REsp 2214967 - DECISAO
O recurso foi provido porque o acórdão recorrido confrontou a orientação dominante desta Corte, que, em conformidade com entendimento do Supremo Tribunal Federal (Tema n. 1.199), afasta a aplicação automática da retroatividade da lei penal mais benéfica ao direito administrativo sancionador na ausência de previsão...
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- Parties
- Recorrente: AGENCIA NACIONAL DE TRANSPORTES TERRESTRES - ANTT
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 12 June 2025
- Procedural Posture
- Recurso Especial / Decisão De Provimento (recurso Especial)
- Outcome
- Recurso Especial parcialmente conhecido e provido; acórdão recorrido reformado; embargos à execução fiscal julgados improcedentes.
- Legal Topics
- Retroatividade Da Norma Mais Benéfica, Multa Administrativa, Execução Fiscal, Responsabilidade Administrativa Sancionadora, Jurisprudência Vinculante
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Parties
AGENCIA NACIONAL DE TRANSPORTES TERRESTRES - ANTT
Recorrente
Procedural Posture
Recurso Especial / Decisão De Provimento (recurso Especial)
Legal Issues
- 1 Aplicação do princípio da retroatividade da norma mais benéfica às multas administrativas
- 2 Incidência do art. 5º, XL, da CF/88 no direito administrativo sancionador
- 3 Conflito entre acórdão de origem e jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal
Ratio Decidendi
O recurso foi provido porque o acórdão recorrido confrontou a orientação dominante desta Corte, que, em conformidade com entendimento do Supremo Tribunal Federal (Tema n. 1.199), afasta a aplicação automática da retroatividade da lei penal mais benéfica ao direito administrativo sancionador na ausência de previsão expressa autorizativa; assim, manteve-se a aplicação da norma vigente à época do fato e reformou-se o acórdão para julgar improcedentes os embargos à execução fiscal.
Court Disposition
Recurso Especial parcialmente conhecido e provido; acórdão recorrido reformado; embargos à execução fiscal julgados improcedentes.
Orders
- Conheço parcialmente do Recurso Especial e dou-lhe provimento
- Reformo o acórdão recorrido
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1 paragraphs
DECISÃO Vistos. Trata-se de Recurso Especial interposto pela AGENCIA NACIONAL DE TRANSPORTES TERRESTRES - ANTT contra acórdão prolatado, por unanimidade, pela 3ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, assim ementado (fls. 182/202e): ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. APELAÇÃO. EMBARGOS À EXECUÇÃO FISCAL. ANTT. MULTA POR INFRAÇÃO. RESOLUÇÃO ANTT N. 5.847/2019. RETROATIVIDADE DA NORMA MAIS BENÉFICA. RECURSO DESPROVIDO. - Cinge-se a controvérsia recursal quanto à aplicação do princípio da retroatividade da norma mais benéfica, para o fim de reduzir o valor da multa imposta pela ANTT com base no artigo 36, inciso I, da Resolução ANTT n. 4.799/2015 de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para R$ 550,00 (quinhentos e cinquenta reais), conforme alteração promovida pela Resolução ANTT n. 5.847/2019. - A jurisprudência do C. Superior Tribunal de Justiça possui precedentes recentes no sentido de que o princípio da retroatividade da norma mais benéfica, insculpido no artigo 5º, inciso XL, da Constituição Federal, alcança também as normas que disciplinam o direito administrativo sancionador, tendo em vista que, se até mesmo no caso das sanções penais, que é mais grave das punições, a Constituição Federal determina a retroação da norma mais benéfica, com mais razão seria admitida a retroatividade das normas no caso das sanções administrativas, de natureza menos grave. - Assim, por aplicação do princípio da retroatividade da norma mais benéfica, é cabível a incidência da Resolução ANTT n. 5.847/2019, com a redução do valor da multa administrativa de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) para R$ 550,00 (quinhentos e cinquenta reais). - Apelação desprovida. Opostos embargos de declaração, foram rejeitados (fls. 229/237e). Com amparo no art. 105, III, a e c, da Constituição da República, além de divergência jurisprudencial, aponta-se ofensa aos dispositivos a seguir relacionados, alegando-se, em síntese, que: (I) Artigos 22, inciso IV, 44, inciso IV, e 26, inciso IV, da Lei n. 10.233/01; artigos 1º, 2º e 6º, §1º, da Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-lei n. 4.657/42); e artigo 2º da Lei n. 9.784/99 - "em relação ao valor da multa prevista no seu artigo 36, I, afastando por consequência a sanção prevista no inciso I do art. 36 da Resolução ANTT n. 4.799/15, sob o fundamento de que é possível a aplicação do princípio da norma penal mais benéfica, insculpido no artigo 5º, XL, da CF/88, acabou por contrariar os artigos 22, inciso IV, 44, inciso IV, e 26, inciso IV, todos da Lei n. 10.233/01, c/c as normas das resolução acima citadas; e artigos 1º, 2º e 6º, §1º, da Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-lei n. 4.657/42) e artigo 2º da Lei n. 9.784/99, que estabelecem como regra a aplicabilidade da lei vigente à época dos fatos, em observância aos princípios da irretroatividade da lei, do e respeito ao ato jurídico perfeito." (fls. 251e) (II) Art. 5º, XXXVI, da CF/88; Art. 1º e 2º, bem como Art. 6º do Decreto-Lei nº 4.657/42 - "Mostra-se equivocada a conclusão do acórdão, haja vista que de deve prevalecer o postulado do "tempus regit actum". Com efeito, o princípio do tempus regit actum é expressamente consagrado em nosso ordenamento, tendo-se, como REGRA, a IRRETROATIVIDADE DA LEI, em respeito ao direito adquirido, ao ato jurídico perfeito e à coisa julgada, conforme determina o art. 5º, XXXVI, da CF/88." (fls. 254e) (III) Art. 2º da Lei n. 9.784/99 - "Ainda, a adoção uniforme de interpretação jurídica deve observar também as normas legais, especialmente aquelas previstas pelo artigo 2º da Lei n. 9.784/99." (fls. 255e) Sem contrarrazões , o recurso foi admitido (fls. 266/270e). Feito breve relato, decido. Nos termos do art. 932, III e V, do Código de Processo Civil de 2015, combinados com os arts. 34, XVIII, a e c, e 255, I e III, do Regimento Interno desta Corte, o Relator está autorizado, mediante decisão monocrática, respectivamente, a não conhecer de recurso inadmissível, prejudicado ou que não tenha impugnado especificamente os fundamentos da decisão recorrida, bem como a dar provimento a recurso se o acórdão recorrido for contrário à tese fixada em julgamento de recurso repetitivo ou de repercussão geral (arts. 1.036 a 1.041), a entendimento firmado em incidente de assunção de competência (art. 947), à súmula do Supremo Tribunal Federal ou desta Corte ou, ainda, à jurisprudência dominante acerca do tema, consoante Enunciado da Súmula n. 568/STJ: O Relator, monocraticamente e no Superior Tribunal de Justiça, poderá dar ou negar provimento ao recurso quando houver entendimento dominante acerca do tema. A insurgência não pode ser conhecida no que tange à alegada violação ao art. 5º, XXXVI, da Constituição da República. Isso porque o recurso especial possui fundamentação vinculada, destinando-se a garantir a autoridade e a aplicação uniforme da lei federal, não constituindo, portanto, instrumento processual destinado a examinar possível ofensa a norma constitucional, ainda que para efeito de prequestionamento, sob pena de usurpação da competência reservada ao Supremo Tribunal Federal, insculpida no art. 102, III, da Constituição da República. Destaco, na mesma esteira, o precedente assim ementado: AGRAVO INTERNO NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA EM AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. DECISÃO DA PRESIDÊNCIA QUE ERIGIU O ÓBICE DA SÚMULA N. 315 DO STJ, PARA INDEFERIMENTO LIMINAR DOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA. QUESTÃO ACERCA DA APONTADA VIOLAÇÃO AO ART. 1.022 DO CPC QUE FOI EFETIVAMENTE ANALISADA PELO ACÓRDÃO EMBARGADO. ÓBICE AFASTADO. AUSÊNCIA, NO ENTANTO, DE DEMONSTRAÇÃO DE DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. AUSÊNCIA DE DISSIDÊNCIA DE TESES JURÍDICAS. CASUÍSMO. ANÁLISE DE NORMA CONSTITUCIONAL. VIA IMPRÓPRIA. AGRAVO INTERNO PARCIALMENTE PROVIDO, PARA AFASTAR A INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 315 DO STJ, MAS MANTIDO O INDEFERIMENTO LIMINAR DOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA POR FUNDAMENTAÇÃO DIVERSA. .. 4. A controvérsia foi resolvida com base em interpretação e aplicação de legislação infraconstitucional, sendo descabida, na via do recurso especial ou dos embargos de divergência, a análise de eventual ofensa a preceito constitucional, ainda que para fins de prequestionamento, sob pena de usurpação de competência do Supremo Tribunal Federal, estabelecida no art. 102, inciso III, da Constituição Federal. Precedentes. .. (AgInt nos EAREsp n. 1.902.364/SC, Relatora Ministra LAURITA VAZ, CORTE ESPECIAL, julgado em 22.08.2023, DJe de 30.08.2023 - destaque meu). Quanto às demais violações, verifico que o acórdão recorrido está em confronto com orientação desta Corte, segundo a qual não se aplica a retroatividade de lei mais benéfica às multas de natureza administrativa. Isso porque o Supremo Tribunal Federal ao julgar o Tema n. 1.199 firmou compreensão de que o princípio da retroatividade da lei penal, consagrado no inciso XL do artigo 5º da Constituição Federal ("a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu") não tem aplicação automática para a responsabilidade por atos ilícitos civis de improbidade administrativa, por ausência de expressa previsão legal e sob pena de desrespeito à constitucionalização das regras rígidas de regência da Administração Pública e responsabilização dos agentes públicos corruptos com flagrante desrespeito e enfraquecimento do Direito Administrativo Sancionador. Com efeito, de acordo com o decidido pelo Plenário do STF, o princípio da retroatividade da lei penal mais benéfica, insculpido no art. 5º, XL, da Constituição, não incide automaticamente ao Direito Administrativo Sancionador, mormente em contexto no qual ausente determinação de aplicação retroativa da disposição mais favorável ao infrator. Assim, esta Corte, em decisão recente, reviu seu posicionamento para se adequar-se às premissas definidas pelo Supremo Tribunal Federal, conforme ementa que ora transcrevo: PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA. LEI POSTERIOR MAIS BENÉFICA. RETROATIVIDADE. PREVISÃO EXPRESSA. NECESSIDADE. 1. A jurisprudência da Primeira Turma vem entendendo pela de possibilidade de retroação de lei mais benéfica nos casos que envolve penalidades administrativas, por compreender que o art. 5º, LV da Constituição da República traria princípio geral de Direito Sancionatório. 2. Acontece que no julgamento do Tema 1.199, o STF apontou a necessidade de interpretação conjunta dos incisos XL e XXXVI, do art. 5º da Constituição da República, devendo existir disposição expressa na legislação para se afastar o princípio do tempus regit actum, porque a norma constitucional que estabelece a retroatividade da lei penal mais benéfica está diretamente vinculada ao princípio do favor libertatis, peculiaridade inexistente no Direito Administrativo Sancionador, a exigir nova reflexão deste Tribunal sobre a matéria. 3. Não se mostra coerente (com o entendimento do STF) que se aplique o postulado da retroatividade de lei mais benéfica aos casos em que se discute a mera redução do valor de multa administrativa (portanto, muito mais brandos) e, por outro lado, deixe-se de aplicar o referido princípio às demandas de improbidade administrativa, cuja sanção é seguramente muito mais grave, com consequência que chegam a se equiparar às do Direito Penal. 4. Considerando os critérios delineados pelo STF, a rigor, a penalidade administrativa deve se basear pelo princípio do tempus regit actum, salvo se houver previsão autorizativa de aplicação do normativo mais benéfico posterior às condutas pretéritas. 5. No caso, é incontroverso que: a) após a prática da infração, houve a modificação do ato normativo que fixava a penalidade administrativa, pois, embora tenha sido preservada a sanção em si, o valor da multa foi reduzido; b) a aplicação retroativa da nova norma mais benéfica não se operou em razão da aplicação da própria norma, mas sim em decorrência de determinação judicial (acórdão recorrido), pelo que esta última decisão deve ser reformada. 6. Recurso especial provido. (REsp n. 2.103.140/ES, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, julgado em 4/6/2024, DJe de 18/6/2024.) PROCESSUAL CIVIL. ADMINISTRATIVO. AUTO DE INFRAÇÃO. ANTT. ACÓRDÃO EM CONFRONTO COM A JURISPRUDÊNCIA DESTA CORTE. DESPROVIMENTO DO AGRAVO INTERNO. MANUTENÇÃO DA DECISÃO RECORRIDA. I - Na origem, trata-se de ação objetivando a anulação de auto de infração lavrado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres - ANTT. Na sentença o pedido foi julgado improcedente. No Tribunal a quo, a sentença foi reformada em parte para reconhecer a retroatividade da norma mais benéfica, determinando a redução do valor da penalidade pecuniária nos termos da Resolução ANTT n. 5.847/2019. II - A Corte Especial deste Tribunal já se manifestou no sentido de que o juízo de admissibilidade do especial pode ser realizado de forma implícita, sem necessidade de exposição de motivos. Assim, o exame de mérito recursal já traduz o entendimento de que foram atendidos os requisitos extrínsecos e intrínsecos de sua admissibilidade, inexistindo necessidade de pronunciamento explícito pelo julgador a esse respeito. (ER Esp 1.119.820/PI, relator Ministro Mauro Campbell Marques, Corte Especial, D Je 19/12/2014). No mesmo sentido: AgInt no R Esp 1.865.084/MG, relator Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, julgado em 10/8/2020, D Je 26/8/2020; AgRg no R Esp 1.429.300/SC, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, D Je 25/6/2015; AgRg no Ag 1.421.517/AL, relatora Ministra Assusete Magalhães, Segunda Turma, D Je 3/4/2014.) III - A ANTT alegou, em apelo especial, a violação dos arts. 22, IV, 44, IV, e 26, IV, da Lei n. 10.233/2001; 36, I, da Resolução ANTT n. 5.847/2019; 36, I, da Resolução ANTT n. 4.799/2015; 1º, 2º e 6º, § 1º, da Lei de Introdução ao Código Civil (Decreto-Lei n. 4.657/1942); e 2º, parágrafo único, VI e XIII, da Lei n. 9.784/1999, no que concerne à impossibilidade de aplicação retroativa de norma mais benéfica para redução de multa decorrente de infração administrativa em razão dos princípios do tempus regit actum, da irretroatividade e do respeito ao ato jurídico perfeito. IV - A Suprema Corte, apreciando o Tema n. 734, fixou tese de acordo com a qual: "É infraconstitucional, a ela se aplicando os efeitos da ausência de repercussão geral, a controvérsia relativa à aplicação retroativa de lei mais benéfica referente à sanção de natureza administrativa decorrente do cometimento de infração de trânsito." V - Evidencia-se que a compreensão do Tribunal de origem, quanto à retroatividade da norma mais benéfica, para redução de multa de natureza administrativa, destoa do entendimento desta Corte Superior, conforme seguintes precedentes: R Esp n. 2.103.140/ES, relator Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, D Je 18/6/2024;AgInt no AR Esp n. 1.547.574/SP, Primeira Turma, relator Ministro Gurgel de Faria, D Je 9.12.2021; AgInt no R Esp n. 1.954.631/SP, Primeira Turma, relatora Ministra Regina Helena Costa, D Je de 8.10.2021. Em idêntico sentido, confira-se: AR Esp n. 2.182.875, relator Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira Turma, D Je de 27/2/2024. VI - Com efeito, considerando o cenário consignado no acórdão recorrido, constata-se que o entendimento firmado pelo Tribunal de origem discrepa da jurisprudência desta Corte Superior, merecendo reforma no ponto. O julgado destoa da orientação do STJ, o qual entende ser inaplicável a disciplina jurídica do Código Tributário Nacional, referente à retroatividade de lei mais benéfica (art. 106 do CTN), às multas de natureza administrativa. Como se observa, o acórdão de origem merece reforma, uma vez que devem ser mantidos os valores das penalidades pecuniárias arbitradas pela Administração segundo a legislação vigente à época do cometimento das infrações. VII - Correta, portanto, a decisão que deu provimento ao recurso especial. VIII - Agravo interno improvido. (AgInt no AgInt no AR Esp n. 2.550.888/RJ, relator Ministro Francisco Falcão, Segunda Turma, julgado em 12/2/2025, DJEN de 17/2/2025.) Posto isso, com fundamento nos arts. 932, III e V, do Código de Processo Civil de 2015 e 34, XVIII, a e c, e 255, I e III, do RISTJ, CONHEÇO PARCIALMENTE do Recurso Especial e DOU-LHE PROVIMENTO, para, reformando o acórdão recorrido, julgar improcedentes os embargos à execução fiscal. Publique-se e intimem-se. EMENTA