HC 1022433 - DECISAO
Embora o habeas corpus não deva ser conhecido quando utilizado como sucedâneo de recurso próprio, há flagrante ilegalidade na manutenção do indeferimento da remição por leitura pelo Tribunal de origem, porque a jurisprudência do STJ admite a remição por leitura em interpretação extensiva do art.126 da LEP quando...
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- Parties
- Paciente: HELENICE OLIVEIRA DA SILVA NUNES; Autoridade Coatora: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 07 August 2025
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento Do Habeas Corpus E Concessão De Ordem De Ofício Pelo STJ
- Outcome
- não conhecimento do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio; concessão da ordem de ofício para determinar ao Juízo da execução que, caso atendidas as condições da Resolução CNJ nº 391/2021, realize o cômputo de remição de pena pelo período de leitura
- Legal Topics
- Remição De Pena, Remição Por Leitura, Resolução CNJ Nº 391/2021, Art. 126 Da Lei De Execução Penal, Uso Do Habeas Corpus Como Sucedâneo De Recurso
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Parties
HELENICE OLIVEIRA DA SILVA NUNES
Paciente
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Autoridade Coatora
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão De Não Conhecimento Do Habeas Corpus E Concessão De Ordem De Ofício Pelo STJ
Legal Issues
- 1 cabimento do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio
- 2 admissibilidade da remição de pena por leitura
- 3 observância dos requisitos da Resolução CNJ nº 391/2021 para remição por leitura
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus não deva ser conhecido quando utilizado como sucedâneo de recurso próprio, há flagrante ilegalidade na manutenção do indeferimento da remição por leitura pelo Tribunal de origem, porque a jurisprudência do STJ admite a remição por leitura em interpretação extensiva do art.126 da LEP quando atendidos os requisitos da Resolução CNJ nº 391/2021; por isso o STJ não conheceu do habeas corpus, mas concedeu a ordem de ofício determinando ao Juízo da execução que, caso atendidas as condições da Resolução n.391/2021, realize o cômputo para remição da pena pelo período de leitura.
Court Disposition
não conhecimento do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio; concessão da ordem de ofício para determinar ao Juízo da execução que, caso atendidas as condições da Resolução CNJ nº 391/2021, realize o cômputo de remição de pena pelo período de leitura
Orders
- Determinar ao Juízo da execução que, caso atendidas as condições impostas na Recomendação n. 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça, realize o cômputo, para remição da pena, do período compreendido de leitura
- Comunique-se
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DECISÃO Trata-se de habeas corpus com pedido de liminar impetrado em favor de HELENICE OLIVEIRA DA SILVA NUNES em que se aponta como autoridade coatora o TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Na peça, a defesa informa que a paciente realizou a leitura de obra literária e elaborou a correspondente resenha, requerendo a remição da pena com base na Resolução n. 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça, o que foi negado pelo Juízo de piso. A decisão foi ratificada pela autoridade coatora em agravo em execução (fl. 3). A defesa sustenta que o art. 126 da Lei de Execução Penal prevê o direito do condenado que cumpre pena em regime fechado ou semiaberto de remir parte de sua pena pelo estudo, incluindo a leitura como atividade de estudo (fl. 3). Afirma que a Resolução n. 391/2021 do CNJ, em seu art. 2º, reconhece o direito à remição de pena por meio de práticas sociais educativas, incluindo a leitura de obras literárias (fl. 3). No mérito, a defesa requer a concessão da ordem para deferir a remição da pena à paciente. É o relatório. O Superior Tribunal de Justiça entende ser inadmissível a utilização do habeas corpus como sucedâneo de recurso próprio, previsto na legislação, impondo-se o não conhecimento da impetração. Sobre a questão, confiram-se os seguintes julgados desta Corte Superior: DIREITO PENAL E PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL EM HABEAS CORPUS. CONDENAÇÃO TRANSITADA EM JULGADO. IMPOSSIBILIDADE DE UTILIZAÇÃO DO HABEAS CORPUS COMO SUCEDÂNEO DE REVISÃO CRIMINAL. AGRAVO DESPROVIDO. I. CASO EM EXAME 1. Agravo regimental interposto por Pablo da Silva contra decisão monocrática que não conheceu de habeas corpus, com base no entendimento de que o habeas corpus foi utilizado em substituição a revisão criminal. O agravante foi condenado a 1 ano de reclusão, com substituição da pena por restritiva de direitos, pela prática de furto (art. 155, caput, CP). A defesa pleiteou a conversão da pena restritiva de direitos em multa, alegando discriminação com base na condição financeira do paciente. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. Há duas questões em discussão: (i) definir se é cabível o conhecimento do habeas corpus utilizado em substituição à revisão criminal; e (ii) estabelecer se a escolha da pena restritiva de direitos, em vez de multa, configura discriminação por condição financeira. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. O habeas corpus não é admitido como substituto de revisão criminal, conforme a jurisprudência consolidada do STJ e do STF, ressalvados casos de flagrante ilegalidade. 4. Não houve demonstração de ilegalidade evidente na escolha da pena restritiva de direitos, sendo esta compatível com a natureza do crime e as condições pessoais do condenado. IV. DISPOSITIVO E TESE 5. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: 1. O habeas corpus não pode ser utilizado como substituto de revisão criminal, salvo em casos de flagrante ilegalidade. 2. A escolha de pena restritiva de direitos, em substituição à privativa de liberdade, não configura discriminação por condição financeira, desde que adequadamente fundamentada. Dispositivos relevantes citados: Código Penal, art. 155; STJ, AgRg no HC 861.867/SC; STF, HC 921.445/MS. (AgRg no HC n. 943.522/SC, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 22/10/2024, DJe de 4/11/2024.) PROCESSUAL PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS. NULIDADE. ABSOLVIÇÃO IMPETRAÇÃO DE HABEAS CORPUS NA FLUÊNCIA DO PRAZO PARA A INTERPOSIÇÃO DE RECURSOS NA ORIGEM. IMPOSSIBILIDADE. 1. "O writ foi manejado antes do dies ad quem para a interposição da via de impugnação própria na causa principal, o recurso especial. Dessa forma, a impetração consubstancia inadequada substituição do recurso cabível ao Superior Tribunal de Justiça, não se podendo excluir a possibilidade de a matéria ser julgada por esta Corte na via de impugnação própria, a ser eventualmente interposta na causa principal" (AgRg no HC n. 895.954/DF, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo - Desembargador Convocado do TJSP, Sexta Turma, julgado em 12/8/2024, DJe de 20/8/2024.) 2. Agravo regimental desprovido. (AgRg no HC n. 939.599/SE, relator Ministro Antonio Saldanha Palheiro, Sexta Turma, julgado em 23/10/2024, DJe de 28/10/2024.) Portanto, não se pode conhecer do presente habeas corpus. Por outro lado, o exame dos autos indica a existência de ilegalidade flagrante apta a autorizar a concessão da ordem de ofício. O Tribunal de origem negou provimento ao agravo em execução interposto pela defesa nos seguintes termos (fls. 52-53): Malgrada previsão constante na Resolução/CNJ, nº 391/21, sucessora da Recomendação nº 44, art. 3º, parágrafo único, inviável a concessão de remição por leitura. Com efeito, desatendidas as exigências estabelecidas na LEP, art. 126, § 1º, e Súmula/STJ, nº 341. Há necessidade de frequência em atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional, a serem desenvolvidas de forma presencial ou de ensino à distância, devidamente certificadas pelas autoridades educacionais competentes dos cursos frequentados. Não se olvida que a leitura é um instrumento de crescimento intelectual e de transformação pessoal, que estimula a análise crítica e, consequentemente, gera resultados positivos à ressocialização; todavia, não está elencada na legislação pertinente como meio de remição e, acertadamente, não pode assim ser equiparada. Ademais, pretendesse o legislador a concessão da remição pela leitura de obras literárias, assim teria feito constar no texto de lei, cujo conceito não pode ser estendido, em obediência ao princípio da legalidade penal. Nesse sentido, entendimento desta Câmara1. Diante do exposto, nega-se provimento ao agravo. A análise da apontada ilegalidade demanda a leitura da Recomendação n. 391/2021, do Conselho Nacional de Justiça, que assim dispõe sobre a remição pela leitura: Art. 2º O reconhecimento do direito à remição de pena por meio de práticas sociais educativas considerará as atividades escolares, as práticas sociais educativas não escolares e a leitura de obras literárias. .. Art. 5º Terão direito à remição de pena pela leitura as pessoas privadas de liberdade que comprovarem a leitura de qualquer obra literária, independentemente de participação em projetos ou de lista prévia de títulos autorizados, considerando-se que: I - a atividade de leitura terá caráter voluntário e será realizada com as obras literárias constantes no acervo bibliográfico da biblioteca da unidade de privação de liberdade; II - o acervo bibliográfico poderá ser renovado por meio de doações de visitantes ou organizações da sociedade civil, sendo vedada toda e qualquer censura a obras literárias, religiosas, filosóficas ou científicas, nos termos dos art. 5º , IX, e 220, § 2º , da Constituição Federal; III - o acesso ao acervo da biblioteca da unidade de privação de liberdade será assegurado a todas as pessoas presas ou internadas cautelarmente e àquelas em cumprimento de pena ou de medida de segurança, independentemente do regime de privação de liberdade ou regime disciplinar em que se encontrem; IV - para fins de remição de pena pela leitura, a pessoa em privação de liberdade registrará o empréstimo de obra literária do acervo da biblioteca da unidade, momento a partir do qual terá o prazo de 21 (vinte e um) a 30 (trinta) dias para realizar a leitura, devendo apresentar, em até 10 (dez) dias após esse período, um relatório de leitura a respeito da obra, conforme roteiro a ser fornecido pelo Juízo competente ou Comissão de Validação; V - para cada obra lida corresponderá a remição de 4 (quatro) dias de pena, limitando-se, no prazo de 12 (doze) meses, a até 12 (doze) obras efetivamente lidas e avaliadas e assegurando-se a possibilidade de remir até 48 (quarenta e oito) dias a cada período de 12 (doze) meses. § 1º O Juízo competente instituirá Comissão de Validação, com atribuição de analisar o relatório de leitura, considerando-se, conforme o grau de letramento, alfabetização e escolarização da pessoa privada de liberdade, a estética textual (legibilidade e organização do relatório), a fidedignidade (autoria) e a clareza do texto (tema e assunto do livro lido), observadas as seguintes características: Nos trechos do acórdão colacionados, observa-se que o Tribunal de origem manteve a decisão que indeferiu o pedido de remição pela leitura com fundamento na ausência de previsão legal. Nessas circunstâncias, verifico a existência de constrangimento ilegal apto a ensejar a concessão da ordem, uma vez que a jurisprudência desta Corte Superior "admite a remição de pena por leitura, em interpretação extensiva do art. 126 da Lei de Execução Penal, desde que atendidos os requisitos estabelecidos na Resolução n. 391/2021 do CNJ" (RHC n. 193.288/MG, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 11/3/2025, DJEN de 18/3/2025). Nesse mesmo sentido: DIREITO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO DE PENA POR LEITURA. PROJETO FORMALIZADO. AGRAVO DESPROVIDO. I. Caso em exame 1. Agravo regimental interposto pelo Ministério Público Federal contra decisão que concedeu habeas corpus para restabelecer decisão do juiz da execução, autorizando a remição de pena por leitura de obras literárias. 2. O agravado teve deferido o pedido de remição com base em leitura, decisão posteriormente cassada após recurso do MP. II. Questão em discussão 3. A questão em discussão consiste em saber se a remição de pena por leitura, não expressamente prevista no art. 126 da Lei de Execução Penal, pode ser autorizada com base em interpretação extensiva e Resolução do CNJ. 4. Alega-se que a falta de previsão legal não pode ser suprida por Resolução do CNJ, em respeito à separação dos poderes. III. Razões de d ecidir 5. A jurisprudência do STJ admite a remição por leitura, em interpretação extensiva do art. 126 da LEP, desde que atendidos os requisitos estabelecidos em Resolução do CNJ. 6. A decisão agravada foi mantida por seus próprios fundamentos, não havendo argumentos novos no agravo regimental que justifiquem sua reforma. No caso concreto, o apenado participava de grupo formal de leitura, em projeto oficial e legalmente instituído. IV. Dispositivo e tese 7. Agravo regimental desprovido. Tese de julgamento: "1. A remição de pena por leitura é admissível em interpretação extensiva do art. 126 da LEP, desde que atendidos os requisitos da Resolução do CNJ. 2. A falta de previsão legal específica não impede a remição por leitura, desde que devidamente comprovada e, em especial, quando em projeto formalizado". Dispositivos relevantes citados: LEP, art. 126; Resolução CNJ nº 391/2021. Jurisprudência relevante citada: STJ, AgRg no REsp 1.935.335/RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, DJe 8/6/2021; STJ, AgRg no HC n. 692.779/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro Dantas, DJe de 14/2/2022. (AgRg no HC n. 897.728/SP, relator Ministro Messod Azulay Neto, Quinta Turma, julgado em 27/11/2024, DJEN de 5/12/2024 - grifei.) No caso dos autos, deve ser ressaltado que as instâncias ordinárias não fizeram nenhuma menção ao descumprimento das condições estabelecidas pela Recomendação n. 391/2021 do Conselho Nacional de Justiça. Ante o exposto, não conheço do habeas corpus, mas concedo a ordem de ofício para determinar ao Juízo da execução que, caso atendidas as condições impostas na Recomendação n. 391/2021, do Conselho Nacional de Justiça, realize o cômputo, para remição da pena, do período compreendido de leitura. Comunique-se. Publique-se. Intimem-se. EMENTA