Rcl 46855 - DECISAO
A decisão reclamada divergiu das determinações firmadas no IAC n. 14/STJ, que determinou que juízes estaduais se abstenham de declinar competência nas ações de saúde e que os feitos prossigam na jurisdição estadual; assim, a reclamação foi julgada procedente para anular a decisão que declinou competência e...
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- Parties
- Reclamante: D. P. da S. R.; Reclamado: Vice-Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso do Sul; Respondente: Estado de Mato Grosso do Sul
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 10 March 2025
- Procedural Posture
- Reclamação / Decisão De Mérito
- Outcome
- reclamação procedente
- Legal Topics
- Reclamação, Incidente De Assunção De Competência (iac), Declínio De Competência, Competência Jurisdicional Entre Justiça Estadual E Federal, Responsabilidade Solidária Dos Entes Federados
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Parties
D. P. da S. R.
Reclamante
Vice-Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso do Sul
Reclamado
Estado de Mato Grosso do Sul
Respondente
Procedural Posture
Reclamação / Decisão De Mérito
Legal Issues
- 1 Se a decisão do juiz estadual de declinar competência para a Justiça Federal nas ações de saúde viola a determinação do IAC n. 14/STJ
- 2 Se a inclusão da União no polo passivo é indevida quando a parte elegeu demandar contra entes estaduais/municipais
- 3 Qual juízo deve processar e julgar ações de saúde que discutem fornecimento de medicamentos não incorporados ao SUS mas registrados na ANVISA
Ratio Decidendi
A decisão reclamada divergiu das determinações firmadas no IAC n. 14/STJ, que determinou que juízes estaduais se abstenham de declinar competência nas ações de saúde e que os feitos prossigam na jurisdição estadual; assim, a reclamação foi julgada procedente para anular a decisão que declinou competência e determinar o prosseguimento do processo no juízo estadual, superada eventual necessidade de inclusão da União.
Court Disposition
reclamação procedente
Orders
- Anular a decisão reclamada que declinou competência para a Justiça Federal
- Determinar que, superada a necessidade de inclusão da União no feito, os autos prossigam no respectivo Juízo estadual
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de reclamação, com pedido de efeito suspensivo, proposta por D. P. da S. R., assistido pela Defensoria Pública Estadual, com fundamento no artigo 105, inciso I, alínea f, da Constituição da República, e no art. 988, II, do CPC de 2015, contra decisão proferida pelo Vice-Presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso do Sul que, no dia 30/11/2023, declinou da competência para processar e julgar os autos e determinou sua remessa para a Justiça Federal, não obstante a decisão proferida por esta Corte Superior no Incidente de Assunção de Competência - IAC nº 14 (conflito de competência n. 187.276-RS, a qual determinou que os Juízes Estaduais devem abster-se de praticar quaisquer atos judiciais de declinação de competência nas ações de saúde, devendo o feito tramitar no Juízo estadual. Liminar deferida para suspender os efeitos do ato impugnado (fls. 36-40). Intimado, o Estado de Mato Grosso do Sul apresentou contestação às 91-104. Por sua vez, a União informou não ter interesse em apresentar contestação (fls. 108-112). Instado a se manifestar, opinou o Ministério Público Federal pela procedência da reclamação para cassar a decisão que incluiu a União no polo passivo e pelo prosseguimento da ação proposta na origem perante a Justiça Estadual (fls. 133-138). É o relatório. Decido. O Regimento Interno desta Corte dispõe: Art. 187. Para preservar a competência do Tribunal, garantir a autoridade de suas decisões e a observância de julgamento proferido em incidente de assunção de competência, caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público desde que, na primeira hipótese, haja esgotado a instância ordinária. (Redação dada pela Emenda Regimental n. 24, de 2016) Parágrafo único. A reclamação, dirigida ao Presidente do Tribunal e instruída com prova documental, será autuada e distribuída ao relator da causa principal, sempre que possível. No caso vertente, observa-se que a ação por meio da qual se postula a dispensação de tratamento médico foi proposta contra os entes estadual e municipal. Nesse sentido, conforme ponderado na decisão liminar de fls. 36-40, considerando a grande repercussão social e relevante questão de direito da matéria de saúde debatida, notadamente a aplicação das Súmulas n. 150, 224 e 254 do Superior Tribunal de Justiça, foi realizada nesta Corte proposta de instauração de incidente de assunção de competência nos autos do CC n. 187.276/RS, juntamente com os de números 187.533/SC e 188.0002/SC, a fim de definir o juízo competente e, se for o caso, evitar a declinação de competência para a Justiça Federal nas hipóteses em que essa medida não se mostrar cabível - IAC n. 14, de relatoria do Ministro Gurgel de Faria. A referida proposta foi acolhida à unanimidade na sessão de julgamento virtual publicada em 13/6/2022, conforme voto do relator, em acórdão assim ementado: PROCESSUAL CIVIL. INCIDENTE DE ASSUNÇÃO DE COMPETÊNCIA. DIREITO À SAÚDE. MEDICAMENTO NÃO INCORPORADO AO SUS E REGISTRADO NA ANVISA. CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. JUÍZOS FEDERAL E ESTADUAL. PROPOSTA. ACOLHIMENTO. 1. Trata-se de proposta de incidente de assunção de competência, nos termos do art. 947 do Código de Processo Civil/2015, em conflito negativo de competência instaurado nos autos de ação ordinária que versa sobre o fornecimento de medicação não padronizada pelo Sistema Único de Saúde - SUS. 2. A instauração do presente incidente visa unicamente decidir o juízo competente para o julgamento de demanda relativa à dispensação de tratamento médico não incluído nas políticas públicas, sendo o conflito de competência o processo adequado para dirimir a questão de direito processual controvertida, sem que haja necessidade de adentrar no mérito da causa (onde suscitado o conflito) - ainda que a discussão se refira a preliminar, como, no caso, a legitimidade ad causam - nem em eventual nulidade da decisão do Juízo Federal, matérias que devem ser analisadas no bojo da ação ordinária. 3. Delimitação da tese controvertida: Tratando-se de medicamento não incluído nas políticas públicas, mas devidamente registrado na ANVISA, analisar se compete ao autor a faculdade de eleger contra quem pretende demandar, em face da responsabilidade solidária dos entes federados na prestação de saúde, e, em consequência, examinar se é indevida a inclusão da União no polo passivo da demanda, seja por ato de ofício, seja por intimação da parte para emendar a inicial, sem prévia consulta à Justiça Fe deral. 4. Proposta de julgamento do tema mediante a sistemática do incidente de assunção de competência acolhida. (IAC no CC n. 187.276/RS, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Seção, julgado em 31/5/2022, DJe de 13/6/2022.) Na ocasião, foram estabelecidas como necessárias as seguintes medidas: .. . c) manutenção do curso das ações que versem sobre a dispensação de tratamento/medicamento não incluído nas políticas públicas, visto que a suspensão dos feitos poderia causar dano de difícil reparação àqueles que necessitam da tutela do direito à saúde; d) havendo conflito de competência, fica, nos termos do art. 955 do CPC/2015, designado o Juízo estadual para decidir, em caráter provisório, as medidas urgentes referentes aos processos em comento; .. . Na sequência, em atenção ao princípio da segurança jurídica e tendo em vista que, mesmo após a afetação do IAC, os declínios mútuos de competência entre as Justiças Estaduais e Federais persistiram, resultando na instauração e consequente distribuição de conflito ao Superior Tribunal de Justiça, consignou-se em questão de ordem que: .. até o julgamento definitivo do incidente de assunção de competência (IAC), o Juiz estadual deverá abster-se de praticar qualquer ato judicial de declinação de competência nas ações que versem sobre tema idêntico ao destes autos, de modo que o processo deve prosseguir na jurisdição estadual. Nesse contexto, antes mesmo da apreciação de mérito do IAC 14, a Primeira Seção desta Corte, por maioria, firmou compreensão de que a inobservância ao comando expresso na sobredita decisão em Questão de Ordem implica flagrante desrespeito à autoridade deste Tribunal Superior (Rcl 45369/RS, Rel Min. Regina Helena Costa, Primeira Seção, j. 19/04/2023; Rcl n. 44.055/MG, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Seção, j. 22.03.2023; Rcl n. 44.126/MG, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Seção, j. 22.03.2023; Rcl n. 44.597/SC, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Seção, j. 22.03.2023; Rcl n. 44.578/GO, Rel. Min. Gurgel de Faria, Primeira Seção, j. 22.03.2023). Nesse interim, o Supremo Tribunal Federal, por sua vez, considerando o atual quadro de instabilidade processual, em decisão proferida, no dia 11/04/2023, nos autos do RE n. 1366243/SC, que discute, à luz dos artigos 23, II, 109, I, 196, 197 e 198, I, da Constituição Federal, a obrigatoriedade de a União constar do polo passivo de lide que verse sobre a obtenção de medicamento ou tratamento não incorporado nas políticas públicas do SUS, embora registrado pela Anvisa, reconheceu a repercussão geral da matéria, descrita no Tema 1234. Na ocasião, determinou-se a suspensão nacional do processamento dos recursos especiais e extraordinários que tratam da questão controvertida no aludido Tema 1234, inclusive dos processos em que se discute a aplicação do Tema 793 da Repercussão Geral, até o julgamento definitivo do recurso extraordinário, ressalvado o deferimento ou ajuste de medidas cautelares. Na sequência, a Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça, em sessão realizada em 12/04/2023, ao ponderar que o comando exarado pela Suprema Corte, nos autos da Repercussão Geral n. 1366243 (Tema 1234) não abrangeria o julgamento do IAC n. 14, visto que instaurado no âmbito de conflito de competência, procedeu ao julgamento de mérito do referido incidente, e, por unanimidade, firmou a seguinte tese: a) Nas hipóteses de ações relativas à saúde intentadas com o objetivo de compelir o Poder Público ao cumprimento de obrigação de fazer consistente na dispensação de medicamentos não inseridos na lista do SUS, mas registrado na ANVISA, deverá prevalecer a competência do juízo de acordo com os entes contra os quais a parte autora elegeu demandar; b) as regras de repartição de competência administrativas do SUS não devem ser invocadas pelos magistrados para fins de alteração ou ampliação do polo passivo delineado pela parte no momento da propositura da ação, mas tão somente para fins de redirecionar o cumprimento da sentença ou determinar o ressarcimento da entidade federada que suportou o ônus financeiro no lugar do ente público competente, não sendo o conflito de competência a via adequada para discutir a legitimidade ad causam, à luz da Lei n. 8.080/1990, ou a nulidade das decisões proferidas pelo Juízo estadual ou federal, questões que devem ser analisada no bojo da ação principal. c) a competência da Justiça Federal, nos termos do art. 109, I, da CF/88, é determinada por critério objetivo, em regra, em razão das pessoas que figuram no polo passivo da demanda (competência ratione personae), competindo ao Juízo federal decidir sobre o interesse da União no processo (Súmula 150 do STJ), não cabendo ao Juízo estadual, ao receber os autos que lhe foram restituídos em vista da exclusão do ente federal do feito, suscitar conflito de competência (Súmula 254 do STJ). (CC 187276/RS, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA SEÇÃO, DJe 18/04/2023.) Nesse panorama, depreende-se que a decisão hostilizada está em dissonância com as determinações formuladas nos autos do IAC - 14/STJ. Ante o exposto, julgo procedente a reclamação para anular a decisão reclamada, determinando, como consequência, que, superada a necessidade de inclusão da União no feito, os autos tenham seu curso regular no respectivo Juízo estadual. Comunique-se. Publique-se. EMENTA