Rcl 47174 - ACORDAO
A reclamação foi considerada inadmissível porque o reclamante não demonstrou a existência de julgado do Superior Tribunal de Justiça descumprido nem buscou preservar a competência ou garantir a autoridade de decisão do STJ; assim, a matéria configura mera insurgência contra sentença condenatória, não cabendo a via...
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- Parties
- Agravante: ANDERSON PEREIRA TRINDADE
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 06 September 2024
- Procedural Posture
- Agravo Regimental Na Reclamação / Julgado Em Sessão Virtual Pela Terceira Seção Do STJ
- Outcome
- Agravo regimental desprovido; negar provimento ao recurso
- Legal Topics
- Reclamação, Cabimento Da Reclamação, Competência Do STJ, Autoridade Das Decisões
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Parties
ANDERSON PEREIRA TRINDADE
Agravante
Procedural Posture
Agravo Regimental Na Reclamação / Julgado Em Sessão Virtual Pela Terceira Seção Do STJ
Legal Issues
- 1 Cabimento da reclamação perante o STJ
- 2 Se a reclamação visa preservar competência ou garantir autoridade de decisão do STJ
- 3 Aplicabilidade de precedente repetitivo e limites da reclamação
Ratio Decidendi
A reclamação foi considerada inadmissível porque o reclamante não demonstrou a existência de julgado do Superior Tribunal de Justiça descumprido nem buscou preservar a competência ou garantir a autoridade de decisão do STJ; assim, a matéria configura mera insurgência contra sentença condenatória, não cabendo a via da reclamação conforme art. 988 do CPC e o entendimento da Corte Especial (Rcl 36.476/SP).
Court Disposition
Agravo regimental desprovido; negar provimento ao recurso
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental
- Manter a decisão que não conheceu da reclamação
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da TERCEIRA SEÇÃO do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 28/08/2024 a 03/09/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Og Fernandes, Sebastião Reis Júnior, Rogerio Schietti Cruz, Reynaldo Soares da Fonseca, Joel Ilan Paciornik, Messod Azulay Neto, Daniela Teixeira e Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do TJSP) votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Ribeiro Dantas. EMENTA PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. RECLAMAÇÃO QUE NÃO SE ENQUADRA EM NENHUMA HIPÓTESE DE CABIMENTO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Nos termos do art. 105, I, f, da Constituição Federal e do art. 187 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, cabe reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para preservar a competência do Superior Tribunal de Justiça ou para garantir a autoridade das suas decisões na análise do caso concreto. 2. In casu, a presente reclamação não se enquadra em nenhuma dessas hipóteses, uma vez que o reclamante não aponta nenhum julgado do Superior Tribunal de Justiça que teria sido descumprido, sendo certo que suas alegações se revelam apenas uma insurgência comum da defesa contra sentença condenatória. 3. Agravo regimental desprovido.
RELATÓRIO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): Trata-se de agravo regimental interposto por ANDERSON PEREIRA TRINDADE contra decisão de e-STJ fls. 58/60, que não conheceu da reclamação por não se enquadrar em nenhuma hipótese de cabimento, uma vez que o reclamante não aponta nenhum julgado do Superior Tribunal de Justiça que teria sido descumprido. O agravante alega que "o juízo de origem sentenciou o recorrente com inobservância tema 308 do STF, tema com repercussão geral, o que pode ser verificado pela sentença, pelo acordão do TJMG e pela resposta do juízo de primeira Instância do ofício da corte máxima do STF. Onde o recorrente fora considerado funcionário público, sem que de fato o seja, o que ocasionou em Injusta condenação por ser elementar do delito do art. 327 do CP , que deveria ter sido e não o foi, e pelo fato da sentença e acordão ter sido prolatados em omissão a observância do tema paradigma" (e-STJ fl. 82). Diante disso, pugna pela reconsideração da decisão objurgada para que se conheça da reclamação . Caso assim não se entenda, requer a submissão do feito a julgamento pela Corte Especial. É o relatório. EMENTA PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NA RECLAMAÇÃO. RECLAMAÇÃO QUE NÃO SE ENQUADRA EM NENHUMA HIPÓTESE DE CABIMENTO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Nos termos do art. 105, I, f, da Constituição Federal e do art. 187 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, cabe reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para preservar a competência do Superior Tribunal de Justiça ou para garantir a autoridade das suas decisões na análise do caso concreto. 2. In casu, a presente reclamação não se enquadra em nenhuma dessas hipóteses, uma vez que o reclamante não aponta nenhum julgado do Superior Tribunal de Justiça que teria sido descumprido, sendo certo que suas alegações se revelam apenas uma insurgência comum da defesa contra sentença condenatória. 3. Agravo regimental desprovido. VOTO O EXMO. SR. MINISTRO ANTONIO SALDANHA PALHEIRO (Relator): A irresignação não merece prosperar, uma vez que o recurso não apresenta argumento capaz de desconstituir os fundamentos que embasaram a decisão ora impugnada, de forma que essa deve ser integralmente mantida. Com efeito, conforme consignado pela decisão agravada, n os termos do art. 105, I, f, da Constituição Federal e do art. 187 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, cabe reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para preservar a competência do Superior Tribunal de Justiça ou garantir a autoridade das suas decisões quando esgotadas as instâncias ordinárias. O novo Código de Processo Civil (vigente no momento da publicação do acórdão ora impugnado), em seu art. 988, disciplinou o instituto de forma pormenorizada, nos seguintes termos: Art. 988. Caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para: I - preservar a competência do tribunal; II - garantir a autoridade das decisões do tribunal; III - garantir a observância de enunciado de súmula vinculante e de decisão do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; IV - garantir a observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência; § 1º A reclamação pode ser proposta perante qualquer tribunal, e seu julgamento compete ao órgão jurisdicional cuja competência se busca preservar ou cuja autoridade se pretenda garantir. § 2º A reclamação deverá ser instruída com prova documental e dirigida ao presidente do tribunal. § 3º Assim que recebida, a reclamação será autuada e distribuída ao relator do processo principal, sempre que possível. § 4º As hipóteses dos incisos III e IV compreendem a aplicação indevida da tese jurídica e sua não aplicação aos casos que a ela correspondam. § 5º É inadmissível a reclamação: I - proposta após o trânsito em julgado da decisão reclamada; II - proposta para garantir a observância de acórdão de recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida ou de acórdão proferido em julgamento de recursos extraordinário ou especial repetitivos, quando não esgotadas as instâncias ordinárias. § 6º A inadmissibilidade ou o julgamento do recurso interposto contra a decisão proferida pelo órgão reclamado não prejudica a reclamação. A Terceira Seção desta Corte Superior, ao interpretar o § 5º do art. 988, II, do Código de Processo Civil, entendia também ser admissível a reclamação quando a decisão contrariasse acórdão proferido em julgamento de recurso especial repetitivo, desde que esgotada a instância ordinária. Ocorre que, recentemente, a Corte Especial deste Tribunal, nos autos da Reclamação n. 36.476/SP (relatora Ministra Nancy Andrighi, julgado em 5/2/2020), decidiu, por maioria, não ser cabível reclamação para discutir a observância de precedente proferido em julgamento de recurso especial repetitivo. Eis a ementa do citado acórdão: RECLAMAÇÃO. RECURSO ESPECIAL AO QUAL O TRIBUNAL DE ORIGEM NEGOU SEGUIMENTO, COM FUNDAMENTO NA CONFORMIDADE ENTRE O ACÓRDÃO RECORRIDO E A ORIENTAÇÃO FIRMADA PELO STJ EM RECURSO ESPECIAL REPETITIVO (RESP 1.301.989/RS - TEMA 658). INTERPOSIÇÃO DE AGRAVO INTERNO NO TRIBUNAL LOCAL. DESPROVIMENTO. RECLAMAÇÃO QUE SUSTENTA A INDEVIDA APLICAÇÃO DA TESE, POR SE TRATAR DE HIPÓTESE FÁTICA DISTINTA. DESCABIMENTO. PETIÇÃO INICIAL. INDEFERIMENTO. EXTINÇÃO DO PROCESSO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. 1. Cuida-se de reclamação ajuizada contra acórdão do TJ/SP que, em sede de agravo interno, manteve a decisão que negou seguimento ao recurso especial interposto pelos reclamantes, em razão da conformidade do acórdão recorrido com o entendimento firmado pelo STJ no REsp 1.301.989/RS, julgado sob o regime dos recursos especiais repetitivos (Tema 658). 2. Em sua redação original, o art. 988, IV, do CPC/2015 previa o cabimento de reclamação para garantir a observância de precedente proferido em julgamento de "casos repetitivos", os quais, conforme o disposto no art. 928 do Código, abrangem o incidente de resolução de demandas repetitivas (IRDR) e os recursos especial e extraordinário repetitivos. 3. Todavia, ainda no período de vacatio legis do CPC/15, o art. 988, IV, foi modificado pela Lei 13.256/2016: a anterior previsão de reclamação para garantir a observância de precedente oriundo de "casos repetitivos" foi excluída, passando a constar, nas hipóteses de cabimento, apenas o precedente oriundo de IRDR, que é espécie daquele. 4. Houve, portanto, a supressão do cabimento da reclamação para a observância de acórdão proferido em recursos especial e extraordinário repetitivos, em que pese a mesma Lei 13.256/2016, paradoxalmente, tenha acrescentado um pressuposto de admissibilidade - consistente no esgotamento das instâncias ordinárias - à hipótese que acabara de excluir. 5. Sob um aspecto topológico, à luz do disposto no art. 11 da LC 95/98, não há coerência e lógica em se afirmar que o parágrafo 5º, II, do art. 988 do CPC, com a redação dada pela Lei 13.256/2016, veicularia uma nova hipótese de cabimento da reclamação. Estas hipóteses foram elencadas pelos incisos do caput, sendo que, por outro lado, o parágrafo se inicia, ele próprio, anunciando que trataria de situações de inadmissibilidade da reclamação. 6. De outro turno, a investigação do contexto jurídico-político em que editada a Lei 13.256/2016 revela que, dentre outras questões, a norma efetivamente visou ao fim da reclamação dirigida ao STJ e ao STF para o controle da aplicação dos acórdãos sobre questões repetitivas, tratando-se de opção de política judiciária para desafogar os trabalhos nas Cortes de superposição. 7. Outrossim, a admissão da reclamação na hipótese em comento atenta contra a finalidade da instituição do regime dos recursos especiais repetitivos, que surgiu como mecanismo de racionalização da prestação jurisdicional do STJ, perante o fenômeno social da massificação dos litígios. 8. Nesse regime, o STJ se desincumbe de seu múnus constitucional definindo, por uma vez, mediante julgamento por amostragem, a interpretação da Lei federal que deve ser obrigatoriamente observada pelas instâncias ordinárias. Uma vez uniformizado o direito, é dos juízes e Tribunais locais a incumbência de aplicação individualizada da tese jurídica em cada caso concreto. 9. Em tal sistemática, a aplicação em concreto do precedente não está imune à revisão, que se dá na via recursal ordinária, até eventualmente culminar no julgamento, no âmbito do Tribunal local, do agravo interno de que trata o art. 1.030, § 2º, do CPC/15. 10. Petição inicial da reclamação indeferida, com a extinção do processo sem resolução do mérito. (Rcl n. 36.476/SP, relatora Ministra Nancy Andrighi, Corte Especial, julgado em 5/2/2020, DJe de 6/3/2020.) Constata-se, assim, que a reclamação consiste em medida excepcional, cabível no Superior Tribunal de Justiça exclusivamente nas seguintes hipóteses: (a) preservação de sua competência constitucional; e (b) manutenção da autoridade de decisão sua proferida na análise do caso concreto (envolvendo as mesmas partes da decisão reclamada). In casu, a presente reclamação não se enquadra em nenhuma dessas hipóteses, uma vez que o reclamante não aponta nenhum julgado do Superior Tribunal de Justiça que teria sido descumprido Assim, exsurge de plano que ao Superior Tribunal de Justiça não compete o exame da presente reclamação, uma vez que nela se revela apenas uma insurgência comum da defesa contra sentença condenatória . Ou seja, não se busca garantir a autoridade de decisão deste Tribunal emanada ou a sua competência constitucional. Com base nessas considerações, nego provimento ao agravo regimental. É como voto. Ministro ANTONIO SALDANHA PALHEIRO Relator