HC 896043 - DECISAO
A Corte assentou entendimento iterativo de que a aprovação, ainda que parcial, no ENEM/ENCCEJA confere direito à remição da pena mesmo que não haja comprovação de vínculo com instituição de ensino, em conformidade com interpretação extensiva do art.126 da LEP e com a Resolução CNJ n.391/2021, salvo as exceções...
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- Parties
- Paciente: VICTOR THOMAZ DOS SANTOS; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO; Manifestante/interessado: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 September 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Ordem Concedida (decisão De Mérito)
- Outcome
- Ordem concedida; acórdão hostilizado cassado; restabelecida decisão de primeiro grau que reconheceu remição de pena
- Legal Topics
- Remição De Pena, Estudo Por Conta Própria, ENEM, ENCCEJA, Interpretação Do Art.126 Da LEP, Recomendação/resolução CNJ
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Parties
VICTOR THOMAZ DOS SANTOS
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Manifestante/interessado
Procedural Posture
Habeas Corpus / Ordem Concedida (decisão De Mérito)
Legal Issues
- 1 Possibilidade de remição de pena por aprovação parcial em ENEM/ENCCEJA sem comprovação de vínculo com instituição de ensino
- 2 Exigência de apresentação de histórico escolar para reconhecimento da remição
- 3 Exceções à remição por aprovação em exames nacionais (portador de diploma superior ou remição exaustiva)
Ratio Decidendi
A Corte assentou entendimento iterativo de que a aprovação, ainda que parcial, no ENEM/ENCCEJA confere direito à remição da pena mesmo que não haja comprovação de vínculo com instituição de ensino, em conformidade com interpretação extensiva do art.126 da LEP e com a Resolução CNJ n.391/2021, salvo as exceções expressas (portador de diploma superior ou remição exaustiva). Por isso, cassou-se o acórdão do Tribunal de origem e restabeleceu-se a decisão de primeiro grau que reconheceu a remição de pena do paciente.
Court Disposition
Ordem concedida; acórdão hostilizado cassado; restabelecida decisão de primeiro grau que reconheceu remição de pena
Orders
- Cassado o acórdão hostilizado.
- Restabelecida a decisão de primeiro grau constante de e-STJ fls. 39/43 que reconheceu a remição de pena.
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido liminar impetrado em favor de VICTOR THOMAZ DOS SANTOS em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Agravo em Execução n. 0000698-88.2024.8.26.0996). Consta dos autos ter o Juízo das execuções penais remido por estudo 78 dias da pena imposta ao paciente, com base na sua aprovação em uma ou mais áreas de conhecimento do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) (e-STJ fls. 39/43). Irresignado, o Ministério Público ingressou com recurso, tendo o Tribunal de origem dado provimento ao agravo em execução para, "cassando a respeitável decisão agravada, determinar o refazimento do cálculo de liquidação de penas, revogando-se a remição pelo aproveitamento parcial no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA)", conforme acórdão assim ementado (e-STJ fl. 69): Agravo em Execução Penal - Pleito ministerial de revogação da remição pela aprovação em algumas áreas do conhecimento, em exame nacional que certifica a conclusão dos ensinos fundamental ou médio Cabimento Hipótese que não se amolda à legislação vigente Exegese do artigo 126, da Lei nº 7.210/84 Ofensa ao princípio da legalidade - Reconhecimento - Precedentes Decisão cassada - Agravo provido. No presente writ, sustenta a defesa que ""exigir que o sentenciado comprove seu estudo informal sem registro consiste em uma inequívoca tentativa de inviabilizar a espécie de remição em debate, já que a condicionaria à produção de prova impossível ou diabólica (cuja vedação decorre do art. 5º, LVI, da CF, do art. 157 do CPP e do art. 373, §2º, do CPC, c/c o art.3º do CPP)" (e-STJ fl. 8). Acrescenta que "a lei não faz exigência dessa comprovação, requerendo do sentenciado apenas a demonstração de sua aprovação no exame educacional. Desse modo, qualquer tentativa de impor requisito não previsto legalmente, consiste em evidente violação ao princípio da legalidade estrita (art. 5º, I e XXXIX, da CF), devendo ser coibida pelo Poder Judiciário" (e-STJ fl. 9). Assim, requer, inclusive liminarmente, a concessão de ordem "para reestabelecer a decisão de primeiro grau, com a consequente remição de penas" (e-STJ fl. 17). Liminar indeferida (e-STJ fls. 87/88). Informações prestadas. O Ministério Público Federal manifestou-se pela concessão da ordem (e-STJ fls. 93/94). É o relatório. Decido. A iterativa jurisprudência desta Corte, esposada nas recomendações do CNJ, vem reforçando a tese de que a aprovação, mesmo que parcial, no ENEM/ENCCEJA, ainda que não comprovada a dedicação do agente aos estudos ou participação em instituto formal de estudos, importa na remição da pena, mesmo que o reeducando já tenha concluído o ensino fundamental, excepcionando-se, apenas, se ostenta diploma de nível superior ou já foi agraciado com a mesma benesse de forma exaustiva anteriormente. Confiram-se: AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. VIOLAÇÃO DO ART. 126, CAPUT, § 2º E § 5º, DA LEP. PLEITO DE DECOTE DO RECONHECIMENTO DA REMIÇÃO PELO E S TUDO POR CONTA PRÓPRIA. APROVAÇÃO EM ÁREAS DE CONHECIMENTO NO ENCCEJA. PRESCINDIBILIDADE DE APRESENTAÇÃO DO HISTÓRICO ESCOLAR E CERTIFICADO. INCENTIVO AO ESTUDO E À RESSOCIALIZAÇÃO COMO FINALIDADE PRECÍPUA DA PENA. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA DO ART. 126 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL - LEP. POSSIBILIDADE. RECOMENDAÇÃO N. 44/2013 DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA - CNJ. JURISPRUDÊNCIA DO STJ. 1. No caso concreto, a Corte mineira dispôs que o agravante juntou aos autos o certificado emitido que comprova a sua aprovação no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) e, consequentemente, atesta a conclusão do ensino médio (sequencial 307.1, do Sistema Eletrônico de Execução Unificado -SEEU). .. as entidades certificadoras do ENCCEJA não exigem a apresentação de histórico escolar para realização do exame. Por essa razão, o documento apresentado no sequencial 307.1 do SEEU não registra o histórico escolar completo do reeducando, na medida em que atesta somente as áreas de conhecimento que compuseram o Exame. .. a remição de pena pelos estudos deve ser concedida, considerando que o reeducando comprovou sua aprovação no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) no ensino médio. 2. A Resolução CNJ n. 391/2021 prevê que faz jus à remição o apenado que, embora não esteja vinculado a atividades regulares de ensino, realiza estudos por conta própria e obtém aprovação nos exames nacionais que certificam a conclusão do ensino fundamental/médio. .. se a norma admite a remição da pena por aprovação no ENCCEJA mesmo que o apenado não esteja vinculado a atividades regulares de ensino no interior da unidade prisional, incoerente a exigência de apresentação do histórico escolar, exatamente porque o sentenciado realizou os estudos por conta própria, sem estar matriculado em instituição de ensino. .. A interpretação extensiva do art. 126, § 1º, I, da LEP aliada disposto na Resolução CNJ n. 391/2021, orientação deduzida na decisão agravada e que prestigia o estudo como método factível para o alcance da reintegração social, vem sendo adotada em decisões de ambas as Turmas que compõem a Terceira Seção desta Corte Superior de Justiça (AgRg no REsp n. 2.069.804/MG, Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, DJe 14/9/2023). 3. "O Conselho Nacional de Justiça, por meio da Recomendação n. 44/2013, posteriormente substituída pela Resolução n. 391/2021, estabeleceu a possibilidade de remição de pena à pessoa privada de liberdade que, por meio de estudos por conta própria, vier a ser aprovada nos exames que certificam a conclusão do ensino fundamental ou médio (ENCCEJA ou outros) e aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM." (AgRg no HC n. 828.464/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 28/8/2023, DJe de 30/8/2023.) .. Noutra vertente, " .. se a norma admite a remição da pena por aprovação no ENCCEJA mesmo que o apenado não esteja vinculado a atividades regulares de ensino no interior da unidade prisional, incoerente a exigência de apresentação do histórico escolar, exatamente porque o sentenciado realizou os estudos por conta própria, sem estar matriculado em instituição de ensino" (AgRg no REsp n. 2.069.804/MG, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 11/9/2023, DJe de 14/9/2023.) - (AgRg no AREsp n. 2.290.488/MG, Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, DJe 1/12/2023). 4. Agravo regimental improvido. (AgRg no REsp n. 2.082.156/MG, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 11/3/2024, DJe de 14/3/2024.) EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. REMIÇÃO DA PENA PELO ESTUDO POR CONTA PRÓPRIA E CONCLUSÃO DO ENSINO FUNDAMENTAL PELO ENCCEJA -POSSIBILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. Como resultado de uma interpretação analógica in bonam partem da norma inserta no art. 126 da LEP, segundo jurisprudência desta Corte, é possível a hipótese de abreviação da reprimenda em razão de atividades que não estejam expressas no texto legal. 2. A Resolução CNJ n. 391/2021 prevê que faz jus à remição o apenado que, embora não esteja vinculado a atividades regulares de ensino, realiza estudos por conta própria e obtém aprovação nos exames nacionais que certificam a conclusão do ensino fundamental/médio. 3. A interpretação extensiva do art. 126, § 1º, I, da LEP aliada ao disposto na Resolução CNJ n. 391/2021, orientação deduzida na decisão agravada e que prestigia o estudo como método factível para o alcance da reintegração social, vem sendo adotada em decisões de ambas as Turmas que compõem a Terceira Seção desta Corte Superior de Justiça. 4. A Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça, ao julgar o EREsp 1.979.591/SP, relatado pelo Ministro Messod Azulay Neto e publicado em 13/11/2023, decidiu por unanimidade acompanhar o entendimento da Quinta Turma em que ficou estabelecido que a remição de pena pode ser concedida pela aprovação no ENEM, mesmo se o reeducando já possuía o diploma de ensino médio antes de iniciar o cumprimento da pena. 5. Agravo regimental desprovido. (AgRg no REsp n. 2.107.364/MG, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 8/4/2024, DJe de 12/4/2024.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. REMIÇÃO. APROVAÇÃO NO ENEM. APENADO PORTADOR DE DIPLONA DE NÍVEL SUPERIOR ANTES DE INGRESSAR NO SISTEMA PRISIONAL. 1. O Conselho Nacional de Justiça, por meio da Recomendação n. 44/2013, posteriormente substituída pela Resolução n. 391/2021, estabeleceu a possibilidade de concessão de remição de pena à pessoa privada de liberdade, que, por meio de estudos por conta própria, vier a ser aprovada nos exames que certificam a conclusão do ensino fundamental ou médio (Encceja ou outros) e aprovação no ENEM. 2. E o Superior Tribunal de Justiça, no julgamento do EREsp n. 1.979.591/SP (DJe de 13/11/2023), da Terceira Seção, consolidou entendimento de que é admitida a remição da pena, por aprovação no ENEM ou no Encceja, dos apenados que ingressaram no sistema penitenciário após a conclusão do ensino médio. 3. No caso, contudo, o apenado, ao ingressar no sistema prisional, era portador de diploma de nível superior. Em hipóteses tais, não há aquisição de novos conhecimentos, razão pela qual não há que se falar em remição por aprovação no ENEM, sob pena de destoar do escopo da norma. 4. Agravo regimental a que se nega provimento. (AgRg no HC n. 896.787/SP, de minha relatoria, Sexta Turma, julgado em 29/4/2024, DJe de 3/5/2024.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO PELO ESTUDO. CONCLUSÃO DO ENSINO FUNDAMENTAL. POSTERIOR APROVAÇÃO NO EXAME NACIONAL DE CERTIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIAS DE JOVENS E ADULTOS - ENCCEJA - NÍVEL FUNDAMENTAL. IMPOSSIBILIDADE DE DUPLA REMIÇÃO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. É inviável a concessão de remição em duplicidade, assim considerada aquela que recai sobre o mesmo nível de ensino mais de uma vez, ainda que em meio presencial e por exame de competências. Precedentes. 2. Agravo Regimental no habeas corpus desprovido. (AgRg no HC n. 799.625/PR, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 22/5/2023, DJe de 24/5/2023.) No mesmo sentido o parecer do Ministério Público Federal, do qual extraio o seguinte excerto (e-STJ fl. 94): No caso, o paciente realizou a prova do ENCEJA e obteve nota superior a 100 em duas matérias e 5 na redação, razão pela qual faz jus à remição da pena pelo estudo, na forma como decidido pelo juízo da execução, cujo entendimento está em harmonia com a posição dessa Corte Superior. Ante o exposto, concedo a ordem para, acolhido o parecer ministerial, cassar o acórdão hostilizado e restabelecer a decisão de e-STJ fls. 39/43. Publique-se. Intimem-se. EMENTA