Rcl 50032 - DECISAO
A reclamação foi conhecida como inadequada porque pretende aplicar jurisprudência do STJ a caso diverso e funciona como sucedâneo recursal, não se circunscrevendo à preservação da competência ou à garantia da autoridade de decisão do próprio STJ no caso concreto; não havendo indicação de afronta a súmula vinculante...
Source-derived case information.
- Parties
- Órgão Recorrido: Tribunal de Justiça de Minas Gerais
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 November 2025
- Procedural Posture
- Reclamação / Decisão De Não Conhecimento
- Outcome
- Não conheço da reclamação
- Legal Topics
- Reclamação, Sucedâneo Recursal, Perda Da Função Pública, Fundamentação De Sanção Extrapenal, Preservação De Competência, Autoridade Das Decisões Do STJ
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Parties
Tribunal de Justiça de Minas Gerais
Órgão Recorrido
Procedural Posture
Reclamação / Decisão De Não Conhecimento
Legal Issues
- 1 cabimento da reclamação para discutir decisão estadual sobre perda de cargo público
- 2 se a perda do cargo exige fundamentação específica ou pode ser aplicada automaticamente
- 3 uso da reclamação como sucedâneo recursal
Ratio Decidendi
A reclamação foi conhecida como inadequada porque pretende aplicar jurisprudência do STJ a caso diverso e funciona como sucedâneo recursal, não se circunscrevendo à preservação da competência ou à garantia da autoridade de decisão do próprio STJ no caso concreto; não havendo indicação de afronta a súmula vinculante ou decisão em controle concentrado, e ante precedentes que vedam o uso da reclamação para tal fim, a ação é incabível, razão pela qual não se conheceu da reclamação.
Court Disposition
Não conheço da reclamação
Orders
- Não conheço da reclamação.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de reclamação em que o requerente, outrora servidor público, busca a anulação do efeito extrapenal de sua condenação, qual seja, a perda da função pública. O cerne de sua argumentação repousa na alegação de que a referida sanção, decretada em sentença condenatória de primeira instância, carece de fundamentação idônea e específica, tendo sido aplicada de forma automática e exclusivamente em razão do montante da pena imposta, o que viola frontalmente o disposto no artigo 92, inciso I, alínea "b", e seu parágrafo único, do Código Penal. Sustenta o Reclamante que a decisão original, sentença proferida em 4 de maio de 2000, e posteriormente confirmada integralmente pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), limitou-se a declarar a perda do cargo "ante o montante da pena aplicada", sem tecer qualquer consideração concreta sobre os motivos que justificariam tal medida, como a incompatibilidade da conduta com o exercício da função ou a indignidade do agente. Inconformado com a manutenção da decisão após o trânsito em julgado, o Reclamante ajuizou Revisão Criminal perante o TJMG, onde reiterou a tese de nulidade da decretação da perda do cargo por ausência de motivação. Apontou, para tanto, entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que exige fundamentação concreta e específica para a imposição de tal efeito da condenação, não sendo este uma consequência automática da pena. Contudo, o pedido revisional foi indeferido pelo 1º Grupo de Câmaras Criminais do TJMG, sob o argumento de que a decretação da perda do cargo público não violou texto expresso de lei. Desta decisão, o Reclamante interpôs Recurso Especial, que, todavia, não teve seu mérito apreciado pelo STJ, sendo obstado por questões processuais, como a incidência das Súmulas 7 e 182 do STJ e a ausência de demonstração de dissídio jurisprudencial. Diante da persistência da decisão que considera viciada, o Reclamante maneja a presente Reclamação, argumentando que o acórdão do TJMG, ao manter a perda da função pública sem fundamentação específica, descumpre de forma reiterada a jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça. Pede, ao final, a procedência da Reclamação para que se garanta a autoridade das decisões do STJ, reformando-se o acórdão do TJMG e, consequentemente, anulando-se a decretação da perda de sua função pública. Em suma, o Reclamante pleiteia o reconhecimento de que a questão de mérito, a saber, a nulidade da perda do cargo por falta de fundamentação, jamais foi efetivamente analisada pelas instâncias superiores, apesar de sua manifesta contrariedade à lei e à jurisprudência pacífica. É o Relatório. Decido. Nos termos do art. 105, inciso I, alínea f, da Constituição da República, é da competência originária do Superior Tribunal de Justiça o processamento e julgamento da reclamação para a preservação de sua competência e garantia da autoridade de suas decisões. No CPC, assim está delimitado o instituto: Art. 988. Caberá reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para: I - preservar a competência do tribunal; II - garantir a autoridade das decisões do tribunal; III - garantir a observância de enunciado de súmula vinculante e de decisão do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade; (Redação dada pela Lei nº 13.256, de 2016) IV - garantir a observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência; (Redação dada pela Lei nº 13.256, de 2016) § 1º A reclamação pode ser proposta perante qualquer tribunal, e seu julgamento compete ao órgão jurisdicional cuja competência se busca preservar ou cuja autoridade se pretenda garantir. § 2º A reclamação deverá ser instruída com prova documental e dirigida ao presidente do tribunal. § 3º Assim que recebida, a reclamação será autuada e distribuída ao relator do processo principal, sempre que possível. § 4º As hipóteses dos incisos III e IV compreendem a aplicação indevida da tese jurídica e sua não aplicação aos casos que a ela correspondam. § 5º É inadmissível a reclamação: (Redação dada pela Lei nº 13.256, de 2016) I - proposta após o trânsito em julgado da decisão reclamada; (Incluído pela Lei nº 13.256, de 2016) II - proposta para garantir a observância de acórdão de recurso extraordinário com repercussão geral reconhecida ou de acórdão proferido em julgamento de recursos extraordinário ou especial repetitivos, quando não esgotadas as instâncias ordinárias. (Incluído pela Lei nº 13.256, de 2016) (Vigência) § 6º A inadmissibilidade ou o julgamento do recurso interposto contra a decisão proferida pelo órgão reclamado não prejudica a reclamação. Conforme se observa pelos estatutos normativos acima apontados, a reclamação, prevista no art. 105, I, f, da Constituição da República, bem como no art. 988 do Código de Processo Civil de 2015 (com a nova redação da Lei n. 13.256/2016), constitui ação destinada à preservação de sua competência (inciso I), a garantir a autoridade das decisões do Superior Tribunal de Justiça (inciso II) e à observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência (inciso IV e § 4º). No caso em análise, contudo, o que se pretende é aplicação de julgado desta Corte Superior em outras lides alheias à situação concreta ora impugnada. Tal configuração não se enquadra nas hipóteses de cabimento da Reclamação. Isso porque a Reclamação (art. 105, I, f da Constituição da República) destina-se a tornar efetivas as decisões proferidas, no próprio caso concreto, em que o Reclamante tenha figurado como parte, não servindo para a preservação da jurisprudência desta Corte ou, ainda, como sucedâneo recursal. Na hipótese em exame, não há indicação de divergência da decisão reclamada com nenhuma súmula vinculante ou decisão proferida em sede de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência. Diversos precedentes sinalizam entendimento convergente com essa conclusão: PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NA RECLAMAÇÃO. CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. APLICABILIDADE. RECLAMAÇÃO. SUCEDÂNEO RECURSAL. INADEQUAÇÃO. RESOLUÇÃO N. 12/2009 DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. REQUISITOS. AUSÊNCIA. ARGUMENTOS INSUFICIENTES PARA DESCONSTITUIR A DECISÃO ATACADA. APLICAÇÃO DE MULTA. ART. 1.021, § 4º, DO CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 2015. DESCABIMENTO. I - Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada em 09.03.2016, o regime recursal será determinado pela data da publicação do provimento jurisdicional impugnado. In casu, aplica-se o Código de Processo Civil de 2015. II - A Reclamação, prevista no art. 105, I, f, da Constituição da República, bem como no art. 988 do Código de Processo Civil de 2015 (redação da Lei n. 13.256/2016), constitui ação destinada à preservação de sua competência (inciso I), a garantir a autoridade das decisões do Superior Tribunal de Justiça (inciso II) e à observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência (inciso IV e § 4º). III - No caso, o que se pretende é aplicação de julgado desta Corte Superior no Recurso Especial n. 685.205/SC, situação, contudo, que não se enquadra nas hipóteses de cabimento da Reclamação. IV -A reclamação prevista na Resolução STJ n. 12/2009 não se confunde com o recurso especial, incabível no âmbito da Justiça Especializada (Súmula 203/STJ), nem pode ser manejada como sucedâneo recursal, porquanto constitui instrumento de utilização excepcional com vista a evitar interpretação e aplicação do direito federal, em dissonância com a jurisprudência consolidada no Superior Tribunal de Justiça. V -Não há indicação de divergência da decisão reclamada com nenhuma súmula ou decisão em recurso representativo de controvérsia (art. 543-C, do CPC). VI - Não apresentação de argumentos suficientes para desconstituir a decisão recorrida. VII - Em regra, descabe a imposição da multa, prevista no art. 1.021, § 4º, do Código de Processo Civil de 2015, em razão do mero improvimento do Agravo Interno em votação unânime, sendo necessária a configuração da manifesta inadmissibilidade ou improcedência do recurso a autorizar sua aplicação, o que não ocorreu no caso. VIII - Agravo Interno improvido. (AgInt na Rcl n. 36.689/SC, relatora Ministra Regina Helena Costa, Primeira Seção, julgado em 18/6/2019, DJe de 25/6/2019.) AGRAVO INTERNO NA RECLAMAÇÃO. ART. 105, I, "F", DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. ART. 988 DO CPC/2015. SUCEDÂNEO RECURSAL. INADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA. JUSTIÇA DO TRABALHO. JULGADO. IMPUGNAÇÃO. JURISPRUDÊNCIA DO STJ. DISCREPÂNCIA. NÃO CABIMENTO. 1. As disposições do art. 105, I, alínea "f", da Constituição Federal estabelecem que compete ao Superior Tribunal de Justiça processar e julgar originariamente a reclamação para preservar sua competência e garantir a autoridade de suas decisões. 2. O Código de Processo Civil de 2015, em seu art. 988, disciplinou o cabimento de reclamação da parte interessada ou do Ministério Público para: (i) preservar a competência do tribunal; (ii) garantir a autoridade de suas decisões; (iii) garantir a observância de enunciado de súmula vinculante e de decisão do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade e (iv) garantir a observância de acórdão proferido em julgamento de incidente de resolução de demandas repetitivas ou de incidente de assunção de competência. 3. A simples alegação de afronta à jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça dissociada das hipóteses de cabimento a que se refere o art. 988 do CPC/2015 não abre ensejo à reclamação constitucional. 4. A reclamação não constitui meio hábil para impugnar julgado da Justiça do Trabalho que alegadamente divirja da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Precedentes. 5. Agravo interno não provido. (AgInt na Rcl n. 40.119/DF, relator Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Segunda Seção, julgado em 1/12/2020, DJe de 9/12/2020.) PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO INTERNO NA RECLAMAÇÃO. JULGADO RECLAMADO. DIVERGÊNCIA COM A JURISPRUDÊNCIA DO STJ. DECISÃO DO STJ PROFERIDA NO CASO CONCRETO. NÃO INDICAÇÃO. RECLAMAÇÃO UTILIZADA COMO SUCEDÂNEO RECURSAL. IMPOSSIBILIDADE. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. No caso dos autos, a reclamação apresentada pelo ora agravante visa apresentar divergência entre julgado do Tribunal de origem e a orientação jurisprudencial do STJ sobre a controvérsia. 2. Não houve a indicação de uma decisão específica do STJ proferida no caso concreto. Observa-se, então, não haver defesa da autoridade de uma decisão do STJ, mas sim tentativa de utilizar a reclamação como sucedâneo recursal. 3. Contudo, o STJ já declarou que, na falta de uma decisão judicial do STJ no caso concreto, a reclamação não pode ser utilizada como sucedâneo recursal. Nesse mesmo sentido, os seguintes precedentes: AgInt na Rcl 41.777/RN, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 28/09/2021, DJe 30/09/2021; AgInt na Rcl 40.920/SP, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 18/08/2021, DJe 23/08/2021; AgInt no AREsp 1574561/MS, Rel. Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, QUARTA TURMA, julgado em 14/09/2020, DJe 22/09/2020. 4. Agravo interno não provido (AgInt na Rcl 42.425/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Primeira Seção, DJe 17/2/2022). PROCESSO CIVIL. AGRAVO INTERNO NA RECLAMAÇÃO. INEXISTÊNCIA DE HIPÓTESE DE CABIMENTO. SUCEDÂNEO RECURSAL. IMPOSSIBILIDADE. AGRAVO INTERNO NÃO PROVIDO. 1. Fundada no artigo 988, II, do CPC/2015, a reclamação não se destina a dirimir divergência jurisprudencial entre o acórdão reclamado e precedentes do STJ. Sua função é garantir a autoridade da decisão proferida pelo STJ, em um caso concreto, que tenha sido desrespeitada na instância de origem, em processo que envolva as mesmas partes (AgInt na Rcl 31.875/MG, Rel. Ministro FRANCISCO FALCÃO, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 14/12/2016, DJe 19/12/2016). Os precedentes colacionados reforçam a jurisprudência pacífica desta Corte no sentido de que não cabimento de reclamação para o STJ apreciar decisão que não haja emanada do próprio tribunal no caso concreto. Por todo o exposto, nos termos do art. 34, XVIII, a, do Regimento Interno desta Corte, não conheço da reclamação. Publique-se. Intimem-se. EMENTA