AREsp 2307108 - ACORDAO
Negou-se provimento ao agravo regimental porque a inversão do julgado para absolver o recorrente demandaria reexame probatório aprofundado vedado no recurso especial pela Súmula n. 7/STJ, e porque o pedido de absolvição ministerial não vincula o julgador, nos termos dos arts. 155 e 385 do CPP, devendo, portanto,...
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- Parties
- Agravante: ITALO SERGIO LEVRERO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 05 March 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental No Agravo Em Recurso Especial / Julgamento Colegiado Sexta Turma
- Outcome
- Agravo regimental desprovido
- Legal Topics
- Receptação Qualificada, Dolo Eventual, Reexame De Provas, Súmula N. 7/stj, Vinculação Judicial Ao Pedido Ministerial De Absolvição, Art. 385 Do Código De Processo Penal, Art. 155 Do Código De Processo Penal
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Parties
ITALO SERGIO LEVRERO
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental No Agravo Em Recurso Especial / Julgamento Colegiado Sexta Turma
Legal Issues
- 1 Possibilidade de reforma do julgado mediante reexame de provas em recurso especial
- 2 Vinculação do juiz sentenciante ao pedido de absolvição formulado pelo Ministério Público
- 3 Existência de dolo eventual na receptação qualificada
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo regimental porque a inversão do julgado para absolver o recorrente demandaria reexame probatório aprofundado vedado no recurso especial pela Súmula n. 7/STJ, e porque o pedido de absolvição ministerial não vincula o julgador, nos termos dos arts. 155 e 385 do CPP, devendo, portanto, prevalecer a decisão das instâncias ordinárias que concluiu pela culpa com base no conjunto probatório.
Court Disposition
Agravo regimental desprovido
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental
- Manter a decisão agravada
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Sexta Turma, por unanimidade, negar provimento ao agravo regimental, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz e Antonio Saldanha Palheiro votaram com o Sr. Ministro Relator. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL PENAL. RECEPTAÇÃO QUALIFICADA. DOLO EVENTUAL. PLEITO ABSOLUTÓRIO. TESE DE AUSÊNCIA DE PROVAS QUANTO À AUTORIA DELITIVA. INVERSÃO DO JULGADO. IMPOSSIBILIDADE. REEXAME DE PROVAS. SÚMULA N. 7/STJ. PEDIDO MINISTERIAL PELA ABSOLVIÇÃO EM MEMORIAIS. IRRELEVÂNCIA. NÃO VINCULAÇÃO DO JUIZ SENTENCIANTE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Tendo o juízo de primeiro grau e o Tribunal de origem decidido pela culpa do acusado, com base em um conjunto probatório factível existente no processo, não cabe a esta instância especial revolver a todos os fatos probantes para infirmar ou não a existência de dolo eventual na sua conduta. 2. A inversão do julgado, com vistas à absolvição do Recorrente, simplesmente porque esta foi a opinião em memoriais do órgão acusatório, exigiria aprofundado reexame fático-probatório, expediente vedado nesta seara recursal, conforme se extrai do óbice da Súmula n. 7/STJ. 3. O fato de a acusação ter requerido a absolvição do réu não acarreta vinculação ao órgão julgador, que poderá proferir sentença condenatória nos crimes de ação pública, por força dos arts. 155 e 385 do Código de Processo Penal. 4. Agravo regimental desprovido.
RELATÓRIO Trata-se de agravo regimental interposto por ITALO SERGIO LEVRERO contra decisão de minha relatoria que conheceu do agravo para não conhecer do recurso especial, assim ementado (fl. 2.520): "AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PENAL. RECEPTAÇÃO QUALIFICADA. DOLO EVENTUAL. ABSOLVIÇÃO. AUSÊNCIA DE PROVAS QUANTO À AUTORIA DELITIVA. INVERSÃO DO JULGADO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA N. 7/STJ. AGRAVO CONHECIDO PARA NÃO CONHECER DO RECURSO ESPECIAL." Nas razões deste agravo regimental, alega, em síntese, que "o agravante adquiriu a mercadoria de boa fé e pela confiança que nutria no relacionamento havido com os representantes legais da empresa", além de o Parquet ter pedido a sua absolvição em sede de memorais. É o relatório. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL PENAL. RECEPTAÇÃO QUALIFICADA. DOLO EVENTUAL. PLEITO ABSOLUTÓRIO. TESE DE AUSÊNCIA DE PROVAS QUANTO À AUTORIA DELITIVA. INVERSÃO DO JULGADO. IMPOSSIBILIDADE. REEXAME DE PROVAS. SÚMULA N. 7/STJ. PEDIDO MINISTERIAL PELA ABSOLVIÇÃO EM MEMORIAIS. IRRELEVÂNCIA. NÃO VINCULAÇÃO DO JUIZ SENTENCIANTE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Tendo o juízo de primeiro grau e o Tribunal de origem decidido pela culpa do acusado, com base em um conjunto probatório factível existente no processo, não cabe a esta instância especial revolver a todos os fatos probantes para infirmar ou não a existência de dolo eventual na sua conduta. 2. A inversão do julgado, com vistas à absolvição do Recorrente, simplesmente porque esta foi a opinião em memoriais do órgão acusatório, exigiria aprofundado reexame fático-probatório, expediente vedado nesta seara recursal, conforme se extrai do óbice da Súmula n. 7/STJ. 3. O fato de a acusação ter requerido a absolvição do réu não acarreta vinculação ao órgão julgador, que poderá proferir sentença condenatória nos crimes de ação pública, por força dos arts. 155 e 385 do Código de Processo Penal. 4. Agravo regimental desprovido. VOTO Em que pese à argumentação despendida, o agravo não merece acolhida. Com efeito, dessume-se das razões recursais que o Agravante não trouxe elementos suficientes para infirmar a decisão agravada que, de fato, apresentou a solução que melhor representa a orientação jurisprudencial deste Superior Tribunal de Justiça sobre a matéria. Como reconhece o próprio Recorrente em sua peça recursal, o acórdão recorrido "expressamente constou que o agravante tinha ciência da ilicitude da origem da mercadoria" (fl. 2.563), razão pela qual não se pode modificar esta premissa fática nesta seara recursal, por força do óbice da Súmula n. 7/STJ, apesar de todas as insurgências defensivas. Logo, nenhuma censura merece o decisum combatido, que deve ser mantido pelos seus próprios e jurídicos fundamentos, in verbis (fls. 2.521-2.522; grifos diversos do original): "Da análise dos fragmentos transcritos, vê-se que as instâncias ordinárias, com amparo em elementos concretos presentes nos autos, consideraram comprovada a autoria delitiva. Assim, a inversão do julgado, com vistas à absolvição do Recorrente, simplesmente porque esta foi a opinião em memoriais do órgão acusatório, exigiria aprofundado reexame probatório, o que não é possível no recurso especial, conforme se extrai da Súmula n. 7/STJ. Tendo o juízo de primeiro grau e o tribunal a quo decidido pela culpa do acusado, com base em um conjunto probatório factível existente no processo, não cabe a esta instância especial revolver a todos os fatos probantes para infirmar ou não a existência de dolo eventual na sua conduta." Assim, para concluir "que, pela prova produzida nos autos, restou evidenciado que o agravante adquiriu a mercadoria de boa fé" (fl. 2.565), não tendo ciência da sua origem ilícita, como quer o Agravante, seria necessário amplo revolvimento fático-probatório, expediente vedado nesta via estreita do apelo nobre. Acresça-se, por oportuno, que é pacífico nesta Sexta Turma o entendimento de que o artigo 385 do CPP foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988, não havendo falar em vinculação judicial quanto ao posicionamento diverso da manifestação ministerial, diante do fato de o magistrado gozar do livre convencimento motivado. Afinal, "nos termos do art. 385 do Código de Processo Penal, nos crimes de ação pública, o juiz poderá proferir sentença condenatória, ainda que o Ministério Público tenha opinado pela absolvição. O artigo 385 do Código de Processo Penal foi recepcionado pela Constituição Federal" (AgRg no REsp n. 1.612.551/RJ, relator Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2017, DJe 10/2/2017). No mesmo sentido: AgRg no HC n. 793.110/GO, relator Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, Sexta Turma, julgado em 14/8/2023, DJe de 16/8/2023; AgRg no HC n. 800.327/SP, relatora Ministra LAURITA VAZ, Sexta Turma, julgado em 20/3/2023, DJe de 29/3/2023; REsp n. 2.022.413/PA, relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, relator para acórdão Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 14/2/2023, DJe de 7/3/2023. Ilustrativamente: " .. 2. A circunstância de o Ministério Público requerer a absolvição do Acusado, seja como custos legis, em alegações finais ou em contrarrazões recursais, não vincula o Órgão Julgador, cujo mister jurisdicional funda-se no princípio do livre convencimento motivado, conforme interpretação sistemática dos arts. 155, caput, e 385, ambos do Código de Processo Penal. Precedentes do Supremo Tribunal Federal e do Superior Tribunal de Justiça. 3. "Quando o Ministério Público pede a absolvição de um réu, não há, ineludivelmente, abandono ou disponibilidade da ação, como faz o promotor norte-americano, que simplesmente retira a acusação (decision on prosecution motion to withdraw counts) e vincula o posicionamento do juiz. Em nosso sistema, é vedada similar iniciativa do órgão de acusação, em face do dever jurídico de promover a ação penal e de conduzi-la até o seu desfecho, ainda que, eventualmente, possa o agente ministerial posicionar-se de maneira diferente - ou mesmo oposta - do colega que, na denúncia, postulara a condenação do imputado" (STJ, REsp 1.521.239/MG, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ, Sexta Turma, julgado em 9/3/2017, DJe de 16/3/2017). 4. Ad argumentandum, vale referir que o Legislador Ordinário, ao editar a Lei n. 13.964/2019, acrescentou ao Código de Processo Penal o art. 3.º-A, segundo o qual " o processo penal terá estrutura acusatória, vedadas a iniciativa do juiz na fase de investigação e a substituição da atuação probatória do órgão de acusação". Todavia, qualquer interpretação que determine a vinculação do Julgador ao pedido absolutório do Ministério Público com fundamento, por si só, nessa regra, não tem legitimidade jurídica, pois o Supremo Tribunal Federal, em decisão monocrática proferida no dia 22/10/2020 pelo Ministro LUIZ FUX, "na condição de relator das ADIs 6.298, 6.299, 6.300 e 6305", suspendeu, "sine die a eficácia, ad referendum do Plenário, .. da implantação do juiz das garantias e seus consectários (Artigos 3º-A, 3º-B, 3º-C, 3º-D, 3ª-E, 3º-F, do Código de Processo Penal)". .. 6. Pedido parcialmente conhecido e, nessa extensão, ordem de habeas corpus denegada." (HC n. 588.036/SP, relatora Ministra LAURITA VAZ , Sexta Turma, julgado em 22/3/2022, DJe de 28/3/2022.) Ante todo o exposto, nego provimento ao agravo regimental. É o voto.