REsp 2127967 - DECISAO
Negou-se provimento ao recurso especial porque, embora houvesse pedido expresso de reparação mínima na denúncia, não foi indicada a quantia pretendida nem houve fundamentação idônea na sentença ou instrução específica que permitisse o exercício do contraditório e da ampla defesa, em conformidade com a jurisprudência...
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- Parties
- Recorrente: MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO TOCANTINS; Recorridos: Recorridos
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 03 September 2024
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão De Mérito (negado Provimento)
- Outcome
- Recurso especial negado provimento
- Legal Topics
- Reparação De Danos, Indenização, Dano Moral in Re Ipsa, Circunstâncias Judiciais, Valoração Da Culpabilidade, Regime Semiaberto, Art. 387, IV, CPP
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Parties
MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO TOCANTINS
Recorrente
Recorridos
Recorridos
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão De Mérito (negado Provimento)
Legal Issues
- 1 Exigência de pedido expresso e indicação do montante na denúncia para fixação de indenização na sentença (art. 387, IV, CPP)
- 2 Possibilidade de dispensa de instrução específica quando há dano moral in re ipsa, sem afastar a necessidade de pedido e indicação do valor
- 3 Valoração negativa da culpabilidade por crime praticado em regime semiaberto
Ratio Decidendi
Negou-se provimento ao recurso especial porque, embora houvesse pedido expresso de reparação mínima na denúncia, não foi indicada a quantia pretendida nem houve fundamentação idônea na sentença ou instrução específica que permitisse o exercício do contraditório e da ampla defesa, em conformidade com a jurisprudência do STJ (art. 387, IV, CPP), portanto devendo ser excluída a condenação ao pagamento da indenização; aplicou-se a Súmula 568/STJ para decisão monocrática.
Court Disposition
Recurso especial negado provimento
Orders
- Nego provimento ao recurso especial.
- Publique-se e intimem-se.
Full Case Text
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1 paragraphs
DECISÃO Trata-se de recurso especial interposto pelo MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO TOCANTINS contra acórdão proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO TOCANTINS, no julgamento da Apelação Criminal n. 0011403-03.2022.8.27.2706, assim ementado (fls. 555-556): 1. APELAÇÃO CRIMINAL. RECEPTAÇÃO. VALORAÇÃO NEGATIVA DA CULPABILIDADE. FUNDAMENTAÇÃO INIDÔNEA. CRIME PRATICADODURANTE O GOZO DE REGIME SEMI-ABERTO. PRECEDENTES JURISPRUDENCIAIS. FUNDAMENTAÇÃO VÁLIDA. Não se vislumbra a alegada inidoneidade da fundamentação utilizada para valorar negativamente a circunstância da culpabilidade, sobretudo porque evidenciado que os réus praticaram a conduta criminosa enquanto no gozo de regime semi-aberto, o que demonstra a reprovabilidade exacerbada de suas condutas, ante ao descaso com a ordem jurídica e social e com as punições estatais a si cominadas, pelo que se reputa adequada a valoração negativa da circunstância, já que satisfatória e harmônica com a jurisprudência acerca do tema 2. CIRCUNSTÂNCIAS JUDICIAIS. PERCENTUAL DIVERSO DE 1/8. FACULDADE DO JUIZ. SENTENÇA MANTIDA. A jurisprudência e a doutrina passaram a reconhecer como critério ideal para individualização da reprimenda-base o aumento na fração de 1/8 por cada circunstância judicial negativamente valorada, a incidir sobre o intervalo de pena abstratamente estabelecido no preceito secundário do tipo penal incriminador. Ocorre que o referido patamar é meramente norteador, que busca apenas garantir a segurança jurídica e a proporcionalidade do aumento da pena, sendo facultado ao juiz, no exercício de sua discricionariedade motivada, adotar quantum de incremento diverso diante das peculiaridades do caso concreto e do maior desvalor do agir do réu. 3. REPARAÇÃO DE DANOS. PEDIDO EXPRESSO. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTAÇÃO E INSTRUÇÃO ESPECÍFICA. VIOLAÇÃO DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. PRECEDENTE DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. Afasta-se a condenação do réu ao pagamento de indenização, quando ausente de fundamentação idônea, por violação artigo 93,inciso IX, da Constituição Federal e artigo 564, inciso V, do Código de Processo Penal, bem como pela ausência de instrução específica para apurar o valor devido. Precedente do Superior Tribunal de Justiça (REsp. no 1483846/DF). Consta dos autos que os recorrentes foram condenados à pena de 02 (dois) anos e 10 (dez) meses de reclusão, no regime inicial aberto, e ao pagamento de R$ 2.600,00 (dois mil e seiscentos reais) à vitima, a título de indenização, pela prática do crime tipificado no artigo 180, caput, do Código Penal. Nas razões do recurso especial, fundamentado no art. 105, III, alínea "a", da Constituição Federal, a parte alega violação dos artigos 91, inciso I do Código Penal e 387, inciso IV do Código de Processo Penal. Para tanto, sustenta que havia pedido expresso na denúncia, sobre a indenização em favor da vítima, razão pela qual a Defesa estaria ciente do pedido desde o nascedouro da ação penal, de modo que ao contrário da conclusão alcançada pela Corte de origem, foi possibilitado o exercício pleno do contraditório e da ampla defesa, durante toda a instrução criminal (fl. 570). Requer, ao final, o provimento do recurso para que seja reformado o acórdão combatido e, por conseguinte, seja mantida a condenação dos recorridos ao pagamento de danos à vítima, nos exatos termos da denúncia (fl. 572). Contrarrazões às fls. 596-602. O recurso especial foi admitido (fls. 608-612). O Ministério Público Federal manifestou-se pelo provimento do recurso especial (fls. 665-669). É o relatório. DECIDO. A insurgência não merece prosperar. Acerca da controvérsia, o Tribunal de origem assim se manifestou (fl. 548, grifamos): Não obstante, no caso vertente, embora haja pedido expresso de condenação do apelante ao pagamento de indenização pelos dos danos causados pela infração, denota-se que a sentença não apresentou qualquer fundamento idôneo. Frisa-se, por oportuno, para que haja fixação de reparação civil na sentença condenatória, necessário pedido expresso com a indicação de valor e prova suficiente a sustentá-lo, devendo, ainda, ser oportunizado ao réu o exercício do contraditório, em instrução específica, sob pena de violação ao princípio da ampla defesa. A matéria posta nos autos foi apreciada pela Terceira Seção do STJ no julgamento do REsp n. 1.986.672/SC, de relatoria do Ministro Ribeiro Dantas, que firmou o entendimento de que a possibilidade de presunção do dano moral in re ipsa, à luz das específicas circunstâncias do caso concreto, dispensa a obrigatoriedade de instrução específica sobre o dano. No entanto, não afasta a exigência de formulação do pedido na denúncia, com indicação do montante pretendido (grifamos). Confira-se, por oportuno, a ementa do precedente: PENAL. RECURSO ESPECIAL. CRIME DE ESTELIONATO. FIXAÇÃO DE VALOR INDENIZATÓRIO MÍNIMO. INCLUSÃO DO NOME DA VÍTIMA EM CADASTROS DE INADIMPLENTES. DANO MORAL IN RE IPSA. DESNECESSIDADE DE INSTRUÇÃO PROBATÓRIA ESPECÍFICA, NO CASO CONCRETO. EXIGÊNCIA, PORÉM, DE PEDIDO EXPRESSO E VALOR INDICADO NA DENÚNCIA. AUSÊNCIA DE INDICAÇÃO, NA PEÇA ACUSATÓRIA, DA QUANTIA PRETENDIDA PARA A COMPENSAÇÃO DA VÍTIMA. RECURSO ESPECIAL A QUE SE DÁ PROVIMENTO, PARA EXCLUIR A FIXAÇÃO DO VALOR INDENIZATÓRIO MÍNIMO. 1. A liquidação parcial do dano (material ou moral) na sentença condenatória, referida pelo art. 387, IV, do CPP, exige o atendimento a três requisitos cumulativos: (I) o pedido expresso na inicial; (II) a indicação do montante pretendido; e (III) a realização de instrução específica a fim de viabilizar ao réu o exercício da ampla defesa e do contraditório. Precedentes desta Quinta Turma. 2. A Quinta Turma, no julgamento do AgRg no REsp 2.029.732/MS em 22/8/ 2023, todavia, adotou interpretação idêntica à da Sexta Turma, no sentido de que é necessário incluir o pedido referente ao valor mínimo para reparação do dano moral na exordial acusatória, com a dispensa de instrução probatória específica. Esse julgamento não tratou da obrigatoriedade, na denúncia, de indicar o valor a ser determinado pelo juiz criminal. Porém, a conclusão foi a de que a indicação do valor pretendido é dispensável, seguindo a jurisprudência consolidada da Sexta Turma. 3. O dano moral decorrente do crime de estelionato que resultou na inclusão do nome da vítima em cadastro de inadimplentes é presumido. Inteligência da Súmula 385/STJ. 4. Com efeito, a possibilidade de presunção do dano moral in re ipsa, à luz das específicas circunstâncias do caso concreto, dispensa a obrigatoriedade de instrução específica sobre o dano. No entanto, não afasta a exigência de formulação do pedido na denúncia, com indicação do montante pretendido. 5. A falta de uma indicação clara do valor mínimo necessário para a reparação do dano almejado viola o princípio do contraditório e o próprio sistema acusatório, por na prática exigir que o juiz defina ele próprio um valor, sem indicação das partes. Destarte, uma medida simples e eficaz consiste na inclusão do pedido na petição inicial acusatória, juntamente com a exigência de especificar o valor pretendido desde o momento da apresentação da denúncia ou queixa-crime. Essa abordagem reflete a tendência de aprimoramento do contraditório, tornando imperativa a sua inclusão no âmbito da denúncia. 6. Assim, a fixação de valor indenizatório mínimo por danos morais, nos termos do art. 387, IV, do CPP, exige que haja pedido expresso da acusação ou da parte ofendida, com a indicação do valor pretendido, nos termos do art. 3º do CPP c/c o art. 292, V, do CPC/2015. 7. Na peça acusatória (apresentada já na vigência do CPC/2015), apesar de haver o pedido expresso do valor mínimo para reparar o dano, não se encontra indicado o valor atribuído à reparação da vítima. Diante disso, considerando a violação do princípio da congruência, dos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa e do sistema acusatório, deve-se excluir o valor mínimo de indenização por danos morais fixado. 8. O entendimento aqui firmado não se aplica aos casos de violência doméstica e familiar contra a mulher, que continuam regidos pela tese fixada no julgamento do tema repetitivo 983/STJ. 9. Recurso especial provido para excluir a fixação do valor indenizatório mínimo. (REsp n. 1.986.672/SC, relator Ministro Ribeiro Dantas, Terceira Seção, julgado em 8/11/2023, DJe de 21/11/2023). No mesmo sentido: AGRAVO REGIMENTAL EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. PROCESSUAL PENAL. FURTO QUALIFICADO. VIOLAÇÃO DO ART. 387, IV, DO CPP. REPARAÇÃO DE DANOS MORAIS. PEDIDO EXPRESSO DA ACUSAÇÃO NA DENÚNCIA. FALTA DE INDICAÇÃO DO VALOR E NÃO IDENTIFICADA INSTRUÇÃO PROBATÓRIA ESPECÍFICA. IMPOSSIBILIDADE DE EXERCÍCIO DA AMPLA DEFESA. EXCLUSÃO QUE SE IMPÕE. JURISPRUDÊNCIA DO STJ. Agravo regimental provido para conhecer do agravo em recurso especial e dar provimento ao recurso especial, para excluir o valor da indenização por danos morais arbitrada pelas instâncias ordinárias. Ficando mantidas as demais determinações do combatido aresto. (AgRg no AREsp n. 2.633.417/MS, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta Turma, julgado em 6/8/2024, DJe de 9/8/2024) PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO. ROUBO DUPLAMENTE MAJORADO PELO CONCURSO DE AGENTES E RESTRIÇÃO DE LIBERDADE DA VÍTIMA (ART. 157, §2º, INCISO II E V, DO CP). INDENIZAÇÃO A TÍTULO DE REPARAÇÃO MÍNIMA PELOS DANOS MORAIS CAUSADOS À VÍTIMA. INSTRUÇÃO ESPECÍFICA. PRESCINDIBILIDADE. NECESSIDADE DE PEDIDO INDENIZATÓRIO FORMULADO NA DENÚNCIA COM INDICAÇÃO DO MONTANTE INDENIZATÓRIO PRETENDIDO. AGRAVO REGIMENTAL NÃO PROVIDO. 1. A Quinta Turma deste Superior Tribunal possuía entendimento consolidado no sentido de que a fixação de indenização a título de reparação mínima pelos danos (ainda que morais) causados à vítima em decorrência do crime, prevista no art. 387, inciso IV, do CPP, além de pedido expresso na inicial acusatória, exigia a indicação do montante pretendido a esse título e a realização de instrução específica a respeito do tema, possibilitando ao réu o exercício da ampla defesa e do contraditório. Precedentes. 2. Recentemente, alinhando-se ao posicionamento da Sexta Turma, a Quinta Turma desta Corte Superior, na apreciação do AgRg no REsp n. 2.029.732/MS, sob a relatoria do Ministro Joel Ilan Paciornik, em julgamento realizado em 22/8/2023, DJe de 25/8/2023, passou a entender que a fixação de valor mínimo para indenização dos danos causados pelo delito prescindia de instrução probatória acerca do dano psíquico, do grau de sofrimento da vítima, bastando a existência de pedido expresso na denúncia. 3. Ocorre que a Terceira Seção deste Superior Tribunal, na apreciação do REsp n. 1.986.672/SC, sob a relatoria do Ministro Ribeiro Dantas, em julgamento realizado em 8/11/2023, alterou a compreensão anteriormente sedimentada, firmando o entendimento de que, em que pese a possibilidade de se dispensar a instrução específica acerca do dano - diante da presunção de dano moral in re ipsa, à luz das particularidades do caso concreto -, é imprescindível que constem na inicial acusatória (i) o pedido expresso de indenização para reparação mínima dos danos causados pelo fato delituoso e (ii) a indicação clara do valor pretendido a esse título, sob pena de violação ao princípio do contraditório e ao próprio sistema acusatório. 4. Na espécie, verifica-se a existência, na denúncia, de pedido expresso de fixação de indenização a título de reparação mínima pelos danos morais causados à vítima em decorrência dos delitos, com indicação do quantum indenizatório pretendido, o que viabiliza o acolhimento do pleito ministerial, não havendo violação aos princípios do contraditório, da ampla defesa, da congruência e do sistema acusatório. 5. Agravo regimental não provido. (AgRg no REsp n. 2.096.108/SC, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 6/2/2024, DJe de 14/2/2024). No presente caso, verifica-se que na denúncia (fls. 03-06) constou pedido de fixação de valor indenizatório mínimo, mas não houve indicação do valor. Com efeito, apesar da existência, na denúncia, de pedido expresso de fixação de indenização a título de reparação mínima pelos danos morais causados à vítima em decorrência dos delitos .. , não consta qualquer indicação do quantum indenizatório pretendido, o que inviabiliza o acolhimento do pleito ministerial, sob pena de violação aos princípios do contraditório, da ampla defesa, da congruência e do sistema acusatório. (AgRg no REsp n. 2.089.673/RJ, relator Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 30/11/2023, DJe de 5/12/2023, grifamos). Logo, o Tribunal de origem, ao excluir a condenação pelos danos morais, convergiu com entendimento consolidado nessa Corte Superior. Incide, portanto, a Súmula 568/STJ, que dispõe que o relator poderá, monocraticamente, dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema. Ante o exposto, nego provimento ao recurso especial. Publique-se e intimem-se. EMENTA