HC 917747 - DECISAO
Aplicando o entendimento consolidado no Tema Repetitivo n. 1120 (REsp n. 1.953.607/SC), entendeu-se que, em razão da situação excepcional da pandemia de COVID-19 e da teoria da derrotabilidade da norma, o período em que foi suspensa a obrigação de comparecimento em juízo deve ser computado como pena efetivamente...
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- Parties
- Paciente: CLAUDIONOR AVELINO; Tribunal De Origem / Órgão Prolator Do Acórdão Recorrido: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO; Ministério Público Federal Opinou Pelo Provimento: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 07 August 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Ordem Concedida Pelo Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Ordem concedida para considerar o período de suspensão da apresentação em juízo durante a pandemia como pena efetivamente cumprida.
- Legal Topics
- Remição Da Pena, Suspensão De Comparecimento Em Juízo Durante a Pandemia, Cômputo De Pena Cumprida, Derrotabilidade Da Norma, Princípio Da Individualização Da Pena
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Parties
CLAUDIONOR AVELINO
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Tribunal De Origem / Órgão Prolator Do Acórdão Recorrido
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Ministério Público Federal Opinou Pelo Provimento
Procedural Posture
Habeas Corpus Substitutivo De Recurso Próprio / Ordem Concedida Pelo Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Se o período de suspensão do dever de comparecimento em juízo durante a pandemia da COVID-19 deve ser computado como tempo de pena efetivamente cumprido
Ratio Decidendi
Aplicando o entendimento consolidado no Tema Repetitivo n. 1120 (REsp n. 1.953.607/SC), entendeu-se que, em razão da situação excepcional da pandemia de COVID-19 e da teoria da derrotabilidade da norma, o período em que foi suspensa a obrigação de comparecimento em juízo deve ser computado como pena efetivamente cumprida para aqueles que tiveram a apresentação suspensa, razão pela qual a ordem foi concedida para considerar referido lapso temporal como tempo de pena cumprida.
Court Disposition
Ordem concedida para considerar o período de suspensão da apresentação em juízo durante a pandemia como pena efetivamente cumprida.
Orders
- Considerar o lapso temporal em que foi suspensa a apresentação do paciente em juízo como pena efetivamente cumprida.
- Publique-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus substitutivo de recurso próprio impetrado em favor de CLAUDIONOR AVELINO contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO no julgamento do Agravo de Exec ução Penal n. 0003121-73.2024.8.26.0041. Consta dos autos que o Juiz das Execuções Criminais indeferiu o pedido de retificação na folha de cálculos do apenado, ora paciente. Irresignada, a defesa interpôs agravo no Tribunal de origem, que negou provimento ao recurso, em julgamento assim resumido (fl. 117): "AGRAVO - período de suspensão de cumprimento de condições do regime aberto em razão da Pandemia - não considerado como pena efetivamente cumprida. Agravo desprovido." Em suas razões, a Defesa busca o reconhecimento, como pena cumprida, do período de suspensão do dever de comparecimento em juízo, durante o período da pandemia da Covid-19. Em síntese, assevera que "a dispensa dos comparecimentos em juízo se deu por decisão do próprio Tribunal de Justiça, não podendo o sentenciado que cumpria pena em meio aberto ter adiado o termino do cumprimento da reprimenda por fato ao qual não deu causa" (fl. 6). Nestes termos, requer "a concessão da ordem para que se determine que o período durante o qual os comparecimentos em juízo estiveram suspensos seja computado no cálculo como tempo de pena cumprida" (fl. 6). O Ministério Público Federal - MPF opinou pela concessão da ordem (fls. 23 0/233). É o relatório. Decido. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração sequer deveria ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal e do próprio Superior Tribunal de Justiça. Contudo, considerando as alegações expostas na inicial, razoável o processamento do feito para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal. Na hipótese, o voto condutor no acórdão recorrido negou provimento ao agravo em execução defensivo nos seguintes termos (fl. 119): "O sentenciado cumpriu as condições do regime aberto a partir de 16/07/2019 até o último comparecimento em 08/01/2020, antesda suspensão pela pandemia. Pois bem. Diante da gravidade da pandemia da COVID-19, não restam dúvidas acerca da necessidade de, àquele tempo, adotar-se providências de natureza preventiva, mormente em se tratandodo comparecimento em juízo, já que, via de regra, encontrava-sefechado em decorrência da situação de isolamento. É sabido que foram adotadas no âmbito excutivo,legislativo e judiciário, diversas medidas para evitar a disseminação docoronavírus. As medidas abrangeram a população de maneiraindiscriminada e geral, que se viu impedida da livre circulação e afastadade seus empregos e familiares, inclusive, com adiamento de compromissos e afazeres. No entanto, por ausência de previsão legal, referida pena não pode ser dada como efetivamente cumprida. Assim, admitir a pretensão veiculada neste recurso seria o mesmo que conceder verdadeiro "perdão" supralegal, violando o princípio da isonomia." Como se verifica, a conclusão do Tribunal de origem encontra-se em dissonância com a tese firmada pela Terceira Seção desta Corte Superior, ao julgar o Tema Repetitivo n. 1120, no sentido de ser considerada "como cumprida a obrigação de comparecimento em juízo suspensa em virtude da pandemia, considerando "desproporcional o prolongamento da pena sem a participação do apenado em tal retardamento" " (REsp n. 1.953.607/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Terceira Seção, julgado em 14/9/2022, DJe de 20/9/2022). Segue a ementa do precedente (grifos nossos): EXECUÇÃO PENAL. RECURSO ESPECIAL SUBMETIDO AO RITO DOS RECURSOS REPETITIVOS. REMIÇÃO DA PENA. ART. 126, §4º, DA LEP. TRABALHO E ESTUDO. SUSPENSÃO DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19. PRINCÍPIO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. REMIÇÃO. PROIBIÇÃO DA REMIÇÃO FICTA. SITUAÇÃO EXCEPCIONALÍSSIMA. DERROTABILIDADE DA NORMA JURÍDICA. ART. 3º DA LEP. PRESERVAÇÃO DOS DIREITOS. PRINCÍPIOS DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, DA ISONOMIA E DA FRATERNIDADE. DIFERENCIAÇÃO NECESSÁRIA. PRECEDENTE DA 6ª TURMA. PERÍODO DE SUSPENSÃO. COMPARECIMENTO EM JUÍZO. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. O princípio da individualização da pena, previsto no artigo 5º, XLVI da Constituição da República, diz-nos que a pena deve sempre ser individualizada para cada infrator. Doutrina e jurisprudência explicam que a individualização ocorre em três etapas: (a) legislativa; (b) judicial; e (c) executória. 2. Discorrendo sobre a terceira etapa da individualização da pena, Guilherme Nucci assevera que "a sentença condenatória não é estática, mas dinâmica. Um título executivo judicial, na órbita penal, é mutável." (NUCCI, Guilherme de Souza. Curso de Execução Penal. 5ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022, p. 18). 3. A remição é o resgate (ou abatimento) de parte da pena pelo sentenciado por meio do trabalho ou do estudo na proporção estabelecida em lei (art. 126 da Lei 7.210/84, Lei de Execução Penal - LEP). 4. Conforme jurisprudência assente nesta Corte Superior, a ausência de previsão legal específica impossibilita a concessão de remição da pena pelo simples fato de o Estado não propiciar meios necessários para o labor ou a educação de todos os custodiados. Entende-se, portanto, que a omissão estatal não pode implicar remição ficta da pena, haja vista a ratio do referido benefício, que é encurtar o tempo de pena mediante a efetiva dedicação do preso a atividades lícitas e favoráveis à sua reinserção social e ao seu progresso educativo. 5. Nada obstante tal entendimento, ele não se aplica à hipótese excepcionalíssima da pandemia de covid-19 por várias razões (distinguishing). A jurisprudência mencionada foi construída para um estado normal das coisas, não para uma pandemia com a dimensão que se está a observar com o vírus da covid-19. Exemplifique-se a particularidade do caso com as seguintes medidas verificadas: (a) estado de emergência reconhecido por emenda constitucional (EC 123/22); (b) auxílios emergenciais concedidos à população necessitada; (c) trabalho remoto tanto no setor público quanto no setor privado à maioria dos trabalhadores por determinado período; e (d) recolhimento familiar compulsório decretado pelos governantes. Esse contexto geral demonstra que os instrumentos ordinariamente utilizados não se mostravam suficientes e adequados para a extraordinariedade dos acontecimentos. 6. Nas palavras de Uadi Lammêgo Bulos, a "Derrotabilidade é o ato pelo qual uma norma jurídica deixa de ser aplicada, mesmo presentes todas as condições de sua aplicabilidade, de modo a prevalecer a justiça material no caso concreto" (BULOS, Uadi Lammêgo. Curso de direito constitucional, 13ª ed. São Paulo: Saraiva, 2020, p. 133). Nessa linha, negar aos presos que já trabalhavam ou estudavam antes da pandemia de covid-19 o direito de continuar a remitir sua pena se revela medida injusta, pois: (a) desconsidera o seu pertencimento à sociedade em geral, que padeceu, mas também se viu compensada com algumas medidas jurídicas favoráveis, o que afrontaria o princípio da individualização da pena (art. 5º, XLVI, da CR), da isonomia (art. 5º, caput, da CR) e da fraternidade (art. 1º, II e III, 3º, I e III, da CR); (b) exige que o legislador tivesse previsto a pandemia como forma de continuar a remição, o que é desnecessário ante o instituto da derrotabilidade da lei. 7. Nessa senda, o art. 3º da Lei 7.210/84 estabelece que, "ao condenado e ao internado serão assegurados todos os direitos não atingidos pela sentença ou pela lei". Em outros termos, ressalvadas as restrições decorrentes da sentença penal e os efeitos da condenação, o condenado mantém todos os direitos que lhe assistiam antes do trânsito em julgado da decisão condenatória. 8. Com efeito, o princípio da dignidade da pessoa humana conjugado com os princípios da isonomia e da fraternidade (este último tão bem trabalhado pelo em. Min. Reynaldo Soares da Fonseca) não permitem negar aos indivíduos que tiveram seus trabalhos ou estudos interrompidos pela superveniência da pandemia de covid-19 o direito de remitir parte da sua pena tão somente por estarem privados de liberdade. Não se observa nenhum discrímen legítimo que autorize negar àqueles presos que já trabalhavam ou estudavam o direito de remitir a pena durante as medidas sanitárias restritivas. 9. Porém, deve-se realizar um exame, caso a caso, diferenciado-se duas situações: (a) de um lado, os presos trabalhadores e estudantes que se viram impedidos de realizarem suas atividades tão somente pela superveniência do estado pandêmico e, sendo o caso, reconhecer-lhes o direito à remição da pena; (b) de outro, aquelas pessoas custodiadas que não trabalhavam nem estudavam, às quais não se deve estender a benesse. Note-se, assim, que não se está a conferir uma espécie de remição ficta pura e simplesmente ante a impossibilidade material de trabalhar ou estudar. O benefício não deve ser direcionado a todo e qualquer preso que não pôde trabalhar ou estudar durante a pandemia, mas tão somente àqueles que, já estavam trabalhando ou estudando e, em razão da Covid, viram-se impossibilitados de continuar com suas atividades. 10. Ainda que não sobre idêntica temática, mas também afeto ao campo da execução penal, a Sexta Turma em precedente recente reconheceu como cumprida a obrigação de comparecimento em juízo suspensa em virtude da pandemia, considerando "desproporcional o prolongamento da pena sem a participação do apenado em tal retardamento.". 11. Tese: Nada obstante a interpretação restritiva que deve ser conferida ao art. 126, §4º, da LEP, os princípios da individualização da pena, da dignidade da pessoa humana, da isonomia e da fraternidade, ao lado da teoria da derrotabilidade da norma e da situação excepcionalíssima da pandemia de covid-19, impõem o cômputo do período de restrições sanitárias como de efetivo estudo ou trabalho em favor dos presos que já estavam trabalhando ou estudando e se viram impossibilitados de continuar seus afazeres unicamente em razão do estado pandêmico. 12. Recurso especial provido. (REsp n. 1.953.607/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Terceira Seção, julgado em 14/9/2022, DJe de 20/9/2022.) Portanto, merece reforma o acórdão recorrido, para fins de considerar como cumprida a obrigação de comparecimento em juízo, então suspensa em virtude da pandemia. Ante o exposto, nos termos do art. 34, XX, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço do presente habeas corpus, mas concedo a ordem, de ofício, para considerar o lapso temporal em que foi suspensa a apresentação do paciente em juízo, como pena efetivamente cumprida. Publique-se. Intimem-se. EMENTA