HC 951931 - DECISAO
A Quinta Turma do STJ entendeu que a aprovação parcial no ENEM configura causa distinta da aprovação no ENCCEJA, não caracterizando bis in idem, de modo que o apenado faz jus à remição proporcional conforme o número de áreas aprovadas; no caso concreto, comprovada a aprovação em quatro áreas do ENEM/2023, o paciente...
Source-derived case information.
- Parties
- Paciente: CÁSSIO WILLI PEREIRA TORRES; Órgão De Origem: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo; Fiscal: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 27 November 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão (concessão De Ordem De Ofício)
- Outcome
- Não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem de ofício para remir 80 dias da pena do paciente.
- Legal Topics
- Remição De Pena, ENEM, ENCCEJA, Bis in Idem, Habeas Corpus Substitutivo De Recurso
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
CÁSSIO WILLI PEREIRA TORRES
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Órgão De Origem
Ministério Público Federal
Fiscal
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão (concessão De Ordem De Ofício)
Legal Issues
- 1 Possibilidade de remição de pena pela aprovação parcial no ENEM mesmo após remição anterior pelo ENCCEJA
- 2 Caracterização ou não de bis in idem entre ENEM e ENCCEJA
- 3 Proporcionalidade da remição conforme número de matérias aprovadas
Ratio Decidendi
A Quinta Turma do STJ entendeu que a aprovação parcial no ENEM configura causa distinta da aprovação no ENCCEJA, não caracterizando bis in idem, de modo que o apenado faz jus à remição proporcional conforme o número de áreas aprovadas; no caso concreto, comprovada a aprovação em quatro áreas do ENEM/2023, o paciente teve deferida remição de 80 dias, sem prejuízo da remição anterior pelo ENCCEJA, sendo vedada a compensação de notas em áreas não atingidas e sendo fora do alcance do habeas corpus a reanálise das provas ou das notas.
Court Disposition
Não conheço do habeas corpus. Contudo, concedo a ordem de ofício para remir 80 dias da pena do paciente.
Orders
- Não conheço do presente habeas corpus.
- Concedo a ordem de habeas corpus, de ofício, para deferir ao paciente um total de 80 dias de remição pela aprovação parcial no ENEM.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, sem pedido liminar, impetrado em benefício de CÁSSIO WILLI PEREIRA TORRES contra acórdão do TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO proferido no julgamento do Agravo de Execução Penal n. 0004479-88.2024.8.26.0521. Extrai-se dos autos que o Juízo das execuções penais indeferiu o pedido de remição de pena pela aprovação parcial no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM, formulado pelo paciente. Irresignada, a defesa interpôs agravo de execução perante o Tribunal de Justiça, que negou provimento ao recurso, em acordão assim ementado (e-STJ fl. 14): "AGRAVO DE EXECUÇÃO diante de decisão que indeferiu a remição de pena por suposta aprovação em exame de certificação do ensino médio (ENEM). Anterior remição concedida por conclusão do Exame Nacional para Certificação de Capacidade de Jovens e Adultos (ENCCEJA). "Bis in idem" caracterizado. Duplicidade de remição pelo mesmo motivo corretamente afastada, a par de o agravante não ter atingido nota mínima em todas as áreas de conhecimento, não sendo, portanto, considerado aprovado no ENEM. Agravo improvido." No presente writ, a impetrante sustenta, em síntese, que o paciente faz jus à remição de pena, tendo em vista a sua aprovação parcial no ENEM de 2023. A propósito, argumenta que a aprovação no ENEM não configura bis in idem com a aprovação no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos - ENCCEJA, uma vez que não se trata do mesmo fato gerador. Aduz que o legislador não especificou que a remição de pena por estudo deve ser limitada a um único exame por nível de escolaridade e que a decisão impugnada desconsidera o direito fundamental à educação, a finalidade ressocializadora da remição de pena e a dignidade da pessoa humana. Requer, assim, a concessão da ordem para que seja deferida a remição de pena em favor do paciente, bem como seja reconhecida a validade da nota obtida pelo paciente no ENEM, inclusive considerando a possibilidade de compensação de notas em áreas cujo mínimo não foi atingido e de eventual erro material na avaliação, com a solicitação de reanálise das provas e critérios de aprovação. O Ministério Público Federal opinou pelo não conhecimento do habeas corpus (e-STJ fls. 49/57). A defesa juntou documento (e-STJ fl. 60). É o relatório. Decido. Diante da hipótese de habeas corpus substitutivo de recurso próprio, a impetração nem sequer deveria ser conhecida, segundo orientação jurisprudencial do Supremo Tribunal Federal e do próprio Superior Tribunal de Justiça. Todavia, considerando as alegações deduzidas na inicial e a previsão do art. 647-A do Código de Processo Penal, cabível o exame do feito para remediar eventual constrangimento ilegal que justifique a concessão de ordem de ofício. Nessa perspectiva, observo que o voto condutor do acórdão objurgado afastou a remição de pena em favor do paciente com base nos seguintes fundamentos (e-STJ fls. 15/16, grifos do original): " .. No caso, infere-se que o agravante foi beneficiado com a remição de 133 dias de pena em decorrência da conclusão do ensino médio, com aprovação no Exame Nacional para Certificação de Competência de Jovens e Adultos (ENCCEJA), negando-se, na mesma oportunidade, o desconto aventado em razão da realização do exame nacional do ensino médio (ENEM). Sem razão o pedido defensivo de reforma. Com efeito, inconcebível a dupla remição por idêntico nível de escolaridade, como se pretende, considerando-se que ambos os certificados (ENCCEJA e ENEM) dizem respeito a atividades atreladas ao nível médio, nos quais se avaliam, inclusive, as mesmas matérias (língua portuguesa, língua estrangeira, artes, educação física, redação, matemática, ciências humanas e ciências da natureza fls. 14 e 23), algo a configurar vedado bis in idem, como acertadamente consignou o juiz da execução.. .. Não fosse a impossibilidade de concessão de dupla remição pelo mesmo "fato gerador", constata-se, ainda, a ausência de documento comprobatório da alegada certificação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Na hipótese, aquele juntado a fls. 14 atesta ter o agravante atingido nota mínima de 450 pontos tão somente em três das áreas de conhecimento (ciências da natureza, ciências humanas e linguagem), permanecendo abaixo desse patamar na matéria remanescente (matemática), sem se observar, pois, a aprovação no ENEM, segundo específicos critérios estabelecidos na Portaria nº 179/2014 do INEP. Por todos os motivos alinhavados e porque, de fato, ausente previsão legal a amparar o duplo abatimento de pena proposto por igual motivo, incensurável a decisão de primeiro grau. .. " Depreende-se daí que o paciente foi beneficiado com a remição de 133 dias de pena decorrente da conclusão do ensino médio, com aprovação no ENCCEJA - Nível Médio, e que as instâncias ordinárias negaram a possibilidade de remição de pena pela aprovação parcial no ENEM. Esse entendimento, contudo, destoa da jurisprudência atual da Quinta Turma desta Corte Superior. A remição da pena pelo estudo está prevista na Lei de Execuções Penais - LEP, em seu art. 126, que estabelece a proporção de um dia de pena para cada doze horas de frequência escolar, divididas, no mínimo, em três dias, sendo considerada a "atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional". O Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM foi instituído em 1998, com o objetivo de avaliar o desempenho escolar dos estudantes ao término da educação básica. Em 2009, o exame aperfeiçoou sua metodologia e passou a ser utilizado como mecanismo de acesso à educação superior, em substituição a exames vestibulares (pelo Sistema de Seleção Unificada - Sisu ou pelo Programa Universidade para Todos - ProUni). As provas são aplicadas anualmente e a avaliação é dividida em cinco áreas de conhecimento (fonte: INEP). Entre os anos de 2009 e 2016, o ENEM foi utilizado como ferramenta para certificar o aprendizado das matérias curriculares do ensino médio, sendo concedido o certificado de conclusão àqueles maiores de dezoito anos que obtivessem aproveitamento mínimo em cada uma das áreas de conhecimento (450 pontos) e na redação (500 pontos). Com a Portaria n. 468/2017, do Ministério da Educação, o ENEM não mais se presta a tal finalidade. O Exame Nacional de Certificação de Competências de Jovens e Adultos - ENCCEJA é a avaliação de âmbito nacional própria para a certificação do aproveitamento do conteúdo programático do ensino médio e do ensino fundamental àqueles que atingiram a idade de quinze anos (para o nível fundamental) ou dezoito anos (para o nível médio). A Resolução n. 391/2021, do Conselho Nacional de Justiça - CNJ, ao dispor sobre as atividades complementares para fins de remição da pena pelo estudo, consigna o seguinte: "Art. 3º - O reconhecimento do direito à remição de pena pela participação em atividades de educação escolar considerará o número de horas correspondente à efetiva participação da pessoa privada de liberdade nas atividades educacionais, independentemente de aproveitamento, exceto, quanto ao último aspecto, quando a pessoa tiver sido autorizada a estudar fora da unidade de privação de liberdade, hipótese em que terá de comprovar, mensalmente, por meio da autoridade educacional competente, a frequência e o aproveitamento escolar. Parágrafo único. Em caso de a pessoa privada de liberdade não estar vinculada a atividades regulares de ensino no interior da unidade e realizar estudos por conta própria, ou com acompanhamento pedagógico não-escolar, logrando, com isso, obter aprovação nos exames que certificam a conclusão do ensino fundamental ou médio (Encceja ou outros) e aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - Enem, será considerada como base de cálculo para fins de cômputo das horas visando à remição da pena 50% (cinquenta por cento) da carga horária definida legalmente para cada nível de ensino, fundamental ou médio, no montante de 1.600 (mil e seiscentas) horas para os anos finais do ensino fundamental e 1.200 (mil e duzentas) horas para o ensino médio ou educação profissional técnica de nível médio, conforme o art. 4º da Resolução nº 03/2010 do Conselho Nacional de Educação, acrescida de 1/3 (um terço) por conclusão de nível de educação, a fim de se dar plena aplicação ao disposto no art. 126, §5º, da LEP." Destaque-se que a Resolução n. 391/2021, do CNJ, trata o ENEM como instrumento adequado a certificar a conclusão do ensino médio, o que não mais se conforma com as disposições atuais do Ministério da Educação. A possibilidade de remição de pena pelo estudo individual, demonstrado pelo aproveitamento mínimo nas provas do ENCCEJA - Nível Médio ou do ENEM, nas hipóteses em que o recuperando já ingressou no sistema penitenciário com o ensino médio completo ou o concluiu por meio de aulas regulares oferecidas no sistema de educação de jovens e adultos, apresentava divergências na jurisprudência desta Corte Superior. Por ocasião do julgamento do AgRg no HC n. 786.844/SP, a Quinta Turma desta Corte Superior, em sessão de julgamento realizada em 8/8/2023, decantou as controvérsias e uniformizou o entendimento sobre o tema. Ressalvada compreensão própria em sentido oposto, prevaleceu no colegiado o voto do Ministro Reynaldo Soares da Fonseca no sentido de que a aprovação no ENEM ou no ENCCEJA - Nível Médio implica remição da pena também àqueles recuperandos que já concluíram por qualquer outra forma o correspondente nível de ensino, sem o acréscimo de 1/3 pela conclusão dos estudos. Confira-se o teor da ementa do referido julgado: AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. INSURGÊNCIA DO MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADUAL. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DE PENA POR ESTUDO. APROVAÇÃO EM 4 DAS 5 ÁREAS DE CONHECIMENTO DO EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO - ENEM. POSSIBILIDADE. ART. 126 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL C/C ART. 3º, PARÁGRAFO ÚNICO, DA RESOLUÇÃO N. 391, DE 10/05/2021, DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. CONCLUSÃO DO ENSINO MÉDIO ANTES DO INÍCIO OU DURANTE O CUMPRIMENTO DA PENA: IRRELEVÂNCIA. INEXISTÊNCIA DE BIS IN IDEM. GRAUS DE DIFICULDADE DIFERENTES DO EXAME QUE CERTIFICA A CONCLUSÃO DO ENSINO MÉDIO (ENCCEJA) E DO ENEM. DIREITO À REMIÇÃO DE 20 (VINTE) DIAS DE PENA POR MATÉRIA EM QUE O EXECUTADO FOI APROVADO. VEDADO O ACRÉSCIMO DE 1/3 PREVISTO NO ART. 126, § 5º, DA LEP. 1. "É cabível a remição pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM ainda que o Apenado já tenha concluído o ensino médio anteriormente, pois a aprovação no exame demanda estudos por conta própria mesmo para aqueles que, fora do ambiente carcerário, já possuem o referido grau de ensino" (REsp n. 1854391/DF, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 22/9/2020, DJe 6/10/2020), ressalvado o acréscimo de 1/3 (um terço) com fundamento no art. 126, § 5º, da Lei de Execução Penal. (AgRg no HC n. 768.530/SP, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 6/3/2023, DJe de 9/3/2023) Precedentes: AgRg no REsp n. 1.863.149/SC, relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 14/3/2023, DJe de 22/3/2023; AREsp 1.741.138/DF, Rel. Min. MESSOD AZULAY NETO, DJe de 15/06/2023; HC 828.572/SP, Rel. Min. ANTONIO SALDANHA PALHEIRO, DJe de 12/06/2023; REsp 2.069.804/MG, Rel. Min. RIBEIRO DANTAS, DJe de 06/06/2023; HC 799.103/SP, Rel. Min. RIBEIRO DANTAS, DJe de 19/04/2023. 2. O objetivo do conjunto de regras acerca da remição da pena por aproveitamento dos estudos é o de incentivar os apenados aos estudos, bem como sua readaptação ao convívio social. 3. A despeito de as matérias nas quais o estudante é examinado no ENCCEJA - ensino médio e no ENEM possuírem nomes semelhantes, não há como se deduzir que ambos os exames tenham o mesmo grau de complexidade. Pelo contrário, é muito mais plausível depreender-se que a avaliação efetuada no ENEM contém questões mais complexas dos que as formuladas no ENCCEJA - ensino médio, sobretudo tendo em conta que a finalidade do ENEM é possibilitar o ingresso no ensino superior, o que, por certo, demanda mais empenho do executado nos estudos. Reforça essa presunção o fato de que as notas mínimas para aprovação nos referidos exames são diferentes, a prova do ENEM tem mais questões e dura 1h30min a mais que a prova do ENCCEJA. Nessa linha de entendimento, o pedido de remição de pena por aprovação (total ou parcial) no ENCCEJA - ensino médio não possui o mesmo "fato gerador" do pleito de remição de pena em decorrência de aprovação (total ou parcial) no ENEM realizado a partir de 2017. 4. Não fosse assim, a Resolução n. 391, de 10/05/2021, do Conselho Nacional de Justiça, que revogou a Recomendação n. 44/2013, teria deixado de reiterar a possibilidade de remição de pena por aprovação no ENEM, mantendo apenas a remição de pena por aprovação no ENCCEJA. Mas não foi o que ocorreu. Com isso em mente, deixar de reconhecer o direito do apenado à remição de pena por aprovação total ou parcial no ENEM é negar vigência à Resolução 391 do CNJ. 5. Transposto esse raciocínio para a situação da conclusão do ensino médio antes do ingresso do apenado no sistema prisional, é forçoso concluir, também, que sua superveniente aprovação no ENEM durante o cumprimento da pena não corresponde ao mesmo nível de esforço e ao mesmo "fato gerador" correspondente à obtenção do grau do ensino médio, não havendo que falar em concessão do benefício (remição de pena) em duplicidade pelo mesmo fato. 6. De se pontuar, ademais, que essa 0 23/10/2009 EMENT VOL-02379-04 PP-00851). 7. A jurisprudência desta Corte e do Supremo Tribunal Federal é assente no sentido de que as 1.200 horas, correspondentes ao ensino médio, divididas por 12 (1 dia de pena a cada 12 horas de estudo) resultam em 100 dias remidos. Idêntica forma de parametrar a contagem do tempo a ser remido é aplicável ao ENEM, com a exceção de que o apenado aprovado em todas as áreas do ENEM, a partir de 2017, não faz jus ao acréscimo de 1/3 (um terço) previsto no art. 126, § 5º, da LEP. 8. No caso concreto, a defesa comprovou que o apenado obteve aprovação em 4 (quatro) das 5 (cinco) áreas de conhecimento no ENEM 2019, somente não atingiu a nota mínima na área de conhecimento "Matemática e suas tecnologias". Portanto, não merece reparos a decisão agravada que concedeu a ordem de ofício, para deferir ao paciente o total de 80 (oitenta) dias de remição de pena, em virtude de sua aprovação parcial no ENEM/2019. 9. Agravo regimental do Ministério Público estadual desprovido. (AgRg no HC n. 786.844/SP, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, relator para acórdão Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 8/8/2023, DJe de 13/9/2023.) Ainda que o apenado tenha concluído o ensino médio pela aprovação no ENCCEJA, nos termos do precedente citado acima, verifica-se que a remição pelo ENEM não implica bis in idem, pois não se está diante do mesmo "fato gerador", devendo, apenas, ser respeitada a proporcionalidade conforme o número de matérias aprovadas. Destaque-se que não se mostra possível a concessão de sucessivas remições pela aprovação no ENEM, ainda que em anos distintos, sendo inviável nova remição de pena por aprovação nas mesmas matérias em novo exame correspondente ao ensino médio. Nesse sentido: AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. NOVOS ARGUMENTOS HÁBEIS A DESCONSTITUIR A DECISÃO IMPUGNADA. INEXISTÊNCIA. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DE PENA. NOVA APROVAÇÃO NO ENCCEJA. DUPLICIDADE DE CONCESSÃO DO MESMO BENEFÍCIO. IMPOSSIBILIDADE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO EVIDENCIADO. HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO. DECISÃO MANTIDA. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. I - É assente nesta Corte Superior de Justiça que o agravo regimental deve trazer novos argumentos capazes de alterar o entendimento anteriormente firmado, sob pena de ser mantida a r. decisão agravada por seus próprios fundamentos. II - Não há dúvida de que o benefício da remição deve ser aplicado na situação em que o apenado obtém a aprovação no ENCCEJA ou ENEM, porquanto configura aproveitamento dos estudos realizados durante a execução da pena, conforme dispõem o art. 126 da LEP e a Recomendação n. 44/2013 do CNJ. III - Contudo, o objetivo da remição é de recompensar o preso pelo esforço que demonstra em crescer intelectualmente por galgar os diversos níveis de educação, não simplesmente reduzir a pena. A realização do mesmo exame não demonstra evolução, mas a mera reiteração da realização de uma prova para abatimento de pena, o que, obviamente, constitui concessão em duplicidade do benefício pelo mesmo fato, não restando configurado qualquer acréscimo intelectual. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC 592.511/SC, relator Ministro Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 15/09/2020.) DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DE PENA. APROVAÇÃO PARCIAL NO EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO (ENEM). POSSIBILIDADE. DUPLICIDADE DE FATO GERADOR NÃO CARACTERIZADA. RECURSO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Habeas corpus impetrado em favor de Adriano José Custódio contra acórdão que indeferiu pedido de remição de pena em razão de aprovação parcial no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), com o fundamento de que o apenado já havia sido beneficiado com remição pela conclusão do ensino médio por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA). II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em determinar se é cabível a concessão de remição de pena em razão da aprovação parcial no ENEM/2023, mesmo quando o apenado já foi beneficiado pela aprovação no ENCCEJA/2022. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O entendimento jurisprudencial vigente estabelece que a aprovação parcial ou total no ENEM não configura o mesmo "fato gerador" da aprovação no ENCCEJA, sendo possível a concessão de remição em ambos os casos, uma vez que envolvem níveis de complexidade e finalidades distintas. 4. O propósito da remição é recompensar o esforço do apenado por adquirir novo conhecimento, o que não pode ser negado pela aprovação parcial no ENEM, mesmo após a conclusão do ensino médio via ENCCEJA, pois a exigência de estudos no ENEM é maior. 5. A jurisprudência consolidada tanto no Superior Tribunal de Justiça (STJ) quanto no Supremo Tribunal Federal (STF) reconhece que o ENEM e o ENCCEJA possuem graus de dificuldade e objetivos diferentes, o que justifica a concessão de remição por ambos os exames, desde que atendidos os requisitos legais. 6. O pedido de habeas corpus como substitutivo de recurso próprio não é admitido, salvo em casos de flagrante ilegalidade, o que se verifica no presente caso, justificando a concessão da ordem de ofício para corrigir a omissão na aplicação da remição. IV. DISPOSITIVO 7. Recurso desprovido. (AgRg no HC n. 939.330/SC, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 4/11/2024, DJe de 6/11/2024.) DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. EXECUÇÃO PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE RECURSO PRÓPRIO. NÃO CONHECIMENTO. REMIÇÃO DE PENA PELO ESTUDO. APROVAÇÃO NO ENEM. POSSIBILIDADE. BIS IN IDEM NÃO CONFIGURADO. DIREITO À REMIÇÃO INDEPENDENTEMENTE DE APROVAÇÃO PRÉVIA NO ENCCEJA. ORDEM CONCEDIDA DE OFÍCIO. I. CASO EM EXAME 1. Habeas corpus impetrado em favor de apenado que pleiteia remição de pena pela aprovação em 4 áreas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) de 2023, tendo já sido homologada remição de 133 dias pela aprovação no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) no mesmo ano. O Tribunal de origem negou a nova remição alegando bis in idem. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) a admissibilidade do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio; (ii) a possibilidade de remição de pena pela aprovação no ENEM, mesmo que o apenado já tenha obtido a certificação do ensino médio pelo ENCCEJA, sem configuração de bis in idem. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O habeas corpus não é admitido como substitutivo de recurso próprio ou revisão criminal, conforme jurisprudência pacífica do STJ e STF. No entanto, a ordem pode ser concedida de ofício em casos de flagrante ilegalidade. 4. A jurisprudência desta Corte reconhece que a aprovação no ENEM, mesmo para apenados que já tenham concluído o ensino médio, permite a remição de pena, por se tratar de exames com níveis de dificuldade distintos, o que demanda esforço adicional e justifica nova remição. 5. O entendimento do Tribunal de origem, que negou a remição com fundamento em bis in idem, está em desacordo com a jurisprudência consolidada, que admite remição tanto pela aprovação no ENCCEJA quanto no ENEM, desde que observada a proporcionalidade conforme o número de matérias aprovadas. 6. No caso concreto, o apenado foi aprovado em 4 das 5 áreas do ENEM 2023, fazendo jus à remição proporcional, sem o acréscimo de 1/3 previsto no art. 126, § 5º, da LEP. IV. DISPOSITIVO E TESE 7. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida de ofício para remir 80 dias da pena do paciente. Tese de julgamento: 1. A remição de pena pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é possível mesmo quando o apenado já foi beneficiado por remição em razão de aprovação no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA), desde que respeitada a proporcionalidade conforme o número de matérias aprovadas. (HC n. 928.569/SC, relatora Ministra Daniela Teixeira, Quinta Turma, julgado em 8/10/2024, DJe de 15/10/2024.) No caso em análise, o paciente atingiu os índices mínimos de aproveitamento exigidos pela jurisprudência (450 pontos em cada área de conhecimento e 500 pontos para redação) em quatro áreas de conhecimento (ciências da natureza, ciências humanas, linguagens e redação) para que seja reconhecido o aproveitamento no ENEM, conforme boletim juntado no e-STJ fl. 60, fazendo jus, portanto, a 80 dias de remição. De outro lado, não há como dar guarida à pretendida compensação de notas em áreas nas quais o paciente não obteve desempenho superior ao mínimo exigido. Como visto acima, embora admitida a remição tanto pela aprovação no ENCCEJA quanto no ENEM, deve ser observada a proporcionalidade conforme o número de matérias aprovadas. Já o pedido de "consideração de eventual erro materi al na avaliação das notas do agravante, com a solicitação de reanálise das provas e critérios de aprovação estabelecidos pela Portaria nº 179/2014 do INEP" (e-STJ fl. 12), também formulado pela defesa, foge ao âmbito do habeas corpus. Ante o exposto, com fundamento no art. 34, inciso XX, do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça, não conheço do presente habeas corpus. Contudo, concedo a ordem de habeas corpus, de ofício, para deferir ao paciente um total de 80 dias de remição pela aprovação parcial no ENEM, sem prejuízo da anterior remição concedida pela aprovação no ENCCEJA. Publique-se. Intimem-se. EMENTA