HC 955685 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus como substitutivo de recurso, mas concedo a ordem de ofício porque houve ilegalidade flagrante: a pena definitiva foi fixada no mínimo e não foram reconhecidas circunstâncias negativas do art. 59 do CP, e o Tribunal de Apelação utilizou o elemento do tipo (grave ameaça) para justificar...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: KAUAN PEREIRA BENTO; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 October 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem, de ofício, para estabelecer o regime inicial semiaberto, mantidos os demais termos da condenação.
- Legal Topics
- Regime Inicial De Cumprimento De Pena, Fixação Da Pena Base, Roubo Circunstanciado, Súmula 440/stj, Súmula 231/stj, Súmulas 718 E 719/stf
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
KAUAN PEREIRA BENTO
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática
Legal Issues
- 1 ilegalidade flagrante na fixação do regime inicial fechado
- 2 uso de elemento do tipo penal (grave ameaça) para justificar regime mais gravoso
- 3 aplicabilidade da Súmula 440 do STJ
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus como substitutivo de recurso, mas concedo a ordem de ofício porque houve ilegalidade flagrante: a pena definitiva foi fixada no mínimo e não foram reconhecidas circunstâncias negativas do art. 59 do CP, e o Tribunal de Apelação utilizou o elemento do tipo (grave ameaça) para justificar regime inicial fechado, o que é inadequado à luz da Súmula 440 do STJ. Assim, impôs-se a fixação do regime inicial semiaberto nos termos do art. 33, §3º, e art. 59 do Código Penal.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus; concedo a ordem, de ofício, para estabelecer o regime inicial semiaberto, mantidos os demais termos da condenação.
Orders
- Comunique-se com urgência à autoridade coatora e ao juízo de primeiro grau.
- Traslade-se cópia do inteiro teor desta decisão para o HC 955813/SP.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, impetrado em favor de KAUAN PEREIRA BENTO, apontando como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO, em decorrência do julgamento da apelação criminal n. 1513486-36.2024.8.26.0228. Consta nos autos que o paciente foi inicialmente condenado pelo Juízo da 3ª Vara Criminal da Comarca de São Paulo, como incurso no artigo 157, § 2º, inciso VII, do Código Penal, à pena de 5 (cinco) anos e 4 (quatro) meses de reclusão, em regime inicial fechado, além de 13 (treze) dias-multa (fls. 10-12). A defesa apelou ao Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que negou provimento ao recurso, mantendo os demais termos da sentença (fls. 23-30). Na presente impetração, busca-se a concessão da ordem para estabelecer o regime inicial semiaberto. É o relatório. DECIDO. A controvérsia nos autos refere-se a uma possível ilegalidade flagrante, consubstanciada na fundamentação inidônea utilizada para a fixação do regime inicial mais gravoso. Contudo, a presente impetração investe contra acórdão, funcionando como substituto do recurso próprio, motivo pelo qual não deve ser conhecida. A 3ª Seção, no âmbito do HC 535.063-SP, de relatoria do Ministro Sebastião Reis Júnior, julgado em 10/06/2020, e o Supremo Tribunal Federal, no julgamento do AgRg no HC 180.365, de relatoria da Ministra Rosa Weber, julgado em 27/03/2020, consolidaram a orientação de que não cabe habeas corpus substitutivo ao recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Tendo em vista a possibilidade de concessão da ordem ofício, em observância § 2º do artigo 654 do Código de Processo Penal, transcrevo, para melhor análise, os fundamentos da decisão colegiada impugnada (fls. 23-30): .. A pena-base foi fixada no piso. Na segunda fase, presente a atenuante de menoridade relativa, porém sem reflexos na pena, em razão da súmula nº 231, do C. STJ. A seguir, devido à causa de aumento do emprego de arma branca, a sanção foi exasperada em 1/3, totalizando 5 anos e 4 meses e 13 dias-multa (mínimo legal). O regime fechado era necessário, independentemente do valor do bem e da primariedade, mas em decorrência do emprego de séria ameaça. A hipótese é de roubo circunstanciado, delito que traz marcante intranquilidade à sociedade. Destaque-se que, após a vítima impedir o réu de deixar o local na posse de uma caixa de chocolates, ele sacou uma faca e a ameaçou, ao dizer que se ela não o deixasse levar algo, ele a furaria. Diante da grave ameaça, a ofendida recuou e o réu se apoderou de 3 latas de balas, fugindo em seguida. Tais circunstâncias autorizam, sim, o encarceramento mais severo na fase inicial de cumprimento da pena corporal, não incidindo, portanto, à hipótese, a súmula nº 440, do C. STJ e as súmulas nº 718 e 719, do E. STF. .. De plano, verifico a presença de ilegalidade flagrante na aplicação do regime inicial fechado, uma vez que a pena definitiva foi fixada em 5 (cinco) anos e 4 (quatro) meses de reclusão, além de 13 (treze) dias-multa, sem o reconhecimento de nenhuma circunstância negativa do artigo 59 do Código Penal. O Tribunal de Apelação utilizou um elemento constitutivo do tipo penal a grave ameaça para justificar o regime inicial mais gravoso, o que é inadequado. No que tange ao regime inicial de cumprimento de pena, conforme disposto no artigo 33, § 3º, do Código Penal, sua fixação requer a análise tanto do quantitativo da pena quanto das circunstâncias judiciais previstas no artigo 59 do mesmo diploma legal. Sobre o tema, esta Corte Superior editou a Súmula n. 440, que assim dispõe: "Fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do delito." Dessa forma, para o estabelecimento de regime de cumprimento de pena mais gravoso, é necessária fundamentação específica, com base em dados concretos extraídos dos autos, o que não se verifica na hipótese dos autos. Estabeleço, portanto, o regime inicial semiaberto para o cumprimento de pena, nos termos do artigo 33, parágrafo terceiro, e artigo 59 do Código Penal. Assim, uma vez verificado que a matéria trazida no presente writ é objeto de jurisprudência consolidada no Superior Tribunal de Justiça, não há nenhum óbice à concessão da ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal. Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, 5ª Turma, DJ-e 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). Ante o exposto, não conheço do habeas corpus. Concedo a ordem, de ofício, em favor de KAUAN PEREIRA BENTO para estabelecer o regime inicial semiaberto, mantidos os demais termos da condenação. Comunique-se com urgência à autoridade coatora e ao juízo de primeiro grau. Traslade-se cópia do inteiro teor desta decisão para o HC 955813/SP. Dê-se ciência ao Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA