HC 886228 - ACORDAO
Não conhecer do habeas corpus porque não cabe sua utilização como substitutivo de recurso próprio na ausência de flagrante ilegalidade; ademais, o reconhecimento fotográfico confirmado em juízo e corroborado por outros elementos probatórios não viola o art. 226 do CPP, de modo que não se vislumbra constrangimento...
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- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 17 December 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão Ordem Não Conhecida (acórdão)
- Outcome
- Ordem não conhecida
- Legal Topics
- Reconhecimento Fotográfico, Art. 226 Do CPP, Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio, Flagrante Ilegalidade, Latrocínio Tentado
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Procedural Posture
Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Decisão Ordem Não Conhecida (acórdão)
Legal Issues
- 1 Admissibilidade do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio salvo em casos de flagrante ilegalidade
- 2 Se o reconhecimento fotográfico ratificado em juízo e corroborado por outras provas viola o art. 226 do CPP e autoriza nulidade da condenação
Ratio Decidendi
Não conhecer do habeas corpus porque não cabe sua utilização como substitutivo de recurso próprio na ausência de flagrante ilegalidade; ademais, o reconhecimento fotográfico confirmado em juízo e corroborado por outros elementos probatórios não viola o art. 226 do CPP, de modo que não se vislumbra constrangimento ilegal apto a autorizar a ordem.
Court Disposition
Ordem não conhecida
Orders
- Não conhecer do pedido
- Liminar indeferida pelo Vice-Presidente no exercício da Presidência
Full Case Text
Judgment text and source record
2 paragraphs
ACÓRDÃO Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, acordam os Ministros da Turma, por unanimidade, não conhecer do pedido. Os Srs. Ministros Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas, Joel Ilan Paciornik e Messod Azulay Neto votaram com a Sra. Ministra Relatora. Presidiu o julgamento o Sr. Ministro Messod Azulay Neto. EMENTA DIREITO PROCESSUAL PENAL. TENTATIVA DE LATROCÍNIO. ALEGAÇÃO DE NULIDADE NO RECONHECIMENTO (ART. 226, CPP). HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. ORDEM NÃO CONHECIDA. I. Caso em exame 1. Habeas corpus substitutivo de recurso próprio, impetrado para anular condenação por latrocínio tentado, alegando violação do art. 226 do CPP, devido à condenação baseada em reconhecimento fotográfico ratificado em juízo. 2. Liminar indeferida pelo Vice-Presidente no exercício da Presidência. Parecer do MPF contrário à concessão da ordem. II. Questão em discussão 3. A questão em discussão consiste em saber se o reconhecimento fotográfico, ratificado em juízo e corroborado por outras provas, é suficiente para manter a condenação, sem violar o art. 226 do CPP. III. Razões de decidir 4. A jurisprudência do STJ e do STF não admite habeas corpus como substitutivo de recurso próprio, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 5. O reconhecimento fotográfico, quando confirmado em juízo e apoiado por outras provas, não viola o art. 226 do CPP, conforme entendimento consolidado. 6. A palavra da vítima tem especial relevância em crimes contra o patrimônio, especialmente quando corroborada por outros elementos probatórios. 7. Não se verifica flagrante ilegalidade ou constrangimento ilegal que justifique a concessão da ordem de ofício. IV. Dispositivo e tese 8. Ordem não conhecida.
RELATÓRIO Imputa-se ao paciente a prática do crime de latrocínio tentado (artigo do 157, § 3º, primeira parte c/c artigo 14, inciso II do Código Penal). A defesa alega, em síntese, que houve violação do art. 226 do Código de Processo Penal ao se entender válida a condenação apoiada exclusivamente em reconhecimento fotográfico. Ao final, requer a concessão da ordem para reconhecer a nulidade do reconhecimento fotográfico, com consequente absolvição do paciente. Liminar indeferida pelo Ministro Og Fernandes, Vice-Presidente, no exercício da Presidência. (e-STJ fls. 153-154) Parecer do MPF. (e-STJ fls. 162-168) É o relatório. EMENTA DIREITO PROCESSUAL PENAL. TENTATIVA DE LATROCÍNIO. ALEGAÇÃO DE NULIDADE NO RECONHECIMENTO (ART. 226, CPP). HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. AUSÊNCIA DE FLAGRANTE ILEGALIDADE. ORDEM NÃO CONHECIDA. I. Caso em exame 1. Habeas corpus substitutivo de recurso próprio, impetrado para anular condenação por latrocínio tentado, alegando violação do art. 226 do CPP, devido à condenação baseada em reconhecimento fotográfico ratificado em juízo. 2. Liminar indeferida pelo Vice-Presidente no exercício da Presidência. Parecer do MPF contrário à concessão da ordem. II. Questão em discussão 3. A questão em discussão consiste em saber se o reconhecimento fotográfico, ratificado em juízo e corroborado por outras provas, é suficiente para manter a condenação, sem violar o art. 226 do CPP. III. Razões de decidir 4. A jurisprudência do STJ e do STF não admite habeas corpus como substitutivo de recurso próprio, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 5. O reconhecimento fotográfico, quando confirmado em juízo e apoiado por outras provas, não viola o art. 226 do CPP, conforme entendimento consolidado. 6. A palavra da vítima tem especial relevância em crimes contra o patrimônio, especialmente quando corroborada por outros elementos probatórios. 7. Não se verifica flagrante ilegalidade ou constrangimento ilegal que justifique a concessão da ordem de ofício. IV. Dispositivo e tese 8. Ordem não conhecida. VOTO A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024). A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o "habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado" (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. A concessão de ofício da ordem, nos termos dos arts. 647-A e 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade. Não se olvida que esta Corte, a partir do paradigmático julgamento do habeas corpus n.598.886/SC, da relatoria do Ministro Rogério Schietti Cruz, firmou o entendimento no sentido de que "o reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art.226 do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa". Em atenção ao referido precedente, ambas as turmas que integram a Terceira Seção desta Corte têm proferido decisões que endossam tal entendimento. Ocorre, todavia, que no caso dos autos, verifica-se, sem muito esforço, que o Tribunal de origem, fundamentou suficientemente a decisão com base no robusto acervo probatório que instrui os autos. Vejamos: O apelante sempre negou ter participado do roubo, alegando, inclusive, ter sido preso nesse período, mas por outro crime, pois era desafeto dos integrantes da ALKAEDA. No entanto, não trouxe documentação capaz de evidenciar tais argumentos. A vítima, em sua declaração em juízo, disse que os meliantes se aproximaram e disseram: "Bora, bora, bora! Abra as portas, destrava, destrava, destrava, e passa para o banco traseiro(trecho das declarações da vítima extraídas do PJE Mídias). Nesse momento, ela" chegou a ver o denunciado com arma em punho em sua direção, quando a mesma seguiu em seu carro e só lembra de ter ouvido e sentido o disparo, mas não se recorda de ter colidido com seu carro. Com a certeza expressada pela própria ofendida, fica difícil confrontar tal declaração com as oitivas arroladas durante a instrução processual. Portanto, demonstrado está a participação do ora recorrente na empreitada criminosa, impondo-se manter inalterada a condenação imposta. .. É pacífica a jurisprudência no sentido de que, nos crimes contra o patrimônio, a palavra da vítima tem especial relevância, isto porque, geralmente, esse tipo de delito é cometido sem a presença de testemunhas, para assegurar sua impunidade. Ademais, o reconhecimento fotográfico realizado pela vítima na fase de investigação, restou confirmado perante a autoridade judiciária. Logo, não há que se falar em qualquer irregularidade de cunho procedimental, tampouco ofensa ao art. 226 do Código de Processo Penal, afastando a absolvição pretendida. Neste ponto, deve ser mantida a condenação. Resta claro que o Tribunal de origem destacou que destacou que, como a vítima teve contato direto com o autor do delito, o seu relato e identificação frente a autoridade policial foi confirmado em juízo. Nesse sentido, uma vez o reconhecimento confirmado em Juízo e devidamente corroborado pelos demais elementos probatórios acostados aos autos, conclui-se, pela ausência de nulidade. Sobre o tema, outro não é o posicionamento desta Quinta Turma: PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO. FALSA IDENTIDADE. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO. RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO. PROCEDIMENTO PREVISTO NO ART. 226 DO CPP. INOBSERVÂNCIA. MUDANÇA DE ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL. INVALIDADE DA PROVA. AUTORIA ESTABELECIDA COM BASE EM OUTROS ELEMENTOS PROBATÓRIOS. ABSOLVIÇÃO INVIÁVEL. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO.(..)2. Esta Corte Superior inicialmente entendia que "a validade do reconhecimento do autor de infração não está obrigatoriamente vinculada à regra contida no art. 226 do Código de Processo Penal, porquanto tal dispositivo veicula meras recomendações à realização do procedimento, mormente na hipótese em que a condenação se amparou em outras provas colhidas sob o crivo do contraditório.3. Em julgados recentes, ambas as Turmas que compõe a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça alinharam a compreensão de que "o reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa.4. Dos elementos probatórios que instruem o feito, verifica-se que a autoria delitiva do crime de roubo não tem como único elemento de prova o reconhecimento fotográfico, o que gera distinguishing em relação ao acórdão paradigma da alteração jurisprudencial. Na hipótese, além de a vítima ter descrito as características do paciente e o reconhecido, por meio de foto, perante a autoridade policial, o reconhecimento foi confirmado, sem dúvidas, em juízo. Ademais, o paciente foi preso em flagrante, poucas horas depois do crime, ao desembarcar da garupa de uma motocicleta pilotada por outro agente que logrou fugir, e entrar no veículo roubado, com as chaves originais, e tentar liga-lo, quando foi surpreendido pelos policiais que estavam em campana. Outrossim, no momento da prisão em flagrante os policiais encontraram o paciente "munido de diversas ferramentas, além de ter fornecido identidade falsa à polícia para esconder seus antecedentes", tendo o juízo sentenciante ressaltado que "nada há nos autos que sustente a versão do indigitado de que não praticou roubo, mas foi apenas contratado para transportar o veículo, porque, se assim fosse, qual o sentido de utilizar ferramentas para remover peças do automóvel. No mais, não se preocupou em dizer onde estaria no dia e hora da ação criminosa e já estava munido com identidade falsa, e sem o aparelho de monitoramento eletrônico ao que foi submetido, justamente em razão de práticas delituosas anteriores à atual, não havendo que se falar em nsuficiência de provas para a condenação, como almejado pela defesa".5. Agravo regimental não provido.(AgRg no HC n. 746.378/CE, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 9/8/2022, DJe de 16/8/2022).Grifos acrescidos. PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO QUALIFICADO E EXTORSÃO. APELAÇÃO JULGADA HÁ MAIS DE SETE ANOS. PRECLUSÃO TEMPORAL. PRECEDENTES DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA - STJ E DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL - STF. RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO CORROBORADO POR OUTRAS PROVAS NA FASE JUDICIAL. LEGALIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.(..)3. Ademais, é certo que o reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código de Processo Penal e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa. No caso, a autoria delitiva não tem como único elemento de prova o reconhecimento fotográfico, porque, durante a instrução processual, foram ouvidas a vitima e duas testemunhas comuns à acusação e defesa, respeitados o contraditório e a ampla defesa, restando consignado que o réu não compareceu em Juízo para ser interrogado e na Delegacia, havia ficado em silêncio. Foi declarada sua revelia nos termos do art. 367 do Código de Processo Penal.4. Vale ressaltar, ainda, que a Corte de origem destacou que "um talão de cheques subtraído da vítima foi apreendido na residência do réu quando o mesmo era investigado pela prática de outro roubo, tudo a confirmar sua participação nos crimes" (fl. 29). Sendo certo que "a jurisprudência desta Corte é firme no sentido de que é possível a utilização das provas colhidas durante a fase inquisitiva - reconhecimento fotográfico - para embasar a condenação, desde que corroboradas por outras provas colhidas em Juízo - depoimentos e apreensão de parte do produto do roubo na residência do réu, nos termos do art. 155 do Código de Processo Penal" (AgRg no HC 633.659/SP, Rel. Ministro NEFI CORDEIRO, SEXTA TURMA, DJe 5/3/2021).5. Agravo regimental desprovido.(AgRg no HC n. 738.559/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 7/6/2022, DJe de 10/6/2022.). Grifos acrescidos. Por fim, mas não menos importante, importa salientar que a desconstituição acerca da existência de outras provas aptas a comprovar a autoria do crime demandaria o exame aprofundado do acervo fático-probatório, providência, como é sabido, inadmissível na via estreita do habeas corpus. Analisando-se o conteúdo da documentação colacionada aos autos, não se verifica de plano qualquer violação ao ordenamento jurídico ou flagrante constrangimento ilegal, que implique ameaça de violência ou coação na liberdade de locomoção do paciente, nos termos da Lei nº 14.836, de 8/4/2024, publicada no Diário Oficial da União de 9/4/2024. Pelo exposto, não conheço do habeas corpus substitutivo e, na análise de ofício, não visualizo elementos capazes de caracterizar flagrante ilegalidade. É o voto.