AREsp 2904582 - DECISAO
Conheceu-se do agravo e deu-se parcial provimento ao recurso especial para cassar o acórdão recorrido e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento, porquanto a abusividade das taxas de juros remuneratórios não pode ser declarada com base em mero cotejo com a média de mercado; exige-se...
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- Parties
- Agravante: CREFISA SA CREDITO FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 06 May 2025
- Procedural Posture
- Agravo (art. 1.042 Do Cpc/15) / Juízo Prévio De Admissibilidade / Decisão De Agravo No Superior Tribunal De Justiça
- Outcome
- Agravo conhecido e provido parcialmente; acórdão recorrido cassado; retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento à luz dos parâmetros delineados pelo STJ.
- Legal Topics
- Revisão De Contrato Bancário, Juros Remuneratórios, Restituição Em Dobro, Recursos Especiais Repetitivos, Admissibilidade De Recurso Especial
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Parties
CREFISA SA CREDITO FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS
Agravante
Procedural Posture
Agravo (art. 1.042 Do Cpc/15) / Juízo Prévio De Admissibilidade / Decisão De Agravo No Superior Tribunal De Justiça
Legal Issues
- 1 Se as taxas de juros aplicadas nos contratos são abusivas por se situarem acima da média de mercado
- 2 Se a restituição em dobro prevista no CDC, art. 42, parágrafo único, aplica-se independentemente de má-fé
- 3 Se o simples cotejo com a média de mercado é suficiente para caracterizar abusividade das taxas de juros remuneratórios
Ratio Decidendi
Conheceu-se do agravo e deu-se parcial provimento ao recurso especial para cassar o acórdão recorrido e determinar o retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento, porquanto a abusividade das taxas de juros remuneratórios não pode ser declarada com base em mero cotejo com a média de mercado; exige-se demonstração cabal das peculiaridades do caso concreto (custo de captação, época e local da contratação, valor e prazo do financiamento, fontes de renda, garantias, relacionamento prévio, perfil de risco, forma de pagamento, entre outros) para autorizar a revisão contratual.
Court Disposition
Agravo conhecido e provido parcialmente; acórdão recorrido cassado; retorno dos autos ao Tribunal de origem para novo julgamento à luz dos parâmetros delineados pelo STJ.
Orders
- Conhecer do agravo e dar parcial provimento ao recurso especial.
- Cassação do acórdão recorrido e determinação de novo julgamento pelo Tribunal de origem à luz dos parâmetros delineados pelo STJ (demonstrar cabalmente as peculiaridades do caso para aferição de abusividade).
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DECISÃO Cuida-se de agravo (art. 1.042 do CPC/15) interposto por CREFISA SA CREDITO FINANCIAMENTO E INVESTIMENTOS em face da decisão acostada às fls. 632-635 e-STJ, que, em juízo prévio de admissibilidade, inadmitiu o recurso especial manejado pelo ora agravante. O apelo extremo, fundado nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, fora deduzido em desafio ao acórdão de fls. 555-574 e-STJ, proferido pelo TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS, assim ementado: DIREITO CIVIL. APELAÇÃO CÍVEL. REVISÃO DE CONTRATO BANCÁRIO. TAXAS DE JUROS ABUSIVAS. RESTITUIÇÃO EM DOBRO. RECURSO PROVIDO. I. CASO EM EXAME Apelação cível interposta contra sentença que julgou improcedentes os pedidos iniciais de revisão de contratos bancários de empréstimo, fundamentada em alegação de abusividade nas taxas de juros praticadas pelo banco requerido. II. QUESTÃO EM DISCUSSÃO 2. A questão em discussão consiste em (i) saber se as taxas de juros aplicadas nos contratos superam os parâmetros médios do mercado e são consideradas abusivas; e (ii) se a devolução dos valores pagos indevidamente deve ocorrer em dobro, conforme o Código de Defesa do Consumidor. III. RAZÕES DE DECIDIR 3. A diferença expressiva entre as taxas de juros aplicadas nos contratos e a média de mercado evidencia a abusividade e caracteriza onerosidade excessiva para a parte contratante. 4. A jurisprudência consolidada do Superior Tribunal de Justiça permite a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, quando comprovada a abusividade. 5. A restituição em dobro dos valores pagos indevidamente está amparada no Código de Defesa do Consumidor, art. 42, parágrafo único, sendo dispensada a comprovação de má-fé na cobrança. IV. DISPOSITIVO E TESE 6. Recurso provido para determinar a revisão das taxas de juros dos contratos nº 060390025731 e nº 060390026135, ajustando-as às taxas médias de mercado, e a devolução em dobro dos valores cobrados a maior. Tese de julgamento: "1. A diferença acentuada entre as taxas contratadas e as médias de mercado configura abusividade passível de revisão judicial." "2. A restituição em dobro de valores pagos indevidamente prescinde de comprovação de má-fé, conforme entendimento consolidado do STJ." Dispositivos relevantes citados: CF/1988, art. 5º, XXXII; CDC, art. 42, parágrafo único. Jurisprudência relevante citada: STJ, REsp 1.061.530/RS; STJ, REsp 2015514/PR. Opostos embargos declaratórios (fls. 575-579 e-STJ), restaram desacolhidos na origem (fls. 584-594 e-STJ). Nas razões de recurso especial (fls. 598-614 e-STJ), alegou a insurgente que o acórdão recorrido violou os seguintes dispositivos de lei federal: (i) artigos 421 e 927 do CPC/15, bem como dissídio jurisprudencial, arguindo a impossibilidade de se considerar abusiva a taxa pactuada por mero cotejo com a média de mercado; (ii) artigo 42 do CDC, sustentando que a imposição de devolução em dobro ensejará enriquecimento indevido da autora, sendo cabível somente em caso de má-fé. Contrarrazões às fls. 624-629 e-STJ. Em juízo prévio de admissibilidade (fls. 632-635 e-STJ), a Corte de origem inadmitiu o apelo nobre, ensejando a interposição do presente agravo (art. 1.042 do CPC/15), às fls. 638-655 e-STJ, por meio do qual pretende ver admitido o recurso especial. Contraminuta às fls. 659-662 e-STJ. É o relatório. Decide-se. A pretensão recursal deve prosperar parcialmente. 1. O Superior Tribunal de Justiça, em recurso especial representativo de controvérsia, fixou o entendimento de que as instituições financeiras não estão submetidas à Lei de Usura. No entanto, não obstante os juros remuneratórios dos contratos bancários não estejam limitados a 12% ao ano, é possível que as instâncias ordinárias identifiquem abusividade nesse encargo contratual, à luz do caso concreto. Nesse sentido: DIREITO PROCESSUAL CIVIL E BANCÁRIO. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL DE CLÁUSULAS DE CONTRATO BANCÁRIO. INCIDENTE DE PROCESSO REPETITIVO. JUROS REMUNERATÓRIOS. CONFIGURAÇÃO DA MORA. JUROS MORATÓRIOS. INSCRIÇÃO/MANUTENÇÃO EM CADASTRO DE INADIMPLENTES. DISPOSIÇÕES DE OFÍCIO. DELIMITAÇÃO DO JULGAMENTO. Constatada a multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica questão de direito, foi instaurado o incidente de processo repetitivo referente aos contratos bancários subordinados ao Código de Defesa do Consumidor, nos termos da ADI n.º 2.591-1. Exceto: cédulas de crédito rural, industrial, bancária e comercial; contratos celebrados por cooperativas de crédito; contratos regidos pelo Sistema Financeiro de Habitação, bem como os de crédito consignado. Para os efeitos do § 7º do art. 543-C do CPC, a questão de direito idêntica, além de estar selecionada na decisão que instaurou o incidente de processo repetitivo, deve ter sido expressamente debatida no acórdão recorrido e nas razões do recurso especial, preenchendo todos os requisitos de admissibilidade. Neste julgamento, os requisitos específicos do incidente foram verificados quanto às seguintes questões: i) juros remuneratórios; ii) configuração da mora; iii) juros moratórios; iv) inscrição/manutenção em cadastro de inadimplentes e v) disposições de ofício. .. I - JULGAMENTO DAS QUESTÕES IDÊNTICAS QUE CARACTERIZAM A MULTIPLICIDADE. ORIENTAÇÃO 1 - JUROS REMUNERATÓRIOS a) As instituições financeiras não se sujeitam à limitação dos juros remuneratórios estipulada na Lei de Usura (Decreto 22.626/33), Súmula 596/STF; b) A estipulação de juros remuneratórios superiores a 12% ao ano, por si só, não indica abusividade; c) São inaplicáveis aos juros remuneratórios dos contratos de mútuo bancário as disposições do art. 591 c/c o art. 406 do CC/02; d) É admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada/art. 51, §1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante às peculiaridades do julgamento em concreto. .. (REsp n. 1.061.530/RS, relatora Ministra Nancy Andrighi, Segunda Seção, julgado em 22/10/2008, DJe de 10/3/2009.) Na espécie, o Tribunal de origem verificou ser abusiva a taxa de juros remuneratórios fixada nos contratos apontados nos autos, referindo-se, para tanto, apenas ao seu patamar elevado, em cotejo à media de mercado. Tal conclusão destoa do entendimento jurisprudencial desta Corte Superior firmada na Segunda Seção desta Corte, nos autos do REsp. 1.061.530/RS no sentido de que "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do julgamento em concreto". Dessa forma, a abusividade da taxa de juros contratada "haverá de ser demonstrado de acordo com as peculiaridades de cada caso concreto, levando-se em consideração circunstâncias como o custo da captação dos recursos no local e época do contrato; o valor e o prazo do financiamento; as fontes de renda do cliente; as garantias ofertadas; a existência de prévio relacionamento do cliente com a instituição financeira; análise do perfil de risco de crédito do tomador; a forma de pagamento da operação, entre outros aspectos" (REsp n. 1.821.182/RS, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 23/6/2022, DJe de 29/6/2022). Ainda nesse sentido: RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE MÚTUO BANCÁRIO. JUROS REMUNERATÓRIOS. REVISÃO. CARÁTER ABUSIVO. REQUISITOS. NECESSIDADE DE FUNDAMENTAÇÃO ADEQUADA. 1- Recurso especial interposto em 19/4/2022 e concluso ao gabinete em 4/7/2022. 2- O propósito recursal consiste em dizer se: a) a menção genérica às "circunstâncias da causa" não descritas na decisão, acompanhada ou não do simples cotejo entre a taxa de juros prevista no contrato e a média praticada no mercado, é suficiente para a revisão das taxas de juros remuneratórios pactuadas em contratos de mútuo bancário; e b) qual o incide a ser aplicado, na espécie, aos juros de mora. 3- A Segunda Seção, no julgamento REsp n. 1.061.530/RS, submetido ao rito dos recursos especiais repetitivos, fixou o entendimento de que "é admitida a revisão das taxas de juros remuneratórios em situações excepcionais, desde que caracterizada a relação de consumo e que a abusividade (capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada - art. 51, § 1º, do CDC) fique cabalmente demonstrada, ante as peculiaridades do julgamento em concreto." 4- Deve-se observar os seguintes requisitos para a revisão das taxas de juros remuneratórios: a) a caracterização de relação de consumo; b) a presença de abusividade capaz de colocar o consumidor em desvantagem exagerada; e c) a demonstração cabal, com menção expressa às peculiaridades da hipótese concreta, da abusividade verificada, levando-se em consideração, entre outros fatores, a situação da economia na época da contratação, o custo da captação dos recursos, o risco envolvido na operação, o relacionamento mantido com o banco e as garantias ofertadas. 5- São insuficientes para fundamentar o caráter abusivo dos juros remuneratórios: a) a menção genérica às "circunstâncias da causa" - ou outra expressão equivalente; b) o simples cotejo entre a taxa de juros prevista no contrato e a média de mercado divulgada pelo BACEN e c) a aplicação de algum limite adotado, aprioristicamente, pelo próprio Tribunal estadual. 6- Na espécie, não se extrai do acórdão impugnado qualquer consideração acerca das peculiaridades da hipótese concreta, limitando-se a cotejar as taxas de juros pactuadas com as correspondentes taxas médias de mercado divulgadas pelo BACEN e a aplicar parâmetro abstrato para aferição do caráter abusivo dos juros, impondo-se, desse modo, o retorno dos autos às instâncias ordinárias para que aplique o direito à espécie a partir dos parâmetros delineados pela jurisprudência desta Corte Superior. 7- Recurso especial parcialmente provido. (REsp n. 2.009.614/SC, relatora Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado em 27/9/2022, DJe de 30/9/2022.) Não há, porém, como aplicar o direito à espécie nessa instância recursal, pois não houve o apontamento das especificidades presentes na hipótese concreta, motivo pelo qual imprescindível o retorno dos autos ao Tribunal a quo para novo julgamento, à luz dos parâmetros acima delineados. Prejudicado, no mais, o apelo. 3. Do exposto, com amparo no artigo 932 do CPC/15 c/c a Súmula 568/STJ, conhece-se do agravo para dar parcial provimento ao recurso especial, a fim de cassar o acórdão recorrido e determinar novo julgamento do apelo, à luz dos parâmetros acima delineados. Acolhida a insurgência, não há falar em majoração de honorários (AgInt nos EAREsp 762.075/MT, Corte Especial, DJe 07/03/2019). Ademais, determinado novo julgamento na origem, descabe qualquer análise, nesta fase, acerca da distribuição dos ônus sucumbenciais. Publique-se. Intimem-se. EMENTA