HC 968642 - DECISAO
Embora o habeas corpus não deva servir como substitutivo de recurso próprio, verificou-se flagrante ilegalidade no acórdão do Tribunal de origem por divergir da orientação desta Corte no sentido de que as horas de estudo excedentes à carga de 4 horas diárias devem ser computadas para fins de remição; por isso,...
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- Parties
- Paciente: Paciente; Impetrante: Defesa; Ministerio Publico Federal: Ministério Público Federal
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 23 December 2024
- Procedural Posture
- Habeas Corpus / Decisão Da Terceira Seção
- Outcome
- Não conhecido como habeas corpus substitutivo, mas ordem concedida de ofício para determinar o cômputo das horas de estudo excedentes à carga diária de 4 (quatro) horas no cálculo da remição.
- Legal Topics
- Remição Por Estudo, Cômputo De Horas Excedentes, Habeas Corpus, Princípio Da Humanidade, Isonomia Com Remição Por Trabalho
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Parties
Paciente
Paciente
Defesa
Impetrante
Ministério Público Federal
Ministerio Publico Federal
Procedural Posture
Habeas Corpus / Decisão Da Terceira Seção
Legal Issues
- 1 possibilidade de cômputo das horas excedentes de estudo para remição da pena
- 2 cabimento do habeas corpus substitutivo de recurso
Ratio Decidendi
Embora o habeas corpus não deva servir como substitutivo de recurso próprio, verificou-se flagrante ilegalidade no acórdão do Tribunal de origem por divergir da orientação desta Corte no sentido de que as horas de estudo excedentes à carga de 4 horas diárias devem ser computadas para fins de remição; por isso, concedeu-se, de ofício, a ordem para que essas horas sejam consideradas no cálculo da remição.
Court Disposition
Não conhecido como habeas corpus substitutivo, mas ordem concedida de ofício para determinar o cômputo das horas de estudo excedentes à carga diária de 4 (quatro) horas no cálculo da remição.
Orders
- Determinar que as horas de estudo que excederam a carga de 4 (quatro) horas diárias sejam consideradas no cálculo da remição.
- Comunique-se o Tribunal de origem e o juízo singular.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de habeas corpus impetrado contra acórdão assim ementado: PENAL. PROCESSUAL PENAL. AGRAVO EM EXECUÇÃO. REMIÇÃO POR ESTUDO NA MODALIDADE A DISTÂNCIA. INDEFERIMENTO. RECURSO DEFENSIVO. Pretendida extensão do benefício a excedente em horas, desprezado para fins de cálculo no piso. Mérito. Remição. Estudo. Art. 126, §1º, inciso I, da LEP. Remição declarada em conformidade com a norma de regência. A necessidade de divisão da frequência de 12 horas de estudo em, no mínimo, 3 dias, impõe, por lógica consequência, a carga máxima de 4 horas por dia, devendo ser desprezado o que exceder. Sentenciado que, no caso, por estudar 336 horas, faz jus apenas a remição de 18 dias. Precedentes. Tempo excedente ao máximo legal desconsiderado. Negado provimento. O paciente cumpre pena privativa de liberdade em regime fechado. A defesa alega, em síntese, que as horas excedentes de estudo devem ser computadas no cálculo dos dias remidos. Ao final, requer a concessão da ordem para que os dias remidos sejam considerados integralmente, incluídas as situações em que a jornada diária ultrapassou 4 (quatro) horas. É o relatório. Decido. A Terceira Seção desta Corte, seguindo entendimento firmado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, sedimentou orientação no sentido de não admitir habeas corpus em substituição a recurso próprio ou a revisão criminal, situação que impede o conhecimento da impetração, ressalvados casos excepcionais em que se verifica flagrante ilegalidade apta a gerar constrangimento ilegal. Veja-se: "O habeas corpus não pode ser utilizado como substitutivo de recurso próprio, a fim de que não se desvirtue a finalidade dessa garantia constitucional, com a exceção de quando a ilegalidade apontada é flagrante, hipótese em que se concede a ordem de ofício" (AgRg no HC n. 895.777/PR, Relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 2/4/2024, DJe de 8/4/2024). "De acordo com a jurisprudência do STJ, não é cabível o uso de habeas corpus como sucedâneo de revisão criminal, notadamente quando não há indicação de incidência de alguma das hipóteses previstas no art. 621 do CPP. Precedentes" (AgRg no HC n. 864.465/SC, Relator Ministro Rogerio Schietti Cruz, Sexta Turma, julgado em 18/3/2024, DJe de 20/3/2024). A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal é no mesmo sentido: "Do ponto de vista processual, o caso é de habeas corpus substitutivo de agravo regimental (cabível na origem). Nessas condições, tendo em vista a jurisprudência da Primeira Turma desta Corte, entendo que o processo deve ser extinto sem resolução de mérito, por inadequação da via eleita (HC 115.659, Rel. Min. Luiz Fux) (..) A orientação jurisprudencial deste Tribunal é no sentido de que o habeas corpus não se revela instrumento idôneo para impugnar decreto condenatório transitado em julgado (HC 118.292-AgR, Rel. Min. Luiz Fux). 4. O caso atrai o entendimento desta Corte no sentido de que não cabe habeas corpus para reexaminar os pressupostos de admissibilidade de recurso interposto perante outros Tribunais (HC 146.113-AgR, Rel. Min. Luiz Fux; e HC 110.420, Rel. Min. Luiz Fux). (..) (HC 225896 AgR, Relator Ministro Luís Roberto Barroso, Primeira Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 17/5/2023). O entendimento é de elevada importância, devendo ser utilizado para preservar a real utilidade e eficácia da ação constitucional, qual seja, a proteção da liberdade da pessoa, quando ameaçada por ato ilegal ou abuso de poder, garantindo a necessária celeridade no seu julgamento. A concessão de ofício da ordem, nos termos dos arts. 647-A e 654, § 2º, do Código de Processo Penal, depende da existência de flagrante ilegalidade, o que verifico. O paciente pleiteou, no Juízo de Execução, a remição de 31 (trinta e um) dias de estudo, com o cômputo das horas excedentes ao limite diário de 4 (quatro). Indeferido o pedido, a defesa interpôs agravo em execução ao qual o Tribunal local negou provimento valendo-se da seguinte fundamentação (e-STJ fls. 53-56): "Diante da documentação apresentada, verifica-se que o excedente em horas deve beneficiar o agravante na análise do requisito subjetivo para fins de benefícios que assim o reclamem, como a progressão de regime e o livramento condicional, sem prejuízo do próprio ganho pessoal advindo, naturalmente, pela verticalização em atividades de estudo para o indivíduo. Para fins de remição, no entanto, o que se prestigia é a continuidade nos estudos, o que levou o legislador a imprimir o cálculo acima descrito, habilitando ao desconto apenas a proporção de doze horas diluídas em três dias, o que estipula a razão de quatro horas por dia de estudo. Na espécie, calculado o período de 94 dias de estudo, ou seja, 336 horas, pelo cálculo, atingiu-se corretamente o montante de 18 dias remidos nos termos da legislação especial, aplicável com prioridade à luz do princípio da especialidade, de forma a se desconsiderar o excedente atingido, para fins de cálculo em remição penal. (..) Deve baldar, enfim, o recurso lançado. Do exposto, pelo meu voto, NEGO PROVIMENTO ao agravo, mantendo-se a r. decisão judicial por seus fundamentos." Verifico que o entendimento do Tribunal de origem destoa da orientação firmada por esta Corte no sentido da possibilidade de cômputo das horas excedentes de estudo no cálculo da remição. Nesse sentido: EXECUÇÃO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. REMIÇÃO POR ESTUDO. LIMITE. ATIVIDADE ESCOLAR. TEMPO QUE EXCEDEU A CARGA DE 4 HORAS DIÁRIAS QUE DEVE SER COMPUTADO PARA REMIR A PENA. ISONOMIA COM A HIPÓTESE DE REMIÇÃO POR TRABALHO. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. Não se desconhece o entendimento desta Corte Superior no sentido de que a interpretação extensiva de que a jornada máxima de estudo fixada em 4 horas por dia decorre da especificada determinada pela literalidade normativa. 2. Ocorre que, tendo a norma do art. 126 da LEP o objetivo de ressocialização do condenado, deve-se observar o recente entendimento da decisão proferida no âmbito da Sexta Turma desta Corte Superior, no julgamento do HC 461.047/SP, Rel. Ministra LAURITA VAZ, DJe 14/08/2020, no sentido de ser possível a remição das horas excedentes de estudo, não se limitando a jornada de estudo em 4 horas por dia. 3. Não se mostra razoável admitir-se horas extras na remição pelo trabalho e, por outro lado, negá-las quando a remição é feita por meio do estudo. 4. Agravo regimental não provido. (AgRg no AREsp n. 1.720.688/SC, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 6/10/2020, DJe de 13/10/2020.) HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. REMIÇÃO POR ESTUDO. LIMITE HORÁRIO DE ATIVIDADE ESCOLAR ULTRAPASSADO. TEMPO QUE EXCEDEU A CARGA DE 4 HORAS DIÁRIAS QUE DEVE SER COMPUTADO PARA REMIR A PENA. ISONOMIA COM A HIPÓTESE DE REMIÇÃO POR TRABALHO. DOUTRINA. PRINCÍPIO DA HUMANIDADE. ORDEM DE HABEAS CORPUS CONCEDIDA. 1. O art. 126 da Lei de Execuções Penais prevê duas hipóteses de remição da pena: por trabalho ou por estudo. 2. No caso de frequência escolar, prescreve o inciso I, do § 1.º, do art. 126, da LEP, que o Reeducando poderá remir 1 dia de pena a cada 12 horas de atividade, divididas, no mínimo, em 3 dias. 3. É certo que, para fins de remição da pena pelo trabalho, a jornada não pode ser superior a oito horas (STF, HC 136.701, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, julgado em 19/06/2018, DJe 31/07/2018; v.g.). Por isso, no caso de superação da jornada máxima de 8 horas, o Superior Tribunal de Justiça firmou entendimento de que "eventuais horas extras devem ser computadas quando excederem a oitava hora diária, hipótese em que se admite o cômputo do excedente para fins de remição de pena" (HC 462.464/SP, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA, julgado em 20/09/2018, DJe 28/09/2018). 4. O inciso II do art. 126 da Lei de Execuções Penais limita-se a referir que a remição ali regrada ocorre à razão de "1 (um) dia de pena a cada 3 (três) dias de trabalho". Diferentemente, para o caso de estudo, a jornada máxima está prevista na LEP, ao descrever que a remição é de "1 (um) dia de pena a cada 12 (doze) horas de frequência escolar - atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional - divididas, no mínimo, em 3 (três) dias" (que resulta média máxima de 4 horas por dia). Todavia, a circunstância de a LEP limitar apenas as horas de estudos não pode impedir a equiparação com a situação da remição por trabalho. A mens legis que mais se aproxima da intenção ressocializadora da LEP é a de que tal detalhamento, no inciso II, seria na verdade despiciendo, porque o propósito da norma foi o de reger-se pela jornada máxima prevista pela legislação trabalhista. Não é possível interpretar o art. 126 como se o Legislador tivesse diferenciado as hipóteses de remição para impedir que apenas as horas excedentes de estudo não pudessem ser remidas - o que, a propósito, não está proibido expressamente para nenhuma das duas circunstâncias. 5. " N enhum esforço da pessoa presa para reduzir seu grau de vulnerabilidade - em especial em um ambiente dessocializador por natureza - pode ser desprezado. Em última análise, o princípio da humanidade demanda que todas as oportunidades redutoras de danos sejam aproveitadas, evitando-se desperdícios de esforço humano e tempo existencial. .. . N ão é razoável, nem proporcional, admitir-se a interpretação ampliativa da lei para efeito de remição por trabalho e vedá-la para fins de remição por estudo" (ROIG, Rodrigo Duque Estrada. Execução Penal: Teoria Crítica. 4.ª Ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018, pp. 419-420). 6. Na espécie, como entre 15/06/2016 e 29/03/2017 o Paciente frequentou curso de ensino regular ou profissionalizante por 4 horas e 10 minutos diários (ou seja, 12 horas e 30 minutos a cada 3 dias), o tempo excedido ao limite legal de 12 horas a cada 3 dias também deve ser considerado para diminuir a pena, para guardar isonomia com a hipótese de remição por trabalho. 7. Ordem de habeas corpus concedida para que a atividade escolar que excedeu a carga de 4 horas diárias seja computada para fins de remição, cont ada conforme a primeira parte do inciso I, do § 1.º, do art. 126, da Lei de Execução Penal. (HC n. 461.047/SP, relatora Ministra Laurita Vaz, Sexta Turma, julgado em 4/8/2020, DJe de 14/8/2020.) (Grifos acrescidos) Ante o exposto, não conheço do habeas corpus substitutivo, mas concedo a ordem, de ofício, para determinar que as horas de estudo que excederam a carga de 4 (quatro) horas diárias sejam consideradas no cálculo da remição. Comunique-se o Tribunal de origem e o juízo singular. Ciência ao Ministério Público Federal. Publique-se. Intimem-se. EMENTA