HC 1022471 - DECISAO
Não conheço do habeas corpus por se tratar, em essência, de substitutivo de recurso próprio; subsidiariamente, a exigência jurídica que impede a remição em duplicidade foi aplicada: tendo o paciente sido anteriormente beneficiado pela aprovação total no ENEM/2019, não é cabível nova remição pela aprovação posterior...
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- Parties
- Paciente: CLEITON DUDA DOS SANTOS; Órgão Julgador: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 06 August 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Monocrática (não Conhecimento)
- Outcome
- não conheço do habeas corpus
- Legal Topics
- Remição De Pena, ENEM, Bis in Idem, Admissibilidade Do Habeas Corpus, Cálculo De Carga Horária Para Remição
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Parties
CLEITON DUDA DOS SANTOS
Paciente
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Órgão Julgador
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Monocrática (não Conhecimento)
Legal Issues
- 1 Possibilidade de remição da pena por aprovação no ENEM quando já houve remição anterior pelo mesmo exame/nível e mesmas áreas
- 2 Admissibilidade do habeas corpus como substitutivo de recurso próprio e possibilidade de decisão monocrática do relator
Ratio Decidendi
Não conheço do habeas corpus por se tratar, em essência, de substitutivo de recurso próprio; subsidiariamente, a exigência jurídica que impede a remição em duplicidade foi aplicada: tendo o paciente sido anteriormente beneficiado pela aprovação total no ENEM/2019, não é cabível nova remição pela aprovação posterior no mesmo exame, nível e matérias, por configurar bis in idem.
Court Disposition
não conheço do habeas corpus
Orders
- Intimem-se.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus, sem pedido de liminar, interposto em benefício de CLEITON DUDA DOS SANTOS, impetrado acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, em julgamento do Agravo de Execução Penal n. 0002348-12.2025.8.26.0520. Consta dos autos que o Juiz das Execuções Criminais indeferiu o pedido de remição da pena por aprovação no Enem/2022, porque de acordo com o parecer da unidade prisional juntado à pág. 662 o(a) sentenciado(a) já havia concluído o ensino médio antes mesmo de dar início à execução da pena, no ano de 2019 (e-STJ, fls. 38/39). Contra a decisão, a defesa interpôs agravo em execução, perante a Corte de origem, que negou provimento ao recurso. O acórdão recebeu a seguinte ementa (e-STJ, fl. 11): AGRAVO EM EXECUÇÃO. Recurso defensivo. Remição de pena. Aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM 2022). Agravante que já havia sido beneficiado com a remição de pena pela aprovação no ENEM 2019. Inviabilidade de concessão do benefício em duplicidade por aprovação sucessiva nas mesmas áreas do conhecimento. Negado provimento ao recurso. Nesta impetração, a defesa informa que o paciente realizou o Exame Nacional do Ensino Médio no ano de 2023 sendo aprovado em todas a áreas. Sustenta ser devida a remição da pena pela aprovação no ENEM, ainda que o sentenciado já tenha concluído o ensino médio ou possua nível superior antes do início do cumprimento da pena, bem como o fato de já ter obtido remição anteriormente não inviabiliza novo reconhecimento do benefício por ocasião de outra aprovação. Explica que o benefício não está condicionado ao nível de escolaridade anterior, mas sim à efetiva participação e aprovação no exame, que tem natureza premial e pedagógica, porque demanda empenho, estudo e disciplina do apenado, buscando estimular a reintegração social do sentenciado por meio da dedicação contínua à educação formal ou certificadora de competências. Diante disso, requer seja reconhecida a remição da pena por aprovação no Enem/2022. É o relatório. Decido. As disposições previstas nos arts. 64, III, e 202 do Regimento Interno do Superior Tribunal de Justiça não afastam do Relator a faculdade de decidir liminarmente, em sede de habeas corpus e de recurso em habeas corpus, a pretensão que se conforma com súmula ou a jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores, ou a contraria (AgRg no HC n. 513.993/RJ, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 25/6/2019, DJe 1º/7/2019; AgRg no HC n. 475.293/RS, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 27/11/2018, DJe 3/12/2018; AgRg no HC n. 499.838/SP, Rel. Ministro JORGE MUSSI, Quinta Turma, julgado em 11/4/2019, DJe 22/4/2019; AgRg no HC n. 426.703/SP, Rel. Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 18/10/2018, DJe 23/10/2018; e AgRg no RHC n. 37.622/RN, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, julgado em 6/6/2013, DJe 14/6/2013). Nesse diapasão, uma vez verificado que as matérias trazidas a debate por meio do habeas corpus constituem objeto de jurisprudência consolidada neste Superior Tribunal, não há nenhum óbice a que o Relator conceda a ordem liminarmente, sobretudo ante a evidência de manifesto e grave constrangimento ilegal a que estava sendo submetido o paciente, pois a concessão liminar da ordem de habeas corpus apenas consagra a exigência de racionalização do processo decisório e de efetivação do próprio princípio constitucional da razoável duração do processo previsto no art. 5º, LXXVIII, da Constituição Federal, o qual foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela EC n. 45/2004 com status de princípio fundamental (AgRg no HC n. 268.099/SP, Relator Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, Sexta Turma, julgado em 2/5/2013, DJe 13/5/2013). Na verdade, a ciência posterior do Parquet, longe de suplantar sua prerrogativa institucional, homenageia o princípio da celeridade processual e inviabiliza a tramitação de ações cujo desfecho, em princípio, já é conhecido ( EDcl no AgRg no HC n. 324.401/SP, Relator Ministro GURGEL DE FARIA, Quinta Turma, julgado em 2/2/2016, DJe 23/2/2016). Em suma, para conferir maior celeridade aos habeas corpus e garantir a efetividade das decisões judiciais que versam sobre o direito de locomoção, bem como por se tratar de medida necessária para assegurar a viabilidade dos trabalhos das Turmas que compõem a Terceira Seção, a jurisprudência desta Corte admite o julgamento monocrático do writ antes da ouvida do Parquet em casos de jurisprudência pacífica (AgRg no HC n. 514.048/RS, Relator Ministro RIBEIRO DANTAS, Quinta Turma, julgado em 6/8/2019, DJe 13/8/2019). No que concerne ao conhecimento da impetração, o Supremo Tribunal Federal, por sua Primeira Turma, e a Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça, diante da utilização crescente e sucessiva do habeas corpus, passaram a restringir a sua admissibilidade quando o ato ilegal for passível de impugnação pela via recursal própria, sem olvidar a possibilidade de concessão da ordem, de ofício, nos casos de flagrante ilegalidade. Esse entendimento objetivou preservar a utilidade e a eficácia do mandamus, que é o instrumento constitucional mais importante de proteção à liberdade individual do cidadão ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a celeridade que o seu julgamento requer. Nesse sentido, confiram-se os seguintes julgados, exemplificativos dessa nova orientação das Cortes Superiores do País: HC n. 320.818/SP, Relator Ministro FELIX FISCHER, Quinta Turma, julgado em 21/5/2015, DJe 27/5/2015; e STF, HC n. 113.890/SC, Relatora Ministra ROSA WEBER, Primeira Turma, julg. em 3/12/2013, DJ 28/2/2014. Assim, de início, incabível o presente habeas corpus substitutivo de recurso próprio. Todavia, em homenagem ao princípio da ampla defesa, passa-se ao exame da insurgência para verificar a existência de eventual constrangimento ilegal passível de ser sanado pela concessão da ordem, de ofício. Pedido de remição por aprovação no Enem 2022, quando aprovado anteriormente no Enem 2019 O Tribunal manteve o indeferimento do benefício - STJ, fls. 12/15: O recurso não comporta provimento. Conforme se infere dos autos da execução criminal n. 0005314-21.2020.8.26.0520, o agravante participou do ENEM 2022, obtendo aprovação no certame, uma vez que alcançou nota superior a 450 nas áreas de conhecimento e a 500 na redação (fls. 591 - autos principais). .. No presente caso, contudo, verifica-se que, em razão de sua aprovação no ENEM 2019 em todas as cinco áreas do conhecimento (Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Redação, Matemática e suas Tecnologias, Ciências Humanas e suas Tecnologias e Ciências da Natureza e suas Tecnologias), foi conferido ao sentenciado o direito à remição de 100 dias de pena (fls. 336/344 autos principais). .. Diante disso, inviável acolher a pretendida remição em razão da aprovação no exame posterior, porquanto teria fundamento no mesmo fato gerador, configurando bis in idem. Sobre a impossibilidade de concessão da remição da pena por aprovações sucessivas no ENEM, já decidiu o E. Superior Tribunal de Justiça: .. Assim, o agravante não faz jus à remição de pena pretendida, em duplicidade. Ante o exposto, pelo meu voto, nego provimento ao agravo defensivo. O entendimento das instâncias de origem está em consonância com o desta Corte. Ainda que o executado tenha sido aprovado em todas as matérias no Enem/2022, conforme comprovou - STJ, fl. 18 -, é fato incontroverso nos autos que ele já foi beneficiado anteriormente pela aprovação total no Enem/2019. Assim, como as duas provas se tratam do mesmo fato gerador (mesmo exame, mesmo nível de ensino e mesmas matérias), não pode o apenado ser beneficiado novamente, sob pena de duplicidade de benefícios. Nesse sentido: AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO. ENEM. BENEFÍCIO EM DUPLICIDADE. INVIABILIDADE. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. "É inviável a concessão de remição em duplicidade, assim considerada aquela que recai sobre o mesmo nível de ensino mais de uma vez, ainda que em meio presencial e por exame de competências" (AgRg no HC n. 799.625/PR, relator Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma, julgado em 22/5/2023, DJe de 24/5/2023.) 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no AREsp n. 2.576.955/ES, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 24/9/2024, DJe de 30/9/2024.) AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DA PENA POR APROVAÇÃO NO EXAME NACIONAL PARA CERTIFICAÇÃO DE COMPETÊNCIAS DE JOVENS E ADULTOS (ENCCEJA) - ENSINO FUNDAMENTAL NO ANO DE 2017. NOVA REMIÇÃO PELA APROVAÇÃO NO MESMO EXAME EM 2018. IMPOSSIBILIDADE. BASE DE CÁLCULO CONFORME LEI N. 9.394/1996 E RECOMENDAÇÃO N. 44/2013 DO CNJ. JURISPRUDÊNCIA FIRMADA PELA TERCEIRA SEÇÃO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. AGRAVO PARCIALMENTE PROVIDO. 1. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é pacífica sobre a impossibilidade de nova remição pela segunda aprovação nas mesmas matérias do ensino fundamental em outro exame, a qual não pode ser duplamente considerada, sob pena de bis in idem. Precedentes. 2. Todavia, a Terceira Seção do STJ, no julgamento do HC n. 602.425/SC (concluído em 10/03/2021, Rel. p/ acórdão Ministro REYNALDO SOARES DA FONSECA), filiou-se à compreensão desenvolvida pela Quinta Turma deste Tribunal, no sentido de considerar como bases de cálculo para a remição pela aprovação no ENCCEJA os totais de 1.600 (mil e seiscentas) horas para os anos finais do ensino fundamental e 1.200 (mil e duzentas) horas para o ensino médio, o que corresponde a 50% (cinquenta por cento) da carga horária legalmente prevista para os referidos níveis de ensino, nos termos da Lei n. 9.394/1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e Recomendação n. 44/2013 do Conselho Nacional de Justiça. 3. Assim, no caso, o Paciente foi aprovado em todas as áreas de conhecimento do ENCCEJA/Ensino Fundamental, razão pela qual, conforme a jurisprudência dominante nesta Corte Superior, tem direito à remição de 133 (cento e trinta e três) dias de pena, com acréscimo de 1/3 (um terço) pela conclusão desta etapa de ensino, nos termos do art. 126, § 5.º, da Lei de Execução Penal, totalizando 177 (cento e setenta e sete) dias remidos. 4. Agravo regimental parcialmente provido para deferir ao Paciente a remição de 177 (cento e setenta e sete) dias de pena pela aprovação em 5 (cinco) áreas do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens Adultos - ENCCEJA/Ensino Fundamental, no ano de 2017. (AgRg no HC n. 608.477/SC, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 8/6/2021, DJe de 21/6/2021.) Ante o exposto, com amparo no art. 34, XX, do Regimento Interno do STJ, não conheço do habeas corpus. Intimem-se. EMENTA