Rcl 42529 - DECISAO
Por interpretação do art. 988 do CPC/2015 e da sistemática legislativa (incluída a Lei 13.256/2016) concluiu-se que a reclamação ao STJ só é cabível nas hipóteses taxativas previstas em lei e, inexistindo deliberação prévia deste Tribunal sobre o caso concreto, não se pode utilizar a reclamação para exigir a...
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- Parties
- Reclamante: MÁRCIO PAULO FAGUNDES FILHO; Juízo Prolator: Juízo de Direito da Vara do júri da Comarca de Diadema/SP
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 November 2021
- Procedural Posture
- Reclamação / Extinção Sem Resolução Do Mérito (não Conhecida)
- Outcome
- Reclamação não conhecida e extinta sem resolução do mérito
- Legal Topics
- Reclamação, Cabimento Da Reclamação, Súmula Do STJ, Súmula Vinculante, Recursos Especiais Repetitivos, Dosimetria Da Pena, Atenuante Da Confissão Espontânea
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Parties
MÁRCIO PAULO FAGUNDES FILHO
Reclamante
Juízo de Direito da Vara do júri da Comarca de Diadema/SP
Juízo Prolator
Procedural Posture
Reclamação / Extinção Sem Resolução Do Mérito (não Conhecida)
Legal Issues
- 1 cabimento da reclamação para garantir aplicação de súmula do STJ
- 2 interpretação do art. 988 do CPC/2015 quanto às hipóteses de reclamação
- 3 possibilidade de atuação ex officio pelo STJ para readequação da dosimetria da pena
Ratio Decidendi
Por interpretação do art. 988 do CPC/2015 e da sistemática legislativa (incluída a Lei 13.256/2016) concluiu-se que a reclamação ao STJ só é cabível nas hipóteses taxativas previstas em lei e, inexistindo deliberação prévia deste Tribunal sobre o caso concreto, não se pode utilizar a reclamação para exigir a aplicação de súmula do STJ; assim, a reclamação não foi conhecida e foi extinta sem resolução do mérito com fundamento no art. 34, XVIII, alínea "a" do RISTJ e no art. 485, VI, do CPC/2015.
Court Disposition
Reclamação não conhecida e extinta sem resolução do mérito
Orders
- Extinção do processo sem resolução do mérito com fundamento no art. 34, inciso XVIII, alínea "a", do Regimento Interno do STJ (Emenda Regimental n. 22/2016) e no art. 485, VI, do CPC/2015
- Cientifiquem-se o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Estado de São Paulo e o Juízo prolator da decisão objeto de reclamação
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de reclamação ajuizada por MÁRCIO PAULO FAGUNDES FILHO, com amparo no art. 105, I, "f", da Constituição Federal e no art. 988 do CPC/2015, contra sentença proferida pelo Juízo de Direito da Vara do júri da Comarca de Diadema/SP, na ação penal n. 0000003-98.2016.8.26.0161. Alega o reclamante, em síntese, que, ao realizar a dosimetria da pena a si imposta, a magistrada de 1º grau teria violado o disposto na Súmula 545 do STJ, por ter deixado de aplicar a atenuante da confissão espontânea. Pede, assim, liminarmente e no mérito, a readequação da dosimetria da pena, aplicando-se a atenuante da confissão espontânea ao reclamante. Subsidiariamente, em caso de indeferimento da petição inicial, requer a apreciação do mérito e a concessão da ordem ex officio ante a ilegalidade sofrida pelo reclamante. É o relatório. Passo a decidir. Nos termos do art. 105, I, f, da CF/88, c/c o art. 187 do RISTJ, cabe Reclamação da parte interessada ou do Ministério Público, para preservar a competência do Superior Tribunal de Justiça ou para garantir a autoridade das suas decisões. Por sua vez, o novo CPC legislou exaustivamente sobre o tema nos arts. 988 a 993, definindo, como hipóteses do cabimento da Reclamação, aquelas descritas no art. 988, dentre as quais as que preveem especificamente a Reclamação dirigida ao Superior Tribunal de Justiça são as seguintes: Art. 988. Caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para: I - preservar a competência do tribunal; II - garantir a autoridade das decisões do tribunal; (..) §5º É inadmissível a reclamação: (Redação dada pela Lei nº 13.256, de 2016) (Vigência) I - proposta após o trânsito em julgado da decisão reclamada; (Incluído pela Lei nº 13.256, de 2016) (Vigência) II - proposta para garantir a observância de acórdão de recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida ou de acórdão proferido em julgamento de recursos extraordinário ou especial repetitivos, quando não esgotadas as instâncias ordinárias. Partindo do princípio de que a lei não contém termos inúteis e de que deve ser interpretada, também, em harmonia com o sistema no qual está inserida, é possível concluir que o legislador teve a intenção deliberada de restringir as hipóteses de cabimento da Reclamação dirigida ao Superior Tribunal de Justiça a duas situações: 1ª) aquela em que a decisão reclamada usurpa competência do STJ; e 2ª) aquela em que a decisão reclamada descumpre o que já foi estabelecido por esta Corte após examinar e deliberar sobre o mérito do caso concreto envolvendo as mesmas partes da decisão reclamada. Daí decorre, forçosamente, que a Reclamação dirigida ao STJ não se presta a proteger o jurisdicionado de decisões judiciais que não tenham seguido o posicionamento majoritário da jurisprudência desta Corte ou tese posta em enunciado de súmula deste Tribunal. Tal entendimento deflui do fato de que o único inciso do art. 988 do CPC/2015 que faz alusão ao cabimento de Reclamação para garantir a observância de enunciado de súmula é o inciso III que restringe a proteção da Reclamação à ofensa às súmulas vinculantes do Supremo Tribunal Federal. Não há menção às súmulas do STJ. Da mesma forma, quando admite a Reclamação por descumprimento de teses reconhecidas em tribunais superiores, o novo CPC indica restritiva e exaustivamente teses tratadas em: a) controle concentrado de constitucionalidade (art. 988, III) e b) recurso extraordinário com repercussão geral (art. 988, § 5º, II). Registro, por pertinente, que recentemente sobreveio julgado da Corte Especial do STJ, na Reclamação n. 36.476/SP, que decidiu ser incabível o ajuizamento de Reclamação para o controle da aplicação, pelos tribunais de segundo grau, de precedente do STJ julgado na sistemática de recursos especiais repetitivos. O precedente em questão recebeu a seguinte ementa: RECLAMAÇÃO. RECURSO ESPECIAL AO QUAL O TRIBUNAL DE ORIGEM NEGOU SEGUIMENTO, COM FUNDAMENTO NA CONFORMIDADE ENTRE O ACÓRDÃO RECORRIDO E A ORIENTAÇÃO FIRMADA PELO STJ EM RECURSO ESPECIAL REPETITIVO (RESP 1.301.989/RS - TEMA 658). INTERPOSIÇÃO DE AGRAVO INTERNO NO TRIBUNAL LOCAL. DESPROVIMENTO. RECLAMAÇÃO QUE SUSTENTA A INDEVIDA APLICAÇÃO DA TESE, POR SE TRATAR DE HIPÓTESE FÁTICA DISTINTA. DESCABIMENTO. PETIÇÃO INICIAL. INDEFERIMENTO. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. 1. Cuida-se de reclamação ajuizada contra acórdão do TJ/SP que, em sede de agravo interno, manteve a decisão que negou seguimento ao recurso especial interposto pelos reclamantes, em razão da conformidade do acórdão recorrido com o entendimento firmado pelo STJ no REsp 1.301.989/RS, julgado sob o regime dos recursos especiais repetitivos (Tema 658). 2. Em sua redação original, o art. 988, IV, do CPC/2015 previa o cabimento de reclamação para garantir a observância de precedente proferido em julgamento de "casos repetitivos", os quais, conforme o disposto no art. 928 do Código, abrangem o incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR) e os recursos especial e extraordinário repetitivos. 3. Todavia, ainda no período de vacatio legis do CPC/15, o art. 988, IV, foi modificado pela Lei 13.256/2016: a anterior previsão de reclamação para garantir a observância de precedente oriundo de "casos repetitivos" foi excluída, passando a constar, nas hipóteses de cabimento, apenas o precedente oriundo de IRDR, que é espécie daquele. 4. Houve, portanto, a supressão do cabimento da reclamação para a observância de acórdão proferido em recursos especial e extraordinário repetitivos, em que pese a mesma Lei 13.256/2016, paradoxalmente, tenha acrescentado um pressuposto de admissibilidade - consistente no esgotamento das instâncias ordinárias - à hipótese que acabara de excluir. 5. Sob um aspecto topológico, à luz do disposto no art. 11 da LC 95/98, não há coerência e lógica em se afirmar que o parágrafo 5º, II, do art. 988 do CPC, com a redação dada pela Lei 13.256/2016, veicularia uma nova hipótese de cabimento da reclamação. Estas hipóteses foram elencadas pelos incisos do caput, sendo que, por outro lado, o parágrafo se inicia, ele próprio, anunciando que trataria de situações de inadmissibilidade da reclamação. 6. De outro turno, a investigação do contexto jurídico-político em que editada a Lei 13.256/2016 revela que, dentre outras questões, a norma efetivamente visou ao fim da reclamação dirigida ao STJ e ao STF para o controle da aplicação dos acórdãos sobre questões repetitivas, tratando-se de opção de política judiciária para desafogar os trabalhos nas Cortes de superposição. 7. Outrossim, a admissão da reclamação na hipótese em comento atenta contra a finalidade da instituição do regime dos recursos especiais repetitivos, que surgiu como mecanismo de racionalização da prestação jurisdicional do STJ, perante o fenômeno social da massificação dos litígios. 8. Nesse regime, o STJ se desincumbe de seu munus constitucional definindo, por uma vez, mediante julgamento por amostragem, a interpretação da Lei federal que deve ser obrigatoriamente observada pelas instâncias ordinárias. Uma vez uniformizado o direito, é dos juízes e Tribunais locais a incumbência de aplicação individualizada da tese jurídica em cada caso concreto. 9. Em tal sistemática, a aplicação em concreto do precedente não está imune à revisão, que se dá na via recursal ordinária, até eventualmente culminar no julgamento, no âmbito do Tribunal local, do agravo interno de que trata o art. 1.030, § 2º, do CPC/15. 10. Petição inicial da reclamação indeferida, com a extinção do processo sem resolução do mérito. (Rcl 36.476/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, CORTE ESPECIAL, julgado em 05/02/2020, DJe 06/03/2020) - negritei. Ora, no caso concreto, a Reclamação não é o instrumento processual adequado para garantir os direitos do Reclamante, diante do fato de que não houve, ainda, deliberação desta Corte sobre o seu caso concreto que possa ter sido descumprida. Inviável também a concessão de ordem de ofício pois não há notícia de que a controvérsia posta na presente reclamação tenha sido objeto de prévia deliberação pelo Tribunal de Justiça, o que impede seu conhecimento por esta Corte, sob pena de indevida supressão de instância. Ante o exposto e diante da ausência de interesseprocessual na modalidade "adequação", não conheço da presente reclamação e a extingo sem resolução de mérito, com fundamento no art. 34, inciso XVIII, alínea "a", do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, na redação que lhe foi dada pela Emenda Regimental n. 22, de 16/03/2016, e no art. 485, VI, do CPC/2015. Cientifiquem-se o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Estado de São Paulo e Juízo prolator da decisão objeto de reclamação. Intimem-se.