HC 1088297 - DECISAO
O regime inicial fechado foi imposto com base apenas na suposta hediondez/gravidade abstrata do crime, sem motivação concreta, em desconformidade com a Súmula 440/STJ e com os parâmetros do art. 33, §§ 2º e 3º do Código Penal; sendo a paciente primária, com circunstâncias judiciais favoráveis e pena de 8 anos,...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: DÉBORA CARINA CABRAL; Órgão Julgador De Origem: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 22 April 2026
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática (mérito)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem ex officio para fixar o regime inicial semiaberto, mantidos os demais termos da condenação.
- Legal Topics
- Regime Inicial De Cumprimento De Pena, Fundamentação Concreta Para Regime Mais Gravoso, Tráfico De Entorpecentes, Súmula 440/stj, Art. 33, § 2º, 'b', Do Código Penal
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
DÉBORA CARINA CABRAL
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Órgão Julgador De Origem
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática (mérito)
Legal Issues
- 1 fixação do regime inicial mais gravoso com base apenas na gravidade abstrata do delito
- 2 aplicabilidade da Súmula 440/STJ
- 3 incidência do art. 33, §§ 2º e 3º, do Código Penal
Ratio Decidendi
O regime inicial fechado foi imposto com base apenas na suposta hediondez/gravidade abstrata do crime, sem motivação concreta, em desconformidade com a Súmula 440/STJ e com os parâmetros do art. 33, §§ 2º e 3º do Código Penal; sendo a paciente primária, com circunstâncias judiciais favoráveis e pena de 8 anos, impõe-se o regime inicial semiaberto.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem ex officio para fixar o regime inicial semiaberto, mantidos os demais termos da condenação.
Orders
- Não conheço do habeas corpus.
- Concedo a ordem ex officio para fixar o regime inicial semiaberto, mantidos os demais termos da condenação.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido liminar, impetrado em favor de DÉBORA CARINA CABRAL contra acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (Apelação Criminal n. 1500036-78.2019.8.26.0623). Extrai-se dos autos que a paciente foi condenada, em primeiro grau, pela prática dos crimes previstos nos arts. 33, caput, e 35, caput, ambos da Lei n. 11.343/2006 (concurso material), à pena total de 8 anos de reclusão, em regime inicial fechado, e ao pagamento de 1.200 dias-multa (e-STJ fls. 27/36). A defesa interpôs apelação, tendo o Tribunal de origem negado provimento ao recurso defensivo (e-STJ fls. 53/75). No presente writ, a impetrante alega que o regime inicial fechado foi fixado com base apenas na gravidade abstrata do delito, apesar de ser a paciente primária, sem antecedentes e de ter sido a pena-base estabelecida no mínimo legal. Aduz a incidência do art. 33, § 2º, "b", do Código Penal e dos enunciados n. 440/STJ e n. 718 e n. 719/STF, sustentando ausência de fundamentação concreta para o regime mais gravoso (e-STJ fls. 2/8). Requer, ao final, a fixação do regime inicial semiaberto para o cumprimento da pena, inclusive liminarmente. É o relatório. Decido. Inicialmente, o Superior Tribunal de Justiça, seguindo o entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, como forma de racionalizar o emprego do habeas corpus e prestigiar o sistema recursal, não admite a sua impetração em substituição ao recurso próprio. Cumpre analisar, contudo, em cada caso, a existência de ameaça ou coação à liberdade de locomoção do paciente, em razão de manifesta ilegalidade, abuso de poder ou teratologia na decisão impugnada, a ensejar a concessão da ordem de ofício. Na espécie, embora a impetrante não tenha adotado a via processual adequada, para que não haja prejuízo à defesa da paciente, passo à análise da pretensão formulada na inicial, a fim de verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. Acerca do rito a ser adotado para o julgamento desta impetração, as disposições previstas nos arts. 64, III, e 202, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforme com súmula ou com a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores ou a contraria (AgRg no HC 513.993/RJ, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/06/2019, DJe 01/7/2019; AgRg no HC 475.293/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 03/12/2018; AgRg no HC 499.838/SP, Relator Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/04/2019, DJe 22/04/2019; AgRg no HC 426.703/SP, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018 e AgRg no RHC 37.622/RN, Relatora Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo, previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n.45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC n. 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido (EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 06/08/2019, DJe 13/08/2019). Possível, assim, a análise do mérito da impetração, já nesta oportunidade. Busca-se, como relatado, a fixação do regime inicial semiaberto. Como é cediço, a jurisprudência desta Corte firmou-se no sentido de que é necessária, para a fixação de regime mais gravoso, a apresentação de motivação concreta, fundada nas circunstâncias judiciais previstas no art. 59 do Código Penal, porquanto é contraditório o estabelecimento de pena-base no mínimo e de regime mais severo, com base em circunstâncias não consideradas inicialmente. Sobre o tema, esta Corte Superior editou a Súmula n. 440, que dispõe: Fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do delito. Na mesma esteira, são os enunciados n. 718 e 719 da Súmula do Supremo Tribunal Federal, os quais indicam: A opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposição de regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada. A imposição do regime de cumprimento mais severo do que a pena aplicada permitir exige motivação idônea. Ademais, como é cediço, em se tratando de tráfico de entorpecentes, desde o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, do HC n. 111.840/ES, inexiste a obrigatoriedade do regime inicial fechado para os condenados por crimes hediondos e equiparados, determinando, também nesses casos, a observância do disposto no art. 33, §§ 2º e 3º, c/c o art. 59, do Código Penal. No caso, constata-se que o regime inicial fechado, mais gravoso que a pena de 8 anos de reclusão comporta, foi estabelecido na forma seguinte (e-STJ, fl. 35): .. O tráfico privilegiado não ostenta natureza hedionda. Assim sendo, para a corré MARIA GABRIELA fica fixado o regime inicial aberto para cumprimento da pena privativa de liberdade. Em relação às corrés SANDRA e DÉBORA, dado o concurso material, além do fato de o tráfico ser delito equiparado a hediondo, a pena privativa de liberdade deverá ser cumprida em regime inicial fechado." ( ) .. O Tribunal de origem, por sua vez, ao julgar a apelação, manteve o regime imposto às corrés Sandra e Débora, consignando (e-STJ fls. 62/63): .. Uma vez caracterizado o crime de associação para fins de tráfico de drogas, faz-se tecnicamente inviável o deferimento do redutor legal específico disposto no parágrafo 4º do artigo 33 da Lei 11.343/2006, eis que as duas agentes, por consequência, se qualificam antinomicamente em situação subjetiva refratária a esse instituto legal e o regime de cumprimento só pode ser o fechado. Assim, aliás, vem dispondo a jurisprudência sempre unânime das duas turmas de competência criminal do Superior Tribunal de Justiça (5ª T HC 259.510/RJ Rel. Gurgel de Faria j. 23.06.2015; 6ª T AgRg no AREsp 689.508/SP Rel. Rogério Schietti Cruz j. 23.06.2015; 6ª T HC 235.469/SP Rel. Maria Thereza de Assis Moura j. 03.04.2014; 5ª T HC 260.330/SP Rel. Jorge Mussi j. 25.02.2014; 5ª T AgRg no AREsp 303.213/SP Rel. Marco Aurélio Bellizze j. 08.10.2013; 5ª T HC 271.164/SP Rel. Campos Marques j. 20.08.2013; 5ª T HC 229.499/RJ Rel. Laurita Vaz j. 15.08.2013; 5ª T HC 254.177/SP Rel. Jorge Mussi j. 25.06.2013)." .. Com efeito, ressai da transcrição supra, que o regime inicial fechado baseou-se apenas na suposta hediondez do crime de tráfico, em manifesta inobservância aos parâmetros adotadas pela legislação e jurisprudência pátrias. Assim, na esteira do disposto no art. 33, §§ 2º e 3º, do Código Penal, entendo que a paciente faz jus ao regime intermediário, na medida em que é primária, as circunstâncias judiciais lhe são favoráveis e a condenação não excede 8 anos de reclusão. Nesse sentido, confira-se: PENAL. HABEAS CORPUS. ESTUPRO DE VULNERÁVEL. CONTINUIDADE DELITIVA. PLEITO DE ABSOLVIÇÃO EM RELAÇÃO AO PRIMEIRO DELITO. ART. 20 § 1º, DO CP. VÍTIMA QUE AFIRMOU POSSUIR 15 ANOS. CIRCUNSTÂNCIA RECONHECIDA PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS. ERRO DE TIPO CONFIGURADO. SEGUNDA CONJUNÇÃO CARNAL PRATICADA DEPOIS DE A VÍTIMA REVELAR TER 13 ANOS DE IDADE. CONDENAÇÃO PELO DELITO DO ART. 217-A DO CÓDIGO PENAL. REGIME PRISIONAL SEMIABERTO. PENA DE 8 ANOS DE RECLUSÃO. RÉU PRIMÁRIO. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS FAVORÁVEIS. INTELIGÊNCIA DO ART. 33, § 2º, "b", e § 3º, DO CÓDIGO PENAL. ORDEM CONCEDIDA. 1. O crime de estupro de incapaz contempla duas condutas distintas, quais sejam, ter conjunção carnal com menor de 14 anos e praticar outro ato libidinoso com menor de 14 anos, independentemente do emprego de violência ou grave ameaça, dada a vulnerabilidade da vítima, sendo que como ato libidinoso deve ser entendido qualquer ato diverso da conjunção carnal revestido de conotação sexual. Ademais, o consentimento da vítima, sua eventual experiência sexual anterior ou a existência de relacionamento amoroso entre o agente e a vítima não afastam a ocorrência do crime. 2. O erro de tipo, previsto no art. 20, § 1º, do Código Penal, isenta de pena o agente que "por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima". O erro sobre elemento constitutivo do crime, portanto, exclui o dolo do agente. A idade da vítima é elemento constitutivo do crime de estupro de vulnerável, uma vez que, se ela contar com 14 anos ou mais, deve ser provada a prática de violência ou grave amaça, a fim de se configurar o delito descrito no art. 213 do Código Penal. 3. Hipótese na qual as instâncias ordinárias reconheceram que a vítima afirmou ao paciente possuir 15 anos, tendo contado sua verdadeira idade somente depois de praticar, na primeira oportunidade, conjunção carnal com o réu. 4. Resta configurado erro de tipo em relação ao primeiro estupro, pois o paciente, embasado na afirmação da própria vítima e na idade colocada por ela em seu perfil na rede social Facebook, desconhecia o fato de estar se relacionando com menor de 14 anos, o que afasta o dolo de sua conduta. 5. Correta a condenação do paciente pelo segundo estupro, pois, mesmo sabendo tratar-se de menor com 13 anos de idade, procurou a vítima e com ela manteve novamente relação sexual. 6. De acordo com a Súmula 440/STJ, "fixada a pena-base no mínimo legal, é vedado o estabelecimento de regime prisional mais gravoso do que o cabível em razão da sanção imposta, com base apenas na gravidade abstrata do delito". De igual modo, as Súmulas 718 e 719/STF, prelecionam, respectivamente, que "a opinião do julgador sobre a gravidade em abstrato do crime não constitui motivação idônea para a imposição de regime mais severo do que o permitido segundo a pena aplicada" e "a imposição do regime de cumprimento mais severo do que a pena aplicada permitir exige motivação idônea". 7. Tratando-se de réu primário, ao qual foi imposta pena de 8 anos de reclusão e cujas circunstâncias judiciais foram favoravelmente valoradas, sem que nada de concreto tenha sido consignado de modo a justificar o recrudescimento do meio prisional, por força do disposto no art. 33, § 2º, "b", e § 3º, do Código Penal, deve a reprimenda ser cumprida em regime semiaberto. 8. Ordem concedida, com o fim de condenar o paciente pela prática de um delito de estupro de vulnerável, fixar sua pena em 8 anos de reclusão e estabelecer o regime prisional semiaberto para o início do desconto da reprimenda. (HC n. 628.870/PR, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 15/12/2020, DJe de 18/12/2020.) Ante o exposto, com fulcro no art. 34, XX, do RISTJ, não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem ex officio para fixar o regime inicial semiaberto, mantidos os demais termos da condenação. Intimem-se EMENTA