HC 1011570 - DECISAO
Embora o habeas corpus seja em regra inadmissível como substituto de recurso próprio, verificou-se ilegalidade flagrante no entendimento do Tribunal de origem ao afastar a remição pela aprovação no ENCCEJA em razão da vinculação da apenada a atividades regulares de ensino, contrariando a jurisprudência do STJ; por...
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- Parties
- Paciente: DÉBORA CARVALHO DA SILVA; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO; Manifestante: MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 11 July 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão No Superior Tribunal De Justiça (não Conhecido Com Concessão Da Ordem De Ofício)
- Outcome
- Habeas corpus não conhecido; ordem concedida de ofício para reconhecer o direito da paciente à remição da pena pela aprovação no ENCCEJA.
- Legal Topics
- Remição De Pena, ENCCEJA, Atividades Regulares De Ensino No Estabelecimento Prisional, Inadmissibilidade Do Habeas Corpus Como Sucedâneo De Recurso Próprio
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Parties
DÉBORA CARVALHO DA SILVA
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
Manifestante
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão No Superior Tribunal De Justiça (não Conhecido Com Concessão Da Ordem De Ofício)
Legal Issues
- 1 cabimento do habeas corpus quando utilizado como sucedâneo de recurso próprio
- 2 possibilidade de remição da pena pela aprovação no ENCCEJA para apenado vinculado a atividades regulares de ensino
- 3 presença de ilegalidade flagrante autorizando atuação de ofício do STJ
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus seja em regra inadmissível como substituto de recurso próprio, verificou-se ilegalidade flagrante no entendimento do Tribunal de origem ao afastar a remição pela aprovação no ENCCEJA em razão da vinculação da apenada a atividades regulares de ensino, contrariando a jurisprudência do STJ; por isso, concedeu-se de ofício a ordem para reconhecer o direito à remição e determinar os cálculos e anotações pertinentes.
Court Disposition
Habeas corpus não conhecido; ordem concedida de ofício para reconhecer o direito da paciente à remição da pena pela aprovação no ENCCEJA.
Orders
- Reconhecer o direito da paciente à remição da pena pela aprovação no ENCCEJA
- Determinar ao Juízo da execução que providencie os cálculos e anotações necessários
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de DÉBORA CARVALHO DA SILVA em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO (Agravo de Execução Penal n. 0004113-90.2025.8.26.0496). Consta dos autos que o Juízo da execução penal indeferiu o pedido de remição da pena pela aprovação no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos - Encceja, por ausência de previsão legal e pelo fato de a paciente estar vinculada a atividades regulares de ensino no interior do estabelecimento prisional (fls. 19-20). Interposto agravo em execução, o Tribunal de Justiça rechaçou o primeiro fundamento, mas manteve a negativa com base no segundo, negando provimento ao recurso (fls. 98-108). No presente writ, o impetrante sustenta que a paciente vem sofrendo grave constrangimento ilegal, pois faz jus à remição de pena pela aprovação no Encceja, conforme entendimento já pacificado pelo Superior Tribunal de Justiça. Afirma que, apesar de a paciente ter realizado atividades educacionais na unidade prisional relacionadas ao ensino fundamental, tal fato não impede a remição de pena pela aprovação no mencionado exame, devendo ser concedida a mais vantajosa, com abatimento dos dias remidos já concedidos pelo mesmo fato gerador. Por isso, requer, inclusive liminarmente, a concessão da ordem a fim de que seja determinada a remição pela aprovação da paciente no Encceja, com o abatimento dos dias já remidos pelo mesmo fato gerador. O pedido liminar foi indeferido (fls. 120-121). Parecer do Ministério Público Federal pela concessão da ordem (fls. 126-135). É o relatório. O Superior Tribunal de Justiça entende ser inadmissível a utilização do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio, previsto na legislação, impondo-se o não conhecimento da impetração. Sobre a questão, confiram-se os seguintes julgados desta Corte Superior: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DO HABEAS CORPUS COMO SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL. AGRAVO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto por Pablo da Silva contra decisão monocrática que não conheceu de habeas corpus, com base no entendimento de que o habeas corpus foi utilizado em substituição a revisão criminal. O agravante foi condenado a 1 ano de reclusão, com substituição da pena por restritiva de direitos, pela prática de furto (art. 155, caput, CP). A defesa pleiteou a conversão da pena restritiva de direitos em multa, alegando discriminação com base na condição financeira do paciente. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) definir se é cabível o conhecimento do habeas corpus utilizado em substituição à revisão criminal; e (ii) estabelecer se a escolha da pena restritiva de direitos, em vez de multa, configura discriminação por condição financeira. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O habeas corpus não é admitido como substituto de revisão criminal, conforme a jurisprudência consolidada do STJ e do STF, ressalvados casos de flagrante ilegalidade. 4. Não houve demonstração de ilegalidade evidente na escolha da pena restritiva de direitos, sendo esta compatível com a natureza do crime e as condições pessoais do condenado. IV. DISPOSITIVO E TESE 5. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O habeas corpus não pode ser utilizado como substituto de revisão criminal, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 2. A escolha de pena restritiva de direitos, em substituição à privativa de liberdade, não configura discriminação por condição financeira, desde que adequadamente fundamentada. Dispositivos relevantes citados: Código Penal, art. 155; STJ, AgRg no HC 861.867/SC; STF, HC 921.445/MS. (AgRg no HC n. 943.522/SC, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 22/10/2024, DJe de 4/11/2024.) PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. NULIDADE. ABSOLVIÇÃO IMPETRAÇÃO DE HABEAS CORPUS NA FLUÊNCIA DO PRAZO PARA A INTERPOSIÇÃO DE RECURSOS NA ORIGEM. IMPOSSIBILIDADE. 1. "O writ foi manejado antes do dies ad quem para a interposição da via de impugnação própria na causa principal, o recurso especial. Dessa forma, a impetração consubstancia inadequada substituição do recurso cabível ao Superior Tribunal de Justiça, não se podendo excluir a possibilidade de a matéria ser julgada por esta Corte na via de impugnação própria, a ser eventualment e interposta na causa principal" (AgRg no HC n. 895.954/DF, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo - Desembargador Convocado do TJSP, Sexta Turma, julgado em 12/8/2024, DJe de 20/8/2024.) 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 939.599/SE, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 23/10/2024, DJe de 28/10/2024.) Portanto, não se pode conhecer do presente habeas corpus. Por outro lado, o exame dos autos indica a existência de ilegalidade flagrante, apta a autorizar a concessão da ordem de ofício. O Tribunal de origem negou provimento ao agravo em execução interposto pela defesa, consignando, para tanto, que (fls. 106-108): Todavia, pelo que se vê, no caso concreto, muito embora a sentenciada tenha sido aprovada em todas as áreas de conhecimento sob análise, é certo que estava vinculada a atividades regulares de ensino no interior do estabelecimento prisional, tanto que vem frequentando o ensino fundamental desde pelo menos 01/08/2 024 (fls. 36), de maneira que, não é cabível a aplicação da Resolução nº 391/2021, do Conselho Nacional de Justiça, mas sim o que estabelece o art. 126, inciso I, §5º, da Lei de Execução Penal, com o acréscimo de 1/3 do tempo remido, em razão da aprovação no ENCCEJA. .. Afinal, pelo que se conclui da leitura dos dispositivos legais que regulamentam a matéria, a finalidade, na verdade, da remição pela aprovação no ENCCEJA, prevista pela Resolução nº 391/2021, é a de incentivar o indivíduo preso e não vinculado a atividades regulares de ensino - seja por falta de vagas ou por outros motivos - que estudou por conta própria e, ao final, premiá-lo pelo esforço empreendido e, assim, igualar a sua condição à daqueles sentenciados que conseguiram estudar na unidade prisional e alcançaram a conclusão dos ciclos da educação básica (ensinos fundamental e médio). Assim, como a sentenciada está vinculado a atividades regulares de ensino no interior do estabelecimento prisional - cujo tempo de estudo, vale observar, pode ser (e, ao que tudo indica, já foi) devidamente contabilizado depois de requisição perante o juízo de primeira instância, que deve avaliar, oportunamente, o cumprimento dos requisitos legais necessários - o improvimento do agravo é medida que se impõe à correta solução do caso em questão (grifei). V erifica-se que o entendimento exarado pelo Tribunal de origem, quanto ao impedimento de se conceder a remição de pena pela aprovação no Encceja à apenada que esteja vinculada a atividades regulares de ensino no interior da unidade prisional, está em desacordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. A propósito: EXECUÇÃO PENAL. RECURSO EM HABEAS CORPUS. REMIÇÃO DA PENA. EXECUÇÃO PENAL. APROVAÇÃO NO ENCCEJA. APENADO VINCULADO A ATIVIDADES REGULARES DE ENSINO NO INTERIOR DO ESTABELECIMENTO PRISIONAL. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA IN BONAM PARTEM. POSSIBILIDADE. MANIFESTA ILEGALIDADE VERIFICADA. WRIT NÃO CONHECIDO. ORDEM CONCEDIDA, DE OFÍCIO. 1. A jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça, como resultado de uma interpretação analógica in bonam partem da norma inserta no art. 126 da LEP, possui entendimento de que é possível a hipótese de abreviação da reprimenda em razão de atividades que não estejam expressas no texto legal. 3. A Recomendação n. 391 do CNJ indica aos Tribunais a possibilidade de remição por aprovação nos exames nacionais que certificam a conclusão do ensino fundamental Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) ou médio Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). 4. In casu, diante da possibilidade de interpretação extensiva in bonam partem, entende-se que cabe a remição até mesmo para presos que estudam por conta própria, não havendo falar em afastamento da possibilidade da concessão da benesse aos apenados que estejam vinculados a atividades regulares de ensino no interior do estabelecimento. 5. Habeas corpus não conhecido. Ordem concedida, de ofício, para reconhecer o direito do paciente à remição da pena pela aprovação no ENCCEJA (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos). (AgRg no RHC n. 185.243/MG, relator Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 11/3/2024, DJe de 13/3/2024, grifei.) RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DA PENA. APROVAÇÃO NO ENEM (EXAME NACIONAL DO ENSINO MÉDIO) APÓS A CONCLUSÃO DO ENSINO MÉDIO. INCENTIVO AO ESTUDO E À RESSOCIALIZAÇÃO COMO FINALIDADE PRECÍPUA DA PENA. INTERPRETAÇÃO EXTENSIVA DO ART. 126 DA LEI DE EXECUÇÃO PENAL - LEP. POSSIBILIDADE. RECOMENDAÇÃO N. 44/2013 DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA - CNJ. PRECEDENTES. ATIVIDADES NO INTERIOR DO PRESÍDIO. INEXISTÊNCIA DE OBSTÁCULO. ACRÉSCIMO DE 1/3 (UM TERÇO) PELA CONCLUSÃO DO ENSINO MÉDIO. IMPOSSIBILIDADE. RECURSO ESPECIAL PROVIDO. 1. Em razão de uma interpretação analógica in bonam partem da norma inserta no art. 126 da Lei de Execuções Penais, segundo reiterada jurisprudência desta Corte, é possível a hipótese de abreviação da reprimenda em razão de atividades que não tenham previsão expressa no texto legal. 2. Em relação à aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM, a jurisprudência desta Corte Superior já admitiu que a remição decorrente desta inegável conquista individual, pelo esforço pessoal que demanda do candidato que se submete ao exame, deve ser aplicada mesmo quando o Apenado está vinculado a atividades regulares de ensino no interior do estabelecimento prisional. 3. É cabível a remição pela aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM ainda que o Apenado já tenha concluído o ensino médio anteriormente, pois a aprovação no exame demanda estudos por conta própria mesmo para aqueles que, fora do ambiente carcerário, já possuem o referido grau de ensino. Desse modo, é devido o aproveitamento dos estudos realizados durante a execução da pena com o objetivo específico de lograr aprovação nesta exigente avaliação nacional, nos termos do art. 126 da Lei de Execução Penal e da Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça. 4. O fato de o Apenado já haver concluído o ensino médio antes do início da execução da pena impede apenas o acréscimo de 1/3 (um terço) no tempo a remir em função da conclusão da etapa de ensino, afastando-se a incidência do art. 126, § 5.º, da Lei de Execução Penal. 5. Recurso especial provido para determinar ao Juízo das Execuções Penais que examine o pedido de remição do Recorrente, nos termos do art. 1.º, inciso I, da Recomendação 44/2013-CNJ, considerando a aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM, ainda que ele já tenha concluído o ensino médio em momento anterior e mesmo que ele esteja vinculado a atividades regulares de ensino no interior do estabelecimento prisional. (REsp n. 1.854.391/DF, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 22/9/2020, DJe 6/10/2020, grifei.) Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para reconhecer o direito da paciente em ter sua pena remida em razão de sua aprovação no Encceja, determinando ao Juízo da execução que providencie os cálculos e anotações necessárias. Comunique-se, com urgência, ao Tribunal de origem e ao Juízo singular. Publique-se. Intimem-se. EMENTA