelo seu comportamento e pelo modo como se realiza a conduta nuclear do tipo penal. Nesse aspecto, por primeiro, cumpre destacar que segundo os policiais civis que conduziram o apelante, perante a autoridade policial, eles afirmaram que o acusado teria relatado que comprou a moto de "Carlos" que possuía o telefone "(67)99134-3577" (f. 12 e f. 15). De fato, como afirma a defesa "não houve qualquer diligência investigativa da Autoridade policial, mesmo plenamente a par das informações". Ocorre que o apelante, principal interessado no esclarecimento dos fatos, nem perante a autoridade policial tampouco em juízo fez qualquer relato nesse sentido. Pelo contrário, perante a autoridade policial, f. 17/18, afirmou que comprou a motocicleta "de uma pessoas que interrogado não sabe informar o nome" e que "a pessoa que lhe entregou a moto era magro, branco, cabelo liso, com altura aproximada de 1,80m". Sendo que em juízo, f. 290, relatou que comprou a moto de "um senhor" não dando maiores esclarecimentos acerca de tal pessoa. Ou seja, nesse cenário, não entendo que a investigação foi falha uma vez que tal informação, em nenhum momento, foi confirmado pelo réu. De outro lado, tem-se na hipótese que o acusado adquiriu a motocicleta pelo facebook, de uma pessoa que não sabe nominar, sem contrato formal, despido dos documentos de registro do automóvel. Nesse ponto cumpre também esclarecer que o apelante afirmou comprou a moto com a informação de que iria incidir sob ele uma multa (o filho do dono da moto teria recebido uma multa no valor de R$ 3.000,00 por embriaguez - f. 17/18). Como é cediço, a motocicleta, se na abordagem onde se constatou a embriaguez do condutor, só pode ser liberada, primeiro, se estiver com a documentação em dia e, segundo, se estiver presente um motorista habilitado e em condições psicomotoras normais para conduzi-la. Logo, se a moto, como afirmou a defesa, seria "BOB" tão somente em razão da multa, não haveria motivo algum para o apelante não possuir o documento de porte obrigatório da moto. Assim, mais uma vez, em que pese o esforço defensivo, à toda evidência, denota que o réu tinha pleno conhecimento da respectiva origem ilícita, até porque, qualquer pessoa, nas mesmas condições, chegaria a essa mesma conclusão. Gize-se, ademais, que não encontra qualquer outro suporte probatório, além da própria palavra do réu (que naturalmente busca se eximir de responsabilidade), a narrativa de que não desconfiou da regularidade da indigitada contratação. Cumpre ainda relembrar que, em delitos patrimoniais, a posse do(s) acusado(s) sobre a coisa subtraída consubstancia prova bastante incriminadora, podendo justificar a condenação quando corroborada pelas demais provas dos autos, como no caso. Por oportuno, porém, ressalvo que não há confundir inversão do ônus da prova com o direito de produzir prova contraposta. A primeira ocorre quando se assume verdadeiro algo que não está provado, transferindo a outra parte o dever de refutar o presumido. Já a segunda é resultado do exercício do contraditório, que dá o direito à parte de buscar repelir aquilo que se pensava inicialmente demonstrado. No caso dos autos, como visto, logrou a acusação em evidenciar a prática da receptação por parte do réu, afastando sua inocência presumida. Nesse cenário, vê-se que a hipótese denunciada está demonstrada e não há falar em inversão, porquanto o ônus restou, como era esperado, adequadamente cumprido pela acusação, a qual, não só evidenciou a existência da ocorrência de um crime e a respectiva autoria, como também aclarou ser inverossímil a negativa do réu, a qual não subsiste quando confrontada com as demais provas produzidas no caderno processual. Assim, tanto no início, como no final, constata-se que a carga probatória permaneceu com a acusação e, tendo ela demonstrado que o réu o praticou delito descrito na inicial, solução outra não há senão a manutenção do édito condenatório no crime de receptação dolosa, afastando-se os pedidos de absolvição e de desclassificação para a modalidade culposa, devendo ser mantida a bem lançada condenação. Aliás, ainda bem destacou a magistrada singular que "muito embora tenha o acusado negado a percepção das adulterações e afirmado que o valor da venda aquém do mercado era em decorrência de uma multa superveniente, fato é que ele afirmou perante a autoridade policial que tinha o costume de adquirir motocicletas anunciadas como "BOB" e efetuar a revenda por valor a maior, para obtenção de lucro, e que tinha a intenção de vender a motocicleta objeto dos autos por R$3.000,00, o que exige do acusado um olhar clínico sobre os veículos objetos de aquisição e revenda, bem como o conhecimento acerca da necessidade de consulta da placa do bem, chassi e demais informações junto aos sistemas do DETRAN, o que não foi comprovado, assim como não houve sequer a apresentação de eventual recibo de compra do bem, documentação, informações sobre a pessoa de quem o teria adquirido ou mesmo a multa que supostamente chegaria no valor de três mil reais, não se desincumbindo com isso do ônus probatório que o tipo penal requer. Nesse sentido, é cediço que para a configuração do crime de receptação dolosa se torna indispensável que o autor tenha prévia ciência de que a coisa tem origem ilícita. Com efeito, diante da dificuldade de obtenção de prova direta para a comprovação da receptação, tendo em vista que é inviável ao juiz perscrutar a mente do criminoso e a "transação", na maioria das vezes, ocorre sem testemunhas, as peculiaridades fáticas da apreensão da res de origem ilícita em poder do agente ganha especial relevo. No caso em tela, o réu alegou ter comprado o veículo avaliado em R$7.000,00, por menos da metade do valor de mercado, supostamente desconhecendo a ilicitude do objeto" (sem destaques no original) Extrai-se do excerto acima transcrito que o Tribunal local entendeu que, no crime de receptação, o conhecimento da origem ilícita do bem, embora resida no íntimo do agente, é exteriorizada pelo seu comportamento e pela forma como é realizada a conduta nuclear do tipo penal, de modo que passou, então, a descrever os comportamentos e as condutas do recorrente, para, ao final, concluir que "o réu tinha pleno conhecimento da respectiva origem ilícita, até porque, qualquer pessoa, nas mesmas condições, chegaria a essa mesma conclusão". Assim, não se verifica omissão no acórdão contra o qual foram opostos embargos de declaração pelo recorrente. De fato, "o dolo no crime de receptação é verificado pelos elementos fáticos e pela conduta do agente, que devem demonstrar que o réu tinha ou deveria ter conhecimento da origem ilícita do bem receptado." (AgRg no REsp 1838076 / SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 19/12/2022, DJe 21/12/2022). Nos termos do parecer ministerial, "No caso dos autos, " a o apontar negativa de vigência ao art. 619 do Código de Processo Penal, busca o recorrente o rejulgamento da causa, providência incompatível com a via estreita do recurso integrativo" (R Esp n. 1.945.740/PR, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 3/10/2023, D Je de 6/10/2023.)" (e-STJ fl. 512). Ante o exposto, na forma do art. 253, parágrafo único, inciso II, alínea "b", do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, conheço do agravo para conhecer e negar provimento ao recurso especial. Publique-se. Intimem-se. EMENTA