AREsp 2862259 - DECISAO
Conhecido o agravo, negou-se provimento ao recurso especial porque, embora a jurisprudência do STJ admita excepcionalmente a revisão da taxa de juros remuneratórios quando houver relação de consumo e prova cabal da abusividade, o reexame do acervo fático e de cláusulas contratuais é vedado na via do recurso especial...
Source-derived case information.
- Parties
- Agravante/recorrente: PORTOCRED S.A. - CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO - EM LIQUIDACAO EXTRAJUDICIAL
- Court
- Superior Tribunal de Justiça
- Jurisdiction
- Brazil
- Judgment Date
- 01 April 2025
- Procedural Posture
- Agravo (artigo 1.042 Do Cpc/15) / Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial
- Outcome
- Conhecido o agravo; negado provimento ao recurso especial.
- Legal Topics
- Revisão De Contrato Bancário, Taxa De Juros, Abusividade Contratual, Recurso Especial, Súmulas 5 E 7/stj, Súmula 83/stj, Gratuidade De Justiça, Honorários Advocatícios
Source-derived case record
Summary, issues, holding and outcome
More case intelligence is available
Unlock the full research layer for this judgment.
Parties
PORTOCRED S.A. - CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO - EM LIQUIDACAO EXTRAJUDICIAL
Agravante/recorrente
Procedural Posture
Agravo (artigo 1.042 Do Cpc/15) / Agravo Contra Decisão Que Não Admitiu Recurso Especial
Legal Issues
- 1 Admissibilidade do recurso especial
- 2 Caracterização da abusividade da taxa de juros remuneratórios
- 3 Aplicação das Súmulas 5 e 7 do STJ que vedam o reexame de fatos e provas
Ratio Decidendi
Conhecido o agravo, negou-se provimento ao recurso especial porque, embora a jurisprudência do STJ admita excepcionalmente a revisão da taxa de juros remuneratórios quando houver relação de consumo e prova cabal da abusividade, o reexame do acervo fático e de cláusulas contratuais é vedado na via do recurso especial (incidência das Súmulas 5 e 7/STJ). No caso, o Tribunal de origem reconheceu a abusividade com base na diferença entre a taxa contratada e a média de mercado, no contexto da SELIC baixa e na modalidade de pagamento (desconto em folha), fundamentação que não autoriza reexame pelo STJ.
Court Disposition
Conhecido o agravo; negado provimento ao recurso especial.
Orders
- Concedida a gratuidade de justiça à parte agravante.
- Conheço do agravo e nego provimento ao recurso especial.
Full Case Text
Judgment text and source record
1 paragraphs
DECISÃO Cuida-se de agravo (artigo 1.042 do CPC/15), interposto por PORTOCRED S.A. - CREDITO, FINANCIAMENTO E INVESTIMENTO - EM LIQUIDACAO EXTRAJUDICIAL contra decisão que não admitiu recurso especial. O apelo extremo, manejado com amparo nas alíneas "a" e "c" do permissivo constitucional, desafia acórdão proferido pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, assim ementado (fl. 611, e-STJ): APELAÇÃO CÍVEL. NEGÓCIOS JURÍDICOS BANCÁRIOS. AÇÃO REVISIONAL. REANÁLISE DA CONTRATAÇÃO À LUZ DO ENTENDIMENTO DO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. ABUSIVIDADE DA TAXA DE JUROS REMUNERATÓRIOS FIXADA EM CONTRATO QUE RESTOU EVIDENCIADA COM SOBRAS. NOVA ANÁLISE DA CONTRATAÇÃO FIRMADA ENTRE AS PARTES, RELEVANDO-SE O CENÁRIO ECONÔMICO QUE ENVOLVIA A CONTRATAÇÃO, À LUZ DO QUE DETERMINOU O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, SEM, CONTUDO, ALTERAR O DESLINDE DO FEITO. CONTRATAÇÃO QUE POSSUÍA FIXAÇÃO DE JUROS REMUNERATÓRIOS EM PATAMAR QUE NÃO ERA RAZOÁVEL E REPRESENTAVA ABUSIVIDADE E ONEROSIDADE EXCESSIVA AO CONSUMIDOR. EM JUÍZO DE RETRATAÇÃO, MANTIVERAM A DECISÃO QUE DESPROVEU AO APELO DÁ RÉ E DEU PROVIMENTO AO APELO DO AUTOR. UNÂNIME. Embargos declaratórios rejeitados, nos termos do aresto de fls. 649/652 (e-STJ). Nas razões de recurso especial (fls. 657/681, e-STJ), a instituição financeira recorrente aponta, além de dissídio jurisprudencial, ofensa aos arts. 51, IV e § 1º, III, do CDC, 1.022, II, do CPC. Sustenta, em síntese, que a mera comparação dos juros remuneratórios contratados com a taxa média da época não é suficiente para ensejar a redução, eis que não demonstra no caso concreto a abusividade. Sem Contrarrazões (certidão de fl. 932, e-STJ). Em juízo prévio de admissibilidade (fls. 941/943, e-STJ), negou-se seguimento ao apelo nobre, o que ensejou a interposição de recurso de agravo, visando destrancar o processamento daquela insurgência (fls. 949/969, e-STJ) Sem contraminuta (certidão de fl. 1.018, e-STJ). É o relatório. Decido. O inconformismo não merece prosperar. 1. De início, inferido o benefício da gratuidade de justiça, porquanto a parte não demonstrou qualquer alteração fática após a análise de pedido idêntico na decisão do juízo de admissibilidade, oportunidade na qual consignou-se ato incompatível com o pedido, pois houve recolhimento do preparo recursal. 2. Ademais, conforme jurisprudência do STJ, o art. 18 da Lei n. 6.024/1974 não alcança as ações de conhecimento voltadas à obtenção de provimento relativo à certeza e liquidez do crédito" (AgInt no AREsp 2.290.556/RS, Relator Ministro ANTONIO CARLOS FERREIRA, Quarta Turma, julgado em 15/5/2023, DJe de 18/5/2023), não havendo falar, portanto, em suspensão. 3. Afasta-se, ademais, a alegação de negativa de prestação jurisdicional. Não se verifica ofensa ao artigo 1022 do CPC/15 quando o Tribunal decide, de modo claro e fundamentado, as questões essenciais ao deslinde do feito. Ademais, não se deve confundir decisão contrária aos interesses da parte com negativa de prestação jurisdicional. Nesse sentido, citam-se os seguintes precedentes deste Superior Tribunal de Justiça: AgInt no AREsp 1024735/RS, Rel. Ministro RICARDO VILLAS BÔAS CUEVA, TERCEIRA TURMA, julgado em 07/08/2018, DJe 13/08/2018; AgInt no AREsp 1254843/RS, Rel. Ministro MARCO AURÉLIO BELLIZZE, TERCEIRA TURMA, julgado em 22/05/2018, DJe 01/06/2018; AgInt no AREsp 1224697/MG, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em 15/05/2018, DJe 21/05/2018; AgInt no AREsp 1015125/AC, Rel. Ministro LÁZARO GUIMARÃES (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TRF 5ª REGIÃO), QUARTA TURMA, julgado em 17/04/2018, DJe 24/04/2018; AgInt nos EDcl no REsp 1647017/RS, Rel. Ministro MARCO BUZZI, QUARTA TURMA, julgado em 20/03/2018, DJe 02/04/2018. 4. Conforme entendimento desta Corte, o fato de a taxa contratada de juros remuneratórios estar acima da taxa média de mercado, por si só, não configura abusividade, devendo ser observados, para a limitação dos referidos juros, fatores como o custo de captação dos recursos, o spread da operação, a análise de risco de crédito do contratante, ponderando-se a caracterização da relação de consumo e eventual desvantagem exagerada do consumidor. A propósito: AGRAVO INTERNO NO AGRAVO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO MONITÓRIA. JUROS REMUNERATÓRIOS. LIMITAÇÃO. ABUSIVIDADE DA TAXA CONTRATADA. NECESSIDADE DE DEMONSTRAÇÃO. SÚMULAS N. 5 E 7 DO STJ. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Admite-se a revisão da taxa de juros remuneratórios excepcionalmente, quando caracterizada a relação de consumo e a abusividade ficar devidamente demonstrada diante das peculiaridades do caso concreto. 2. O fato de a taxa contratada de juros remuneratórios estar acima da taxa média de mercado, por si só, não configura abusividade, devendo ser observados, para a limitação dos referidos juros, fatores como o custo de captação dos recursos, o spread da operação, a análise de risco de crédito do contratante, ponderando-se a caracterização da relação de consumo e eventual desvantagem exagerada do consumidor. 3. É inviável a limitação da taxa de juros remuneratórios pactuada no contrato na hipótese em que a corte de origem não tenha considerado cabalmente demonstrada sua abusividade com base nas peculiaridades do caso concreto. Incidência das Súmulas n. 5 e 7 do STJ. 4. Agravo interno desprovido. (AgInt no AREsp n. 2.093.714/MS, relator Ministro João Otávio de Noronha, Quarta Turma, julgado em 20/3/2023, DJe de 24/3/2023.) 4.1. Na hipótese, a Corte local, ao reconhecer a abusividade dos juros remuneratórios, consignou (fl. 610, e-STJ): Conforme se verifica dos autos, a taxa média de mercado em julho de 2020 (quando firmado o contrato) era de 1,33% ao mês, enquanto que a taxa fixada no contrato foi de 4,04% ao mês. A título didático para demonstração da diferença entre os números, cumpre colocar tal discrepância em percentual: Se temos uma taxa hipotética em um contrato no patamar de 1,33% e a elevamos para 4,04%, estamos diante de uma elevação de aproximadamente 203%. E, reportando-me ao contexto econômico e notadamente ao custo de captação, importa referir a suprema peculiaridade do caso concreto em que o contrato foi fixado em julho de 2020, mês em que a taxa básica de juros da economia brasileira (Taxa SELIC) se encontrava em 2,25% ao ano (e não ao mês), patamar este que é o segundo menor já registrado em toda a história! Acrescento, ainda, que o contrato previa o pagamento por meio de desconto em folha de pagamento, modalidade esta que sabidamente possui menor risco de inadimplemento. Resumindo: no momento em que o "custo do dinheiro na economia" representado pela Taxa SELIC se encontrava no segundo patamar mais baixo de todos os tempos, a instituição demandada fixou em contrato em que o meio de pagamento previsto era daqueles que menos risco há embutido (desconto em folha de pagamento) uma taxa de juros em percentual que representava mais do que o triplo da taxa média praticada à época. Se está, portanto, de comprovação cabal da abusividade e do excesso de onerosidade ao consumidor, não havendo-se falar em hipótese na qual não houve observância dos itens mencionados pelo STJ em seu louvável julgamento. Dessa maneira, mesmo relevados todos os itens disponíveis acerca do cenário econômico que influenciavam na contratação impugnada, tenho que foi adequado o comando jurisdicional originário desta Corte no sentido de limitar a taxa de juros remuneratórios à média de mercado então vigente. Assim, resta mantida a decisão, ainda que com o acréscimo da fundamentação supra, uma vez que em linha com o entendimento exposto pelo Superior Tribunal de Justiça. Assim, além de o aresto recorrido estar em harmonia com a orientação jurisprudencial adotada por esta Colenda Corte sobre a matéria, o que atrai a incidência da Súmula 83/STJ, para superar as premissas sobre as quais se apoiou o Tribunal a quo, a fim de aferir a ausência de abusividade da taxa de juros remuneratórios fixada no contrato objeto da presente demanda, seria necessário rever o arcabouço fático probatório dos autos e a análise de cláusulas contratuais, providências vedadas na via eleita, a teor do óbice das Súmulas 5 e 7/STJ. A propósito: AGRAVO INTERNO. RECURSO ESPECIAL. CONTRATO DE ABERTURA DE CRÉDITO EM CONTA-CORRENTE. CAPITALIZAÇÃO DE JUROS. ENTENDIMENTO FIRMADO EM RECURSO ESPECIAL REPETITIVO. REVISÃO DO JULGADO. JUROS REMUNERATÓRIOS. ILEGALIDADE OU ABUSIVIDADE. AUSÊNCIA. REEXAME. INCIDÊNCIA DAS SÚMULAS N. 5 E 7/STJ. NÃO PROVIMENTO. 1. A capitalização mensal de juros é legal em contratos bancários celebrados posteriormente à edição da MP 1.963-17/2000, de 31.3.2000, desde que expressamente pactuada. A previsão no contrato de taxa de juros anual superior ao duodécuplo da mensal é suficiente para permitir a cobrança da taxa efetiva anual contratada. 2. A jurisprudência desta Corte entende que o fato de as taxas de juros excederem o limite de 12% ao ano não configura abusividade, devendo, para seu reconhecimento, ser comprovada sua discrepância em relação à taxa média de mercado divulgada pelo BACEN. O entendimento foi consolidado com a edição da Súmula 382 do STJ. 3. Não comprovada a ilegalidade ou abusividade das taxas de juros contratadas, o reexame do tema encontra obstáculo nas Súmulas n. 5 e 7/STJ. 4. Agravo interno a que se nega provimento. (AgInt no REsp n. 2.021.348/PR, relatora Ministra Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, julgado em 4/9/2023, DJe de 8/9/2023.) grifou-se AGRAVO INTERNO NO AGRA VO EM RECURSO ESPECIAL. AÇÃO REVISIONAL DE CONTRATO BANCÁRIO. FATO SUPERVENIENTE. ALEGAÇÃO NO RECURSO ESPECIAL. EXAME. FALTA DE PREQUESTIONAMENTO. PEDIDO DE JUSTIÇA GRATUITA NO AGRAVO INTERNO. SEM PROVEITO PARA A PARTE, PORQUANTO, AINDA QUE DEFERIDO, NÃO PRODUZ EFEITOS RETROATIVOS. JUROS REMUNERATÓRIOS. ABUSIVIDADE CONSTATADA. REVISÃO. IMPOSSIBILIDADE. SÚMULAS 5 E 7/STJ. AGRAVO INTERNO DESPROVIDO. 1. Quanto ao pedido da agravante decorrente da decretação de sua liquidação extrajudicial, não merece acolhimento, em razão da obrigatoriedade do prequestionamento dos temas apontados no apelo especial. Sendo assim, o surgimento de fato superveniente capaz de alterar o tratamento dado à pretensão recursal não pode ser admitido, tendo em vista que a causa de pe dir dos recursos dirigidos às Cortes Superiores se encontra vinculada à fundamentação adotada no acórdão recorrido. 2. O pedido de gratuidade de justiça formulado nesta fase recursal não tem proveito para a parte, porque o recurso de agravo interno não necessita de recolhimento de custas. Benefício que, conquanto fosse deferido, não produziria efeitos retroativos. Precedentes. 3. A modificação do entendimento alcançado pelo acordão estadual (acerca da ausência de abusividade na cobrança dos juros remuneratórios contratados) demandaria a interpretação de cláusulas contratuais e o reexame de fatos e provas, o que é inviável no âmbito do recurso especial, permanecendo incólume a aplicação das Súmulas 5 e 7 do Superior Tribunal de Justiça. 4. De acordo com o entendimento do Superior Tribunal de Justiça, a incidência da Súmula n. 7/STJ impossibilita o conhecimento do recurso especial por ambas as alíneas do permissivo constitucional, porquanto não é possível encontrar similitude fática entre o acórdão recorrido e os arestos paradigmas, uma vez que as suas conclusões díspares ocorreram não em virtude de entendimentos diversos sobre uma mesma questão legal, mas sim de fundamentações baseadas em fatos, provas e circunstâncias específicas de cada processo. 5. Agravo interno desprovido. (AgInt no AREsp n. 2.311.281/RS, relator Ministro Marco Aurélio Bellizze, Terceira Turma, julgado em 28/8/2023, DJe de 30/8/2023.) grifou-se 5. Por fim, importante consignar que esta Corte de Justiça tem entendimento no sentido de que a incidência dos enunciados contidos nas Súmulas 07 e 83/STJ impede o exame exame do dissídio jurisprudencial na medida em que, além da falta identidade entre os paradigmas apresentados e os fundamentos que embasaram o acórdão recorrido, se a jurisprudência do STJ já se firmou no mesmo sentido do julgado hostilizado, não há conceber tenha ela contrariado o dispositivo de lei federal ou lhe negado vigência. 6. Do exposto, com fundamento no art. 932 do NCPC c/c a súmula 568/STJ, conheço do agravo para negar provimento ao recurso especial. Caso exista nos autos prévia fixação de honorários advocatícios pelas instâncias de origem, determino sua majoração em desfavor da parte agravante, no importe de 10% sobre o valor já arbitrado, nos termos do art. 85, § 11, do Código de Processo Civil, observados, se aplicáveis, os limites percentuais previstos nos §§ 2º e 3º do referido dispositivo legal, bem como eventual concessão da gratuidade da justiça. Publique-se. Intimem-se. EMENTA