HC 1005756 - DECISAO
Constatada flagrante ilegalidade na negativa de remição, a Corte concedeu liminar para determinar a aplicação do benefício da remição pela aprovação integral no ENEM (ensino médio), por reconhecer orientação pacificada na Terceira Seção do STJ e na Resolução n. 391/2021 do CNJ de que a aprovação no ENEM/ENCCEJA por...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: GUILHERME VASCONCELOS SCHEEL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 29 May 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Liminar (ordem Concedida)
- Outcome
- liminar concedida
- Legal Topics
- Remição Da Pena, Aprovação No ENEM, Estudo Por Conta Própria, Pedido De Liminar
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
GUILHERME VASCONCELOS SCHEEL
Paciente
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Liminar (ordem Concedida)
Legal Issues
- 1 cabimento de remição por aprovação no ENEM quando o apenado concluiu o ensino médio antes do início da execução da pena
- 2 possibilidade de concessão liminar em habeas corpus diante de flagrante ilegalidade
- 3 incidência do acréscimo de 1/3 previsto no art. 126, § 5º, da LEP
Ratio Decidendi
Constatada flagrante ilegalidade na negativa de remição, a Corte concedeu liminar para determinar a aplicação do benefício da remição pela aprovação integral no ENEM (ensino médio), por reconhecer orientação pacificada na Terceira Seção do STJ e na Resolução n. 391/2021 do CNJ de que a aprovação no ENEM/ENCCEJA por estudos por conta própria dá direito à remição mesmo que o ensino médio tenha sido concluído antes do início da execução da pena.
Court Disposition
liminar concedida
Orders
- Determinar ao Juízo das Execuções aplique o benefício da remição pela aprovação integral no ENEM - ensino médio.
- Comunique-se a presente decisão, com urgência, ao Juízo das Execuções Criminais e ao Tribunal coator.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, com pedido de liminar, em favor de GUILHERME VASCONCELOS SCHEEL, interposto contra o acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SANTA CATARINA, no julgamento do Agravo em Execução n. 8000376-06.205.8.24.0008. Narra o impetrante que o Juízo da Execução Criminal indeferiu pedido de remição do paciente pela aprovação no ENEM/2024 (Exame Nacional do Ensino Médio), considerando que o apenado concluiu o Ensino Médio antes do início do cumprimento da pena. Irresignada, a Defesa interpôs recurso em agravo em execução, tendo o Tribunal de origem negado provimento ao recurso. No presente writ, sustenta aplicação do art. 126 da LEP e da Resolução n. 391/2021, do Conselho Nacional de Justiça. Aduz que o paciente atingiu médias superiores a 500 (quinhentos) pontos em cada área de estudo, tendo, assim, direito de receber a devida remição. Requer, liminarmente e no mérito, que seja reconhecido o direito da remissão postulada. É o relatório. DECIDO. Esta Corte - HC n. 535.063/SP, Terceira Seção, relator Ministro Sebastião Reis Junior, julgado em 10/6/2020, DJe de 25/8/2020 - e o Supremo Tribunal Federal - AgRg no HC n. 180.365/PB, Primeira Turma, relatora Ministra Rosa Weber, julgado em 27/03/2020, DJe de 02/04/2020, e AgRg no HC n. 147.210/SP, Segunda Turma, relator Ministro Edson Fachin, julgado em 30/10/2018, DJe de 20/02/2020 - pacificaram orientação no sentido de que não cabe habeas corpus substitutivo do recurso legalmente previsto para a hipótese, impondo-se o não conhecimento da impetração, salvo quando constatada a existência de flagrante ilegalidade no ato judicial impugnado. Ademais, consoante entendimento desta Corte Superior, o dispositivo regimental que prevê abertura de vista ao Ministério Público Federal antes do julgamento de mérito do habeas corpus impetrado nesta Corte (arts. 64, III, e 202, RISTJ) não retira do relator do feito a faculdade de decidir liminarmente a pretensão que se conforma com súmula ou jurisprudência dominante no Superior Tribunal de Justiça ou a confronta (AgRg no HC 530.261/SP, Rel. Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 24/09/2019). Assim, passo à análise das razões da impetração, de forma a verificar a ocorrência de flagrante ilegalidade a justificar a concessão do habeas corpus, de ofício. O Juízo de Execução, ao indeferir o pedido de remissão, assim se manifestou (fl. 8): Cuida-se, em síntese, de pedido de remição pela realização do Exame Nacional do Ensino Médio (sq. 158.1). Da análise da sq. 158.2, verifica-se que o reeducando logrou aprovação em todas as 5 áreas de conhecimento do ENEM/2024. No entanto, da sq. 75.3, verifica-se que o reeducando possui o ensino médio concluído anteriormente, não havendo como deferir a remição com este fundamento, haja vista que não houve esforço sinalizador de ressocialização durante o cumprimento da pena, mas apenas o aproveitamento do conhecimento adquirido pelo apenado em momento anterior ao da reclusão no sistema prisional, do qual agora pretende se beneficiar, sob risco de bis in idem. O Tribunal de origem negou provimento ao recurso da Defesa, assim consignando (fls. 14/15): O entendimento aplicado pelo Juízo a quo está de acordo com o firmado nesta Corte Estadual de Justiça, no sentido que é inviável a concessão de remição por estudo em razão da aprovação do apenado no ENEM quando concluído o ensino médio antes mesmo do início do cumprimento da reprimenda, uma vez que o benefício decorre do reconhecimento dos esforços do reeducando durante o resgate da pena, conforme este Tribunal de Justiça já decidiu: (..) E, considerando que o ora agravante concluiu o ensino médio anteriormente ao início de cumprimento da reprimenda (Seq. 75.3 dos autos n. 8000099-58.2023.8.24.0008 - SEEU), não sendo a aprovação decorrente do aproveitamento dos estudos durante seus resgate, inviável a pretensão. Ante o exposto, voto no sentido de conhecer do recurso e negar-lhe provimento. O entendimento das instâncias ordinárias é o de que o paciente não poderia ser beneficiado pela remição pela aprovação no ENEM, já que teria concluído o ensino médio antes de iniciar o cumprimento de pena. Por sua vez, ambas as Turmas da Terceira Seção deste Tribunal firmaram posicionamento no sentido de que a conclusão do ensino médio ou superior antes do início da execução da pena possibilita a remição por estudo, pois a aprovação no ENCCEJA ou ENEM demanda estudos por conta própria mesmo para aqueles que, fora do ambiente carcerário, já possuem o referido grau de ensino (EREsp n. 1.979.591/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Terceira Seção, julgado em 8/11/2023, DJe de 13/11/2023). Desse modo, é devido o aproveitamento dos estudos realizados durante a execução da pena com o objetivo específico de lograr aprovação nessa exigente avaliação nacional, nos termos do art. 126 da Lei de Execução Penal e da Resolução n. 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça. A propósito: EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. REMIÇÃO DA PENA PELO ESTUDO POR CONTA PRÓPRIA E CONCLUSÃO DO ENSINO FUNDAMENTAL PELO ENCCEJA -POSSIBILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Como resultado de uma interpretação analógica in bonam partem da norma inserta no art. 126 da LEP, segundo jurisprudência desta Corte, é possível a hipótese de abreviação da reprimenda em razão de atividades que não estejam expressas no texto legal. 2. A Resolução CNJ n. 391/2021 prevê que faz jus à remição o apenado que, embora não esteja vinculado a atividades regulares de ensino, realiza estudos por conta própria e obtém aprovação nos exames nacionais que certificam a conclusão do ensino fundamental/médio. 3. A interpretação extensiva do art. 126, § 1º, I, da LEP aliada ao disposto na Resolução CNJ n. 391/2021, orientação deduzida na decisão agravada e que prestigia o estudo como método factível para o alcance da reintegração social, vem sendo adotada em decisões de ambas as Turmas que compõem a Terceira Seção desta Corte Superior de Justiça. 4. A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o EREsp 1.979.591/SP, relatado pelo Ministro Messod Azulay Neto e publicado em 13/11/2023, decidiu por unanimidade acompanhar o entendimento da Quinta Turma em que ficou estabelecido que a remição de pena pode ser concedida pela aprovação no ENEM, mesmo se o reeducando já possuía o diploma de ensino médio antes de iniciar o cumprimento da pena. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no REsp n. 2.107.364/MG, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 8/4/2024, DJe de 12/4/2024, grifamos) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO. APROVAÇÃO ENEM. CONCLUSÃO DO ENSINO MÉDIO ANTES DO ENCARCERAMENTO. ACRÉSCIMO DE 1/3 AFASTADO. 1. "É cabível a remição pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM ainda que o Apenado já tenha concluído o ensino médio anteriormente, pois a aprovação no exame demanda estudos por conta própria mesmo para aqueles que, fora do ambiente carcerário, já possuem o referido grau de ensino" (REsp n. 1854391/DF, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 22/9/2020, DJe 6/10/2020), ressalvado o acréscimo de 1/3 (um terço) com fundamento no art. 126, § 5º, da Lei de Execução Penal. 2. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no HC n. 768.530/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 6/3/2023, DJe de 9/3/2023, grifamos) Para a aprovação no ENEM, é necessário atingir o mínimo de 450 (quatrocentos e cinquenta) pontos em cada área de conhecimento e 500 (quinhentos) pontos na prova de redação, consoante a Portaria MEC-INEP n. 179, de 28/4/2014 (DOU de 29/4/2014, n. 80, Seção 1, pág. 40). Segundo a Lei n. 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, art. 24, I), a carga horária total do ensino médio corresponde a 2.400 (duas mil e quatrocentos) horas. A base de cálculo para o caso de o apenado não frequentar curso regular, mas estudar por conta própria, é de 50% (cinquenta por cento), ou seja, 1.200 (mil e duzentas) horas, para o ensino médio, conforme art. 1º, IV, da Recomendação n. 44/2013, do Conselho Nacional de Justiça. A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, por ocasião do julgamento do HC n. 602.425/SC, decidiu que a base de cálculo da carga horária, a fim de dar aplicação ao disposto no art. 126 da Lei de Execução Penal (LEP) - no que se refere aos apenados que realizam estudos por conta própria -, conforme a Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça, seria de 1.200 (mil e duzentas) horas para o ensino médio e de 1.600 (mil e seiscentas) horas para o ensino fundamental, ou 100 (cem) e 133 (cento e trinta e três) dias, respectivamente (HC n. 602.425/SC, Terceira Seção, julgado em 10/03/2021, DJe de 06/04/2021). De acordo com os autos, o paciente foi aprovado em todas as áreas de conhecimento do ENEM/ensino médio (fls. 10), o que corresponde a 100 (cem) dias de remição. Entretanto, o fato de o apenado já haver concluído o ensino médio antes do início da execução da pena, impede o acréscimo da fração de 1/3 (um terço) do tempo a remir (art. 126, § 5º, da LEP). Confira-se: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DE PENA PELO ESTUDO. APROVAÇÃO NO ENCCEJA NÍVEL MÉDIO. CONCLUSÃO DO ENSINO MÉDIO ANTES DO INÍCIO DO CUMPRIMENTO DA PENA. IRRELEVÂNCIA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A possibilidade de remição de pena pelo estudo individual, demonstrado pelo aproveitamento mínimo nas provas do ENCCEJA - Nível Médio ou do ENEM, nas hipóteses em que o recuperando já ingressou no sistema penitenciário com o ensino médio completo ou o concluiu por meio de aulas regulares oferecidas no sistema de educação de jovens e adultos, apresenta divergências na jurisprudência desta Corte Superior. 2. Por ocasião do julgamento do AgRg no HC n. 786.844/SP, a Quinta Turma desta Corte Superior, em sessão de julgamento realizada em 8/8/2023, decantou as controvérsias e uniformizou o entendimento sobre o tema. 3. Prevaleceu no colegiado o voto do Ministro Reynaldo Soares da Fonseca no sentido de que a aprovação no ENEM ou no ENCCEJA - Nível Médio implica em remição da pena também àqueles recuperandos que já concluíram por qualquer outra forma o correspondente nível de ensino, sem o acréscimo de 1/3 pela conclusão de grau. 4. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 811464/DF, rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, DJe de 06/03/2024, grifamos). Assim, ficou configurada flagrante ilegalidade, hábil a ocasionar o deferimento, de ofício, da ordem postulada. Ante o exposto, não conheço do presente habeas corpus, contudo, concedo liminarmente a ordem, de ofício, para determinar ao Juízo das Execuções aplique o benefício da remição pela aprovação integral no ENEM - ensino médio. Comunique-se a presente decisão, com urgência, ao Juízo das Execuções Criminais e ao Tribunal coator. Cientifique-se o Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se EMENTA