HC 704008 - DECISAO
Ainda que o habeas corpus não seja substitutivo de recurso próprio, o STJ, com fundamento no art. 654, § 2º do CPP e em sua jurisprudência sobre correção de ofício do flagrante constrangimento ilegal, verificou existir necessidade de exame da questão pelo Tribunal de origem; assim, não conheceu do writ, mas concedeu...
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- Parties
- Paciente: RENANAUGUSTO VENÂNCIO; Autoridade Coatora: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 November 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem de ofício para que o Tribunal de origem examine o mérito da impetração.
- Legal Topics
- Regime De Cumprimento De Pena, Cabimento Do Habeas Corpus Como Substitutivo De Recurso, Supressão De Instância, Correção De Ofício De Flagrante Constrangimento Ilegal, Competência Da Vara De Execuções Criminais
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Parties
RENANAUGUSTO VENÂNCIO
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão
Legal Issues
- 1 Possibilidade de suspensão de pena em regime aberto para cumprimento após pena mais grave em regime fechado
- 2 Cabimento do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio
- 3 Supressão de instância e impedimento de exame originário pelo STJ
Ratio Decidendi
Ainda que o habeas corpus não seja substitutivo de recurso próprio, o STJ, com fundamento no art. 654, § 2º do CPP e em sua jurisprudência sobre correção de ofício do flagrante constrangimento ilegal, verificou existir necessidade de exame da questão pelo Tribunal de origem; assim, não conheceu do writ, mas concedeu a ordem de ofício para que o Tribunal de origem examine o mérito da impetração.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem de ofício para que o Tribunal de origem examine o mérito da impetração.
Orders
- Determino que o Tribunal de origem examine o mérito do HC n. 2188451-43.2021.8.26.0000 para verificar a existência ou não de flagrante ilegalidade.
- Fica prejudicado o pedido de liminar.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de RENANAUGUSTO VENÂNCIO, em que se aponta como autoridade coatora o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Processo n. 2188451-43.2021.8.26.0000). O paciente foi condenado às penas de 8 anos de reclusãoem regime inicial fechadoe de 1.200 dias-multa, bem como às penas de 1 ano de detençãoem regime inicial abertoe de 10 dias-multa, pela prática dos delitos dos arts. 33, caput, e 35, caput, ambos da Lei n. 11.343/2006 e 12 da Lei n.10.826/2003. O Juízo de primeiro grau unificou as penas em regime fechado. A defesa impetrou a ordem de habeas corpus sob o fundamento de que é cabível a suspensão da pena em regime aberto para que esta seja cumprida após o término da pena mais grave, em regime fechado. O Tribunal de origem não conheceu do writ impetrado, sobo fundamentode que o habeas corpus não é a via adequada como substitutivo da via recursal. O impetrante aponta constrangimento ilegal uma vez que a pena poderá ser cumprida no regime aberto ou semiaberto- a única exceção é no caso de regressão. Sustenta que é vedado que o início do cumprimentoda penase dê no regime fechado, ainda que o condenado seja reincidente e com maus antecedentes, o que não é o caso. Requer seja concedida a ordem para cassar o acórdão proferido pelo Tribunal de origem, a fim de queoutra decisão seja proferida, suspendendo a pena em regime aberto,para que seja cumprida após o cumprimento da pena mais grave (em regime fechado), com confecção de novo cálculo. É o relatório. Decido. Ainda que inadequada a impetração de habeas corpus em substituição à revisão criminal ou ao recurso constitucional próprio, diante do disposto no art. 654, § 2º, do Código de Processo Penal, o STJ considera passível de correção de ofício o flagrante constrangimento ilegal. Nos casos em que a pretensão esteja em conformidade ou em contrariedade com súmula ou jurisprudência pacificada dos tribunais superiores, a Terceira Seção desta Corte admite o julgamento monocrático da impetração antes da abertura de vista ao Ministério Público Federal, em atenção aos princípios da celeridade e da efetividade das decisões judiciais, sem que haja ofensa às prerrogativas institucionais do parquet ou mesmo nulidade processual (AgRg no HC n. 674.472/SP, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe de 10/8/2021; eAgRg no HC n. 530.261/SP, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, DJe de 7/10/2019). Sendo essa a hipótese dos autos, passo ao exame do mérito da impetração. Da análise dos autos, verifica-se que a questão discutida neste recurso não foi objeto de exame no acórdão impugnado. Desse modo, o STJ está impedido de apreciá-la, sob pena de indevida supressão de instância. Do writ originário não se conheceu nestes termos (fl. 142): A presente ordem não deve ser conhecida. Esclarece-se que, conforme reiteradamente decidido, o habeas corpus não é meio idôneo para análise dos pedidos desta natureza, tampouco para acelerar decisões relativas à execução de penas, uma vez que necessário exame aprofundado dos requisitos legais. Éde ser observado que a matéria aqui tratada é de competência originária da Vara de Execuções Criminais e a via eleita não se constitui como meio idôneo para análise do conjunto probatório, inviável nos estreitos limites do remédio constitucional. Contudo, o Superior Tribunal de Justiça firmou jurisprudência no sentido de que, embora não se admita a impetração do writ substitutivo de recurso próprio, cabe ao órgão julgador aferir a existência de eventual coação ilegal imposta ao paciente, a justificar a concessão da ordem de ofício. A propósito, confiram-se os seguintes julgados: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. PEDIDO DE SUSTENTAÇÃO ORAL. INADMISSIBILIDADE. DESCABIMENTO. PEDIDO DE RETIFICAÇÃO DO CÁLCULO DE PENAS, COM A APLICAÇÃO RETROATIVA DA LEI N. 13.964/2019. QUESTÃO NÃO APRECIADA PELA CORTE DE ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. MATÉRIA DE DIREITO. VIABILIDADE DO MANDAMUS ORIGINÁRIO. CONSTRANGIMENTO ILEGAL EVIDENCIADO. ORDEM CONCEDIDA, DE OFÍCIO. PRECEDENTES. AGRAVO DESPROVIDO. 1. É incabível o pedido de sustentação oral no julgamento de agravo regimental na esfera penal, pois, nos termos dos arts. 159, inciso IV, e 258 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, o agravo regimental em matéria penal deve ser levado para julgamento em mesa. 2. Como a matéria arguida não foi analisada pelo Tribunal a quo, não pode ser originariamente examinada pelo Superior Tribunal de Justiça, sob pena de indevida supressão de instância. Precedentes. 3. A existência de recurso específico não inviabiliza a impetração de ordem de habeas corpus para a aferição de eventual ilegalidade na fase de execução da pena, quando a análise recai sobre questão pacificada e meramente de direito, consubstanciada na análise da possibilidade de retificação do cálculo de penas do Paciente, com a aplicação retroativa da Lei n. 13.964/2019. A recusa em analisar o tema, pelo Tribunal de origem, constitui ilegalidade flagrante. 4. Ressalte-se que, apesar de ser o agravo o recurso próprio cabível contra decisão que resolve incidente em execução, não há óbice ao manejo do habeas corpus quando a análise da legalidade do ato coator prescindir do exame aprofundado de provas e exista possibilidade de lesão à liberdade de locomoção do indivíduo, como na espécie. 5. Agravo regimental desprovido.(AgRg no HC n. 609.783/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, DJe de 23/10/2020.) RECURSO ORDINÁRIO DE HABEAS CORPUS. AUSÊNCIA DE EXAME DO MÉRITO DA CAUSA PELA CORTE DE ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INVIABILIDADE DO CONHECIMENTO DAS TESES DEFENSIVAS. NECESSIDADE DE RETORNO DOS AUTOS. RECURSO ORDINÁRIO PARCIALMENTE PROVIDO. 1. In casu, constata-se que a Corte estadual limitou-se ao não conhecimento do writ originário, sem avaliar a existência de eventual ilegalidade perpetrada em desfavor do ora recorrente. 2. De plano, mostra-se inviabilizado o conhecimento da questão suscitada no presente recurso, diretamente por esta Corte, sob pena de indevida supressão de instância, uma vez que o tema não chegou a ser apreciado pelo Tribunal a quo. 3. Com efeito, nos moldes da orientação do STJ e do STF, é indispensável que se afaste por completo a existência de flagrante constrangimento ilegal, sob pena de ofensa ao art. 5º, LXVIII, da CF. 4. Nesse contexto, a solução passa pelo retorno dos autos ao Tribunal de origem para que examine a fundamentação expendida pelo impetrante, ora recorrente. 5. Recurso ordinário em habeas corpus a que se dá parcial provimento para determinar o retorno dos autos à instância de origem, a fim de que se examine o mérito do pedido, como for de direito. (RHC n. 104.808/SP, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe de 19/12/2018.) Portanto, se constata a existência de flagrante constrangimento ilegal que autorize a atuação ex officio. Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício, com fundamento no art. 654, § 2º, do Código de Processo Penal, paraque o Tribunal de origem examine o mérito da impetração (HC n. 2188451-43.2021.8.26.0000) a fim de verificar a existência ou não de flagrante ilegalidade a justificar a concessão da ordem. Fica prejudicado o pedido de liminar. Publique-se. Intimem-se. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Após o trânsito em julgado, remetam-se os autos ao arquivo.