HC 994405 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus porque não se verifica flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado; ainda que o reconhecimento fotográfico não tenha observado estritamente o art. 226 do CPP, a condenação do paciente se apoiou em provas autônomas suficientes (relatos em juízo e extrajudiciais, apreensão do veículo...
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- Parties
- Paciente: ALEXANDRE DUARTE ATAIDE; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ; Interessado: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 April 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Não Conhecimento
- Outcome
- não conheço do habeas corpus
- Legal Topics
- Reconhecimento Fotográfico, Art. 226 Do Código De Processo Penal, Nulidade De Prova, Uso Do Habeas Corpus, Reexame De Matéria Fático Probatória
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Parties
ALEXANDRE DUARTE ATAIDE
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Interessado
Procedural Posture
Habeas Corpus / Não Conhecimento
Legal Issues
- 1 se o reconhecimento fotográfico realizado sem observar as formalidades do art. 226 do CPP torna nula a prova e enseja absolvição automática
- 2 se há flagrante ilegalidade apta a autorizar o conhecimento de habeas corpus em lugar do recurso ordinário
- 3 se a condenação pode subsistir com base em provas autônomas independentemente do reconhecimento irregular
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus porque não se verifica flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado; ainda que o reconhecimento fotográfico não tenha observado estritamente o art. 226 do CPP, a condenação do paciente se apoiou em provas autônomas suficientes (relatos em juízo e extrajudiciais, apreensão do veículo roubado em sua posse, confissão e depoimentos policiais), sendo vedado nesta via estreita o reexame do conjunto fático-probatório.
Court Disposition
não conheço do habeas corpus
Orders
- Cientifique-se o Ministério Público Federal.
- Publique-se.
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de ALEXANDRE DUARTE ATAIDE em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO PARANÁ. Consta dos autos que o paciente foi condenado às penas de 7 anos, 4 meses e 20 dias de reclusão no regime inicial fechado e de pagamento de 20 dias-multa, como incurso nas sanções dos arts. 157, § 2º, II e IV, do Código Penal e 244-B da Lei n. 8.069/1990. O impetrante alega que, além de o paciente não ter sido reconhecido pela vítima, o reconhecimento fotográfico realizado não teria observado as formalidades do art. 226 do Código de Processo Penal, o que ensejaria a nulidade do procedimento. Requer, liminarmente e no mérito, que seja declarada a nulidade do reconhecimento fotográfico, absolvendo-se o paciente. É o relatório. Esta Corte de Justiça já firmou compreensão de que o habeas corpus não deve ser utilizado como substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Destacam-se a respeito: AgRg no HC n. 933.316/MG, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 20/8/2024, DJe de 27/8/2024; AgRg no HC n. 874.713/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 13/8/2024, DJe de 20/8/2024; AgRg no HC n. 918.177/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 19/8/2024, DJe de 22/8/2024; AgRg no HC n. 749.702/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 26/2/2024, DJe de 29/2/2024; AgRg no HC n. 912.662/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 24/6/2024, DJe de 27/6/2024; e HC n. 740.303/ES, relator Ministro Jesuíno Rissato - Desembargador convocado do TJDFT, Quinta Turma, julgado em 9/8/2022, DJe de 16/8/2022. No caso em exame, não se verifica a ocorrência de ilegalidade flagrante apta a superar esse entendimento. Nesta impetração é suscitada a nulidade do decreto condenatório, afirmando-se a ilicitude da prova utilizada para embasá-lo, ao argumento de que seria derivada exclusivamente do reconhecimento pessoal do paciente pela vítima, tanto na fase policial como em juízo, sem o cumprimento dos requisitos estabelecidos pelo art. 226 do Código de Processo Penal. Para manter a sentença penal condenatória, quando do julgamento da apelação criminal defensiva, o Tribunal de Justiça consignou os seguintes fundamentos (fls. 12-13): .. O Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento de que o reconhecimento de suspeitos, seja presencial ou fotográfico, realizado na fase inquisitorial, somente tem validade para identificar o réu e atribuir-lhe a autoria caso sejam observadas as formalidades previstas no art. 226 do CPP. Entretanto, mesmo havendo irregularidades nesse procedimento, a absolvição não é medida automática, desde que a autoria delitiva seja demonstrada por outros elementos probatórios independentes (HC n. 816.364/RJ, 5ª Turma, Rel. Min. Daniela Teixeira, J. 3/12 /2024). No caso em análise, o ofendido João Paulo Machado relatou na fase indiciária que, ao chegar à sua residência e estacionar em frente ao portão, foi surpreendido por um indivíduo que entrou em seu veículo, exibiu uma arma na cintura e ordenou que não reagisse, afirmando que queria apenas o automóvel. João Paulo desembarcou e o assaltante assumiu a direção, dirigindo até a esquina, onde um segundo indivíduo o aguardava (mov. 1.21). Posteriormente, ao ser apresentado a seis fotografias na delegacia, o ofendido não conseguiu reconhecer o réu como um dos autores do delito, pois, devido à distância, não pôde identificar as características do comparsa. Apenas o adolescente J. V. G. S., com quem esteve cara a cara, foi reconhecido (mov. 11.3/4). Ainda que o procedimento de reconhecimento fotográfico não tenha observado todas as formalidades previstas na lei, é importante destacar que o Juízo sentenciante sequer utilizou esse elemento como fundamento condenatório, tendo se baseado em provas autônomas para demonstrar a materialidade e a autoria do crime. E, de fato, o conjunto probatório não deixa dúvidas sobre a participação do réu na empreitada criminosa. Em juízo, João Paulo apresentou relato coeso e compatível com sua versão extrajudicial. Afirmou que o assaltante portava um objeto prateado na cintura, que poderia ser uma arma ou faca, e que fazia menção de usá-lo. Observou que o assaltante vestia moletom azul e que, após a subtração, o veículo foi conduzido até um ponto onde um segundo indivíduo embarcou. Ainda, informou que o automóvel pertencia a sua amiga Maria Dolores (mov. 96.1). Maria Dolores, ouvida em juízo, confirmou ser proprietária do veículo Hyundai HB20, o qual havia emprestado a João Paulo. Embora não tenha presenciado os fatos, afirmou ter conseguido recuperar o bem posteriormente (mov. 96.3). Os depoimentos colhidos encontram respaldo nos demais elementos que comprovam a materialidade delitiva (movs. 1.9, 1.11, 1.21, 1.46 e 11.2). Além disso, os policiais militares Thiago da Silva e Giovani Silvério relataram em juízo que, durante patrulhamento em uma praça de pedágio na Rodovia Presidente Castelo Branco, abordaram um veículo Hyundai HB20 ao perceberem que seus ocupantes não utilizavam o cinto de segurança. O condutor era um adolescente, enquanto o réu ocupava o banco do passageiro. Após consulta, constataram que o automóvel possuía registro de roubo ocorrido naquela madrugada. Durante a abordagem, ambos confessaram o crime e informaram que estavam transportando o veículo para São Paulo (movs. 96.5/7). (Grifei.) Com efeito, esta Corte Superior, por ocasião do julgamento do HC n. 598.886/SC, sob a relatoria do Ministro Rogério Schietti (DJe 18/12/2020), firmou a compreensão de que a inobservância do procedimento previsto no art. 226 do Código de Processo Penal invalida o reconhecimento pessoal do suspeito, tornando-o imprestável para fundamentar eventual condenação, mesmo se confirmado posteriormente no curso da instrução criminal. Todavia, a irregularidade no procedimento não conduzirá à nulidade da condenação se esta estiver lastreada em elementos de prova autônomos. Nesse sentido: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. ROUBO MAJORADO. PRECLUSÃO DOS CAPÍTULOS DA DECISÃO MONOCRÁTICA NÃO IMPUGNADOS. AUTORIA BASEADA EM OUTROS ELEMENTOS PROBATÓRIOS INDEPENDENTES DO RECONHECIMENTO PREVISTO NO ART. 226 DO CPP. COAUTORIA. ELEMENTAR DO CRIME DE ROUBO. PRÉVIO AJUSTE ENTRE OS AGENTES EVIDENCIADO. PRETENSÃO DE ABSOLVIÇÃO POR INSUFICIÊNCIA DE PROVAS. SÚMULA N. 7 DO STJ. OBSCURIDADE NA DECISÃO AGRAVADA. NÃO OCORRÊNCIA. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A impugnação, no regimental, de apenas alguns capítulos da decisão agravada induz à preclusão das demais matérias decididas pelo relator, não refutadas pela parte. 2. Por ocasião do julgamento do HC n. 598.886/SC (Rel. Ministro Rogério Schietti, DJe 18/12/2020), a Sexta Turma deste Tribunal Superior concluiu que a inobservância do procedimento previsto no art. 226 do Código de Processo Penal torna inválido o reconhecimento do suspeito e não poderá servir de lastro a eventual condenação, mesmo se confirmado o ato em juízo. 3. Ainda que o ato de reconhecimento haja sido feito em desacordo com o modelo legal previsto no art. 226 do CPP e não possa ser sopesado, nem mesmo de forma suplementar, para fundamentar uma condenação, se houver outras provas, independentes dele e suficientes para sustentar o decreto condenatório, afasta-se a tese de absolvição. 4. No caso, a condenação do réu não foi baseada apenas no reconhecimento fotográfico, mas, também, nas demais provas dos autos, notadamente sua confissão judicial, em que ele admitiu, na presença de seu advogado, que conduziu o veículo usado no roubo. .. 11. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp n. 2.633.460/AM, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 13/8/2024, DJe de 28/8/2024, grifo próprio.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO E FURTO EM CONCURSO MATERIAL. CONDENAÇÃO. RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO CORROBORADO POR OUTRAS PROVAS NA FASE JUDICIAL. LEGALIDADE. REVER A CONCLUSÃO DAS INSTÂNCIAS DE ORIGEM. REVOLVIMENTO FÁTICO-PROBATÓRIO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. O reconhecimento de pessoa, presencialmente ou por fotografia, realizado na fase do inquérito policial, apenas é apto, para identificar o réu e fixar a autoria delitiva, quando observadas as formalidades previstas no art. 226 do Código de Processo Penal - CPP e quando corroborado por outras provas colhidas na fase judicial, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa. 2. No caso, as instâncias ordinárias consignaram que os elementos probatórios colacionados nos autos seriam suficientes para comprovar a autoria do delito, destacando que o reconhecimento pessoal realizado na Delegacia de Polícia logo após o crime foi confirmado em juízo por duas vítimas, sob o crivo do contraditório e da ampla defesa. Enfatizou-se, ainda, a existência de outros elementos de prova capazes de evidenciar a autoria, como a prisão do réu pouco tempo depois dos fatos na posse da quantia em dinheiro subtraída do estabelecimento comercial e em poder do par de tênis retirado da residência da vítima do furto no trajeto de fuga, elementos que, em conjunto, confirmam a participação do agravante no delito em questão. Assim, não há falar em nulidade, tendo em vista que a autoria delitiva não teve como único elemento de prova, o reconhecimento realizado na fase policial. 3. Rever a conclusão acerca da existência de fontes suficientes e complementares acerca da autoria delitiva demandaria aprofundado revolvimento de matéria fático-probatória, procedimento vedado na via estreita do habeas corpus. 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 892.510/SC, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 16/9/2024, DJe de 18/9/2024, grifo próprio.) Como visto acima, a condenação do acusado não se amparou apenas em seu reconhecimento pessoal pela vítima do crime patrimonial. A imputação da autoria delitiva foi construída pelas instâncias ordinárias com arrimo em outras fontes de prova, sobretudo naquela materializada pela apreensão do veículo roubado na posse do paciente, poucas horas após o roubo em outra unidade federativa. Por esse prisma, mostra-se evidente a sintonia entre o julgado objeto deste writ e a jurisprudência desta Corte Superior, cabendo observar, ainda, que a desconstituição da conclusão alcançada pelo Tribunal local implicaria necessariamente o amplo revolvimento de matéria fático-probatória, o que não se coaduna com a estreita via cognitiva do habeas corpus. Nessa direção: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO. RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO REALIZADO EM DESCONFORMIDADE AOS PRECEITOS DO ART. 226 DO CPP. OUTROS ELEMENTOS APTOS A INDICAR A AUTORIA DO DELITO. AGRAVO DESPROVIDO. 1. Embora o reconhecimento do paciente não tenha sido realizado em estrita observância ao art. 226 do CPP, não foi ele o único elemento probatório apto a embasar a condenação. O paciente foi preso em flagrante, em posse do bem roubado juntamente com o seu comparsa, fatos que demonstram a autoria do crime e refutam a tese de insuficiência probatória. 2. Verificado o distinguishing em relação ao acórdão paradigma proferido no autos do HC n. 652.284/SC, ou seja, existência de outros elementos aptos a comprovar a autoria do delito, inviável acolher a tese defensiva de nulidade do processo e absolvição do agravante. 3. Ademais, "Eventual desconstituição das conclusões das instâncias antecedentes a respeito da autoria delitiva depende de reexame de fatos e provas, providência inviável na estreita via do habeas corpus." (AgRg no HC n. 717.803/RJ, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 9/8/2022, DJe de 16/8/2022.) 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 872.909/PR, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do Tjdft), Sexta Turma, julgado em 21/5/2024, DJe de 27/5/2024, grifo próprio.) PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. ROUBO MAJORADO. ABSOLVIÇÃO. RECONHECIMENTO FOTOGRÁFICO. PRESENÇA DE OUTROS ELEMENTOS DE PROVA QUE PERMITEM A MANTENÇA DA CONDENAÇÃO. AGRAVO DESPROVIDO. .. 3. No caso dos autos, a autoria delitiva não tem, como único elemento de prova, o reconhecimento fotográfico, o que demonstra haver distinguishing em relação ao acórdão paradigma da alteração jurisprudencial, considerando a presença de outros elementos de convicção hígidos, pois o ofendido foi surpreendido em posse do capacete da vítima, além de ter sido reconhecido extrajudicialmente por testemunha. Tudo isso, deveras, demonstra a existência de um cabedal probatório apto a justificar a mantença da condenação do réu, em que pese a ofensa ao art. 226 do CPP. 4. Se a instância ordinária, de forma motivada e com fundamento no contexto probatório dos autos, entendeu que existe prova suficiente da autoria delitiva, a via do writ não se mostra adequada para infirmar tal conclusão. 5. Agravo desprovido. (AgRg no HC n. 860.053/PE, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 4/3/2024, DJe de 7/3/2024, grifo próprio.) Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA