HC 705747 - DECISAO
Porque a manutenção do regime fechado careceu de fundamentação concreta e idônea, tendo a pena-base sido fixada no mínimo legal e estando presentes primariedade e circunstâncias judiciais favoráveis, aplicando-se a jurisprudência consolidada (súmulas 440/STJ, 718/STF e 719/STF) o paciente faz jus ao regime inicial...
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- Parties
- Paciente: JACKSON BRUNO DE LIMA; Órgão Recorrido: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Apelação n. 1509432-66.2020.8.26.0228)
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 17 November 2021
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática (concessão Da Ordem)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; ordem concedida, de ofício, para fixar o regime inicial semiaberto.
- Legal Topics
- Regime Inicial De Cumprimento De Pena, Fixação De Regime Prisional, Habeas Corpus Substitutivo De Recurso, Súmulas 440/stj, 718/stf E 719/stf, Dosimetria
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Parties
JACKSON BRUNO DE LIMA
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Apelação n. 1509432-66.2020.8.26.0228)
Órgão Recorrido
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática (concessão Da Ordem)
Legal Issues
- 1 Admissibilidade do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio
- 2 Necessidade de fundamentação concreta para imposição de regime prisional mais gravoso
- 3 Aplicação das súmulas 440/STJ, 718/STF e 719/STF
Ratio Decidendi
Porque a manutenção do regime fechado careceu de fundamentação concreta e idônea, tendo a pena-base sido fixada no mínimo legal e estando presentes primariedade e circunstâncias judiciais favoráveis, aplicando-se a jurisprudência consolidada (súmulas 440/STJ, 718/STF e 719/STF) o paciente faz jus ao regime inicial semiaberto na forma do art. 33, §§ 2º, 'b', e 3º do Código Penal; assim, concede-se a ordem para fixar o regime semiaberto.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; ordem concedida, de ofício, para fixar o regime inicial semiaberto.
Orders
- Não conheço do habeas corpus.
- Concedo a ordem, de ofício, para fixar o regime inicial semiaberto.
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DECISÃO Trata-se dehabeas corpus,com pedido liminar, impetrado em favor de JACKSON BRUNO DE LIMAcontra acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Apelação n. 1509432-66.2020.8.26.0228). Consta dos autos que o paciente foi condenado, em primeiro grau de jurisdição, às penas de 5 anos e 4 meses de reclusão, em regime inicial fechado, e 13 dias-multa, pela prática do crime previsto no art. 157, § 2º, incisoII, do Código Penal (e-STJ fls. 12/17). Irresignada, a defesa interpôs recurso de apelação, o qual foi desprovido (e-STJ fls. 18/22), em acórdão assim ementado: Apelação - Roubo majorado (art. 157, § 2º, II, do CP) - Sentença condenatória - Insurgência da Defesa - Imposição de regime prisional mais brando - Impossibilidade - Recurso não provido. No presente mandamus (e-STJ fls. 3/7), a impetrante sustenta que o acórdão impugnado impôs constrangimento ilegal ao paciente, pois fixou o regime inicial fechado, mais gravoso que a pena aplicada comporta, sem fundamentação idônea. Afirma que a gravidade abstrata não pode justificar o recrudescimento do regime e destaca que o paciente é primário, as circunstâncias judiciais lhe são favoráveis e a condenação não supera 8 anos de reclusão, razão pela qual faz jus ao regime semiaberto. Ao final, liminarmente e no mérito, pede a alteração do regime prisional para inicial semiaberto. É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, seguindo o entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, como forma de racionalizar o emprego do habeas corpus e prestigiar o sistema recursal, não admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Cumpre analisar, contudo, em cada caso, a existência de ameaça ou coação à liberdade de locomoção dopaciente, em razão de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia na decisão impugnada, a ensejar a concessão da ordem de ofício. Nesse sentido, a título de exemplo, confiram-se os seguintes precedentes: STF, HC n. 113.890/SP, Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 3/12/2013, publicado em 28/2/2014; STJ, HC n. 287.417/MS, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Quarta Turma, julgado em 20/3/2014, DJe 10/4/2014; e STJ, HC n. 283.802/SP, Relatora Ministra LAURITA VAZ, Quinta Turma, julgado em 26/8/2014, DJe 4/9/2014. Na espécie, embora aimpetrantenão tenhaadotado a via processual adequada, para que não haja prejuízo à defesa dopaciente, passo à análise da pretensão formulada na inicial, a fim de verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. Acerca do rito a ser adotado, as disposições previstas nos arts. 64, III, e 202 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do Relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforma com súmula ou a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores ou a contraria (AgRg no HC n. 513.993/RJ, RelatorMinistro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe 1º/7/2019; AgRg no HC n. 475.293/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 3/12/2018; AgRg no HC n. 499.838/SP, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/4/2019, DJe 22/4/2019; AgRg no HC n. 426.703/SP, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018; e AgRg no RHC n. 37.622/RN, Relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n.45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC n. 268.099/SP, RelatorMinistro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, RelatorMinistroGURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (A/gRg no HC n. 514.048/RS, RelatorMinistro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). Possível, assim, a análise do mérito da impetração, já nesta oportunidade. Busca-se, em síntese, o abrandamento do regime prisional. Sobre o tema, a jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que é necessária, para a fixação de regime mais gravoso, a apresentação de motivação concreta, sendo inidôneo a mera menção à gravidade abstrata do delito. Foi elaborado, então, o enunciado n. 440 da Súmula deste Tribunal, segundo o qual fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do delito. Na mesma esteira, são os enunciados n. 718 e 719 da Súmula do Supremo Tribunal Federal, os quais indicam: A opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposição de regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada. A imposição do regime de cumprimento mais severo do que a pena aplicada permitir exige motivação idônea. No caso, seguem os critérios utilizados pelo Tribunal a quo para manter o regime inicial fechado estabelecido na sentença (e-STJ fls. 20/21): Verifica-se que o MM. Juízo "a quo" impôs o regime prisional fechado, que merece ser mantido. Isso porque, a conduta perpetrada pelo réu é grave, pois a prática delitiva se deu em comparsaria com outro indivíduo, que contribuiu para o sucesso da empreitada criminosa. Com efeito, na aplicação do regime, não se deve somente se ater à quantidade de pena, mas também a todas as circunstâncias do fato cometido pelo infrator, sob pena de que aos crimes mais graves como o cometido sejam adotados os mesmos benefícios àqueles de menor lesividade. Ora, o regime prisional mais severo prevalece à luz das nuances do caso concreto, frisando-se que o crime em questão deixa em polvorosa a nossa comunidade e revela periculosidade intensa dos agentes, a justificar a aplicação mais gravosa da reprimenda a fim de que os réus repensem os seus atos e não sintam sensação de impunidade. Somente o regime fechado é capaz de cumprir às exigências preventivas e repressivas da pena. As circunstâncias específicas do caso crime cometido em comparsaria -, revelam do sentenciado considerável desprezo pelos bens jurídicos penalmente tutelados, tornando medida de rigor a fixação do regime inicial mais gravoso. Desse modo, diante do modus operandi, da inegável reprovabilidadeda conduta, do incontestável temor experimentado pela vítima e, ainda, como forma de concretizar princípios que norteiam a aplicação da pena, de rigor, a manutenção do regime fechado. Neste sentido, destaca-se decisão do Superior Tribunal de Justiça, que em caso análogo entendeu que as circunstâncias da ação criminosa, desde que fundamentadas, autorizam a aplicação de regime mais severo: .. Assim, não se constata qualquer ofensa aos enunciados nº 718 e 719, ambos do Colendo Supremo Tribunal Federal, ante os fatos imputados ao apelante, nos quais se revelam a gravidade e a reprovabilidade da conduta por ele perpetrada, bem expostas na decisão hostilizada. Portanto, escorreita a aplicação do regime prisional fechado para início do cumprimento da reprimenda corporal arbitrada ao apelante. Dessa forma, não obstante o paciente seja primário, com análise favorável das circunstâncias judiciais e tenha sido condenado a pena privativa de liberdade superior a 4 e que não excede 8 anos de reclusão, constata-se que o estabelecimento do regime fechado baseou-se em circunstâncias inerentes à prática do crime de roubo circunstanciado. Em consequência, o regime prisional estabelecido, mais severo do que a pena aplicadacomporta, foi fixado sem fundamentação idônea. Assim, na espécie, resulta cabível o regime semiaberto, a teor do disposto no art. 33, §§ 2º, "b", e 3º, do Código Penal. Em hipóteses análogas, decidiu esta Corte: PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. INADEQUAÇÃO.ROUBO DUPLAMENTE CIRCUNSTANCIADO. DOSIMETRIA. PENA-BASE ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. AÇÕES PENAIS EM CURSO. SUMULA 444/STJ. MOTIVAÇÃO INIDÔNEA. PERSONALIDADE DESVIRTUADA. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO VÁLIDA. PRESENÇA DE DUAS CAUSAS DE AUMENTO. MAJORAÇÃO ACIMA DO MÍNIMO LEGAL. OFENSA À SÚMULA 443/STJ. REGIME SEMIABERTO ADEQUADO.PENA INFERIOR A 8 ANOS. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS FAVORAVELMENTE VALORADAS. FLAGRANTE ILEGALIDADE EVIDENCIADA. WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. .. 6. As instâncias ordinárias, ao reconhecerem a incidência das majorantes do concurso de agentes e do emprego de arma de fogo, aplicaram a fração de 1/2 para majorar a pena tão somente em razão das duas causas de aumento reconhecidas, sem apoio em elementos concretos do delito. Forçoso destacar que o emprego de arma de fogo, por si só, não permite a imposição de fração de aumento superior a 1/3, nos termos da jurisprudência deste Tribunal. Ofensa ao disposto na Súmula 443 desta Corte. 7. Considerando que a reprimenda imposta não supera os 8 anos de reclusão, tendo a pena-base sido estabelecida no mínimo legal, sem que tenha sido declinado fundamento concreto a justificar a fixação do regime prisional mais gravoso, o paciente faz jus ao regime semiaberto de cumprimento de pena, nos termos do art. 33, § 2º, "b", e § 3º, do Código Penal. 8. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício, a fim de reduzir a reprimenda do paciente para 6 anos, 2 meses e 20 dias de reclusão, e estabelecer o regime prisional semiaberto para o início do cumprimento da pena.(HC 642.018/PE, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 9/3/2021, DJe 15/3/2021). HABEAS CORPUS. PENAL. ROUBO CIRCUNSTANCIADO. REGIME INICIAL DE CUMPRIMENTO DE PENA. CABÍVEL O SEMIABERTO. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS FAVORÁVEIS. RÉU PRIMÁRIO. GRAVIDADE ABSTRATA DO DELITO. GRAVE AMEAÇA E USO DE ARMA DE FOGO. SUPOSTO TRAUMA CAUSADO À VÍTIMA. AÇÕES PENAIS EM CURSO E CONDENAÇÕES SEM TRÂNSITO EM JULGADO. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. SÚMULAS N. 440/STJ, 718/STF E 719/STF. ADEQUAÇÃO AO ART.33, §§ 2.º E 3.º, C.C. O ART. 59, AMBOS DO CÓDIGO PENAL. ORDEM DE HABEAS CORPUS CONCEDIDA. 1. Fixada a pena-base no mínimo legal, dada a ausência de circunstâncias judiciais desfavoráveis, considerada a primariedade e a inexistência de fundamentação concreta para a fixação do regime diverso do legal, não é possível infligir regime prisional mais gravoso. Precedentes. Entendimento sedimentado nos verbetes sumulares n. 440/STJ, 718/STF e 719/STF. 2. Se não há o reconhecimento de circunstâncias judiciais negativas, é ilegítimo agravar o regime de cumprimento da pena sem motivação idônea, como observo que ocorreu no caso, na medida em que as instâncias ordinárias fundamentaram a aplicação do regime mais gravoso com base na gravidade abstrata do crime de roubo e no fato de ter sido praticado com grave ameaça e emprego de arma de fogo, elementos que já são inerentes ao delito. 3. A mera alegação, de forma genérica, de que o crime de roubo realizado por meio de artefato bélico potencializa o temor próprio do delito, impondo à vítima um trauma de difícil ou de impossível reparação, sem o apontamento de consequências nefastas concretas sofridas pelo ofendido, igualmente não merece ser considerada válida para a imposição de modo carcerário mais gravoso. .. 5. Ordem de habeas corpus concedida para, ratificando a liminar deferida, modificar o regime inicial de cumprimento de pena para o semiaberto(HC 548.143/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, Sexta Turma, julgado em 27/10/2020, DJe 12/11/2020). Ante o exposto, com base no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do STJ, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem, de ofício, para fixar o regime inicial semiaberto. Intimem-se.