HC 847470 - ACORDAO
Negou-se provimento ao agravo regimental porque o reconhecimento das vítimas foi corroborado por outros elementos de prova e pelo fato de as vítimas conhecerem os acusados por serem vizinhos, além de existir reconhecimento presencial ratificado em juízo, de modo que a eventual inobservância estrita do art. 226 do...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante: BERGSON BRENO DE SOUSA SARDINHA
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 19 September 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Agravo Regimental
- Outcome
- Agravo regimental desprovido; negar provimento ao recurso.
- Legal Topics
- Reconhecimento Fotográfico, Reconhecimento Pessoal, Nulidade, Provas, Roubo Majorado
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Parties
BERGSON BRENO DE SOUSA SARDINHA
Agravante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Agravo Regimental
Legal Issues
- 1 validade do reconhecimento fotográfico realizado em sede policial
- 2 inobservância do art. 226 do Código de Processo Penal e suas consequências
- 3 suficiência de provas para manutenção da condenação por roubo majorado
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao agravo regimental porque o reconhecimento das vítimas foi corroborado por outros elementos de prova e pelo fato de as vítimas conhecerem os acusados por serem vizinhos, além de existir reconhecimento presencial ratificado em juízo, de modo que a eventual inobservância estrita do art. 226 do CPP não tornou o ato nulo nem afastou a suficiência probatória para manter a condenação por roubo majorado.
Court Disposition
Agravo regimental desprovido; negar provimento ao recurso.
Orders
- Negar provimento ao agravo regimental
- Manter a decisão agravada por seus próprios e jurídicos fundamentos
Full Case Text
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2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da QUINTA TURMA do Superior Tribunal de Justiça, em sessão virtual de 10/09/2024 a 16/09/2024, por unanimidade, negar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Os Srs. Ministros Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Daniela Teixeira votaram com o Sr. Ministro Relator. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PROCESSO PENAL. CONDENAÇÃO PELO CRIME DE ROUBO MAJORADO. RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. DECISÃO AGRAVADA MANTIDA. AGRAVO DESPROVIDO. I - Sobre o reconhecimento fotográfico realizado em sede policial, em julgados recentes, ambas as Turmas que compõem a 3ª Seção deste Superior Tribunal de Justiça alinharam-se à compreensão de que: " .. o reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa" (HC n. 652.284/SC, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 3/5/2021). II - No caso dos autos, verifica-se que os fundamentos utilizados para a manutenção da condenação do agravante pel a Corte de origem estão em sintonia com o entendimento deste Tribunal. A participação dos envolvidos na empreitada criminosa ficou comprovada, tendo em vista que eram conhecidos do ofendido por terem sido vizinhos, moradores da casa ao lado da vítima. Essa circunstância afasta a possibilidade de um reconhecimento pessoal falho. Inclusive, ressalte-se que foi efetuado reconhecimento presencial, que foi ainda ratificado em juízo, por uma das vítimas, além de existirem outros elementos de prova, de maneira que não há co mo afastar a condenação. Precedentes. III - Neste agravo regimental não foram apresentados argumentos capazes de alterar o entendimento anteriormente firmado, devendo ser mantida a decisão impugnada por seus próprios e jurídicos fundamentos. Agravo regimental desprovido.
RELATÓRIO Trata-se de agravo regimental interposto por BERGSON BRENO DE SOUSA SARDINHA contra decisão de minha lavra, acostada às fls. 661-666, na qual deneguei a ordem no presente habeas corpus. Neste regimental, a Defesa, em síntese, reitera a tese de ausência de provas suficientes e válidas para a condenação do agravante em razão da aventada nulidade do reconhecimento fotográfico realizado. Requer, assim, se não exercido o juízo de retratação, seja submetido o agravo ao Colegiado para julgamento e provimento, nos moldes pugnados nas razões recursais. Intimados, o Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Maranhão manifestaram-se pelo desprovimento do recurso (fls. 688-696). Por manter a decisão agravada por seus próprios e jurídicos fundamentos, submeto o feito à apreciação da Quinta Turma. É o relatório. EMENTA AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. PROCESSO PENAL. CONDENAÇÃO PELO CRIME DE ROUBO MAJORADO. RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. DECISÃO AGRAVADA MANTIDA. AGRAVO DESPROVIDO. I - Sobre o reconhecimento fotográfico realizado em sede policial, em julgados recentes, ambas as Turmas que compõem a 3ª Seção deste Superior Tribunal de Justiça alinharam-se à compreensão de que: " .. o reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa" (HC n. 652.284/SC, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 3/5/2021). II - No caso dos autos, verifica-se que os fundamentos utilizados para a manutenção da condenação do agravante pel a Corte de origem estão em sintonia com o entendimento deste Tribunal. A participação dos envolvidos na empreitada criminosa ficou comprovada, tendo em vista que eram conhecidos do ofendido por terem sido vizinhos, moradores da casa ao lado da vítima. Essa circunstância afasta a possibilidade de um reconhecimento pessoal falho. Inclusive, ressalte-se que foi efetuado reconhecimento presencial, que foi ainda ratificado em juízo, por uma das vítimas, além de existirem outros elementos de prova, de maneira que não há co mo afastar a condenação. Precedentes. III - Neste agravo regimental não foram apresentados argumentos capazes de alterar o entendimento anteriormente firmado, devendo ser mantida a decisão impugnada por seus próprios e jurídicos fundamentos. Agravo regimental desprovido. VOTO Presentes os requisitos de admissibilidade, conheço do agravo regimental. Conforme relatado, pretende a Defesa o acolhimento e provimento do regimental, reformando-se a decisão agravada a fim de que seja concedida a ordem no presente habeas corpus, reconhecendo a nulidade aventada com a consequente absolvição do agravante. A decisão impugnada, entretanto, analisou todos os pontos apresentados de forma devidamente fundamentada e merece ser mantida. Sobre o reconhecimento fotográfico realizado em sede policial, em julgados recentes, ambas as Turmas que compõem a 3ª Seção deste Superior Tribunal de Justiça alinharam-se à compreensão de que: " .. o reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa" (HC n. 652.284/SC, Quinta Turma, Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, DJe 3/5/2021). No caso dos autos, verifica-se que os fundamentos utilizados para a manutenção da condenação do agravante pel a Corte de origem estão em sintonia com o entendimento deste Sodalício. Confira-se como restou consignado no acórdão combatido, in verbis (fls. 623-627 - grifei): "Os Apelantes visam à reforma da sentença, ao argumento primeiro de que devem ser absolvidos porque "as vítimas não reconheceram os Acusados pessoalmente", tendo sido feito o reconhecimento fotográfico por uma delas, em desacordo com a regra do art. 226, CPP, e de que "não se ouviu ninguém em juízo que indubitavelmente possa incriminar os apelantes pelo crime que vitimou Gilson Soares, lampo uco a acusação juntou qualquer outro meio de prova capaz de espancar de dúvida tal falo ". Sem razão, contudo, porque, conforme se extrai das peças produzidas na fase inicial, a vítima Antônio Carlos dos Santos Mota, que já conhecia ambos os Apelantes porque os mesmos foram seus vizinhos, relatou, fls. 04/06: "(..) foi abordado por dois indivíduos, os quais estavam em urna motocicleta BROS. De cor PRETA, estando um dos indivíduos, o que estava na garupa, armado com um revólver, aparentando ser do calibre 32m, de cor PRATA, os quais deram voz de assalto e pediram para o depoente parar a sua motocicleta; QUE nesse momento o depoente, assustado, acelerou a sua motocicleta com o intuito de evadir-se da localidade; QUE os assaltantes perseguiram o depoente, ocasião em que efetuaram um disparo contra o mesmo, o qual veio a tingir suas costas, na altura do seu peito direito; QUE o depoente, ainda ferido, conseguiu chegar na casa de sua irmã, aonde deixou a sua motocicleta e foi levado para o hospital municipal de Açailândia, mas devido a gravidade do ferimento, este foi encaminhado para o hospital Socorrão de Imperatriz/MA; QUE o depoente ficou internado seis dias na UTI daquele hospital; QUE o depoente informa que os indivíduos que tentaram lhe roubar e que desferiram contra o mesmo o disparo de arma de fogo, são os nacionais BERGSON DE SOUSA SARDINHA e JEAN DE SOUSA SARDINHA, pois estes já foram seus vizinhos, moradores da casa ao lado da residência do depoente, na Vila Idelmar; QUE os reconheceu no momento em que estes lhe deram voz de assalto, naquele dia (16/10/2015); QUE sabe que BERGSON e JEAN, são perigosos e que já praticaram outros delitos e, ainda, praticam; QUE soube que BERGSON e JEAN desferiram contra um rapaz, que é funcionário da empresa CAMARGO CORREA, o qual reside na Rua São José, Centro, nesta cidade, quatro facadas, tendo sido o mesmo internado, tendo os autores subtraído pertences desta outra vítima. (..)". Destacado. Referido depoimento foi confirmado em instrução processual, conforme mídia de fl. 111. Não há que se falar, portanto, que os Acusados não foram reconhecidos pela citada vítima. Em continuidade, ainda da fase do Inquérito, se extrai que Gilson Soares de Freitas declarou, às fls. 09/10: "(..) foi violentamente abordado por três indivíduos armados com punhal; QUE os indivíduos gritaram que era um assalto e começaram a apunhalar a vítima; QUE o primeiro golpe que recebeu foi no lado esquerdo do peito, logo depois recebeu outro golpe no braço, posteriormente um golpe no lado direito do peito, que veio a perfurar o pulmão e o fígado e outro na barriga; QUE não pediram nada antes de o apunhalarem; (..) QUE após as agressões os indivíduos subtraíram seu celular, modelo Samsung galaxy gran duo, sua carteira contendo documentos, com RG, CPF, cartão do banco e cartão do vale alimentação da empresa Camargo Correa; QUE logo depois os indivíduos saíram correndo com seus pertences; QUE pediu ajuda a alguns populares sendo que um rapaz o levou ao hospital Municipal de Açailândia e, posteriormente, foi transferido para o "Socorrão" em Imperatriz/MA; QUE durante o tempo que ficou internado no "Socorrão" conheceu um rapaz, por nome Carlos, morador da Vila Idelmar, que estava internado no mesmo quarto que a vítima; QUE conversando com esse rapaz, contou sobre o acontecido e informou as características dos autores do fato; QUE Carlos afirmou que as características destes autores coincidiam com as características dos que tinham atirado nele e que, inclusive, esses indivíduos eram vizinhos de Carlos; QUE posteriormente foi até a Delegacia, informou o fato a Autoridade Policial, e este o apresentou fotografias de indivíduos que estavam praticando roubos na região da Vila Idelmar; QUE imediatamente após ver a foto de dois indivíduos, reconheceu estes como autores do roubo; QUE reconheceu como autores do fato BERGSON BRENO SOUSA SARDINHA E JEAN SOUSA SARDINHA, conhecidos na Vila Ideimar como irmãos Sardinha. ( .. )". Destacado. E, à fl. 11, reconheceu ambos os Recorrentes corno os autores do delito de que foi vítma. Daí porque rechaço o argumento da defesa no sentido de que o reconhecimento havido deve ser invalidado, com a absolvição dos Apelantes, porque, mesmo que não rigorosamente observadas as regras do art. 226, CPP, tal fato, por si só, não é suficiente para invalidar o reconhecimento porque os Tribunais Superiores entendem que a "inobservância das formalidades legais para o reconhecimento pessoal do acusado não enseja nulidade, por não se tratar de exigência, apenas de recomendação", sendo perfeitamente possível a realização de tal reconhecimento por fotografia (corno se deu no caso presente quanto à vítima Gilson Soares de Freitas), ipsis litteris: .. Acrescente-se o fato de que é firme o posicionamento jurisprudencial no sentido de que "as declarações da vítima, apoiadas nos demais elementos dos autos, em se tratando de crimes cometidos sem a presença de outras pessoas, é prova válida para a condenação, mesmo ante a palavra divergente do réu" (STJ, HC 195.467/SP, Rei. Mm. Maria Thereza de Assis Moura), ficando certo, pelo conjunto absolutamente harmonioso e coeso das fartas provas produzidas, que os Apelantes foram os autores dos crimes praticados, noticiados nestes autos e em razão dos quais restaram condenados. Afasto, pois, o pedido de absolvição." À luz do cotejo probatório empreendido pelas instâncias ordinárias, não prospera a tese defensiva no sentido de que "o TJMA manteve a condenação do Paciente, com base única e exclusivamente em reconhecimento fotográfico extrajudicial" (fl. 6). A participação dos envolvidos na empreitada criminosa ficou comprovada tendo em vista que eram conhecidos do ofendido por terem sido vizinhos, moradores da casa ao lado da vítima. Essa circunstância afasta a possibilidade de um reconhecimento pessoal falho. Inclusive, ressalte-se que foi efetuado reconhecimento presencial, que foi ainda ratificado em juízo, por uma das vítimas, além de existirem outros elementos de prova - depoimento e reconhecimento também p ela outra vítima -, de maneira que não há co mo afastar a condenação. A propósito, o seguinte precedente desta Corte Superior: "RECURSO ESPECIAL. ROUBO MAJORADO. RECONHECIMENTO PESSOAL. OBRIGATORIEDADE DA OBSERVÂNCIA DO PROCEDIMENTO PREVISTO NO ART. 226 DO CPP. NOVA ORIENTAÇÃO JURISPRUDENCIAL DESTA CORTE SUPERIOR. DISTINGUISHING. AUSÊNCIA DE NULIDADE DO RECONHECIMENTO PESSOAL. ABSOLVIÇÃO. REVERSÃO DO JULGADO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULA 7/STJ. 1. No julgamento do HC 598.886/SC, da relatoria do Min. Rogério Schietti Cruz, decidiu a Sexta Turma, revendo anterior interpretação, no sentido de que se "determine, doravante, a invalidade de qualquer reconhecimento formal - pessoal ou fotográfico - que não siga estritamente o que determina o art. 226 do CPP, sob pena de continuar-se a gerar uma instabilidade e insegurança de sentenças judiciais que, sob o pretexto de que outras provas produzidas em apoio a tal ato - todas, porém, derivadas de um reconhecimento desconforme ao modelo normativo - autorizariam a condenação, potencializando, assim, o concreto risco de graves erros judiciários". 2. Apesar do reconhecimento fotográfico na fase inquisitorial não ter observado o procedimento legal, o presente caso enseja distinguishing quanto ao acórdão paradigma da nova orientação jurisprudencial, tendo em vista que a vítima relatou, nas fases inquisitorial e judicial, conhecer o réu pelo apelido de "boneco", bem como o pai do acusado, por serem vizinhos, o que não denota riscos de um reconhecimento falho. 3. Nos termos da jurisprudência desta Corte, nos crimes contra o patrimônio, a palavra da vítima possui especial relevo, tendo em vista sobretudo o modus operandi empregado na prática do delito, cometido na clandestinidade, sendo que a reversão das das premissas fáticas do julgado, para fins de absolvição, demandaria o revolvimento do conjunto fático-probatório, inadmissível a teor da Súmula 7/STJ. 4. Recurso especial improvido" (REsp n. 1.969.032/RS, Sexta Turma, Rel. Min. Olindo Menezes - Desembargador Convocado do TRF 1ª Região, DJe de 20/5/2022). Em reforço: AgRg no REsp n. 2.026.295/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 24/10/2022 e AgRg no AREsp n. 1.623.978/MG, Sexta Turma, Rel. Min. Antonio Saldanha Palheiro, DJe de 28/09/2020. Dessarte, considerando que no presente agravo regimental não se aduziu qualquer argumento apto a ensejar a alteração da decisão ora agravada, deve haver a manutenção do ato judicial por seus próprios fundamentos. Acerca do tema: AgRg no HC n. 804.533/PE, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, DJe de 17/3/2023; e AgRg no HC n. 659.003/SP, Sexta Turma, Rel. Min. Rogerio Schietti Cruz, DJe de 30/3/2023. Ante todo o exposto, nego provimento ao agravo regimental. É o voto.